segunda-feira, 21 de novembro de 2011

O Que é o Dever? - Swami Vivekananda

No estudo de Karma-Yoga é preciso saber o que é o dever. Se devo fazer algo, primeiramente devo conhecer meu dever. A idéia do dever é diferente em cada nação. Os maometanos afirmam que o que está escrito no Corão é seu dever; os hindus o que está nos Vedas, e os cristãos o que está na Bíblia. Vemos, pois, que há diversas ideias sobre o dever, as quais mudam segundo os estados da vida, os períodos históricos e as nações. É impossível definir claramente o termo “dever”, bem como nenhum outro termo abstrato universal; só podemos fazer uma ideia do que ele representa, mediante o conhecimento de seus resultados.

Quando certos acontecimentos ocorrem em nossa presença, experimentamos um impulso natural ou adquirido a agir de certa maneira; quando surge este impulso, a mente reflete sobre a situação; umas vezes pensa que é bom agir de certo modo em certas condições, e outras que é injusto fazê-lo em condições idênticas. O conceito mais universal do dever é que o homem bom deve agir de acordo com a sua consciência. Porém, como se pode atribuir que um ato se converta em dever? Se um cristão encontra um pedaço de carne e não o come para salvar sua própria vida, nem para conservar a de outrem, sem dúvida sentirá que não cumpriu o seu dever. Porém, se um hindu se atreve a comê-la ou dá-la a outrem, com certeza sentirá também que não cumpriu o seu dever.

No século passado teve grande popularidade na Índia um bando de ladrões chamados thugs; acreditavam que seu, dever consistia em matar a todos quantos fossem ricos e tirar-lhes o dinheiro; quanto maior fosse o número de vítimas, tanto mais se estimavam a si mesmos. Porém, geralmente, se um homem sai à rua e mata um semelhante, sente remorso e percebe que praticou um mal; porém, se este mesmo homem como soldado de um regimento, mata não um, mas vinte, com certeza se sente feliz e pensa que cumpriu seu dever. Dar uma definição do dever é, pois, impossível. No entanto, existe o dever em seu aspecto subjetivo.

Qualquer ação que nos aproxime de Deus, é boa e representa nosso dever; qualquer outra que nos afaste de Deus, é má e não representa nosso dever. Do ponto de vista subjetivo, vemos que certos atos têm tendência a exaltarmos e enobrecer-nos, enquanto que outros tendem a nos degradar e embrutecer. Mas não é possível estabelecer com certeza o resultado que determinados atos terão nas pessoas. Há, no entanto, um conceito do dever que foi universalmente aceito, em todas as idades, seitas e países, e que está sintetizado neste aforismo sânscrito: “Não façais mal a nenhum ser. Não fazer mal a ninguém é virtude; fazer mal a alguém é pecado”.

O Bhagavad-Gita alude frequentemente aos deveres que dependem do nascimento e da posição social. O nascimento, a posição na vida e na sociedade determinam, em grande parte, a atitude moral e mental dos indivíduos e as suas diversas atividades na vida. Portanto, nosso dever é praticar a ação que nos exalte e enobreça de acordo com as atividades e ideias da sociedade na qual nascemos. Devemos, porém, recordar muito particularmente que os mesmos ideais e atividades não prevalecem em todas as sociedades e países; a ignorância deste preceito é a causa principal dos ódios entre nações. O americano pensa que quando realiza um acordo segundo os costumes de seu país, este é o melhor, e quem não agir da mesma forma, é malvado. O hindu crê que seus costumes são os melhores do mundo e quem os não pratica são perversos para os seres humanos. Este erro é muito comum, porém é muito prejudicial, porque é causa da metade dos egoísmos existentes no mundo.

