sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Desapego é a abnegação completa - Swami Vivekananda

Assim como cada ação que de nós emana a nós volta como reação, também nossas ações podem agir sobre outras pessoas e as desta sobre nós. Certamente já tendes reparado que quando as pessoas cometem más ações, tornam-se cada vez mais pervertidas, e que, quando começam a praticar o bem, ficam cada vez mais fortes e aprendem a fazer o bem em qualquer ocasião. Esta intensificação da ação só se explica porque agimos e reagimos uns sobre os outros.

Tomemos um exemplo na física. Enquanto executo uma ação, pode-se dizer que minha mente vibra de determinada maneira, e todas as mentes que estão em circunstâncias análogas serão afetadas por minha mente. Se numa habitação colocamos diferentes instrumentos musicais afinados no mesmo tom, observa- se que, quando se toca um deles, os outros vibram reproduzindo a mesma nota. Do mesmo modo, todas as mentes que têm a mesma tensão, serão afetadas pelo mesmo pensamento.

Supondo que eu cometa um ato mau, minha mente vibra com uma frequência especial e todas as mentes semelhantes podem ser afetadas pela vibração de minha mente. Da mesma forma, quando pratico uma boa ação, minha mente vibra em outra frequência e as que estão em uníssono com a minha têm a possibilidade de ser afetadas por ela. E este poder de uma mente sobre outra variará em proporção à intensidade do pensamento.

Segundo este símile, pode-se dizer que assim como as ondas de luz podem levar milhões de anos antes de alcançar um objeto, assim também as ondas mentais podem viajar centenas de anos antes de encontrar um objeto com o qual vibrem em uníssono. É provável que nossa atmosfera esteja cheia de vibrações mentais boas e más. O pensamento projetado por um cérebro segue vibrando, por assim dizer, até encontrar uma mente devidamente sintonizada que o capte. Da mesma forma, quando um homem comete más ações, induz em sua mente um certo estado vibratório, e as ondas correspondentes pugnarão por alcançá-la. Esta é a razão pela qual um malfeitor se torna cada vez pior. Suas ações se intensificam.

A mesma coisa acontece com as pessoas que praticam ações boas; sua mente capta cada vez mais as boas ondas existentes na atmosfera, e com elas intensifica suas ações boas. Consequentemente, corremos um perigo duplo ao praticarmos o mal. Primeiro, nos abrimos a todas as más influências que nos rodeiam, e segundo, criamos um mal que afetará os outros, talvez daqui a cinquenta anos. Ao fazer o mal, prejudicamos a nós mesmos e aos demais. Ao fazer o bem, beneficiamos a nós mesmos o ao mesmo tempo aos demais. Como todas as outras forças do homem, as do bem e as do mal se acumulam no exterior.

De acordo com a Karma-Yoga, a ação realizada não pode ser destruída enquanto não tiver dado seus frutos; ninguém pode impedir seus resultados. Se eu pratico uma ação má, terei que sofrer por ela; não há nada no universo capaz de evitar ou detê-la. Do mesmo modo, se faço algo de bom, não existe poder no universo que impeça suas boas consequências. A causa deve ter o seu efeito; nada a pode impedir ou minorar. Agora se apresenta uma questão muito sutil, referente a Karma-Yoga: é que nossas ações, boas ou más, estão Intimamente relacionadas umas com as outras. Não podemos traçar uma linha demarcatória e dizer: esta é inteiramente boa e aquela má. Não existe ação que não produza bons e maus frutos ao mesmo tempo.

Tomemos um exemplo mais próximo. Eu vos falo: alguns de vós pensam que estou fazendo bem e que ao mesmo tempo mato centenas de micróbios na atmosfera; logo faço mal a outros. Quando a ação nos interessa muito de perto ou afeta gratamente a quem conhecemos, dizemos que é boa. Por exemplo: minha conversação poderá parecer muito agradável para vós, porém os micróbios opinarão de maneira diferente. Não vedes os micróbios, porém vedes a vós mesmos. A maneira como minha conversação vos afeta se torna evidente para vós, porém não a maneira como ela afeta os micróbios. Do mesmo modo, se analisarmos nossas más ações, veremos também que elas têm podido produzir algum bem. Aquele que na boa ação descobre o segredo da ação e em meio do mal algum bem, conheceu o segredo da ação.

