segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Liberdade - Swami Vivekananda

Além do significado de atuar, dissemos que, psicologicamente considerada, a palavra karma quer dizer causação. Qualquer trabalho, ação ou pensamento que produza um efeito, chama-se karma. Assim, “lei de karma” significa “lei de causa e efeito”. Onde quer que exista uma causa, produz-se um efeito; esta necessidade não pode ser evitada, e é, segundo nossa filosofia, uma lei que se cumpre em todo o universo, enquanto de um modo é o resultado de uma ação passada, de outro modo se converte em causa de seu próprio efeito. É necessário, além disso, considerar o que significa a palavra lei. Por lei entendemos a tendência de repetir uma série de fenômenos. Quando vemos um fato seguido de outro ou que transcorre simultaneamente, esperamos que esta sequência ou coexistência torne a ocorrer.

Os antigos lógicos e filósofos da escola Nyâyâ denominavam esta lei de Vyâpti. Segundo eles, nosso conceito de lei se deve à associação. Uma série de fenômenos está em nossa mente, associada a certas coisas, segundo uma ordem invariável; desta forma, qualquer coisa que percebemos num dado momento é imediatamente transferida a outros fatos de nossa mente. Toda ideia, ou, segundo nossa psicologia, cada vibração produzida na substância mental chitta, deve dar nascimento a vibrações semelhantes. Esta é a ideia psicológica da associação e o motivo é apenas um aspecto deste princípio. A associação se chama Vyâpti

No mundo externo a idéia de lei é igual à do mundo interno: a expectativa de que um fenômeno particular seja seguido por outro e que a série se repita. Portanto, estritamente falando, a lei não existe na natureza. Praticamente é um erro dizer que a gravitação existe na terra ou que há alguma lei que exista objetivamente nalguma parte da natureza.

A lei é o método ou a maneira como nossa mente percebe um série de fenômenos; tudo está na mente. Certos fenômenos que ocorrem sucessiva ou simultaneamente, capacitam nossas mentes a perceber o método da série, e constituem o que chamamos lei.

A imediata questão a considerar é a definição de uma lei universal. Nosso universo e a porção de existência caracterizada pelo que os psicólogos sânscritos chamam Desha-kâla-nimitta, ou seja, o que a psicologia europeia chama espaço, tempo e causação. O universo é apenas uma parte da existência infinita, posta num molde particular composto de tempo, espaço e causação. Do que se deduz que a lei é semente possível dentro deste universo condicionado, não podendo existir lei alguma fora dele. Quando falamos de universo, entendemos somente a porção de existência limitada por nossa mente; o universo dos sentidos, que podemos ver, sentir, tocar, ouvir, pensar e imaginar. É o único que está sob a lei; além dele a existência não pode estar sujeita à lei, porque a causação não se estende fora do mundo de nossas mentes. Tudo quanto esteja fora do alcance de nossa mente e sentidos, não se acha submetido à lei de causa e efeito, pois não há associação mental de coisas na região inacessível aos sentidos, nem causação sem associação de ideias.

Somente quando “o ser” ou existência está modelado em nome e forma, é que obedece à lei de causação; diz-se, então, que está sob a lei, porque toda lei tem sua essência na causação. Portanto, não pode existir o livre arbítrio; mesmo estas palavras são uma contradição, porque o que conhecemos é a vontade, e tudo o que conhecemos está dentro do nosso universo, e modelado pelas condições de espaço, tempo e causação. Tudo quanto conhecemos ou podemos conhecer está por força submetido à lei de causação, e por consequência não pode ser livre. Agem nele outros agentes, que por sua vez se transformam em causa. Porém aquilo que se transformou em vontade, será livre quando romper os moldes em que está encerrada: espaço, tempo e causalidade. Provém da liberdade, modela-se na matriz das ligaduras, sai dela e volta de novo à liberdade.

