quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Karma e seus Efeitos sobre o Caráter - Swami Vivekananda

A palavra karma se deriva do sânscrito kri, fazer; toda ação é karma. Tecnicamente, esta palavra quer dizer: os efeitos das ações. Metafisicamente é usada com o seguinte significado: é o efeito provocado por nossas ações anteriores. Porém em Karma-Yoga só tratamos da palavra karma como equivalente de ação. A meta da humanidade é o conhecimento; este é o ideal único da filosofia oriental. O propósito do homem não é o prazer, mas sim o conhecimento. A felicidade tem seu fim. É um erro supor que o prazer é a meta. O motivo das misérias do mundo está em o homem pensar ingenuamente que o prazer é a finalidade que ele deve buscar. Depois de algum tempo, ele descobre não é rumo à felicidade, porém ao conhecimento, que se dirige; compreende que tanto o prazer como a dor são seus mestres e que tanto aprende através do bem como do mal.

O desfilar do prazer e da dor ante sua alma lhe sulca diferentes traços, e estas impressões combinadas formam o seu “caráter”. Se considerardes o caráter de um homem, notareis que ele não é mais do que um agregado de suas tendências, a soma das inclinações de sua mente; achareis que a desgraça e a felicidade são fatores equivalentes na formação de seu caráter. O bem e o mal atuam de forma semelhante na formação do caráter.
Em certas ocasiões a desgraça é melhor mestre do que a felicidade. Se estudássemos os grandes caráteres, chegaríamos a crer que na maioria dos casos a desgraça lhes ensinou mais do que a felicidade; que a pobreza lhes ensinou mais do que a riqueza, e que foram os reveses mais do que os elogios o que lhes despertou o fogo interior.
Sabemos, porém, que este conhecimento é inato; nada nos vem do exterior; tudo está no interior. Quando dizemos que um homem “conhece”, deveríamos dizer que ele “desconhece”; o que um homem “aprende” é em realidade apenas aquilo que ele “descobre” ao tirar as envolturas de sua alma, a qual é um depósito inesgotável de conhecimentos.

Dizemos que Newton descobriu a gravitação. Estaria ela por acaso oculta em algum lugar à sua espera? Não. Estava em sua própria mente; chegou o momento determinado e ela se descobriu. O conhecimento que o mundo possui como um tesouro provém da mente; a grandiosa biblioteca do universo está oculta em vossa própria mente. A queda de uma maçã chamou a atenção de Newton, e então ele estudou a sua própria mente; pôs em ordem os seus pensamentos e descobriu um novo, ao qual denominou “lei de gravitação”. Isto não estava na maçã nem em lugar algum. Portanto, todo conhecimento mental ou espiritual está na mente. Em muitos casos ele permanece oculto até que sua cobertura vai se retirando pouco a pouco e então dizemos que “estamos aprendendo”.

O progresso no conhecimento é o resultado do processo de descobrir. O homem em que se vai levantando este véu, é o que mais conhece; naquele em que o véu se mantém caído, é ignorante, e quem conseguiu erguê-lo de todo, chegou a onisciência. Sempre existiram homens oniscientes e espero que haverá milhares deles nos séculos futuros.

O conhecimento está na mente como o fogo está na pedra. É a fricção que o faz brotar. O mesmo acontece com os nossos sentimentos e ações: sorrisos e lágrimas, alegrias e tristezas, gargalhadas e gemidos, maldições e bênçãos, elogios ou censuras. Se nos estudássemos com imparcialidade, veríamos que cada um deles surgiu do nosso interior, por um impulso provocado por golpes exteriores. O resultado é aquilo que somos. A reunião de todos estes golpes é o que chamamos Karma, ou ação. Cada impulso mental ou físico dada à alma, através do qual é provocada a chispa, e que se apresenta como poder e conhecimento, é, karma; usando a palavra em seu sentido mais amplo, estamos sempre acumulando karma. Quando estou falando, é karma; os que me escutam, é karma; respiramos Karma; andamos, karma. Tudo quanto fazemos física ou mentalmente e deixa suas marcas em cada um de nós, é karma.

Há certas ações que são como uma reunião, a soma total de um grande número de ações pequenas. Se nos aproximarmos das costas do mar e escutarmos as ondas arrebentarem-se contra as rochas, percebemos um grande barulho; no entanto, uma onda está formada por milhões de pequeninas ondas, cada uma das quais percebemos um ruído característico que nós não percebemos; a única coisa que ouvimos é o conjunto de todas elas. Do mesmo modo, cada batida do coração é uma ação; certas ações as sentimos e se tornam tangíveis para nós, sendo, no entanto, nada mais do que uma reunião de pequenas ações. Se desejais conhecer o caráter de um homem, não vos detenhais em seus grandes atos. Qualquer néscio pode se converter em herói em certas circunstâncias. 

Observai um homem quando executa suas ações comuns e insignificantes; essas são em verdade as que revelam o seu verdadeiro caráter, ou o caráter de um grande homem. As grandes ocasiões fazem grande o mais vulgar dos homens, porém só é grande aquele cujo caráter é sempre grande, sempre igual em todos os momentos.