Mas, que resulta de tudo isto? Pois não pode existir nenhuma ação inteiramente pura nem perfeitamente impura no sentido de fazer o bem ou mal. Não podemos respirar nem viver sem causar mal aos outros, e cada partícula de alimento que comemos tiramo-la da boca de um terceiro. Nossas próprias vidas destroem micróbios, porém nós temos que crescer às custas de uns e de outros. Disto se deduz que a perfeição jamais será alcançada pela ação. Mesmo que atuemos durante toda a eternidade, não conseguiremos sair deste intrincado emaranhado; podeis agir sem cessar; não existirá fim para esta inevitável associação de bem e de mal no resultado da ação.

Consideremos o segundo ponto: qual é o fim da ação? Observamos que a maior parte das pessoas crê que chegará uma época em que o mundo será perfeito; que não existirão mais enfermidades, desgraças e maldades. Esta ideia é muito boa para animar e entusiasmar os ignorantes, porém, se pensarmos um momento, veremos que não pode ser assim. Acaso o bem e o mal não são o verso e o reverso de uma mesma moeda? Como pode existir bem sem mal ou mal sem bem? Que entendemos por perfeição? A vida perfeita cairia numa contradição.

A vida é uma luta contínua entre nós mesmos e o exterior. Continuamente nos encontramos lutando com a natureza externa, e se somos vencidos, nossa vida sucumbe. Por exemplo, lutamos por alimento e ar. Se qualquer destas coisas nos faltarem, morreremos. A vida não é uma coisa amável que se desliza suavemente, e sim, um esforço contínuo. Esta luta complexa entre o interior e o exterior é o que chamamos vida. É, pois, evidente que quando cessar esta luta, terminará também a vida.

O que se entende por felicidade ideal, é a cessação da luta. Mas então a vida terminou, porque a luta só se acaba quando a vida termina. Temos visto que ajudando o mundo, ajudamos a nós mesmos. O efeito principal de nossa ação em benefício alheio é ela purificarmos a nós mesmos. Esforçando-nos constantemente em fazer o bem aos outros, conseguimos esquecermos de nós mesmos; este esquecimento do eu é a grande lição que nos falta aprender. O homem pensa nesciamente que pode achar a felicidade, porém depois de muitos anos de luta descobre que a verdadeira felicidade consiste em matar o egoísmo, e que ninguém, exceto ele, pode fazê-lo feliz.

Cada ato de caridade, cada pensamento de simpatia, cada ação boa reduz nossa vaidade e fez com que nos consideremos insignificantes; portanto, tudo é bom. Aqui achamos que JNANA, BHAKTI e KARMA convergem para o mesmo ponto. O ideal mais elevado é a eterna e total abnegação: esquecer o “eu” para não pensar mais do que no “tu”. Quer seja o homem consciente ou inconsciente disto, karma-yoga o leva até o fim. Um sacerdote poderá espantar-se da ideia de um Deus impessoal, insistirá sobre o pessoal e sustentará sua identidade e individualidade própria. Porém sua ética, se é realmente boa, só pode estar baseada na mais elevada abnegação. Esta é a base de toda a moral; podeis torná-la extensiva a todos os homens, animais, ou anjos, porém é a única ideia básica, o único princípio fundamental que nos sustenta todo sistema de moral.

Encontrareis várias espécies de homens neste mundo. Primeiro existem os homens divinos, cuja abnegação é completa; esses fazem o bem aos outros, mesmo à custa do sacrifício de suas vidas. Se existissem cem homens desses em alguns países, tais países nunca teriam motivos para se afligir; porém, infelizmente, eles são muito poucos, Em seguida, existem os homens bons, que fazem bem aos outros mas desde que não se prejudiquem a si mesmos; e uma terceira classe: os que para o bem de si mesmos prejudicam os demais. Um poeta sânscrito disse que existe uma quarta classe de pessoas que fazem o mal só pelo prazer de fazê-lo. Assim também encontramos, de outro lado, o homem mais elevado que faz o bem só por amor ao bem.

Existem duas palavras sânscritas: pravritti que significa “atrair”, e nivritti, “repelir”. Atrair é o que chamamos o “eu” e “meu”; inclui as coisas que enriquecem o “eu” com posição, dinheiro, poder, fama e nome. Este é o pravritti, a tendência natural de cada ser humano: tomar tudo de toda as partes e amontoá-lo, ao redor de um centro, sendo este o próprio e importantíssimo eu do homem. Quando esta tendência começa a declinar, quando se converte em nivritti, “repelir”, então começam a moralidade e a religião. Tanto pravritti como nivritti são resultantes da ação; a primeira é má, a segunda é boa. Nivritti é a base fundamental de toda moralidade e religião, e sua perfeição absoluta consiste em estar sempre disposto a sacrificar a mente, o corpo e tudo mais por nosso semelhante.