Tem-se procurado saber donde vem e aonde vai este universo; e tem-se respondido que vem da liberdade, sujeita-se à fatalidade e volta de novo à liberdade. Assim, quando dizemos que o homem não é mais que o ser infinito se manifestando, queremos dizer que só uma parte muito pequena dele é em realidade o homem; este corpo e esta mente que percebemos são apenas uma parte do todo, apenas um ponto da existência infinita. O universo é somente uma partícula da infinita existência, e todas nossas leis e limitações, nossas alegrias, nossas felicidades e nossas esperanças, estão dentro dele; todo nosso progresso e nossa decadência se acham nos limites de sua pequena jurisdição. De maneira que vedes quão infantil é esperar uma continuação deste universo (criação de nossa mentes) e aguardar o céu que, depois de tudo, só pode ser uma repetição deste mundo que conhecemos. Como vedes, é um desejo impossível e infantil adaptar a totalidade da existência infinita a esta existência limitada e condicionada que conhecemos.

Quando um homem afirma que terá sempre a mesma coisa que agora possui, ou, como tenho dito algumas vezes, quando ele pede uma religião confortável, podeis estar seguro de que se degenerou tanto que já não é capaz de pensar em algo mais elevado do que o é atualmente. Este homem é tão só o que são suas mesquinhas circunstâncias atuais. Esqueceu sua natureza infinita, e seu pensamento se circunscreve às pequenas alegrias, tristezas e aborrecimentos do momento. Pensa que esta coisa finita é o infinito; e não somente isto, mas não quer abandonar tão ridícula ideia. Aferra-se desesperadamente a Trishnâ, a sede de viver, que os budistas chamam Tanhâ e Tissâ. Podem existir milhões de classes de felicidades, de seres, de leis, de progresso e de causação atuando fora deste pequeno universo que conhecemos, pois a totalidade de tudo isto compreende apenas uma seção de nossa natureza.

Para alcançar a liberdade, devemos transcender os limites do nosso universo. O perfeito equilíbrio, ou o que os cristãos chamam a paz, que se encontra além de todo entendimento, não pode ser conquistado neste mundo, nem no céu nem em lugar algum onde nossa mente possa pensar, os sentidos perceber e a imaginação conceber. Nenhum destes lugares pode nos dar a liberdade, porque todos eles estariam dentro de nosso universo e este está limitado pelo tempo, espaço e causação. Podem existir lugares que sejam mais etéreos do que nossa terra, onde os prazeres sejam mais intensos, porém mesmo esses lugares estarão dentro de nosso universo, e portanto, sujeitos à lei; por conseguinte, devemos ir mais além, e a verdadeira religião começa onde termina o nosso universo. As rápidas alegrias e sofrimentos findam onde a realidade começa. Enquanto não abandonarmos a sede de viver, a atração pela existência transitória e condicionada, não teremos nem sequer a esperança de vislumbrar essa infinita liberdade que existe além do limitado.

É lógico que não existe mais do que uma só maneira de obter esta liberdade (uma das mais nobres aspirações da humanidade): o desprezo desta pequena vida, deste pequeno universo, desta terra, do céu, do corpo, da mente e de tudo o que está limitado e condicionado. Se renunciarmos o nosso apego por este pequeno universo dos sentidos e da mente, seremos imediatamente livres. É o único modo de se livrar dos laços e ir além das limitações da lei e da causação.

Todavia, é, sumamente difícil deixarmos de nos aferrar a este universo; muito poucos o conseguem. Nossos livros mencionam um dos modos de obtê-lo. Um é chamado nei, neti (isto não, isto não), e o outro se chama iti (isto); o primeiro é negativo e o segundo positivo. A maneira negativa é a mais difícil e só possível para homens de mentes elevadas e poderosa vontade; desses que se põem de pé e dizem: “Não, não aceito isto”, e a mente e o corpo obedecem sua vontade, e surgem vencedores da prova. A maioria da humanidade escolhe o modo positivo, o caminho do mundo, usando de todas as limitações para romper essas mesmas limitações. Esta é também uma maneira de renunciar; só que age de maneira lenta e gradual, conhecendo as coisas, gozando delas e obtendo, desta maneira, experiência, conhecendo a natureza das coisas até que a mente termina por abandoná-las.

O primeiro modo de se desligar é mediante o raciocínio; o segundo, pela experiência. O primeiro é a senda da jnana-yoga e se caracteriza pela negativa de realizar qualquer obra; o segundo é, a karma-yoga, aquela que age sem cessar. Todos devem trabalhar no universo. Só aqueles que estão satisfeitos com o Ser, cujas mentes nunca saem fora do Ser, para quem o Ser é tudo em todos, não trabalham. Os demais devem trabalhar.

