sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Cada um é grande em seu próprio meio - Swami Vivekananda

Segundo a filosofia sânkya, a natureza se manifesta mediante três forças ou modalidades, chamadas em sânscrito satwa, rajas e tamas. Estas forças são no mundo físico o que podemos chamar equilíbrio, atividade e inércia. O que caracteriza tamas, é a obscuridade ou inércia; rajas é atividade expressa como atração e repulsão, e satwa é o equilíbrio das duas.

Em cada homem existem três forças. Algumas vezes predomina tamas; então nos tornamos preguiçosos, inativos; achamo-nos escravizados por certas ideias e nos sentimos pesados. Outras vezes prevalece a atividade, e outras, enfim, este repousado equilíbrio de ambas. Porém, nos homens comuns predomina sempre uma destas forças. A característica de certos homens é a inatividade, a preguiça; a de outros, a atividade, o poder, a energia; e em outros encontramos a doçura, a calma e a nobreza, resultantes do equilíbrio entre a ação e a inação. Tanto nos animais como nas plantas e nos homens encontramos as manifestações mais ou menos típicas destas diferentes forças.

Karma-Yoga trata especialmente destes três fatores. Ensinando o que são e como empregá-los, auxilia-nos a realizar melhor nossas ações e com maior satisfação. A sociedade humana é uma organização hierárquica. Todos sabemos o que é moralidade; ninguém ignora o que é dever; não obstante, é fácil comprovar que sua interpretação difere em cada país. O que é moral em um pode não o ser no outro. Por exemplo: num país os primos podem casar-se e noutros este fato é imoral. O mesmo se pode dizer entre cunhados. Em certos países as pessoas podem casar-se uma só vez, e em outros, muitas vezes, e assim sucessivamente. No entanto, deve haver uma regra fixa, universal, de moralidade.

O mesmo acontece relativamente ao dever. A ideia de dever varia muito entre as diferentes nações; porém temos intuição de que deve existir alguma ideia universal do dever. Do mesmo modo, uma certa classe da sociedade supõe que certas coisas constituem o seu dever enquanto que outra classe crê o contrário, e se horroriza se os tivesse que fazer. Aparecem dois caminhos: o do ignorante que pensa existir uma única senda que conduz à verdade, e o do sábio que, de acordo com a nossa constituição mental ou dos distintos planos da existência em que nos encontramos, supõe que a moral e o dever têm de variar. O importante está em saber que há graduações no dever e na moralidade; que o dever de um estado de vida em certas circunstâncias não pode ser o de outro.

Daremos um exemplo: Todos os grandes mestres nos ensinaram que não devemos oferecer resistência ao mal, que a não-resistência é o mais elevado dever de moralidade. Todos sabemos que se certo número de pessoas tentasse por em prática esta máxima, o edifício social cairia em pedaços, os malvados tomariam posse de nossas propriedades e de nossas vidas, e fariam conosco o que desejassem. Bastaria que esta não-resistência fosse, praticada um só dia, para haver um desastre. No entanto, reconhecemos a verdade contida no ensinamento de “não resistir ao mal”.

Isto nos parece o mais elevado dos ideais; porém, ensinar esta doutrina equivaleria a condenar grande parte do gênero humano. Mais ainda, seria fazer-lhes sentir que estão sempre agindo mas seria causar-lhe escrúpulos de consciência por todos os seus atos. Isto os debilitaria, e esta constante autodefesa-aprovação alimentaria mais vícios do que qualquer outra debilidade. Para o homem que começou a odiar- se, a porta da degeneração está aberta, e o mesmo acontece a uma nação.

Nosso primeiro dever é não nos odiarmos, pois para progredir precisamos primeiro ter fé em nós e em seguida em Deus. Portanto, a única alternativa que nos resta é reconhecer que o dever e a moralidade variam segundo as circunstâncias. Não devemos crer que o homem que resiste ao mal está praticando o mal , pois, segundo as circunstâncias em que se acha colocado, pode até ser este o seu dever.