Quando um homem alcança este estado, chega à perfeição da Karma-Yoga. Este é o mais elevado resultado das boas ações. Mesmo que o homem não tenha estudado nenhum sistema de filosofia, não tenha acreditado nem creia em Deus e não tenha orado uma só vez em toda a sua vida, se o simples poder das boas ações o levarem a um estado em que esteja disposto a dar a sua vida pelos seus semelhantes, encontrar-se-á no mesmo ponto do homem religioso ou do filósofo. Então vereis que o filósofo religioso ou o homem. de ação estão todos no mesmo ponto, e que este ponto é a abnegação.

Por muito que se diferenciem os sistemas filosóficos e religiosos, os homens se inclinam com reverência e respeito ante o que está pronto a se sacrificar pelos demais. Já não se trata de credo nem doutrinas. Os grandes inimigos das ideias religiosas se inclinam ante um ato de completa abnegação. Não vistes que até o cristão mais fanático, quando lê a Luz da Ásia, de Edwin Arnold, sente veneração pelo Buda que não pregou Deus algum, e somente o auto sacrifício? O que acontece é que o fanático ignora que suas aspirações na vida coincidem plenamente com as daqueles a quem critica. O devoto, mantendo seu pensamento sempre fixo em Deus, chega ao mesmo ponto e exclama: “Faça-se a Tua vontade”, sem reservar nada para si mesmo. Isto é abnegação. O filósofo, com seu conhecimento, compreende que o eu é uma ilusão e o abandona facilmente; isto é abnegação. Deste modo, karma, bhakti e jnana se reúnem num ponto só; e isto foi ensinado pelos pregadores antigos quando afirmavam. que Deus não é o mundo. Uma coisa é o mundo e outra é Deus; o que eles entendem por mundo é egoísmo. O altruísmo é Deus. Alguém pode viver num trono ou palácio de ouro e ser perfeitamente altruísta, e por isto estará em Deus. Outro pode viver numa cabana, vestir farrapos, e no entanto, se é egoísta, estará intensamente submerso no mundo.

Dissemos que não podemos fazer o bem sem ao mesmo tempo praticar o mal, nem fazer o mal sem ao mesmo ter que realizar algum bem. Em vista disto, como podemos agir? Existiram seitas que de um modo fantástico pregaram o suicídio como único meio de se libertar do mundo; porque, se um homem vive, tem que forçosamente matar pobres animais e plantas, e fazer o mal a algo ou alguém. Por conseguinte, segundo eles, a única maneira de se livrar do mundo é morrer. Os jainistas aprenderam esta doutrina como o ideal mais elevado. Este ensinamento parece lógico; porém a verdadeira solução se encontra no Bhagavad-Gita. É a teoria de não se ligar, de não apegar-se a nada, mesmo cumprindo-se o dever na vida.

Compreendei que vos achais completamente separado do mundo, embora vivais nele, e qualquer coisa que fizerdes não a façais por amor a vós mesmo. Os efeitos de toda ação que realizardes em vosso proveito, terão que pesar sobre vós mesmos. Se é boa, recebereis o bom resultado; se é má, o mau. Mas, qualquer ato que não seja praticado em vosso exclusivo benefício, seja qual for, não terá efeito sobre vós. Há uma sentença muito expressiva em nossas escrituras, que esclarece esta ideia: “Mesmo que ele mate todo o universo e a si mesmo, não é o matador nem o morto, quando sabe que ele não age por si mesmo de nenhuma maneira. Portanto, Karma-Yoga ensina: “Não abandones o mundo; vive nele, assimila suas influências de toda forma que puderes, porém se tiver que ser em proveito de teu gozo próprio, não atues de maneira alguma”.

Gozar não é a meta. Primeiro mata teu eu e em seguida considera todo mundo como se fosses tu mesmo, como os antigos cristãos que costumavam dizer: “O homem velho deve morrer”. Este homem velho é o conceito egoísta de que todo o mundo foi feito para que dele desfrutemos. Os pais néscios ensinam seus filhos a orar: “Oh! Senhor. Tu criaste este sol e esta lua para mim”, como se o Senhor não tivesse outra coisa em que se entreter. Não ensineis a vossos filhos semelhante tolice. Além disso, há pessoas que pecam por outras razões: ensinamos que os animais foram criados para satisfação de nosso estômago e que o universo existe só para gozo do homem. Do mesmo modo, um tigre poderia dizer: “O homem foi criado para mim”, e orar: “Oh! Senhor, que malvados são os homens, ao não se colocarem voluntariamente ao alcance de minhas mandíbulas; estão violando Vossa Lei”. Se é para nós que o mundo foi criado, nós, reciprocamente, fomos criados para ele. Que o mundo haja sido criado para o nosso prazer é a ideia mais perversa de quantas nos podem escravizar. Milhões de seres abandonam periodicamente este mundo, e outros milhões vêm ocupar o seu lugar. O mundo é para nós o que nós somos para ele.

