terça-feira, 6 de dezembro de 2011

O Ideal de Karma-Yoga - Swami Vivekananda

A mais admirável idéia da religião vedanta é a de podermos alcançar o mesmo fim por diferentes caminhos. Esses caminhos estão generalizados em quatro: o da ação, o do amor, o da psicologia e o do conhecimento. Mas deveis lembrar-vos ao mesmo tempo de que estas divisões não são muito marcadas nem se excluem umas às outras. Cada uma se mistura com as demais; porém, de acordo com o tipo que prevalece, damos o nome a cada divisão. Não quero com isto dizer que não encontreis um homem que não possua outra faculdade além da de agir, nem homens que sejam somente devotos fervorosos, nem outros que não possuam mais do que simples conhecimento. Estas divisões são feitas de acordo com o tipo ou tendências que parecem prevalecer em cada indivíduo. Já vimos que finalmente estas quatro sendas convergem para um ponto só. Todas as religiões e métodos de ação e adoração nos conduzem a fim idêntico.

Procurarei indicar-vos qual é este fim. É a liberdade tal como a compreendo. Tudo quanto percebemos ao nosso redor está lutando por essa liberdade, desde o átomo ao homem, desde a insensível partícula de matéria isenta de vida até a existência mais elevada da terra, a alma humana. O universo inteiro é, em verdade, o resultado desta luta pela liberdade. Em todas as combinações cada partícula trata de seguir sua trajetória própria, porém as demais as mantêm sujeitas. Nossa terra procura fugir do sol, e a lua da terra. Tudo tende a uma dispersão infinita.

Tudo quanto vemos no universo tem como base esta luta pela liberdade; é impulsionado por esta tendência que o santo ora e o ladrão rouba. Quando a linha de ação não é correta, a chamamos mal, e quando sua manifestação é correta e elevada, a chamamos bem. Mas o impulso é o mesmo: a luta pela liberdade. O santo está oprimido pelo conhecimento de seu cativeiro e precisa livrar-se dele; por isso adora a Deus. O ladrão crê que não possui certas coisas e trata de desfazer-se desta necessidade, ver-se livre dela e por isso rouba. A liberdade é o único objetivo da natureza, seja consciente ou inconsciente; e consciente ou inconscientemente, todos lutam para este fim.

A liberdade que o santo busca difere muito da que busca o ladrão. A liberdade amada pelo santo leva-o ao gozo da felicidade infinita e inefável, enquanto que aquela em que o ladrão pôs seus amores, forja unicamente novas cadeias para a sua alma.

Em todas as religiões se encontra esta luta pela liberdade. É o fundamento de toda moralidade, do altruísmo, o que significa desvencilhar-se da ideia de que os homens são idênticos aos seus pequeninos corpos. Quando vemos que um homem pratica uma boa ação auxiliando os outros, verificamos que ele não pode estar confinado ao limitado círculo do “eu e meu”. Não há limite para este renunciar do egoísmo. Todos os grandes sistemas de moral pregam o absoluto altruísmo.

Suponde que este absoluto altruísmo fosse alcançado por um homem. Que aconteceria? Já não seria mais o Sr. Fulano de Tal, pois teria alcançado uma expansão infinita. Aquela sua pequena personalidade anterior teria desaparecido para sempre. Ter-se-ia volvido para o infinito, e a conquista desta expressão infinita é em verdade a meta de todas as religiões e de todos os ensinamentos filosóficos e morais.

O personalista se assusta ante esta concepção filosófica. No entanto, em sua pregação se oculta a mesma ideia. Ele não limita o altruísmo do homem. Suponde que um homem chegasse a ser perfeitamente altruísta sob o sistema personalista, como faríamos para distingui-lo dos perfeitos de outros sistemas? Aquele chegou a ser uno com o universo, o que é o fim de todos nós; porém o personalista não tem o valor de seguir seu próprio raciocínio até suas últimas conclusões lógicas. Karma-Yoga é a aquisição, mediante o altruísmo, dessa liberdade que constitui a meta de toda natureza humana. Cada ação egoísta retarda nossa chegada à meta, e cada ação altruísta a acelera; por isto a única definição que se pode dar da moral é esta: O egoísta é imoral, e o altruísta moral.

No entanto, se entrardes em detalhes, já não nos parecerá tão simples o assunto. Por exemplo: o ambiente faz com que os detalhes variem. Uma ação pode ser altruísta em certas circunstâncias, e egoísta em outras. Portanto, limitamo-nos a dar uma definição geral, deixando que os detalhes sejam elaborados em relação com as diferenças de tempo e de lugar. O que em um país é moral, é imoral em outro. O fim visado pela natureza é a liberdade, e esta se obtém semente pelo altruísmo; cada pensamento, palavra ou ação isenta de egoísmo nos aproxima da meta, e consequentemente, é moral.