Lendo o Bhagavad-Gita, muitos de nós ficamos assombrados ao nos deparar no segundo capítulo com Sri Krishna chamando Arjuna de hipócrita e covarde, por se recusar a lutar e resistir. Sendo seus adversários parentes e amigos, disse-lhe Arjuna que a não-resistência era o mais elevado ideal do amor. O ensinamento contido nestas palavras significa que todas as ações possuem dois extremos iguais: o positivo e o negativo.

Quando as vibrações luminosas são muito lentas, não as vemos, da mesma maneira que não as vemos quando são demasiado rápidas. A mesma coisa acontece com o som; quando muito baixo, não o ouvimos, nem quando é muito alto. O mesmo se dá com a resistência e a não-resistência. Um homem não resiste porque é débil e preguiçoso, e portanto não resiste porque não pode agir assim; outro, sabe que pode dar um golpe irresistível se quiser, e no entanto, não só não o dá, como bendiz seu inimigo. O que não resiste por debilidade, peca, e portanto não pode receber nenhum benefício da não-resistência; enquanto que o outro cometeria um pecado se resistisse.

Buda abandonou seu trono e renunciou à sua posição social, o que foi uma verdadeira renúncia; porém não pode haver renúncia no caso de um mendigo que não tem nada a renunciar. Assim, pois, devemos ser sempre muito cuidadosos quando falarmos sobre a não-resistência e o amor ideal. Primeiramente, é necessário sabermos se temos, realmente o poder de resistir ou não. Então, se o temos e renunciamos, estamos realizando um grande ato de amor; porém, se não podemos resistir e estamos nos enganando com a ideia de que somos guiados por motivos dos mais elevado amor, estamos fazendo exatamente o contrário. Arjuna se tornou covarde em presença do poderoso exército que tinha contra si; seu amor o fez esquecer seu dever para com sua pátria e seu rei. Por isto lhe disse Sri Krishna que era um hipócrita: “Falas como um sábio, porém tuas ações te denunciam como um covarde; portanto, levanta-te e luta”.

Esta é a ideia central de Karma-Yoga. Karma-yogue é o homem que compreende que o mais elevado ideal é a não-resistência, e além disso que, esta não-resistência é a mais alta manifestação de Poder, quando realmente se possui; e também que a resistência ao mal é um passo no caminho para alcançar o, poder da não-resistência. Enquanto não tiver alcançado este ideal, o dever do homem é resistir ao mal; deve trabalhar, deve lutar e resistir com toda a força de que seja capaz. Só então, quando tiver obtido o poder de resistir, será uma virtude a não-resistência.

Certa vez encontrei em meu país um homem que anteriormente eu havia conhecido como muito ignorante e estúpido. Não sabia nada nem desejava saber; vivia como um bruto. Perguntou-me o que deveria fazer para conhecer a Deus; o que faria para ser livre. “Podeis dizer uma mentira?”, perguntei-lhe. “Não”, respondeu-me. “Então deveis aprender à dize-la. É melhor dizer uma mentira do que ser um bruto ou um pedaço de madeira. Sois inativo. Porque, com certeza, ainda não alcançastes o mais elevado estado, aquele que está além de todas as ações, o estado de serenidade e calma; sois demasiado torpe para fazer o mal”. Mas, este é um caso extremo, e eu caçoava com ele; o que eu desejava demonstrar é que um homem deve ser ativo para chega, â perfeita calma.

A inatividade deveria ser evitada por todos os meios. Atividade é sinônimo de resistência. Resistir a todos os males mentais e físicos, e quando o tiverdes conseguido, virá a calma. É muito fácil dizer: “Não odeies ninguém, não resistas ao mal”, Porém todos sabemos o que isto significa na prática. Quando nos observam, podemos fazer uma ostentação de não-resistência, porém em nossos corações se encontra o câncer que nos corrói. Não experimentamos a calma que provém da não-resistência, mas compreendemos que seria melhor resistir.