Uma corrente que flui por seu impulso próprio cai numa cova e forma um redemoinho, e depois de girar algum tempo volta a seguir seu curso. A vida humana se assemelha a esta corrente. Penetra no redemoinho, gira neste mundo de espaço, tempo e causação exclamando: “meu pai, meu irmão, meu nome, minha fama, etc.”, e por fim sai dali e readquire a liberdade original. Conhecendo-a ou não, sejamos ou não conscientes dela, todos trabalhamo-los para sair do sono do mundo. A experiência do homem é para torna-lo capaz de sair deste torvelinho.

Que é Karma-Yoga? É o conhecimento do segredo da ação. Todo universo trabalha. Para que? Para sua elevação, para sua liberdade. Desde o átomo até o mais elevado dos seres, trabalha para alcançar a liberdade de mente, do corpo e do espírito. Todas as coisas pugnam continuamente por obter a liberdade e fugir da escravidão. O sol, a lua, a terra, os planetas, todos trabalham para se libertarem das limitações. As forças centrífugas e centrípetas da natureza caracterizam o nosso universo. Em vez de sofrermos para chegar a conhecer as coisas como elas são, aprendemos de Karma-Yoga o segredo da ação, o método de trabalhar, a maneira de agir.

Uma soma enorme de energia pode ser gasta em vão, se não soubermos como utilizá-la. Karma-Yoga transforma o trabalho em ciência, e com seu auxílio aprenderemos a utilizar melhor as forças deste mundo. A ação é inevitável, e assim deve ser; porém devemos atuar com o mais elevado propósito.

Karma-Yoga nos ensina que este mundo possui uma existência efêmera, passageira, e que a liberdade não se encontra aqui, porém mais além. Para poder escapar das ligaduras do mundo, devemos viver com cautela. Podem existir pessoas excepcionais, como as que acabo de citar, capazes de se desligarem do mundo, como uma cobra abandona sua pele e separada dela a contempla. Sem dúvida alguma existem esses seres excepcionais, porém o resto da humanidade tem que passar lentamente pelo mundo da ação; karma yoga ensina o processo e o método de realizá-lo com vantagem.

“Trabalha sem descanso porém abandona tudo aquilo que te ligue ao teu trabalho”. Não vos identifiqueis com coisa alguma. Conservai vossa mente livre. As dores e misérias que contemplais são as condições necessárias deste mundo. A pobreza, a riqueza e a felicidade são momentâneas; não pertencem de forma alguma à nossa natureza real. Nossa natureza está muito além do sofrimento e da felicidade, além dos sentidos e além da imaginação.

No entanto, devemos continuar trabalhando sem descanso. “O sofrimento vem do fato de se ligar à ação”. No momento em que nos identificamos com a ação, sentimo-nos infelizes; porém, não nos identificando com ela, evitamos a desgraça.

Se um lindo quadro pertencente a qualquer pessoa fosse posto ao fogo, não nos sentiríamos infelizes, porém, quando é o nosso próprio quadro que se queima, então nos consideramos infelizes. Por que isto? Os dois quadros são formosos, talvez cópia do mesmo original, porém em um caso se sente muito mais aflição do que no outro. É porque no último caso nos identificamos com o quadro, o que não aconteceu com o primeiro.

O eu e o meu são a causa de toda dor. Com o desejo de posse surge o egoísmo, e com ele a miséria. Cada ato, cada pensamento egoísta, nos liga a alguma coisa, e imediatamente nos convertemos em seus escravos.

Cada ondulação em chitta que diz “eu e meu”, liga imediatamente uma cadeia em nós e nos transforma em escravos, e quanto mais dissermos “eu e meu” , mais aumentaremos a escravidão e a aflição.