Como vedes, esta definição é aceita por todas as religiões e sistemas de moral. Em certas filosofias, a moral tem sua origem num Ser Superior: Deus. Se perguntais porque deve um homem fazer isto em vez daquilo, responder-vos-ão que é o mandato de Deus. Porém, independentemente da origem, seu código de moral se baseia no mesmo princípio: não pensar no eu. Não obstante, pessoas de tão elevado conceito de moral se atemorizam ante a ideia de terem que abandonar ou renunciar suas mesquinhas personalidades. Ao homem que se aferra à sua insignificante personalidade podemos pedir que considere o caso de uma pessoa perfeitamente altruísta, que não tenha outro pensamento nem preocupação senão os outros, e inteira relegação do “a si mesmo”. 

Este “a si mesmo” lhe é conhecido só quando pensa, age ou conversa para si mesmo; se sua consciência abarca só o universal, onde está o seu “a si mesmo”? Foi-se para sempre.

Karma-Yoga, portanto, é um sistema de ética e religião destinado a obter a liberdade mediante as boas ações. O karma-yogue não precisa de nenhuma doutrina. Pode ser ateu, pode não se interessar pela sua alma nem o inquietar nenhuma especulação metafísica. Possui sua finalidade, seu modo especial de alcançar o inegoísmo, e deve alcançá-lo por si mesmo. Sua vida tem de ser uma constante realização, porque deve resolver pela ação, sem auxílio de doutrinas nem teorias, o mesmo problema ao qual o jnani aplica a razão e o bhakti o amor.

Surge agora outra pergunta: podemos fazer bem ao mundo? No sentido absoluto, não; em sentido relativo, sim. Não se pode fazer nenhum bem permanente ao mundo; se tal fosse possível, o mundo não seria mundo. Podemos aplacar a fome de uma pessoa durante um tempo mais ou menos prolongado, porém ela voltará a senti-la outra vez. O prazer que podemos oferecer é momentâneo. Ninguém pode curar definitivamente esta febre de prazer e de dor.

Pode alguém conceder ao mundo a eterna felicidade? Para que uma onda se erga à superfície das águas, deve haver uma depressão equivalente. As coisas boas deste mundo estão relacionadas com as necessidades e inveja do homem. Não podem ser aumentadas nem diminuídas. Considerai por um momento a história da raça humana. 

Não encontramos as mesmas alegrias e infelicidades, os mesmos prazeres e dores, as mesmas diferenças de classe? Não são uns ricos e outros pobres; estes altos e aqueles baixos; alguns sãos e outros enfermos? Pois o que acontecia com os egípcios, os gregos e os romanos, acontece hoje com os americanos. A história se repete indefinidamente; no entanto, podemos observar que ao lado dessas incuráveis diferenças de prazer e dor, sempre houve luta por aliviá-las.

Cada período da história contou com milhares de homens e mulheres que se esforçaram por tornar a existência mais agradável para as futuras gerações. Mas em que proporção conseguiram? Só podemos mudar a pelota de um lugar para outro. Deixamos a dor no plano físico e se dirige ao mental. É como na cena do Inferno de Dante, em que aos miseráveis se entrega uma bola de ouro para que façam rolar até o alto de uma montanha. Cada vez que a fazem subir um trecho, a gravitação a faz voltar. Nossas conversas sobre a idade de ouro não são mais do que encantadores contos para crianças. As nações que sonham com a idade de ouro pensam que para o seu povo lhes virá o melhor. Esta é a assombrosa ideia altruísta, da idade de ouro.

Não podemos aumentar a felicidade deste mundo; nem tampouco nos é possível aumentar a dor. A soma de prazer e dor será sempre a mesma. Este fluxo e refluxo de prazer e dor é a própria essência do mundo; sustentar o contrário equivaleria a dizer que pode haver vida sem morte. Algo completamente absurdo, porque a ideia de vida implica necessariamente a de morte, e o prazer deve. ter a dor como contraparte.