Se ambicionais riquezas, porém ao mesmo tempo sabeis que o mundo considera mau o que desejais, talvez não vos atireis à luta para as conseguirdes mas vossa mente ficará dia e noite atrás do dinheiro. Isto é hipocrisia e não serve de nada. Atira-vos ao mundo e depois de algum tempo, quando tiverdes sofrido e gozado de tudo o que há nele, a renúncia virá, e com ela a calma. Assim, pois, satisfazeis vossos desejos, e logo chegará o momento em que reconhecereis quão pouco valem; porém, antes de terdes realizado esses desejos e passado por essa atividade, é impossível que vos encontreis em estado de completa calma, serenidade e autodomínio.

Estas ideias de serenidade e renúncia têm sido pregadas desde milhares de anos; todos as conhecem desde a infância, e no entanto muito poucos no mundo alcançaram realmente esse estado. Não sei se já vi em minha vida vinte pessoas que gozassem realmente de calma e praticassem a não-resistência; eu que já percorri a metade do mundo!

Cada homem deveria fixar seu próprio ideal e esforçar-se em realizá-lo; esta é a maneira mais segura de progredir do que impondo seus ideais aos outros homens, ideais que jamais conseguirão realizar. Por exemplo, se dermos à criança a tarefa de caminhar vinte milhas, ou ela morre, ou uma apenas entre mil se arrasta até a meta para chegar ao fim, rendida de cansaço. Algo semelhante a isto é o que fazemos geralmente com o mundo. Nem todos os indivíduos de uma sociedade determinada possuem a mesma mentalidade, a mesma capacidade e idêntico poder de fazer as coisas; devem, pois, auxiliar diferentes ideais, e nós não temos o direito de criticar nenhum ideal.

Cada pessoa deve esforçar-se tanto quanto possível para realizar seu próprio ideal. Não é justo que eu seja julgado por vossos métodos, nem os vossos pelos outros. A macieira não deve ser julgada como se fosse um carvalho, nem o carvalho como uma macieira. Para julgar a macieira deveis aplicar o sistema da macieira, e para o carvalho, o seu próprio sistema.

Unidade na variedade é o plano da criação. Por muito que os homens e mulheres sejam diferentes entre si, há uma unidade fundamental. Os diferentes caracteres individuais e as diversas classes de homens e mulheres são variações naturais na criação. Por isto não devemos julgar sempre da mesma forma nem abdicar do nosso ideal. Tal procedimento só dá lugar a uma luta antinatural, e o resultado é que o homem começa a odiar a si mesmo e se vê impedido de ser um bom religioso. Nosso dever é ajudar para que cada um viva melhor o seu ideal, esforçando-se ao mesmo tempo para que este ideal se aproxime o mais possível da verdade.

Na ética hindu este fato foi reconhecido há muito tempo; suas escrituras estabelecem diferentes regras para as várias classes de homens: para o chefe de família, para o sannyasin (o que renunciou ao mundo) e para o estudante.

A vida do indivíduo, segundo as escrituras hindus, tem seus deveres particulares, à parte dos que interessam à comunidade. O hindu principia a sua vida como estudante, depois se casa e se converte em chefe de família; na velhice retira-se e finalmente abandona o mundo e se torna sannyasin. Estas diferentes etapas de sua vida estão determinadas por certos estados. Nenhum desses estados é considerado superior ao outro; a vida do casado é tão nobre como a do celibatário que se dedicou à obra religiosa.

O varredor da rua é tão importante e glorioso como o rei em seu trono. Tirai este do seu trono e obrigá-lo a realizar o trabalho do varredor, e vereis como ele se comporta. Colocai o varredor no trono e vereis como governa. É inútil dizer que o homem que vive fora do mundo é maior do que o que vive nele. É muito mais difícil viver no mundo e adorar a Deus, do que abandoná-lo e viver uma vida pobre e cômoda.

As quatro classes da Índia foram ultimamente reduzidas a duas: a de chefe de família e a de monge. O chefe de família se casa e cumpre os seus deveres de cidadão; e o dever do outro é dedicar todas as suas energias à religião, pregar e adorar a Deus.