Para agir com retidão, temos que abandonar primeiramente a ideia de apego. Em segundo lugar, não devemos interferir nos acontecimentos, e sim, manter-nos em posição de testemunhas e continuar trabalhando. Meu Mestre costumava dizer: “Considerai vossos próprios filhos como o faz a ama”. A ama se encarrega de vossos filhos, acaricia-os e brinca com eles, tratando-os tão ternamente como se fossem seus; porém logo que a despedis, preparará sua roupa e sairá da casa sem que se recorde de vossos filhos. Assim deveis ser vós com tudo quanto considerais como vosso. Sois a ama, e se credes em Deus, crede também que todas estas coisas que considerais vossas são realmente Suas.

A maior debilidade se insinua às vezes como o maior bem e força. É um erro pensar que alguém dependa de mim ou que possa fazer o bem a outrem. Esta crença é a causa de nosso apego, e do apego surge a dor. Alimentemos a convicção de que nada depende de nós. Todos somos ajudados pela natureza, e mesmo que faltassem milhões de nós, tudo correria da mesma forma. O curso da natureza não será alterado por vós nem por mim; porém, como já foi dito, é um grande privilégio para vós e para mim que se nos permita ajudar os outros, para nos educarmos a nós mesmos. Esta lição devemos aprender a todo transe, e quando a tivermos aprendido, nunca. mais seremos infelizes; poderemos ir a qualquer parte e nos misturarmos na sociedade sem perigo. Podeis ter regimentos de serviçais e ainda reinos para governar, contanto que procedais baseando-vos no princípio de que o mundo não é para vós nem ele vos necessita imprescindivelmente. Por exemplo, morre um vosso amigo; deteve-se por isso o mundo, e espera o regresso de vosso amigo para continuar sua marcha? Não; continua girando. Tirai de vossa mente a ideia de que tendes de fazer algo pelo mundo, pois ele não precisa de vosso auxílio. É uma tolice pensar que se nasceu para ajudar o mundo; há nisso muita vaidade e egoísmo cobrindo-se com a máscara da virtude. Quando tiverdes compreendido que o mundo não depende de vós nem de ninguém, vossa ação já não produzirá uma reação dolorosa. Quando derdes algo a um homem e não esperardes nada dele, nem mesmo a gratidão, sua ingratidão em nada vos afetará.

O karma é quem regula as ações entre os seres humanos. Ninguém dá nada, senão que os outros nos exigem a propriedade que tinham depositado em nossas mãos. Por que deveis estar orgulhosos por terdes dado algo? Sois apenas o depositário do dinheiro ou dos bens que vos foram confiados, e o mundo os exige por seu próprio karma. Qual é, pois, a razão de vos orgulhardes? Não há nada de importante no que dais ao mundo. Quando adquirirdes o sentimento do desapego, nada será bom nem mau para vós. Só o egoísmo produz a diferença entre o bem e o mal. É coisa difícil, porém, com o tempo chegareis a compreender que nada no universo tem poder sobre vós, a menos que o permitais. Nada tem poder sobre o Eu do homem, a não ser que o Eu abdique de sua independência. Assim, não vos ligando mas sobrepondo-vos impedis que qualquer poder possa influir sobre vós. É muito fácil dizer que nada vos afeta, porém, qual é o homem a quem nada afeta? A quem a má fortuna não altera o ritmo de seus pensamentos nem modifica seu caráter e costumes?

Houve na Índia um grande sábio chamado Vyasa; foi conhecido como autor dos aforismos vedantinos e como um santo. Seu pai pensou em chegar à perfeição mas fracassou. Seu avô também não conseguiu êxito. Sua bisavó intentou sem o conseguir. Vyasa mesmo não a alcançou de maneira perfeita, porém seu filho Shuka nasceu perfeito. Depois de ensinar-lhe a verdade, Vyasa mandou seu filho à corte do rei Janaka Videka. (Videka significa “sem corpo”). 