Portanto, Karma-Yoga nos ensina a desfrutar a beleza de todos os quadros do mundo, porém sem nos identificarmos com nenhum deles. Nunca digais “meu”. Quando disserdes esta coisa é minha, o sofrimento surgirá imediatamente. Nem sequer digais mentalmente “filho meu”. Possuis um filho, porém não digais “meu”. Se o fizerdes, começareis a ser infelizes. Não digais “minha casa” nem “meu corpo”. Toda a dificuldade está nisto. O corpo não é vosso, nem meu, nem de ninguém. Os corpos vem e se vão impulsionados por leis naturais, porém nós não somos nada mais do que o testemunho, e como tais, donos de nossa liberdade. Este corpo não é mais independente do que um quadro ou uma parede. Por que havemos de nos ligar a um corpo? Se alguém pinta um quadro, quando o termina segue seu caminho. Não projeteis esse tentáculo de egoísmo: “eu devo possuí-lo”. Tão logo o projeteis, começa a desdita.

Assim, karma-voga diz: controlai primeiramente o tentáculo do egoísmo, e quando o tiverdes conseguido, não permitais que a mente se submerja de novo nas ondas do egoísmo. Então podereis enfrentar o mundo e trabalhar tanto quanto puderdes. Frequentai qualquer companhia, aonde quer que vades, e nunca sereis contaminados pelo mal. A folha de Loto está na água mas esta não pode aderir a ela; assim sereis vós no mundo. Isto se chama vatragya, ou desapego. Creio que já vos disse que sem desapego não pode haver yoga.

O não ligar-se a coisa alguma é a base de todos as yogas. O homem que renuncia viver numa casa, usar vestimentas ricas ou comer alimentos delicados, e mora no deserto, pode, não obstante, estar muito ligado. Sua única posse, seu corpo, pode ser tudo para ele, e enquanto viver estará lutando por amor ao seu próprio corpo. O desligar-se não é ação que possamos cumprir com o corpo físico, porém com a mente. A cadeia que nos escraviza ao “eu e ao meu” está na mente. Se nosso corpo e nossos sentidos estiverem desligados, seremos livres em qualquer parte em que nos encontremos.

Um homem pode ocupar um trono e estar perfeitamente desligado; outro pode vestir farrapos e no entanto estar ligado. Primeiro deveis alcançar este estado de desapego e em seguida trabalhar incessantemente. Karma-Yoga dá o método que nos auxiliará a renunciar toda atração, mesmo que em verdade seja muito difícil.
Eis aqui os dois métodos para se desligar de todo laço. O primeiro é para os ateus. Estes estão entregues às suas próprias forças; atuam mediante a sua vontade própria e os podares de sua mente e discernimento, dizendo: “eu não devo estar ligado”.

Para os crentes, existe outro método, muito mais fácil: abandonam os frutos da ação ao Senhor, trabalhando sem ligar-se aos resultados. Qualquer coisa que vejam, sinta, façam ou ouçam, é para Ele, pois nenhuma ação boa que realizarmos merece alcançar benefícios. Pertencem ao Senhor; portanto, os frutos devem ser d’Ele. Permaneçamos desligados e não esqueçamos que nada mais somos do que servos que obedecem ao Senhor, nosso Amo, e que os motivos que impulsionam Suas ações nos são desconhecidos.

Tudo o que adorardes, tudo o que fizerdes, cedei-o ao Senhor e ficai em paz. Estejamos em paz conosco mesmos e cedamos ao Senhor nosso corpo, nossa mente e tudo mais como um sacrifício. Em vez do sacrifício de verter oblações no fogo, realizai este grande sacrifício dia e noite: o sacrifício do vosso pequeno eu. “Buscando as riquezas deste mundo, Tu foste a única riqueza que encontrei; eu me sacrifico a Ti. Buscando alguém a quem amar, Tu foste o único amado que encontrei; eu me sacrifico a Ti”. 

Repitamos isto dia e noite, e acrescentemos: “nada para mim; não importa se a coisa é boa ou má, ou indiferente, pois tudo sacrifico a Ti”. Renunciemos dia e noite o nosso eu ilusório até que isto se converta num hábito, até que nos penetre no sangue, nos nervos e no cérebro, até que a todo o momento o corpo obedeça a esta ideia de renúncia do eu. Então, mesmo que vos acheis num campo de batalha, vos sentireis livre e em paz.