Dir-vos-ei algumas passagens do Maha-Nirvana-Tantra, que trata deste assunto, e vereis que é uma tarefa difícil ser um homem chefe de família e cumprir ao mesmo tempo todos os seus deveres.
“O chefe de família deve ser devoto de Deus: o conhecimento de Deus deve constituir a finalidade de sua vida. No entanto, deve trabalhar constantemente, cumprir seus deveres e abandonar os frutos de suas ações a Deus.

É coisa muito difícil trabalhar e não se preocupar com os resultados, ajudar um homem e não pensar no agradecimento, fazer alguma boa obra renunciando de antemão o proveito econômico e moral que nos pudesse resultar. Até o mais tímido covarde se torna valente quando o mundo o enaltece.

Um louco pode executar ações heroicas quando a sociedade as aprova e aplaude, porém, um homem ser sempre bom sem contar com a aprovação de seus semelhantes, é em verdade o maior sacrifício que pode fazer! O dever do chefe de família é ganhar o sustento para ele e os seus, porém deve ter o cuidado de não fazê-lo valendo-se de mentiras ou enganos, nem roubando aos seus semelhantes; deve lembrar que sua vida é para Deus e os pobres.

Sabendo que o pai e a mãe são os representantes visíveis de Deus, o chefe de família deve tratar de agradá-las por todos os meios ao seu alcance. Se o pai e a mãe estão contentes, Deus está satisfeito com o filho. É realmente um bom filho aquele que nunca diz palavras grosseiras a seus pais.
Diante dos pais não deve mostrar-se engraçado, nem revelar impaciência ou raiva. Em presença do pai e da mãe, o filho deve inclinar-se respeitosamente, permanecer de pé, e não sentar-se sem que eles lhe ordenem.

Se o chefe de família tem alimentos, bebidas e roupa sem olhar primeiro se seus pais, filhos, esposa e pobres estão necessitando destas coisas, ele comete pecado. A mãe e o pai são as cansas de seu corpo; por conseguinte, o filho deve sofrer todos os aborrecimentos para fazê-los felizes.
Do mesmo modo são os seus deveres para com a sua esposa; ninguém deve desprezá-la; deve considerá-la como se fosse sua própria mãe. E ainda quando se encontre em dificuldades, o marido não deve irritar-se com a esposa.

Aquele que pensa numa mulher a não ser sua esposa, e a prejudica mesmo que seja mentalmente, vai para o inferno.
Diante de mulheres não se deve dizer palavras grosseiras, nem se gabar. Não se deve dizer: “Eu fiz isto ou aquilo”.

O chefe de família deve agradar sua esposa com dinheiro, roupas, amor, fé e palavras doces, sem aborrecê-la. O homem que conquistou o amor de uma casta esposa, alcançou um grande êxito em sua religião e possui todas as virtudes”.

São os seguintes os deveres dos pais para com os filhos:

“Um filho deve ser criado carinhosamente até os quatro anos; instruído até os dezesseis; aos vinte, empregado, nalgum trabalho, e então ser tratado afetuosamente pelo pai como seu igual. Da mesma forma deve ser tratada uma filha, e educada com o maior cuidado. E quando se casar, o pai deve dar-lhe joias e bens.

“Depois, o dever do homem é atender seus irmãos e irmãs, e os filhos destes se são pobres; e ainda os demais parentes, seus amigos e serviçais. É seu dever auxiliar as pessoas da mesma povoação, os pobres e todos os necessitados de ajuda. Se um homem possui meios suficientes e não ajuda seus parentes e pobres, é considerado um bruto e desumano.

“Deve evitar excessiva atração por alimentos, roupas, cuidados com o corpo, pois que isto ressumbra luxo. O chefe de família deve ser puro de coração e limpo de corpo, sempre ativo e disposto a agir. “Para com os seus inimigos deve ser herói. É dever seu resistir-lhes. Este é o dever do chefe de família. Não deve lamentar-se nem mostrar-se passivo. Se não se comporta como herói perante os inimigos, ele deixa de cumprir o seu dever. Para os amigos e parentes deve ser manso como um cordeiro.

