quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Um Memorando a Respeito do Livro da Lei por Aleister Crowley

Quase todos os versos d’O Livro da Lei contém abundantes verdades matemáticas e filosóficas veladas em inglês aparentemente padrão, sendo que seu inglês tem, não obstante, o seu significado normal. Você terá notado que o estilo do Livro é na maior parte espantosamente sublime, e a maravilha inefável a respeito de tudo isso é por eu o ter escrito a partir do ditado de uma voz cujo dono eu não conseguia ver, exatamente uma hora para cada capítulo, em três dias consecutivos. É, portanto, muito certo que o autor seja alguém em posse de conhecimento e genialidade totalmente além da minha capacidade. Realmente, me sinto seguro em dizer que está além da capacidade de qualquer ser humano imaginável. A propósito, existem passagens no Livro que confundiram a análise crítica até que certos eventos, que estavam inteiramente fora do meu controle, se realizaram anos após tê-lo escrito, os quais ainda assim forneceram provas claras de que o Autor do Livro sabia o que iria acontecer ou era capaz de fazer com que os eventos se passassem.

Posso lhe dar um exemplo muito estranho?[1] Eu estudei o Livro todos estes dezoito anos. O Verso 19 do Capítulo III me intrigou totalmente. Como eu poderia “contar bem” o nome da Estela; ela nunca teve um nome! Mas eu brinquei com os números e de repente me ocorreu que 718 era o valor do nome “Estela 666”. “É isso”, eu disse para mim mesmo. “Num certo sentido a Estela é a minha Estela”. Mas eu não estava muito satisfeito, e então aquilo veio sobre mim como um terremoto, que afinal de contas, a Estela realmente possui um nome, sua descrição no catálogo do Museu em Bulaq – aquele nome, o único nome que ela teve, era realmente Estela 666.

Com relação ao controle de eventos externos, deixe-me lhe contar um incidente extraordinário. Em novembro de 1917, foi publicada a conclusão do meu artigo em The International, “O Renascer da Magia(k)”[2]. Ele desafiava os leitores a descobrir a quem era referido como 666 (meu Mote Mágico ΤΟ ΜΕΓΑ ΘΗΡΙΟΝ[3] soma 666). Uma noite de Janeiro, eu pedi a uma Inteligência[4] com a qual eu estava em contato, se eu poderia soletrar o meu mote em Hebraico de modo a obter novos números que pudessem lançar alguma luz sobre o assunto. Ela respondeu, “Sim”. Eu perguntei, “Todas as três palavras do nome ou apenas a última?” Ela disse, “Apenas a última”. Então eu tentei todas as possibilidades de soletração de Therion e não tive resultados. Aquilo foi numa noite de sábado. Eu fui para o escritório numa “Segunda-feira Sem Expediente” para verificar a minha correspondência. Nada ali. 

Porém na terça-feira Viereck[5] encaminhou uma carta endereçada à ele, a qual chegou na segunda-feira, tendo sido escrita na noite de sábado mais ou menos na hora na qual eu tinha feito a minha consulta. O autor do texto era totalmente desconhecido de todos nós. Ele pediu a Viereck para me contar que ele tinha resolvido o enigma no meu artigo de novembro e forneceu a soletração de Therion em Hebraico chegando ao valor 666. Isto foi espantoso o suficiente; porém muito mais estava por vir. O estranho assinava seu nome como Samuel bar Aiwaz bie Yackou de Sherabad, do que eu deduzi que o nome do seu pai era Aiwaz[6]. Este nome me foi dado como sendo do Autor d’O Livro da Lei; vide Capítulo I, Verso 7. Eu simplesmente ouvi o nome, o qual eu supunha que fosse um nome composto como Tzadquiel ou Taphthartharath[7]; Eu não tinha a menor ideia de que este era um nome humano normal. Eu tentei soletrá-lo e o transformei em 78. Agora, contudo, eu escrevi ao Amigo Samuel solicitando a soletração correta, a qual ele forneceu. Fiquei surpreso ao descobrir que o valor era 93, tal como o de Θελημα[8], a palavra da Lei, e Αγαπη[9], o método de executar aquela Lei. Portanto o Autor do Livro tinha, por assim dizer, assinado o mesmo, identificando-se infalivelmente através deste número com a essência da mensagem que ele veio transmitir.

