quinta-feira, 1 de setembro de 2011

O Início do Novo Mundo - por Aleister Crowley

Agitação é o sinal deste momento.
Nenhum homem, por mais rico ou mais seguramente posicionado que esteja, tem certeza de como será a próxima semana. Nenhum homem sabe para onde está indo.
Isso é porque nenhum homem sabe para onde deveria ir.
As bases da sociedade foram tão estremecidas que se tornou impossível para qualquer um elaborar um plano, da mesma forma que um banqueiro ou um agrimensor não poderia trabalhar caso não estivesse mais confiante na tabela de multiplicação.
Agora, este estado de coisas não é totalmente devido às condições reais de existência material, à agitação política ou à confusão econômica.
Circunstâncias não têm o poder de naufragar a alma do homem na medida em que ele tenha em si mesmo o poder adequado de direcionamento, perspicácia e habilidade para mudar de direção.
Quando os homens têm um objetivo definido a buscar, eles instintivamente encontram meios para superar as interferências mútuas, e podem até mesmo trabalhar juntos (desinteressadamente, como pode ser chamado de forma educada) para obter os seus objetivos individuais com o mínimo de atrito.
Mas quando eles não têm um objetivo se tornam distraídos e tolos; eles se empurram uns aos outros em seu desespero; até mesmo as tarefas mais simples se tornam impossíveis.
Hoje o grosso da humanidade não possui mais nenhuma lei sob a qual viver, quaisquer princípios incontestados de ação correta.
A única causa profunda da atual anarquia universal é a perda de toda sanção moral do homem.
As diversas religiões do mundo perderam todo o seu poder de orientação, principalmente pelo fato do desenvolvimento dos meios de transporte e do comércio internacional convenceram o homem instruído de que qualquer religião é quase tão boa ou ruim quanto outra para os propósitos de disciplina social, e que nenhuma tem qualquer valor do ponto de vista do fato real, ou his­tórico, ou verdade filosófica.
A solução terá que ser evidentemente encontrada apenas de uma forma. Deve ser encontrada uma fórmula baseada no senso comum absoluto, sem qualquer restrição de teoria ou dogma teológico, uma fórmula que nenhum homem de inteli­gência possa se recusar a concordar, e que ao mesmo tempo proporcione uma sanção absoluta para todas as leis de conduta sociais e políticas, não menos que individ­uais, de modo que o certo ou o errado de qualquer ação isolada ou em comum possa ser determinado com precisão matemática por qualquer observador treinado, totalmente independentemente das suas idiossincrasias pessoais.

Esta fórmula deve ser científica, não religiosa.[1]

Esta fórmula é:
“Faze o que tu queres deverá ser o todo da Lei.”[2]


Esta fórmula não pretende dizer, como acham as pessoas ignorantes ou maliciosas, “Faze qualquer coisa que tu aprecies.”. Pelo contrário, ela é o mais severo autocontrole de toda unidade individual ou social para concentrar o desempenho pleno da sua energia ao realizar a sua função adequada verdadeira; e esta função deverá ser deter­minada através de um cálculo profundo e preciso das potencialidades inerentes na sua constituição.
O primeiro passo prático rumo a este objetivo é a formação de uma forte organização central para direcionar de forma coerente as atividades dos inúmeros adeptos já estabelecidos em muitos países.
Então será necessário convocar conferências de especialistas em todas as ciências, que tratem sobre a humanidade no seu caráter social e individual, de modo que seja elaborado um programa internacional abrangente.
Notas:
  1. Por ser uma fórmula científica ela pode ser aplicada em qualquer caso, inclusive de escopo religioso. Do contrário, essa aplicação não seria possível.
  2. Liber AL I:40.

Do what thou wilt shall be the whole of the Law - por Jonatas Lacerda

Faze o que tu queres deverá ser o todo da Lei.