“É dever do chefe de família não reverenciar os malvados, porque se os reverencia, estimula-lhes a perversidade. Cometerá grande erro se não considerar os que são dignos de respeito ou as pessoas honradas. Não deve ser demasiadamente pródigo de sua amizade; deve observar as ações e as atitudes das pessoas com as quais deseja ter amizade, e só se tornar amigo delas depois de bem observá-las.

“Deve abster-se destas três coisas: falar de si mesmo, proclamar seu nome e seus poderes e referir-se às riquezas e aos segredos que os outros lhe confiaram.

“O homem não deve dizer se é pobre ou rico, nem jatar-se de sua fortuna. Não deve consultar opiniões alheias. Tudo isto é dever religioso, não é uma vã sabedoria profana; se o homem não cumprir estes preceitos, deverá ser considerado imoral.

“O chefe de família é a base do edifício social; o que mais possui. O pobre, o débil, as crianças e as mulheres que não trabalham, dependem do chefe de família; portanto, ele deve cumprir os seus deveres sem se sentir humilhado. Se se mostra fraco ou cometeu algum erro, não deve falar em público, e se te me fracassar em qualquer empreendimento, não devia falar nele.

“Pôr-se em evidência não somente é impróprio como o torna inapto para a execução de seus legítimos deveres na vida. Ao mesmo tempo deve esforçar-se para adquirir conhecimentos e fortuna. Este é o dever, e se não o cumpre, não será considerado. O chefe de família que não se esforça por conseguir fortuna, é desconsiderado, porque dele dependem centenas de pessoas. Se obtiver fortuna, estas pessoas poderão gozar dela.

“Se não fossem centenas de homens que têm se esforçado para se tornarem ricos e o têm conseguido, o que seria desta civilização, destes asilos e destes grandes edifícios?

“Nestes casos não é, censurável buscar riqueza, porque é para distribuí-la. O chefe de família é o centro vital de qualquer sociedade. Para ele é um culto adquirir e gastar nobremente a riqueza, pois o que luta para tornar-se rico por meios lícitos e propósitos bons, está fazendo praticamente a mesma coisa que o anacoreta em sua cela, orando, pela salvação das almas. Em ambos encontramos o mesmo aspecto de uma mesma virtude, que é a abnegação e sacrifício inspirados pelo sentimento de devoção a Deus e a tudo quanto é seu.

“Deve lutar para adquirir um bom nome; não deve jogar nem frequentar a companhia de malvados, nem mentir nem provocar inquietude a ninguém.

“Comumente os homens empreendem coisas que não podem realizar, e buscam enganar e enganam as pessoas que possuem os meios que lhes faltam. Há também o fator tempo. O que no momento é um fracasso, pode em seguida transformar-se em êxito.

“O chefe de família deve dizer a verdade, falar carinhosamente, utilizando-se das expressões que condizem com a cultura daquele que as ouve; não deve falar da vida alheia.

“O chefe de família, fazendo lagos, plantando árvores à beira dos caminhos, construindo logradouros e abrigos para homens e animais, abrindo estradas e construindo pontes, alcança a mesma meta que o maior dos yogues”.

Esta é uma parte da doutrina de Karma Yoga a atividade e dever do chefe de família. Mais além se diz: “Se o chefe de família morre na batalha, lutando pelo seu país ou por sua religião, chega à mesma meta que o yogue pela meditação”, mostrando assim que o que é dever para um não o é para outro. Isto não quer dizer, que este dever humilhe e o outro eleve; cada dever tem seu lugar adequado, e segundo as circunstâncias em que nos achemos colocados, assim será a maneira de cumprirmos os nossos deveres.