Karma-Yoga nos ensina que o conceito corrente do dever está em plano inferior; não obstante todos nós devemos cumprir nossos deveres. No entanto, comprovamos que esta concepção do dever é causa frequente de grandes infelicidades. O dever se transforma em uma enfermidade para nós; empurra-nos continuamente para diante. Apodera-se de nós e faz-nos miseráveis. É o veneno da vida humana. Esta ideia de dever é a canícula de um dia de verão que abrasa o mais íntimo da alma humana. Olhai estes pobres escravos do dever. Não lhes sobra tempo nem para fazerem suas orações, nem para se banharem. O dever os absorve continuamente. Vão trabalhar e ali o dever os domina. Voltam para casa, e ali pensam no trabalho do dia seguinte. O dever pesa sobre eles. Vivem como escravos, até que por fim caem nas calçadas e morrem encilhados como se fossem cavalos. É assim que compreendem o dever, quando o único dever é estar-se desligado e agir como ser livre, abandonando as obras a Deus.

Todos os nossos deveres Lhe pertencem. Felizes aqueles que recebem Suas ordens. Servimos enquanto nos cumpre servir; se fazemos bem ou mal, a quem interessa? Se fazemos o bem, não colhemos o fruto; se fazemos o mal, ficamos livres de cuidados. Estai tranquilos. Sede livres e trabalhai. Esta classe de liberdade é muito difícil de se obter. Quão fácil é interpretar a escravidão como um dever: a mórbida atração da carne pela carne! Os homens se esforçam por obter aquilo que lhes apetece. Perguntai-lhes por que o fazem, e vos dirão: “é meu dever”. Porém mentem, pois em realidade se trata da absurda avidez pelo ouro e pela ganância.

Mas, depois de tudo isto, que é o dever? É o impulso da carne, de nossas ligações, e quando temos um laço estabelecido, chamamo-lo dever. Por exemplo: nos países onde não existe o matrimonio, não há deveres entre marido e mulher; os amantes vivem juntos em virtude de suas ligações, e esta classe de vida familiar chega a estabilizar-se no transcurso de algumas gerações até converter-se em dever. É, por assim dizer, uma espécie de enfermidade crônica. Quando as ligações se tornam crônicas, as batizamos com o pomposo nome de dever. Então lhes oferecemos flores, soam os clarins, recitamos alguns versos dos livros sagrados, e geralmente o mundo continua em suas lutas e os homens se roubam uns aos outros em nome deste dever.

O dever é bom quando ponha cobro à brutalidade. Pode ser benéfico para os homens inferiores, incapazes de ter outros ideais; porém, aqueles que desejam ser karma-yogues devem abandonar semelhante conceito do dever. Não há dever para vós nem para mim. Tudo o que derdes ao mundo, dai-o de coração, mas não como um dever. Nem sequer penseis nisso. Não vos obrigueis. Além disso, por que havereis de vos obrigar? Tudo quanto fizerdes a título de obrigação, servirá para atar-vos. Por que deveis ter deveres? Cedei tudo a Deus. Neste forno ardente onde o fogo do dever queima tudo, bebei vosso copo de néctar e sede feliz.

Nós todos cumprimos a Sua vontade, e nada temos que ver com recompensas nem castigos. Se quiserdes recompensa, obtereis igualmente castigo; a única maneira de se livrar do castigo é abandonar a ideia de felicidade, porque as duas se encontram indissoluvelmente unidas. No verso está a felicidade e no reverso a infelicidade. De um lado, a vida, e do outro, a morte. O único modo de transcender a morte é abandonar o amor pela vida. A vida e a morte são a mesma coisa, observada de pontos de vista diferentes.

De maneira igual, a ideia de felicidade sem desdita ou da vida sem morte é muito boa para os escolares, porém o homem inteligente compreende que se trata de uma simples oposição de termos e renuncia a ambas. Não busqueis louvores nem recompensas por vossas ações. Sempre que praticamos uma boa ação, desejamos que nos agradeçam. No momento em que entregamos algum dinheiro para uma obra de caridade, queremos ver nosso nome inscrito nos jornais. O resultado deste desejo é a desgraça. Os maiores homens do mundo desapareceram no anonimato. Os Budas e os Cristos que conhecemos são heróis de segunda categoria, comparados com os grandes homens ignorados. Centenas destes heróis anônimos têm vivido em todos os países trabalhando em silêncio. Em silêncio viveram e em silêncio morreram, e com o decorrer do tempo seus pensamentos se manifestaram como Budas ou Cristos, os únicos que chegam a ser conhecidos por nós.