Sem sombra de dúvidas um dos maiores centros de controvérsia entre no cenário Thelêmico Brasileiro é o conjunto de onze palavras que formam o axioma que é a base central de toda a nossa Lei: “Do what thou wilt shall be the whole of the Law”. Em algumas situações é difícil dizer se a busca é pela forma mais correta de traduzí-lo para o português ou apenas para diferenciar um grupo do outro. É fato que a tradução deste axioma envolve diversos fatores individuais que por fim devem resultar num único e exato sentido. Devemos notar que uma tradução exata é quase impossível de ser feita, já que este axioma está envolto em uma série de elementos antagônicos e duais. É de extrema importância ressaltar que a primeira iniciativa Thelêmica, declarada em terras brasileiras foi realizada por Marcelo Ramos Motta (1931-1987), com a publicação, em 1962 e.v., do livro Chamando os Filhos do Sol, por este motivo irei encarar a tradução de Marcelo como sendo a primeira.
A intenção deste texto é tentar levantar o máximo de fatores que possam levar a uma conclusão simples, clara e objetiva. De forma alguma quero atacar qualquer pessoa ou grupo, mas sim, avaliar a tradução deste axioma.
A primeira vista pode parecer desnecessário avaliar a tradução deste axioma em específico, porém este conjunto de 11 palavras tem gerado uma imensa gama dúvidas e em determinados casos podemos dizer que a tradução chega tendenciar a visão daquele que o lê. Um pequeno desvio no entendimento do axioma pode promover um completo desvio no entendimento da Lei de Thelema.
Não posso dizer que esta constitui uma versão final deste documento e digo isto calcado totalmente na verdade, haja visto que o presente documento é uma revisão completa da primeira e segunda versões dele, e como novos fatos demonstraram que as duas primeiras abordavam uma grande parte da mensagem, mas provaram que também falhavam em alguns pontos na tradução. Esta terceira versão dá uma nova visão sobre a tradução e está totalmente aberta para o recebimento de novas evidências que possam guiar a tradução mais correta e coerente.
Espero que as linhas que seguem possam ajudar de alguma forma a clarear mais esta tão delicada e importante questão.
Para começar, quero expor algumas traduções do axioma para o português:
  1. Faze o que tu queres há de ser tudo da Lei. (Marcelo Ramos Motta);
  2. Faz o que tu queres há de ser tudo da Lei;
  3. Faz o que tu queres será o todo da Lei;
  4. Faze o que tu queres há de ser o todo da Lei;
  5. Faze o que tu queres será o todo da Lei;
  6. Faze o que tu queres há de ser toda a Lei;
  7. Fazei o que quereis há de ser tudo da Lei;
  8. Faz a tua vontade é a totalidade da Lei.
Para prosseguir, irei dividir o axioma em duas partes para facilitar o trabalho; irei começar então por “Do what thou wilt”: o grande problema nesta primeira parte é o verbo fazer, que inicia a frase. Como conjugá-lo? Faz, Faze ou Fazei? o locutor ordena que o leitor faça o que ele quiser, portanto o verbo fazer está sendo empregado no modo imperativo, que é usado para pedir, rogar, suplicar, ordenar. Neste caso, o modo imperativo é usado na segunda pessoa do singular (tu), portanto ele deve ser empregado no presente do indicativo, sem o “s” no final, que resulta em: “Faze o que tu queres”.
Para alicerçar as palavras supracitadas, nas linhas subsequentes exponho um extrato de um artigo de Cristina Verreda, publicado pela “Revista Opção”: Saiba Quando Usar a Linguagem Correta e a Coloquial:
…‘Faz um 21’, que lembrou recentemente o mestre Pasquale Cipro Neto. À luz da gramática o correto é: ‘Faze um 21’. Já pensou como não soaria bem! Isto ocorre porque o verbo fazer está sendo empregado no modo imperativo, que usamos para ordenar, suplicar, pedir, rogar. Quando usamos o imperativo na segunda pessoa do singular (tu), empregamos o presente do indicativo, sem o ‘s’ no final, que fica: Faze um 21…
Deste modo não é correto traduzir a primeira parte de axioma como Faz o que tu queres ou ainda Fazei o que quereis. Mas ainda acho muito importante expor algumas das observações de um grande amigo e irmão, Frater Pan:
“A tradução da palavra “DO”, foi perfeita mas, o que restou? Restou “what thou wilt shall”; “WHAT” é óbvio: o que; “THOU” é óbvio também: Você, em inglês arcaico. Porém agora sobrou “WILT SHALL” e é a partir daqui que começa a confusão! “WILT” pode ser uma tensão da forma arcaica de WILL, ou pode ser a palavra WILT por si só e através desta podemos chegar as seguintes traduções:
  1. Se WILT for uma tensão arcaica de WILL:
    1. Indicador de futuro, sua tradução depende do verbo que o segue: no caso SHALL;
    2. Vontade;
    3. Testamento.
  2. Se WILT for tratado na sua tradução natural:
    1. Definhar;
    2. Esmorecer; Enfraquecer;
    3. Murchar; Secar.
  3. E, finalmente o SHALL, pode ser traduzido como:
    1. Vontade;
    2. Intento;
    3. Obrigação;
    4. Verbo auxiliar para formar a tensão de futuro.
Perceba como o SHALL por si só é antagônico, dual, Vontade vs. Obrigação. Como podemos traduzir a frase por completo???? Veja acima as combinações possíveis; na verdade é praticamente impossível traduzi-la corretamente. No entanto ela é por si só correta. A frase é constituída por dois sentidos totalmente antagônicos, como no Tao: o TAO é único, porém ele é Yin e Yang ao mesmo tempo…
Ao passo que assim percebemos que a nossa Verdadeira Vontade é nada mais que a nossa Obrigação, ou a nossa Obrigação é fazer a nossa Vontade. Não importa como seja traduzida, será sempre “toda a Lei”.”
Como pudemos perceber, a intenção do axioma só pode ser compreendida ao analisarmos as possibilidades e o jogo de palavras que tem uma conexão incrível, o que foi acima colocado fica explícito quando lemos o AL I:42: “Deixai esse estado de multiplicidade limitada e desgosto. Assim com teu todo; tu não tens direito senão fazer tua vontade”.
É neste ponto que encontrei uma falha que corrompeu a as duas primeiras versões deste texto, em suas primeiras versões shall foi avaliado distante de be, quando na verdade shall be demonstra claramente a formação de tensão de futuro, orientando que Faze o que tu queres deverá ser, em forma de ordem, claramente porque ainda não é uma realidade em termos de ação, haja visto que o Æon não está estabelecido, mas sim, declarado. Este pequeno ponto muda o contexto da segunda parte da tradução e estabelece uma nova visão.