Quando visitei a exposição de Chicago, alguém me tirou o turbante. Olhei e vi que se tratava de um homem muito bem vestido e de boa aparência. Falei-lhe, e como o fiz em inglês, ficou envergonhado. Noutra ocasião, achando-me no mesmo local, alguém me deu um empurrão. Quando lhe perguntei porque fazia isto, me disse envergonhado: “Por que vos vestis desta maneira?” As simpatias dos dois homens estavam limitadas à sua maneira de falar e de vestir. A opressão que as nações poderosas exercem sobre as mais débeis, é causada por este princípio: falta de fraternidade. O homem que me perguntou por que não me vestia como ele e o que me maltratou por causa do meu traje, talvez fossem bons, excelentes pais e corretos cidadãos; porém, sua bondade desapareceu diante de um homem vestido de maneira diferente. Os estrangeiros são explorados em todos os países porque não sabem como se defenderem; por isso levam à sua terra falsas impressões dos povos que visitaram. Os maridos, soldados e comerciantes se comportam de modo diferente; talvez por isto os chineses chamem aos europeus e americanos “diabos estrangeiros”. Não diriam assim se conhecessem o lado bom e generoso dos ocidentais.

Por conseguinte, devemos sempre nos habituar a observar o dever dos demais segundo o seu ponto de vista e não julgar os costumes do outros povos de acordo com os nossos usos. Devo acomodar-me ao mundo e não ele a mim. Assim, vemos que o ambiente corrige a índole de nossos deveres e o melhor que temos a fazer no mundo é cumprir nossos deveres a todo o momento.

Cumpramos primeiramente nossos deveres naturais, e assim cumpriremos o dever correspondente à nossa posição social na vida. Existe, no entanto, um mal considerável na natureza humana. É que ninguém se observa a si mesmo. Crê ser sempre digno de ocupar um trono como o próprio rei; no entanto, mesmo que saiba cumprir primeiro os deveres de sua posição, outros lhe advirão mais elevados.

Quando trabalhamos com entusiasmo, a natureza nos recompensa de toda a forma e logo nos coloca na posição apropriada. Nenhum homem pode ocupar por muito tempo a posição à qual não está adaptado. De nada serve queixar-se e indispor-se com a natureza. Quem executa uma tarefa inferior, nem por isto é um homem inferior. Ninguém deve ser julgado pela natureza de seus deveres, e sim pela maneira e espírito com que os executa.

Mais tarde constataremos que a ideia de dever sofre mudanças e que a obra maior só se cumpre quando não existe nenhum motivo egoísta. No entanto, a obra realizada com um dever é a que nos faz atuar independentemente da ideia de dever. Quando a obra se converte em culto, a realizamos por amor a ela mesma. Diremos que a teoria do dever é idêntica nas outras yogas, sendo seu objetivo a atenuação do eu inferior para que o Eu superior possa brilhar; isto é, diminuir a perda de energias no mundo inferior de existência para que a alma possa manifestar-se em planos mais elevados. Isto se alcança pelo cumprimento do dever, que é a causa da perda dos desejos inferiores. A organização social vem se desenvolvendo desta forma, consciente ou inconscientemente, no campo da ação e experiência, onde, pela limitação do egoísmo, damos lugar a uma ilimitada expansão da verdadeira natureza do homem.

O dever raras vezes é agradável; só quando o amor o impulsiona consegue evitar os atritos. Se assim não fosse, como poderiam os pais cumprir os deveres para com seus filhos? Os esposos para com suas esposas e vice-versa? Não vemos diariamente como os seres se desentendem? O dever é agradável se realizado com amor, porém o amor não brilha em todo o seu esplendor quando se tira a sua liberdade de expressão. É livre aquele que é escravo dos sentidos, da cólera, dos ciúmes e de inumeráveis erros que ocorrem na vida humana? Em todas as asperezas que encontramos na vida, a mais alta expressão de liberdade consiste em suportá-las com paciência. 

As mulheres escravas de seus próprios temperamentos, irritáveis e ciumentas, estão propensas a culpar os seus maridos, e a afirmar sua “liberdade” tal como elas a entendem, ignorando que de tal modo provam ser escravas.