Estes dois incidentes são simples amostras selecionadas dentre um número imenso. Eu espero me reunir este mês com um Catedrático de matemática[10] de modo que possamos reunir, classificar e esclarecer as inúmeras evidências de que este livro é de origem supra-humana. Você finalmente compreenderá porque eu o considero incomparavelmente o mais importante documento humano existente. Você me desculpará, de fato, se eu pareço um tanto insano sobre este assunto; mas realmente, dificilmente se passa um momento sem a descoberta de algum segredo novo e importante nas suas páginas secretas. Os próprios erros no Livro, como possam parecer, ocultam estranhos segredos. Por exemplo: Capítulo III, Verso 47 – “este círculo quadrangular na sua falha”. Os Hebreus ocultaram o valor π no Nome do Deus ALHIM[11], que está incorreto na quarta posição.[12] Mas ao atribuir à nossa chave secreta ShT para santificar este nome nós obtivemos 3.141593, π correto em seis posições (observe 31 e 93).[13]

Mas esta observação não deve ser tão infinita quanto os decimais de π! Você deve perdoar um homem doente e solitário por lhe impor o assunto mais próximo do seu coração. Eu estou realmente muito ansioso para que você traga a Lei de Thelema ao seu trabalho como uma solução para o horrível desespero, a futilidade e a estupidez desta vida de perplexidade. “Faze o que tu queres” explica e justifica a existência. Nós fazemos o que fazemos porque esta é a nossa natureza; os Geis[14] que impomos sobre nós mesmos para se ter uma noção da nossa Ideia Secreta. A “Ânsia por resultado” arruína a nossa obra e a torna ridícula. Não pode haver resultado. Estamos aprisionados pela nossa própria ilusão – Auto inventada. A vida de Manuel[15] foi Sucesso, sendo totalmente a auto realização simbólica de um garoto criativo – uma série de ilusões que resultaram em nada e que ainda assim lhe permitiu ver, externada, a reação do Universo sobre as várias facetas do diamante Alma. A excursão de Jurgen foi um fracasso, porque ele trabalhou com “ânsia de resultado” para obter alguma coisa fora de si mesmo, não sabendo o que (e menos ainda, que nada do gênero existe), porque ele não pôde encarar o fato de que ele tinha vendido o poeta ao prestamista.[16] Eu li para você corretamente? 

Eu estava um pouco triste quanto ao capítulo 22 de Jurgen[17], sentindo que de algum modo você havia entendido mal a minha mensagem. Pois nenhum de nós, nem mesmo o menos espiritualmente desenvolvido, pode se tornar totalmente pleno através da autossatisfação. Cada um de nós tem uma Vontade de eterna importância, necessariamente relacionada com tudo o que existe, e todos os nossos desejos conscientes são muitas máscaras – uma expressão constate ocultando a nossa infinita variedade. Todos nós somos Triângulos Ideais, e todo triângulo que nós desejamos nada mais é do que um simples caso verídico exclusivo, embora ocultando e até mesmo negando todas as outras possibilidades da Verdade real, inexprimível na forma, e tão menosprezada como ilusão pelos espíritos aprisionados aos sentidos.

