segunda-feira, 12 de setembro de 2011

A união com o Anjo em Tiphareth

 


Na tradição ocidental, nós sabemos que um dos pontos mais importantes na realização espiritual é o conhecimento e conversação com o Sagrado Anjo Guardião, ou realização do princípio crístico em si mesmo. Também conhecemos que existem várias outras nomenclaturas para o que na magia se convencionou chamar de Sagrado Anjo Guardião: Adonai, Atman, Augoedies, Cristos, Gênio, Daemon, Grande Mestre, Ishvara, Kia, Logos, Si-mesmo, Sol, Vishnu, etc. Na Cabala, essa realização se dá em Tiphareth.
Nós podemos citar vários aspectos do porque essa sephira está totalmente relacionada com esta realização, mas o aspecto principal, está no fato dessa sephira se encontrar no centro do diagrama da Árvore da Vida. Lá ela atua como mediadora e fator de união entre os planos espiritual e material. Tiphareth é a esfera da beleza, da harmonia, e do equilíbrio, também é a morada da alma, os deuses que estão relacionados com ela, simbolizam a alma glorificada e a encarnação da divindade, é o deus que manifesta a si mesmo no homem, portanto as divindades típicas de Tiphareth representam a alma iluminada. A natureza do filho é amor, e amor é união, é o elo de conexão, pois são nossas emoções transmutadas que nos eleva no caminho da Árvore.
Em magia, excetuando-se o ritual de Abramelin, que visa à consecução dessa meta, nós não sabemos muito sobre como se dá esse feito ou realização. Muito embora, como se trata de um texto muito antigo da idade média, a linguagem que traduz a mentalidade daquela época, pode confundir atualmente.
E talvez, o aspecto que nos chama atenção com relação a essa meta, é a importância que se dá à “imagem” daquilo que irá nos redimir.
Nos evangelhos apócrifos de Felipe, nós encontramos: “Há um renascimento e uma imagem do renascimento, certamente é necessário nascer outra vez por meio da imagem.”
Dion Fortune diz: “Os primeiros raios da experiência mística devem ser obrigatoriamente muito limitados, pois não tivemos tempo para construir, graças à experiência, um corpo de imagens e de ideias que possam representá-las.”
Em seu estudo sobre Alquimia, Jung verifica a importância e dificuldade desta tarefa, em como realizar a segunda etapa da coniunctio, que é como criar e se unir com a imagem paradoxal daquele princípio mediador entre o céu e a terra. Em seu livro Psicologia e Alquimia, ele faz uma citação muito interessante: “Antes de Cristo, seu filho, ter sido formado e imaginado em nós, … Deus era mais terrível para nós”. (Aquarium Sapientum).
No livro “Árvore da Vida”, Regardie cita Maurice Maeterlinck, que nos dá uma excelente dica: “Dionísio é Osíris, Krishna, Buda, Mitra, etc; ele é todas as encarnações divinas, é o deus que desce ao homem…; ele é morte, temporária e ilusória, e renascimento, real e imortal; é a união temporária com o divino que não é senão o prelúdio da união final, o ciclo infindável do eterno tornar-se.”
Portanto, o ponto principal dessa iniciação, ou consecução do conhecimento e conversação do Anjo, é ainda mais profundo do que de fato supomos. Não se trata apenas de uma visão da deidade, ou visão de Jesus, ou Buda, Maria ou do Anjo; não se trata somente em ouvir aquela voz interior e guia, como se subentende por “conhecimento e conversação do Anjo”, e nesse sentido, as palavras confundem. Trata-se na realização da imagem interior, e ainda mais, numa fusão ou união da consciência com a imagem do Anjo, é um Samadhi com a imagem divina, onde a consciência não se distingue do corpo da imagem.
Pela primeira vez, o iniciado se vê e se percebe como sendo a própria imagem da divindade, seu corpo é o próprio corpo de luz, sua consciência está dentro do corpo de luz. Na bíblia essa passagem está relatada como a transfiguração de Jesus, onde na presença dos três apóstolos, símbolo da personalidade, Jesus subiu ao monte e seu rosto resplandeceu-se como o sol e sua veste tornou-se branca como a neve. Evidentemente, o símbolo, ou imagem será muito particular e de acordo com as crenças do indivíduo, para um budista muito provavelmente a imagem será outra, para um hindu será ainda outra imagem, mas o que realmente importa, é a união ou fusão da consciência à imagem ou símbolo que representa o espiritual ou a essência no indivíduo, pois como se diz, Tiphareth é o reflexo de Kether, é o rosto menor do Grande Rosto, pois é o reflexo do mesmo. Portanto o Anjo não é uma entidade separada ou fora da nossa consciência ou psique, antes disso, é a própria imagem da psique ou da totalidade da consciência no indivíduo.
Assim como simultaneamente nessa iniciação a consciência pela primeira vez conhece e sente o poder imensurável de criação que lhe é conferido diretamente pela centelha, o poder que é inerente ao próprio princípio do “filho”, ou seja, o poder de criação através da divina imaginação, que em outras palavras, significa ter acesso e interpretar o plano arquetípico e trazê-lo à realidade. Ou dar forma ao sem forma.