A lâmpada está ardendo e consumindo-se constantemente, e esta é a sua vida. Se quereis ter vida, deveis morrer constantemente por ela. A vida e a morte são uma e a mesma coisa, contemplada de dois pontos de vista; são a ascensão e descida da mesma onda; em síntese: uma olha a “ascensão” e se faz otimista; outro olha a “descida” e se faz pessimista. Quando uma criança vai à escola e seus pais a cuidam, tudo lhe parece feliz; sua necessidades são simples, e como resultado, é grande otimista. Porém, o ancião, com suas múltiplas experiências, busca mais o repouso. Assim também são as velhas nações, que apresentam sinais de decadência e têm menos esperanças do que as novas. Há um provérbio na Índia que diz: “Mil anos de cidade e mil anos de bosque”. Esta mudança em bosque, e vice-versa, ocorre em todas as parte, e torna os povos otimistas ou pessimistas, segundo o ponto de vista que adotem.

A primeira coisa em que devemos pensar é na igualdade. Essas ideias do século de ouro têm dado um forte impulso à ação. Muitas religiões pregam que Deus virá reger este universo e que então as condições serão iguais para todos. As pessoas que pregam estas doutrinas são simples fanáticos, e os fanáticos são, em verdade, os homens mais sinceros. O cristianismo foi pregado sob sugestões desse fanatismo, e assim atraiu os gregos e os romanos escravos. Acreditam estes que sob a religião de um século de ouro, terminaria a escravidão e teriam o suficiente para comer e beber; e portanto, abraçaram a causa cristã. Os que originalmente pregaram a ideia, foram simples fanáticos ignorantes, porém sinceros.

Nos tempos modernos esta aspiração de século de ouro se encerra na fórmula: liberdade, igualdade, fraternidade. Isto também é fanatismo. A verdadeira igualdade jamais existiu nem existirá sobre a terra. Como podemos ser todos iguais? Esta espécie de igualdade implica a morte total. Qual é a causa do mundo ser como é? O equilíbrio perdido. No estado primitivo, chamado caos, existe perfeito equilíbrio. Como surgiram as forças criadoras do universo? Pela luta, competição e conflito.

Supondo que as partículas da matéria se achassem em equilíbrio, seria possível a criação? A ciência afirma que não. Agitai a água e vereis que cada uma de suas partículas voltará à quietude, precipitando-se umas contra as outras; e do mesmo modo os fenômenos que constituem o universo (as coisas que ele encerra) lutam por volver ao perfeito equilíbrio. Produz-se uma perturbação, e de novo ocorrem a combinação e a criação. Ao mesmo tempo, as forças que lutam pela igualdade são tão necessárias à criação como as que a destroem.

A igualdade absoluta, isto é, o perfeito equilíbrio das forças em luta em todos os planos, não é possível em nosso mundo. Antes de alcançar esse estado, o mundo será inadequado para qualquer espécie de vida. Vemos então que o século de ouro e a igualdade são impossíveis, e se quiséssemos levá-los à prática, nos conduziriam à destruição. Que é que constitui a desigualdade entre os homens? Principalmente a diferença de cérebros.

Ninguém, a não ser um desequilibrado, diria hoje que nascemos com a mesma capacidade cerebral. Chegamos ao mundo com faculdades determinadas, impossíveis de alterar. Os índios americanos habitavam esta região há milhares de anos, porém chegaram vossos antepassados e desde então mudou o aspecto da região. Por que não fizeram os índios melhoramentos nem construíram cidades, se somos todos iguais? Com os vossos antepassados apareceu uma classe diferente de poder cerebral.

A absoluta igualdade é morte. Enquanto durar este mundo, existirá a diferenciação, e a idade de ouro da igualdade perfeita chegará só quando chegar a seu termo um ciclo de criação, Antes, essa igualdade não poderá existir. No entanto, esta ideia de realizar o século de ouro é um estímulo de grande poder. Assim como a desigualdade é necessária para a criação, também o é a luta para limitá-la. Se não houvesse luta para sermos livres e voltarmos a Deus, não haveria criação. É a diferença entre essas duas forças que determina os motivos para atuar, alguns tendentes às limitações e outros à liberdade.

Este mundo, semelhante a duas rodas que giram uma dentro da outra e em sentido oposto, constitui um mecanismo terrível; se nos descuidarmos, pode prender nossa mão e arrastar-nos. Todos cremos que uma vez cumprido o dever imediato, descansaremos; porém, mesmo antes de havê-lo terminado, outro dever nos espera. Todos nós somos arrastados por esta poderosa e complexa máquina, que é o mundo. Só há dois modos de evitá-la: um é renunciando todo interesse pela máquina, deixando-a funcionar só; noutras palavras, abandonando nossos desejos.