Do mesmo modo se infere que a debilidade é condenável. Esta ideia particular de nossos ensinamentos ocorre tanto na filosofia como na religião e no serviço. Se lerdes os “Vedas”, encontrareis muitas vezes repetida esta palavra: “intrepidez”. O temor denota debilidade. Um homem deve cumprir o seu dever sem se preocupar com a crítica dos demais.

Se um homem se isola do mundo para adorar a Deus, não deve pensar que aqueles que ali vivem e agem não estão adorando a Deus. Nem os que vivem no mundo dedicados às suas esposas e filhos devem pensar que os que o abandonaram sejam desprezíveis e vagabundos. Cada um é grande em seu meio. Ilustrarei este pensamento com um conto.

Certo rei costumava formular esta pergunta aos sannyiasins que chegavam ao seu país: “Qual é o homem de maior mérito: o que abandona o mundo e se torna sannyasin ou o que vive no mundo e cumpre os seus deveres de chefe de família?” Muitos sábios tinham pensado em resolver este problema. Uns asseguravam que o sannyasin era o de maior mérito; porém o rei lhe pedia que provassem esta afirmação. Quando não conseguiam fazê-lo, ordenava-lhes a se tornarem chefes de família. Outros diziam: “O chefe de família que cumpre seus deveres, é o homem meritório por excelência”. Ao que o rei respondia pedindo provas. Quando não podiam dar-lhes, ordenava-lhes que fossem chefes de família.

Chegou por último um jovem sannyasin a quem o rei dirigiu a mesma pergunta. “Cada um, oh! rei, é grande em seu próprio meio”. Prova-o, disse o rei. “Provar-vos-ei”, respondeu o sannyasin, “porém primeiro deveis vir viver comigo durante alguns dias para que eu possa prová-lo”. O rei consentiu e seguiu o sannyasin fora de seu território. Atravessaram muitos países, até chegarem a um grande reino em cuja capital se realizava uma solene cerimonia. O rei e o sannyasin ouviram o ruído dos tambores e das músicas, e também dos discursos;

O povo estava reunido nas ruas enfeitadas de flores. O rei e o sannyasin pararam para ver e ouvir o que se passava. O pregador proclamava em alta voz que a princesa, filha do rei daquele país, estava ali para escolher esposo entre os que aparecessem diante dela.

Era um antigo costume da Índia que as damas escolhessem esposo desta maneira; cada uma tinha uma ideia sobre a classe de homem que ela desejava para marido: umas preferiam o mais rico, e assim sucessivamente. Os príncipes dos países vizinhos se apresentavam ante ela com suas mais luxuosas vestes. As vezes também se serviam de pregadores que apregoavam suas qualidades e as razões que os levavam a alimentar a esperança de ser os preferidos. A princesa era conduzida em seu trono de um lado a outro, com grande pompa. Olhava os admiradores, ouvia suas declarações e se não lhe agradavam, dizia: “Adiante”, esquecendo-se por completo dos pretendentes desprezados. Se, pelo contrário, algum lhe agradava, atirava sobre ele uma coroa de flores, e casavam-se.

A princesa do país no qual o nosso rei e sannyasin tinham chegado, celebrava uma dessas interessantes cerimonias. Era a princesa mais bela do mundo, e seu esposo governaria seu reino depois da morte de seu pai. O gosto da princesa era casar-se com o mais formoso, porém não encontrava nenhum que a agradasse. Várias vezes já esta cerimônia havia se realizado, porém a princesa não escolhera o esposo. Esta reunião era a mais bela de todas, e a mais concorrida. 

A princesa surgiu em seu trono, conduzida pelos seus cortesãos. Parecia não olhar para ninguém, e todos começaram a ficar descontentes. Neste momento chegou um jovem, um sannyasin, belo como o sol descendo à terra, e colocou-se num recanto para observar o que estava acontecendo.