A partir desse momento, começa a funcionar a “individualidade”, aquela unidade de manifestação. Muito embora, no inicio não se manifeste ainda plenamente, pois a cada iniciação há todo o começo de um processo que precisa ser organizado e assimilado, e que vai transformando o indivíduo, e isso leva certo período de tempo, e nessa iniciação não é diferente. Por isso se diz que Tiphareth visto pelo aspecto de Kether é como a criança encarnada, e visto por Malkuth é como um Rei em seu próprio plano. O amadurecimento de Tiphareth se dá quando estiver funcionando em completo equilíbrio com Geburah e Chesed.
Essa iniciação confere ao indivíduo o grau de Adepto, aquele que já não necessita mais de instrutores externos, pois já está estabelecida uma conexão ou canal de comunicação direta com a centelha (Kether), e é este que irá conduzir e levar o indivíduo a uma maior conexão ou união até a plenitude do ser.
Ok, então está tudo muito bom, bom, está tudo muito bem, bem, mas…vem a pergunta: como se constrói essa imagem, como se poderá realizar a imagem de Tiphareth, ou do Cristo em nós?
Há três etapas principais de conscientização no processo iniciático. Usando como referência o diagrama da Árvore da Vida, a primeira etapa se inicia em Malkuth e compreende toda a fase de liberação e assimilação das sephiroth abaixo de Tiphareth, se relaciona com a conquista do equilíbrio da personalidade, ou da tríade inferior. A segunda etapa consiste na abertura ou rasgar do véu que separa a tríade inferior da esfera de Tiphareth, por onde a consciência passa a ter acesso à tríade superior que compreende as sephiroth de Tiphareth, Geburah e Chesedh, ao qual se relaciona com a etapa da alma no indivíduo ou do segundo aspecto o do filho, esta mesma que estamos tratando aqui; e a terceira e ultima etapa, que consiste na passagem pelo véu do abismo de Daath, abrindo a passagem que separa a consciência da tríade Suprema, ao qual se relaciona com o que podemos chamar de Deus. Por isso se diz que nossa evolução se dá como numa espiral, porque a consciência se transfere para o outro vórtice mais amplo, naturalmente não perdendo a conexão com o anterior, mas fluindo livremente pelo pilar do meio, ou sushumna na filosofia hindu.
Esse processo de conscientização do Si-mesmo ou do princípio crístico em nós está relacionado totalmente com o equilíbrio e harmonização dos chacras abaixo do cardíaco, ou seja, com o perfeito equilíbrio e funcionamento das sephiroth abaixo de tiphareth, só assim é que a criança pode se manifestar. Sempre se trata de uma união de opostos desde o princípio do caminhar, desde o primeiro passo no caminho, e de uma conscientização desses aspectos contraditórios no indivíduo, alcançando a harmonia entre eles na sephira do meio à começar em Malkuth.
O principal propósito da magia, é levar o indivíduo a contatar forças arquetípicas e divinas nele mesmo, o numinoso e transcendente. Esse contato, ou experiência mística, quando ocorre, tem o poder de soltar os bloqueios e conflitos que no inicio são de total desconhecimento do estudante. Nesse sentido se diz que após o contato com o numinoso, há muita escuridão que o indivíduo tem que enfrentar, porque a luz vai mostrar justamente aquilo que não se queria ver, aquilo que está bem guardado e escondido no armário do inconsciente, e o neófito só passa para o próximo estágio se trabalhar conscientemente com essas energias. Em alquimia esse primeiro estágio de equilíbrio da personalidade é conhecido como nigredo. E de fato, desde o começo estamos lidando com aspectos de nossa luz mas também de nossa sombra pessoal.
No início do caminho, esses conflitos e bloqueios que estão em nós mas de modo inconsciente, são projetados no mundo, é importante saber que não é somente nossa sombra que é projetada no mundo, a Essência também é. Então aquilo que nós conhecemos por Deus, Jesus, os Anjos, são entidades externas a nós, tanto quanto os demônios também o são.
Por isso que nas primeiras experiências místicas, o contato com o numinoso parece ser uma entidade externa a nós, na verdade já é o contato com o princípio crístico em nós, mas como nossa mente está tão consgestionada por falsas crenças, formas pensamentos desconexas e mal formadas, elas atuam como uma nuvem que impede que vejamos o real.
Vale lembrar, que na “descida” da força da vida para a manifestação, quando a energia primordial vai tomando forma, quando ela chega em Tiphareth, a individualidade que é a representação do uno se divide em muitas formas, essa sephira atua como um prisma, facetando a luz pura em vários matizes de cores, e é assim que a força chega em Yesodh. Em Yesodh os símbolos e emblemas não são representações de ideias universais e forças naturais, eles são entidades vivas e existências reais. Portanto, no sentido inverso do caminho, na subida da força, se faz necessário a desconstrução das formas, que se dá através da separação e integração, e consequente retirada das projeções. E é desta maneira que a imagem vai se formando dentro do indivíduo, é um processo de voltar-se pra si, de interiorização, de autoconhecimento, e de união de seus próprios aspectos, e nisso o indivíduo vai se tornando a unidade de consciência novamente.
E então, quando isto está pronto, onde se obtém um certo controle das emoções mas principalmente das formas mentais, ou seja, alterando o padrão dos pensamentos e crenças, que também se relaciona com nosso karma, é quando se está pronto para se unir com a imagem/forma do Anjo em Tiphareth. E eis aí o ditado, quando o discípulo está pronto o mestre aparece.