Verdadeiramente e Amém! Minha solidão silenciosa nesta Abadia[18], com suas janelas abertas sobre o Eterno e seus portões fechados para o Condicionado[19] fortalece constantemente a minha convicção de que tão grande Mestre de Pensamento e Linguagem como você não ousa deixar o mundo sem Esperança. A sua mais profunda, até então, tem sido proclamar uma Fé irracional de que o Heroísmo altruísta de algum modo se vale de um homem contra a insanidade abjeta e sem propósito da vida. Você não pode parar ali. Deve ser provado que a energia é indestrutível, que nada é desperdiçado, que toda Obra Verdadeira vale a pena. E eu espero que os meus Mestres possam estar lhe usando para colocar Sua Chave em suas mãos, que você possa abrir as portas do Palácio Secreto do Rei e mostrar às pessoas que riquezas inesgotáveis são as deles – justamente quando parecia que a Penúria era total. Você mostrou que nada no mundo, por mais grandioso e glorioso, vale a pena de se esticar uma mão para agarrar; mostrou agora que tudo no mundo, por menor e mais desprezível, vale os sofrimentos e os perigos de uma vida para se obter. (Você fez isto, de uma forma, em Domnei.)[20]. Eu quero um livro que complete o grupo Jurgen-Manuei em uma Trilogia, e observe o Grande Tolo, nada sabendo por que está identificado com o Todo (que, não sendo dividido contra si mesmo, não pode ser conhecido), nada fazendo porque está fazendo a sua Verdadeira Vontade, cumprindo a Vontade Universal ao não opor nenhuma resistência à ela numa tentativa de arrebatar alguma ilusão, e nada sofrendo porque percebe que tudo o que acontece para ele é uma descrição refletida dele mesmo. Ele segue rindo e dançando através do mundo, e destrói todo mal e sofrimento por onde ele passa, pelo simples método de mostrar a todos a quem encontra que os seus vícios e os seus desgostos surgem da ignorância, que cada um deles é perfeito ao seu modo, cada um é uma ilusão necessária por meio da qual o Todo se torna consciente de si mesmo (assim como o Tolo interpreta a si mesmo para si através do seu próprio conjunto de ilusões) e cada um é apenas um estorvo para si e para os outros ao seguir falsos Ideais, interferindo com os outros por várias razões equivocadas, e assim por diante, assim causando todo tipo de colisões, perdendo o seu caminho e então se desesperando em busca da Direção, temendo o Futuro, lamentando o Passado e usando de forma errada – o Presente. O Tolo mostra a cada um o seu caminho apropriado e o coloca nele; logo parece que há espaço no mundo para todos em igualdade, que todos são igualmente dignos de se maravilhar e venerar, aquela Perfeição que é inerente no Todo, e que o objetivo da Vida (que é movimento) é mostrar um cortejo todo mutante, então capacitando cada um a se tornar consciente do Todo, que de outra forma permaneceria homogêneo, vazio de quantidade e qualidade, Desconhecido e Desconhecível.

Eu realmente espero que você perceba este ponto de vista. Isto me livrou do desespero espiritual, tornou todas as coisas inteligíveis e adoráveis para mim, me proporcionou um radiante deleite na minha Obra, a qual eu quase havia abandonado como se fosse uma idiotice; eu estou enamorado com a vida, e pronto para cavalgar com a Morte rumo a uma nova Aventura.

O mundo está morrendo de desgosto com a sua própria vaidade horrível; a tarefa é monótona e árdua, a maçã de Sodoma é seu único alimento[21], o esquecimento é seu único prazer, e “Não tenha Esperança” é a sua palavra final de sabedoria. Você declarou esta sentença mais terrivelmente do que qualquer homem desde Gautama[22]; pois você não deixou nenhuma saída, seja no tempo ou no espaço, ou condição de existência, para qualquer ser, de Koshchei até Dame Lisa[23]. O mundo está esperando que você pronuncie a palavra mágica Thelema, que transforma toda maldição em Bênção, dá sentido a mais incoerente insensatez e carrega a árvore mais estéril de frutas amadurecidas ao sol. Esqueça este discurso extenso! Minhas palavras são de pouca importância; mas se você ler O Livro da Lei o suficiente, o Espírito do Senhor que está em você lhe mostrará o esplendor desta Liberdade, e lhe inspirará a propagar a sua luz solar através do prisma da sua Arte, para que os homens possam contemplar o seu “Arco Íris entre as Nuvens”[24] e saber que o dilúvio diminuiu sobre a face da Terra.
 