Em seus efeitos sobre o caráter, o karma é o poder maior que o homem tem que enfrentar. O homem é de certo modo um centro que atrai para si todos os poderes do universo, e uma vez reunidos, os emite novamente numa poderosa corrente. Este centro é o homem real, o onipotente, o onisciente, e atrai a si todo o universo. Bem e mal, felicidade e miséria, tudo corre para ele e se reúne ao seu redor, e modela a poderosa corrente das tendências que formam o seu próprio caráter, e as atira para o exterior. Assim como tem o poder de atrair, tem também o poder de emitir.

Todas as ações que vemos no mundo, os movimentos sociais, tudo quanto nos rodeia, não representa nada mais do que o produto do pensamento, a manifestação da vontade do homem. Máquinas, instrumentos, cidades, tudo é manifestação da vontade humana; e a vontade resulta do caráter, e o caráter é ação do karma. Como é karma, é a manifestação da sua vontade.

Os homens de vontade poderosa têm sido grandes trabalhadores; almas gigantescas dotadas de uma vontade capaz de arrancar os mundos de suas órbitas, e essa vontade foi adquirida mediante um trabalho persistente efetuado durante séculos. A vontade de um Buda ou de um Jesus não podia ser adquirida em uma só vida. Sabemos quem foram. seus pais, porém, nada nos prova que eles tivessem pronunciado uma só palavra em benefício da humanidade.
Milhões de carpinteiros como José existiram, milhões vivem ainda. Existiram no mundo milhões de pequenos reis corno o pai de Buda. Se somente se tratasse de uma transmissão hereditária, como explicar que esse rei, que não foi obedecido nem pelos seus criados, fosse pai de um filho a quem meio mundo adora? Como explicar o abismo que medeia entre o carpinteiro e seu filho, a quem milhões de seres humanos adoram como um Deus? A resposta escapa à teoria da hereditariedade. Donde lhes veio a gigantesca vontade que Buda e Jesus impuseram ao mundo! Donde provém o acúmulo de poder?

Deve ter estado neles presente durante eras incontáveis, crescendo sempre, até que para o bem da sociedade apareceu um Buda, e depois um Jesus que continua expandindo Seu poder através de nossos dias.

Tudo isto é produto do karma, isto é, ação. Ninguém pode obter coisa alguma, a não ser merecendo-a. Esta é uma lei eterna. Um homem pode lutar toda a sua vida para conseguir riquezas, pode enganar a mil pessoas, porém no fim, se não merece ser rico, sua vida se torna insuportável. Podemos acumular milhares de objetos para o nosso bem-estar físico, porem só o que merecemos é realmente nosso. Um néscio pode comprar todos os livros do mundo e ordená-los em sua biblioteca, porém só será capaz de ler aqueles que merece; e este merecimento é resultado do karma. Nosso karma determina o que merecemos e o que somos capazes de assimilar.

Somos responsáveis pelo que somos e podemos nos converter naquilo que desejamos ser. O que somos agora é resultante de nossas ações passadas. Devemos atuar bem no presente, a fim de modelar resultados bons para o futuro que ambicionamos. Direis: “qual é a utilidade de aprender a agir? Cada qual faz como quer”. Porém não devemos desperdiçar nossas energias. Falando sobre Karma-Yoga, o Bhagavad-Gita diz que devemos executar todo trabalho com habilidade, como se fosse uma ciência; sabendo-se como trabalhar, obtêm-se os maiores resultados. Deveis recordar que a ação não é nada mais do que a exteriorização do poder da mente que já existia nela. O poder está dentro de cada homem, da mesma forma que o conhecimento. As ações são golpes que o despertam e o fazem surgir.

O homem se move por vários motivos; não pode haver ação sem um motivo que a determine. Algumas pessoas desejam ser famosas e trabalham para isso. Outras ambicionam dinheiro e lutam por ele. 

Outras buscam poder e se esforçam por alcançá-lo. Há as que desejam o céu e tentam conquistá-lo. Há as que querem imortalizar seu nome. Isto não acontece na China, onde nenhum homem consegue um título em vida; é um costume melhor de que o nosso, apesar de tudo. Na China, quando um homem se revelava em qualquer coisa, davam-lhe um título de nobreza a seu pai já morto, ou a seu avô.

Os militantes de certas seitas maometanas trabalham toda a vida para obter um túmulo importante.

Conheço seitas em que, quando nasce uma criança, já lhe preparam um túmulo. Segundo eles, este é o maior trabalho do homem, e quanto maior e suntuoso for o Túmulo, tanto mais rico se supõe que o homem é. Outros fazem benefícios; depois de cometerem toda a classe de maldades, levantam um templo ou dão dinheiro aos sacerdotes para que lhes assegurem um lugar no céu. Pensam que esta dádiva os purificará e assim receberão o perdão de suas culpas.