Embora rei, tinha esquecido completamente que era um corpo, pois o sentia o espírito. O rei soube que o filho de Vyasa estava a caminho para aprender com ele a sabedoria e fez certos preparativos antecipadamente. Quando o menino se apresentou às portas do palácio, os guardas não fizeram caso dele. Unicamente lhe indicaram um assento e aí ele permaneceu três dias e três noites sem que ninguém lhe desse uma palavra. Filho de um grande sábio, seu pai era honrado por todo o país, e ele mesmo era uma pessoa muito respeitável; no entanto, os grosseiros e vulgares guardas do palácio não lhe deram atenção. Em seguida, e de maneira imprevista, os ministros do rei e altos dignitários chegaram-se a ele e o receberam com as maiores honras. O rosto sereno de Shuka não se alterou em nada pelo tratamento que lhe dispensaram; era em meio do luxo o mesmo que quando aguardava à porta. Então foi levado ante o rei. Estava este sentado no trono, e havia música e danças e outras diversões. O rei lhe deu um copo de leite, cheio até a borda, e lhe pediu que desse sete voltas ao redor da sala sem que derramasse uma só gota. O menino pegou o copo e fez o que lhe fora ordenado. Tal como o rei o desejou, sete vezes deu a volta, em meio da música e da atração dos formosos rostos sem derramar uma só gota. A mente do jovem não podia ser distraída por coisa alguma, a menos que ele quisesse. E quando levou o copo ao rei, este lhe disse: “Só poderia eu repetir-vos o que vosso pai vos ensinou e aprendestes; conheceis a verdade: voltai para casa.

Assim, o homem que exerce controle sobre si mesmo não pode ser escravo de nenhuma coisa externa. Sua mente está liberta; unicamente um homem assim está para viver apropriadamente no mundo. Geralmente se encontram nos homens duas opiniões acerca do mundo. Os pessimistas dizem: “Que horrível é este mundo; que perverso!” Os otimistas, ao, contrário: “Quão belo e maravilhoso!” 

Para os que não controlam suas mentes, o mundo é mau. Este mesmo mundo será bom para nós, desde que sejamos donos de nossas mentes. Então nada poderá afetar-nos, nem seu mal; acharemos que tudo ocupa seu lugar adequado, que tudo é harmonioso. Alguns que começam por dizer que o mundo é um inferno, terminam por julgá-lo um céu quando conseguem controlar suas mentes. Se somos verdadeiramente karma-yogues e desejamos alcançar o autodomínio, onde quer que comecemos estaremos certos de terminar na perfeita abnegação; e logo que este eu ilusório tenha desaparecido, o mundo, que a princípio nos parecia mau, se transformará no próprio céu. Sua mesma atmosfera será bendita; cada rosto humano nos parecerá bom. Tal é o fim e aspiração do Karma-Yoga e tal sua perfeição na vida prática.

As yogas não se contradizem; cada um deles nos conduz ao mesmo fim e nos torna perfeitos; só que devem ser rigorosamente praticados. Todo o segredo se encontra na prática. Primeiro deveis ouvir, em seguida pensar e depois agir. Isto é certo em Karma-Yoga. Primeiro tendes que compreender o que é; muitas coisas que não compreendeis, se tornarão claras ao escutardes e pensardes nelas frequentemente. A explicação de tudo esta finalmente em vós mesmo. Ninguém foi realmente educado por outro; cada qual tem que se educar a si mesmo. O mestre externo só oferece as sugestões que despertem o mestre interno e o ponham em situação de compreender as coisas. Estas então se nos apresentam claras, por nosso próprio poder de percepção e pensamento, e as realizaremos em nossa própria alma; e esta realização, ao desenvolver-se, se converterá num intenso poder de vontade. Primeiro temos o sentimento, depois o querer e por último a vontade (essa tremenda força que correrá em cada veia, nervo e músculo, até que todo o conjunto de vosso corpo se transforme num instrumento de altruísta yoga de ação).

Esta aquisição não depende de nenhum dogma ou crença. Não importa que se seja judeu, cristão ou gentio. Sois altruísta? Esta é a questão. Se o sois, sereis perfeito sem ler um só livro religioso nem entrar numa só igreja ou templo. Cada uma de nossas yogas está apta a tornar o homem perfeito, mesmo sem auxílio dos outros, porque todos chegam ao mesmo fim. As yogas da ação, sabedoria e devoção podem servir como meios diretos e independentes para a aquisição de “moksha”. “Só os néscios dizem que o trabalho e a filosofia são diferentes”. Para os sábios, ainda que pareçam diferentes, ambos conduzem à meta da perfeição humana.