Os homens de valor não buscam renome nem celebridade. Abandonam suas ideias ao mundo; não pedem nada para si, nem estabelecem escolas ou sistemas que adotem o seu nome. Sua natureza se rebela contra estas coisas. São os verdadeiros sátvicos, ou harmoniosos, que não provocam agitação yogues, que habita numa caverna na Índia. Um dos homens mais assombrosos que já vi perdeu de tal modo a percepção de sua individualidade, que somente o Divino fala no seu interior. Se um animal lhe morde um braço, lhe oferece imediatamente o outro, pois compreende que é a vontade do Senhor. Tudo o que lhe acontece pertence ao Senhor. Nunca aparece aos homens e no entanto é um repositório de amor e de ideias amáveis.

Seguem depois os homens rajásicos ou ativos, naturezas combativas, que tomam as ideias dos perfeitos e as pregam pelo mundo. A classe mais elevada coleciona silenciosamente as ideias nobres e verdadeiras; e outros os Budas e Cristos – vão de lugar em lugar pregando e trabalhando por elas. Na vida de Gautama Buda se nos diz que Ele é o vigésimo quinto Buda. Os vinte e quatro Budas anteriores são desconhecidos para a história, conquanto o Buda que conhecemos deva ter edificado sua doutrina sobre as bases estabelecidas por seus antecessores.

Os homens superiores são tranquilos, silenciosos e anônimos. São os homens que conhecem realmente os poderes do pensamento, sabem que mesmo vivendo numa caverna e só tenham cinco pensamentos em toda a sua vida, esses cinco pensamentos viverão por toda a eternidade. Tais pensamentos perfurarão montanhas e cruzarão os oceanos. Entrarão profundamente no coração e no cérebro dos homens, que lhes darão expressão prática em suas ações na vida. Esses homens sátvicos estão demasiado próximos do Senhor para estar ativos e esforçar-se por fazer o bem, como dizem, sobre a terra. Os obreiros ativos, por bons que sejam, têm ainda um fundo de ignorância. Só quando ainda permanecem algumas impurezas em nossa natureza, é que podemos trabalhar. Em presença de uma Providência constantemente vigilante, que não deixa de se aperceber nem da descida de um pardal, como pode o homem atribuir importância alguma ao seu próprio trabalho? Não seria isto blasfemar, sabendo que Ele cuida de tudo neste mundo? A nós só nos cabe prostrarmos reverentemente ante deles, dizendo: 

Seja feita a Tua vontade”.

Os homens superiores não podem trabalhar porque não têm apego. Aqueles cujas almas já penetraram no Ser, cujos desejos estão confinados ao Ser, que já chegaram a uma associação indissolúvel com o Ser, não atuam. Ao agir deste modo, nunca deveríamos pensar que podemos ajudar nem sequer a menor partícula do universo. Não, não o podemos. Só nos ajudamos a nós mesmos. Tal é a atitude correta que deve assumir aquele que age. Se trabalhamos desta maneira, se temos sempre presente que nossa atual oportunidade de trabalhar é um privilégio que nos foi conferido, nunca ficaremos ligados a coisa alguma.

Milhões de indivíduos como eu se julgam importantes no mundo, porém morremos todos, e ao fim de cinco minutos o mundo já se esqueceu de nós. Porém a vida de Deus é infinita. “Quem pode viver um momento, respirar um momento, se não for pela vontade deste Uno Todo-poderoso?”. Ele é a Providência sempre ativa. Todo poder lhe pertence e está dentro de Sua vontade. Por Sua vontade os ventos sopram, o sol brilha, a terra vive e a morte passeia pelo universo. Ele é o Todo e está em tudo. Nós só podemos adorá-lo. Renunciai os frutos da ação, fazei o bem por amor ao bem, e só então chegareis ao perfeito desapego. Assim se romperão as ligaduras do coração e realizaremos a liberdade perfeita. Esta liberdade é, em verdade, a finalidade de Karma-Yoga.