São estes os motivos que levam o homem a agir. Há, porém, aqueles que trabalham por amor ao trabalho. Em cada país existe uma elite que trabalha só por amor ao trabalho, sem se preocupar com recompensa alguma. Trabalha simplesmente porque o trabalho lhe faz bem. Há outros que beneficiam os pobres e a humanidade por motivos mais elevados; só por amor ao bem. Quando se pretende o renome ou a fama, raras vezes se consegue resultados imediatos, pois geralmente eles são alcançados quando já estamos velhos e fatigados desta vida.

Se um homem trabalha sem motivo egoísta, será que não ganha coisa alguma? Sim, ganha algo de mais elevado. O altruísmo é a maior recompensa, melhor mesmo do que a saúde, porém os homens não têm paciência de praticá-lo. Amor, verdade e altruísmo não são meras figuras de retórica, sem as realidades que devem constituir nosso mais elevado ideal, mesmo que seja apenas pelo poder que estas qualidades lhe conferem. Primeiramente, um homem que trabalha cinco dias ou só cinco minutos sem nenhum motivo egoísta, sem pensar no futuro, no céu, nem no castigo, chegará a ser um poderoso gigante moral. É difícil de se levar isto à prática, porém, em nosso íntimo reconhecemos o seu valor e o bem que produz.

Quando o homem se torna impessoal, possui a maior manifestação de poder. Um carro arrastado por quatro cavalos pode precipitar-se de uma montanha, estando sem freios, ou pode também o cocheiro brecá-lo. Qual a maior manifestação de poder: refrear os cavalos ou deixá-los precipitar-se? Uma bala de canhão atravessa o espaço, corre uma distância considerável e cai; outra é detida por uma parede, e o choque gera um calor intenso. Toda manifestação de energia impulsionada por um motivo egoísta, é uma delapidação, pois não produzirá poder que volte ao seu agente; porém, se ela for contida, desenvolverá potência.

Este autocontrole produzirá uma vontade enérgica, um Buda ou um Cristo. Os ignorantes não conhecem este segredo; no entanto ambicionam dirigir a humanidade. Mesmo um tonto pode dirigir o mundo, se ele trabalhar e esperar; basta aguardar alguns anos, reprimir a néscia ideia de governar, e quando tiver alcançado isto, terá conquistado o verdadeiro poder. A maioria das pessoas não enxerga além de alguns anos, como certos animais não veem além de alguns passos. O mundo é um círculo estreito. Não temos paciência de olhar um pouco além, e por isto nos tornamos perversos e imorais. Esta é a nossa debilidade e impotência.

Nenhuma forma de ação, por inferior que seja, deve ser desprezada. Deixai que o homem que não conhece o que existe de melhor, trabalhe com fins egoístas, em busca do nome e da fama; porém, aproximai-vos cada vez mais de motivos mais elevados e procurai empreendê-los. “Temos direito ao trabalho, porém não ao seu fruto”. Não penseis nos frutos. “Por que preocupar-se com os resultados?” Se desejais ajudar um homem, nunca penseis no agradecimento. Se necessitais realizar uma obra grande ou boa, não vos inquieteis pelo resultado.

Surge agora uma pergunta difícil, relativa ao ideal da ação. É necessária atividade intensa; devemos trabalhar sempre. Não podemos estar um minuto sem trabalhar. Então, como descansar? Eis aqui um aspecto da luta da vida: o trabalho em cujo torvelinho somos rapidamente arrastados. E eis o outro: A calma, a sossegada renúncia; tudo é paz ao seu redor, há muito pouco ruído e exibição; só a natureza com seus animais, suas plantas e montanhas. Nenhum deles apresenta um quadro perfeito.

Se um homem acostumado à solidão se põe em contato com o torvelinho do mundo, será sacrificado por ele; da mesma forma que o peixe que vive no fundo do mar e é levado à sua superfície, morre pela ausência da pressão que mantinha a sua integridade. Pode um homem habituado ao tumulto da vida encontrar-se-á à vontade num lugar tranquilo? Não. Sofrerá, e é bem possível que perca a razão. 

O homem ideal é aquele que em meio do maior silêncio e solidão encontra atividade intensa, e em meio da maior atividade sente o silêncio e a tranquilidade do deserto. Um homem assim aprendeu o segredo da restrição: governa-se a si mesmo. Enquanto anda pelas ruas de uma grande cidade repleta de tráfego, sua mente está tranquila como se estivesse em uma caverna aonde não pudesse chegar um único som, e trabalha intensamente todo o tempo. Este é o ideal do Karma-Yoga, e se o tiverdes alcançado, tereis aprendido realmente o segredo da ação.

Devemos, porém, começar pelo princípio, aceitar os trabalhos tal qual nos chegam, e nos tornar cada dia mais altruístas. Devemos realizar a obra e encontrar o motivo que a inspira; e quase sem exceção, nos primeiros anos acharemos que nossos motivos são sempre egoístas; porém gradualmente este motivo se desvanecerá, até que por fim possamos realizar uma obra verdadeiramente altruísta.

Todos podemos esperar que um dia ou outro, lutando continuamente pela senda da vida, chegará um tempo em que sejamos perfeitamente altruístas; e no momento que o conseguirmos, todos nossos poderes se concentrarão e o conhecimento que já é nosso se manifestará.