Isto é muito fácil de dizer, porém difícil de fazer. Não sei se entre vinte milhões de homens haverá um que seja capaz de fazê-lo. O outro modo consiste em submergirmos no mundo e aprender o segredo do trabalho. Não fujais da engrenagem do mundo; ao contrário, permanecei nele e aprendei o segredo do trabalho. Mediante o trabalho correto, feito em seu interior, pode-se alcançar a libertação. Atravessando esta maquinaria, chega-se à saída.

Vimos o que é ação: uma parte dos alicerces da natureza, a qual não deixa nunca de agir. Aqueles que creem em Deus o compreenderão melhor, pois sabem que Deus não necessita de nossa ajuda. Mesmo que este universo não detenha nunca sua marcha, nossa meta é a liberdade, nosso fim o altruísmo, e, de acordo com Karma-Yoga, o fim há de ser conquistado mediante a ação.. Todas as ideias de tornar o mundo feliz podem ser boas como motivos poderosos para os fanáticos; porém sabemos que o fanatismo produz tanto o mal como o bem. O karma-yogue pergunta a si mesmo por que há de haver outro motivo para agir, além do amor inato pela liberdade. Colocai-vos mais acima dos motivos mundanos. Tendes direito à ação mas não aos frutos.

“O homem pode exercitar-se para conhecer e praticar esta verdade”, afirma o karma-yogue. Quando a ideia de fazer o bem faz parte de sua própria existência, já não busca nenhum motivo externo. Façamos o bem só porque é bom fazê-lo; “aquele que realiza boas ações, ainda que seja só para alcançar o céu, prende-se a si mesmo”, diz o karma-yogue. Qualquer ação executada com egoísmo, em vez de libertar, forja novas cadeias para nossos pés.

De modo que a única solução consiste em renunciar os frutos da ação, não se ligando a ela. Sabeis que o mundo não somos nós, nem nós o mundo. Somos o Ser eternamente em repouso e em paz. Por que, pois, temos que nos ligar a alguma coisa? É muito bom dizer que deveríamos desligar-nos de tudo, porém, como consegui-lo? 

Cada ação boa que praticamos sem esperar recompensa, em vez de forjar novas cadeias, romperá uma das já existentes. Cada bom pensamento que enviemos ao mundo, sem desejar recompensa alguma, será computado pelo karma e romperá um novo elo de nossa cadeia, tornando-nos mais puros. No entanto, isto pode parecer algo quixotesco em vez de prático. Tenho lido muitos argumentos contra o Bhagavad-Gita, e são muitos os que afirmam que os homens não podem agir sem motivos. Eles nunca viram obras altruístas a não ser influenciadas pelo fanatismo, e por isso falam desta forma.

Como conclusão vos direi algumas palavras sobre um homem que praticou os ensinos de Karma-Yoga. Este homem foi Buda, o único que levou estas práticas à sua perfeição máxima. Todos os profetas do mundo, com esta única exceção, podem ser divididos em duas classes: uma, os que afirmam ser encarnações de Deus, e outra, os que dizem ser apenas mensageiros de Deus. Ambas obtêm seu impulso do exterior, por muito espiritual que seja a linguagem que utilizam. Buda foi o único profeta que disse: “Não me preocupo em conhecer vossas diversas teorias acerca de Deus. De que serve discutir sobre as sutis doutrinas da alma? Praticai o bem e ele vos conduzirá à verdadeira liberdade”.

Sua conduta estava absolutamente desprovida de móveis pessoais; no entanto, quem o excedeu como trabalhador? Mostrai-me na história um caráter que se tenha elevado a esta altura. A raça humana produziu só um caráter de tão elevada filosofia e de tão vasta compaixão. Este grande filósofo, que pregou a mais elevada doutrina, tinha, no entanto, a mais profunda compaixão pelos animais, sem que jamais se atribuísse mérito algum por isso. Foi o karma-yogue ideal, agindo em todos os momentos sem motivos pessoais. A história da humanidade o apresenta como o maior entre, os nascidos, a melhor combinação de coração e cérebro que já existiu, a alma maior e mais poderosa que se manifestou.

É o primeiro dos reformadores que o mundo conheceu. Foi o primeiro que se atreveu a dizer: “Crede, porém não porque isto seja costume em vosso país; discerni e analisai tudo, e depois disto, se virdes que fará bem aos outros e a todos, crede, vivei e praticai; e depois fazei que outros o vivam”. Age melhor quem não busca dinheiro, nem fama, nem coisa alguma. Quando um homem realizar isto, será um Buda, e surgirá dele tal força de ação que transformará o mundo. Um homem assim representa o mais elevado ideal de Karma-Yoga.