A castidade é a primeira virtude do homem e da mulher, e é muito raro o homem que, por extraviado que esteja, não seja atraído por uma terna e casta esposa. O mundo não é, apesar de tudo, tão mau como parece. Muito se fala de maridos brutais e de impureza dos homens, porém, não é certo que existe o mesmo número de mulheres brutais e impuras? Se as mulheres fossem tão boas e puras como o são as suas frequentes afirmações, seguramente não haveria no mundo um só homem impuro. Que brutalidade existe que não possa ser conquistada pela castidade e pureza? Uma boa e casta esposa para quem todos os homens, exceto seu esposo, são como filhos, e que assume para todos eles uma atitude de mãe, se tornará tão grande no poder de sua pureza que não haverá um só homem, por brutal que seja, que não sinta uma atmosfera de santidade em sua presença. Do mesmo modo, cada homem deve olhar todas as mulheres, exceto a sua, como olharia sua própria mãe, filha ou irmã. De outro lado, o honrem que ministre religião deve considerar todas as mulheres como se fossem sua própria mãe, e portar-se diante delas como um filho.

A posição da mãe é: a mais elevada do mundo, pois é o único posto onde podemos aprender e praticar o altruísmo. O amor a Deus é o único que supera o amor de mãe; todos os demais são inferiores. O dever da mãe é pensar primeiro em seus filhos e depois em si mesma. Mas, se os pais pensam primeiramente em si mesmos, o resultado será que entre pais e filhos se estabelece a mesma relação que entre os pássaros e sua descendência, os quais logo que podem voar, desconhecem os pais.

Bendito, em verdade, é o homem que pode olhar todas as mulheres como a representação da maternidade de Deus. Benditas, em verdade, as mulheres para as quais os homens representam a paternidade de Deus. Benditos os filhos que consideram seus pais como a Divindade manifestada na terra.

A única maneira do homem progredir é cumprir os deveres com os mais próximos, e deste modo ir acumulando forças para poder ir mais alto. Um jovem sannyasin foi a um bosque; ali meditou, adorou e praticou yoga por muito tempo. Depois de alguns anos de rude trabalho, achando-se um dia sentado sob uma árvore, caíram sobre sua cabeça umas folhas secas. Olhou para cima e avistou um corvo e uma gralha que discutiam no alto da árvore. Muito contrariado, lhes disse: “Como vos atreveis a atirar estas folhas secas sobre a minha cabeça?, e como ao pronunciar estas palavras os olhou colérico, de sua cabeça saiu um raio de fogo que converteu os pássaros em cinza. Sentiu-se então muito feliz pelo desenvolvimento desse poder; podia fulminar um corvo e uma gralha só com um olhar. Passado algum tempo, precisou ir à cidade mendigar pão. Chegou à porta de uma casa e disse: “Mãe, dá-me de comer?” Ao que respondeu uma voz: “Espera um pouco, filho meu”. O jovem pensou: “Desgraçada mulher, como vos atreveis a fazer- me esperar? Ainda não conheceis meu poder”. Enquanto pensava isto, ouviu-se de novo a voz que dizia: “Menino, não vos envaideçais tanto, pois aqui não há corvos nem gralhas”.

O sannyasin, todo assombrado, ficou esperando. Por fim, apareceu uma mulher, e ele, caindo a seus pés, lhe disse: “Mãe, como sabias isto?” E ela respondeu: “Filho meu, eu não conheço vossa yoga nem vossas práticas. Sou uma mulher vulgar. Filo esperar porque meu marido está doente e o estava atendendo. Toda a minha vida me esforcei por cumprir meu dever. Quando era solteira, cumpria meus deveres para com os meus pais; agora, que sou casada, cumpro meus deveres como esposa; esta é toda a yoga que pratico. Todavia, cumprindo o meu dever, cheguei a ser iluminada; por isto posso ler vossos pensamentos e saber o que haveis feito no bosque. 