 
Notas:
  1. Isto foi escrito para o romancista americano James Branch Cabell (1879-1958), o autor de Jurgen: Uma Comédia de Justiça (1919). O Capítulo 22 de Jurgen foi baseado livremente no “Liber 15” de Crowley, a Missa Gnóstica da O.T.O..
  2. Vide “O Renascer da Magia(k)”, página 13.
  3. Grego, “a Grande Besta”, o mote de Crowley como um Magus 9º=2 A∴A∴.
  4. Amalantrah; a entrevista em questão foi realmente em 24 de Fevereiro. Vide “Liber 729, A Operação de Amalantrah”, O Equinócio IV (3). Crowley fornece outro relato deste episódio no Livro 4, Parte III, Apêndice 3.
  5. George Sylvester Viereck (1884-1962), o empregador de Crowley como editor do The International.
  6. Samuel Aiwaz Jacobs (c.1891-1971) era um tipógrafo e estilista de livro que fundou a Golden Eagle Press. Um ensaio de Jacobs (que – como Jurgen – faz uma paráfrase à Missa Gnóstica) é republicado como o Epílogo desta coleção de ensaios. A carta holográfica de Jacobs sobrevive na Yorke Collection, Warburg Institute, Universidade de Londres, e aparece como apêndice ao “Liber 729”, loc.cit.
  7. Tzadkiel é do hebraico tzaddiq (“correto, justo”) e El, Deus. Aqui, ele é o anjo da justiça. O nome Taphthartharath vem da obra de Paracelso sobre talismãs, onde o espírito do planeta Mercúrio é identificado como Tophtharthareth. Sem qualquer etimologia conhecida, ele se qualifica como um “nome inventado”.
  8. Grego, thelema, vontade.
  9. Grego, agape, amor.
  10. Norman Mudd (c.1890-1934) foi educado em Cambridge e era professor de matemática na Grey University College, Bloemfontein, África do Sul, antes de se unir a Crowley na Abadia de Thelema em Cefalù. Ele realizou um estudo determinado da interpretação matemática de O Livro da Lei, mas o levou a extremos tais que Crowley chegou a rejeitar os resultados.
  11. Geralmente transliterado como Elohim, “os deuses”, אלהים  = 86.
  12. O professor de Crowley, Allan Bennett, explicou isto no seu ensaio “Uma Nota Sobre o Gênesis”, O Equinócio I (2) (1909), p.183. “Escreva as letras deste Nome em qualquer Pentagrama de Invocação; e o Pentagrama de Banimento deste terá o valor 3.1415 (através da Qabalah das nove Câmaras)”. Ou seja, arrumando estas cinco letras como um pentagrama, pode-se lê-las de trás para frente enquanto se retiram os zeros nos seus valores numéricos hebraicos. Isso resulta em הימאל (respectivamente 3 1 4 1 5) , ou seja, 31415.
  13. ShT é שט, cujos valores numéricos hebraicos 9 e 300 se tornam 9 e 3 através da Qabalah das nove Câmaras, ou seja, 93. Vide Livro 4, Parte IV (O Equinócio dos Deuses), cap. 7, §3.
  14. Literalmente “tabu”, do gaélico geas, “proibição, tabu”, e geasa, “obrigação”, seja mágica ou relacionada à honra.
  15. Conde Manuel é o herói das Figuras da Terra de Cabell e o regente da terra de Poictesme.
  16. Em Jurgen, o personagem título é um prestamista de meia-idade que, ao receber um ano de juventude, deixa sua esposa, Dame Lisa, em troca de aventuras eróticas na terra de Poictesme.
  17. O capítulo que levou ao “Liber 15, Ecclesiae Gnosticae Catholicæ Canon Missæ” de Crowley, a Missa Gnóstica da O.T.O..
  18. Crowley estava escrevendo da Abadia de Thelema em Cefalù, Sicília.
  19. Os textos datilografados exibem “próximo do Estipulado”, provavelmente em erro.
  20. James Branch Cabell, Domnei: Uma Comédia da Adoração da Mulher (1920); vide Obras Citadas. Este foi o livro de Cabell depois de Jurgen.
  21. Em O Livro das Mentiras, o capítulo 67 é intitulado “Maçãs de Sodoma”. Em seu comentário, Crowley observa que “é inútil tentar abandonar a Grande Obra”.
  22. Gautama Buddha (c. 563 – 483 Antes da Era Comum), fundador do Budismo.
  23. Koshchei é uma figura do conto de fadas russo “A Morte de Koshchei o Imortal” No Livro Vermelho das Fadas de Andrew Lang. No Jurgen de Cabell, Dame Lisa é a esposa que Jurgen abandona; eles voltam a se unir no final.
  24. Gênesis 9:13.