O trono com a princesa foi levado até ele, e logo que ela o viu, parou e atirou-lhe a grinalda sobre o peito. O jovem sannyasin devolveu-a, dizendo: “Que absurdo é este? Eu sou um sannyasin. A mim que me importa o matrimônio?” O rei pensou que aquele homem fosse pobre e por esse motivo não se atrevia a casar-se com a princesa, e então lhe disse: “Com minha filha te entrego metade do meu reino agora, e o resto depois de minha morte, e pôs novamente a grinalda na cabeça do sannyasin. O jovem a devolveu de novo, dizendo: “É, um absurdo. Não preciso casar-me”. E seguiu rapidamente o seu caminho. Mas a princesa, que se tinha enamorado profundamente daquele jovem, disse: “Se não me casar com ele, morrerei”, e foi-lhe ao encalço.

Então o nosso sannyasin disse ao rei: “Rei, sigamos este par”, e caminharam atrás dele uma distância regular. O jovem sannyasin que havia recusado casar-se, internou-se mato a dentro algumas milhas. Chegou então a um bosque, onde penetrou seguido da princesa, e ambos, por sua vez, eram seguidos pelos outros dois personagens. Mas o cobiçado sannyasin conhecia muito bem o bosque com suas intrincadas sendas, de modo que logo desapareceu, sem que a princesa pudesse descobri-lo. Depois de procurá-lo em vão, durante muito tempo, sentou-se sob uma árvore e começou a chorar, pois não sabia como sair do bosque. Neste momento nosso rei e o sannyasin se aproximaram e lhe disseram: 

“Não choreis; ensinar-vos-emos o caminho para sair daqui, porém a esta hora já está muito escuro. Ali está uma árvore frondosa, descansemos sob sua copa, que pela manhã partiremos cedo e vos mostraremos o caminho”.

Naquela árvore morava um passarinho com sua companheira e seus filhinhos. O passarinho olhou para baixo, e ao ver os estrangeiros, disse à sua esposa: “Que faremos, querida? Há três hóspedes em casa; faz frio e não temos fogo”. Começou a voar e conseguiu um pequeno tição de fogo; levou-o no bico e deixou-o cair entre os hóspedes que lhe ajuntaram lenha e puderam acender bom fogo. 

Porém o passarinho não estava satisfeito. De novo disse à sua esposa: “Que faremos, querida? Estas pessoas têm fome e não temos alimentos. Somos donos da casa; nosso dever é dar alimento a todos os que chegam à nossa porta. Devo fazer o que possa, e lhes darei meu corpo”. Dito isto, lançou-se em meio do fogo e pereceu. Os hóspedes o viram cair e trataram de salvá-lo, porém não houve tempo.

A companheira do passarinho viu o que seu esposo havia feito e disse: “Aqui há três pessoas, e elas só têm um pássaro para comer. Não é bastante; meu dever, como esposa, é não deixar que tenham sido vãos os esforços de meu esposo. Que os hóspedes disponham de meu corpo também!” E atirou-se à chama, que a queimou.

Então os três filhotinhos, ao verem que ainda não era suficiente o alimento para os três hóspedes, disseram: “Nossos pais fizeram o que puderam e todavia não basta. Nosso dever é continuar sua obra. Que vão nossos corpos também!” E se atiraram igualmente ao fogo.

Assombrados com o que viram, os personagens não puderam, como é lógico, comer aqueles pássaros. Passaram a noite sem comer, e de manhã o rei e o sannyasin indicaram o caminho à princesa, que regressou para a casa de seu pai.

Então o sannyasin disse ao rei: “Rei, vistes como cada um é grande em seu próprio meio. Se quiserdes viver no mundo, vivei como aqueles pássaros, disposto a qualquer momento a vos sacrificardes pelos outros. Se quiserdes renunciar a ele, sede como aquele jovem, para quem a mais formosa mulher e um reino nada significaram. Se quiserdes ser um chefe de família, fazei com que vossa vida seja um sacrifício pelos demais. Se escolherdes a vida da renúncia, não olheis a beleza nem o dinheiro, nem o poder. Cada um é grande em seu próprio meio; porém o dever de um não é o dever do outro”.