Irei seguir com shall be the whole of the Law:
Literalmente, a frase pode ser traduzida da seguinte forma: “deverá ser o todo da Lei”. Portanto: Faze o que tu queres. Mas por que eu devo fazer o que eu quero? Porque isto deverá ser o todo da Lei.
Unindo as duas partes obtemos uma tradução de onze palavras do axioma: Faze o que tu queres deverá ser o todo da Lei. É importante pontuar que a união shall be é encontrada diversas vezes no Livro da Lei e essas diversas aparições chamaram minha atenção para o fato de que o caminha que foi seguido nas primeiras versões deste texto não estava certo e portanto, me levaram a fazer esta revisão.
As duas primeiras versões também continham uma análise da tradução feita por Marcelo Motta, mas eu optei por não incluí-la no presente, já que esta parte precisa de uma grande revisão e porque achei mesmo necessário desvincular uma da outra, mas em breve devo publicar aqui esta segunda parte.

Para finalizar peço apenas que atentem para o que está escrito em AL III:39, “Tudo isto e um livro para dizer como tu chegaste aqui e uma reprodução desta tinta e papel para sempre – pois nisto está a palavra secreta e não apenas no inglês – e teu comento sobre este Livro da Lei será impresso belamente em tinta vermelha e preta sobre belo papel feito à mão; e, para cada homem e mulher que encontres, seja para jantar ou para beber com eles, esta é a Lei a ser dada. Então eles terão a chance de permanecer nesta felicidade ou não; isto não é problema. Faze isto rapidamente!”.

Amor é a lei, amor sob vontade.


Nota:

Jonatas Moisés Sas Lacerda (11/06/1983, São Paulo, SP, Brasil), é um Thelemita que há mais de 10 anos estuda os princípios filosóficos e a aplicação da Lei de Thelema no contexto individual e na vida em sociedade.