Se quereis saber algo de mais elevado, ide ao mercado da cidade e ali encontrareis um vyadha, que vos ensinará algo que devereis saber”. O sannyasin pensou: “Para que hei de ir a esta cidade para ver um vyadha?” Mas depois resolveu ir. Quando chegou à cidade, encontrou um mercado a certa distância e viu um carniceiro grande e gordo que cortava a carne com uma enorme faca, falando e comerciando com várias pessoas. O jovem disse: “Valha-me, Senhor. É este o homem de quem tenho de aprender? Parece a encarnação do demônio”.

O homem o olhou e disse: “Olá, swami! Fostes mandado aqui por aquela senhora? Sentai-vos um pouco até que eu termine minhas obrigações”. O sannyasin pensou: “O que irá me acontecer?” Sentou-se. O homem continuou seu trabalho, e uma vez terminado, pegou o dinheiro e disse ao sannyasin: “Vinde, Senhor; vinde à minha casa”. Quando chegaram, ele lhe ofereceu um assento e lhe disse: “Esperai-me aqui”, e foi para o interior da casa. Aí, lavou seus velhos pais, deu-lhes de comer e fez tudo quanto foi possível por agradá-los, depois do que se voltou para o sannyasin e perguntou: “Que posso eu fazer por vós?” O sannyasin lhe fez algumas perguntas relativas à alma e a Deus, e o vyadha lhe deu para ler um fragmento do Mahabarata chamado o Vyadha Gita, que contém um dos mais belos ensinos da Vedanta. Quando o vyadha terminou seu ensinamento, o sannyasin ficou assombrado. 

Então lhe perguntou: “Com um conhecimento como o vosso, como é que estais no corpo de um vyadha cumprindo tão horrível trabalho?” “Filho meu”, replicou o vyadha, “nenhum dever é feio, nenhum impuro. Meu nascimento me colocou neste ambiente. Em minha infância aprendi o comércio; estou desligado e trato de cumprir o meu dever. Procuro cumpri-lo como chefe de família, e também fazendo todo o possível por tornar felizes meus pais. Não conheço vossa yoga, nem sou sannyasin, nem abandono o mundo para ir aos bosques; no entanto, tudo o que tendes visto e ouvido, é o que recebo, por cumprir desligadamente o meu dever; é o que corresponde à minha posição”.

Conheço na Índia um Sábio, um grande yogue, um dos homens mais assombrosos que vi em minha vida. É original; não ensina ninguém; se lhe fazeis uma pergunta, não responde, pois não quer assumir a atitude de mestre; porém, se esperais alguns dias, no curso de uma conversação fará que esta recaia sobre o assunto e projetará sobre ela uma luz maravilhosa. Comunicou-me uma vez o segredo da ação: “Que o fim e os meios se associam”. Quando fizerdes qualquer trabalho, não penseis em outra coisa. Leva-lo ao fim, como um ato de adoração, como se cumprísseis o mais elevado culto, e concentrai nele toda vossa vida.

Assim, no conto que acabo de referir, o vyadha e a mulher cumpriram seu dever com alegria e boa vontade, resultando da a conquista da iluminação. Isto demonstra claramente que a reta execução dos deveres em qualquer esfera da vida, sem pensar nos resultados, conduz à mais alta realização da perfeição da alma.

O trabalhador que se liga aos resultados é o que se queixa da natureza do dever que lhes coube pelo destino. Para o trabalhador desligado, todos os deveres são igualmente bons e constituem eficazes instrumentos para destruir o egoísmo e a sensualidade, e também para assegurar a independência da alma. É comum superestimarmos nossos méritos. Nosso deveres são proporção muito maior do que estamos dispostos a confessar. A competição desperta a inveja e mata a vontade. Para os descontentes, os deveres se tornam desagradáveis; nada os satisfaz e sua vida redunda num fracasso. Continuemos trabalhando, cumprindo o nosso dever, à medida que vamos avançando, e então, com segurança, conseguiremos ver a Luz!