quarta-feira, 23 de março de 2011

A Família e Outras Superstições - Marcelo Motta

Em 1963 e.v. publicamos um livro intitulado “Chamando os Filhos do Sol”, o qual foi a primeira publicação telêmica em português desde os escritos de Fernando Pessoa, o grande poeta e iniciado. Nesse livro anunciávamos a A.’.A.’. e a O.T.O., e criticávamos duramente o comunismo, que era então a filosofia da moda entre os liberais e ameaçava dominar politicamente o governo. (Em 1964 e.v. mandamos destruir a edição, pois não queríamos ser identificados com o reacionarismo ultra-direitista que sabíamos iria resultar da assim-chamada “Revolução”).
Entretanto, o livro havia vendido uma razoável quantidade de exemplares e tinha nos angariado uma pequena quantidade de correspondentes e candidatos à iniciação. Em 1965 e.v. encontrávamo-nos como hóspedes na residência de um desses discípulos, e pilheriando com sua filhinha de oito anos dissemos-lhe: “Por enquanto você ainda é muito criança para flertar comigo. Daqui a dez anos eu passo você na cara”.
A criança não deveria ter entendido a expressão; ela estava flertando conosco, realmente, mas este flerte era a atividade espontânea e inocente do desenvolvimento genético. Porém, ao lhe dizermos isto, notamos que havíamos nos enganado quanto ao seu estágio de desenvolvimento intelectual: ela nos olhou com uma expressão de tal malícia que fomos impelidos a recolher-nos ao Silêncio e retiramo-nos da sala. (1)
Alguns dias depois o pai (que estivera presente, assim como a mãe, à nossa conversação com a filha) interpelou-nos duramente em particular, acusando-nos de tentar hipnotizar a menina para “uso” futuro.
- Você está sendo ridículo – dissemos-lhe. – Será que não percebe que é o seu ciúme sexual de sua filha que lhe leva a me falar assim?
- Eu não tenho ciúme sexual de minha filha! – ele esbravejou. – Esse insulto é prova da sua obsessão com o sexo! Eu só quero proteger a inocência dela!
Não podíamos lhe dizer que inocência era coisa que a filha dele não tinha, aos oito anos de idade; isto apenas iria aumentar o ciúme doentio do pai, e prejudicar o desenvolvimento da criança durante a puberdade e a adolescência. Decidimos, pois, que o mais conveniente nas circunstâncias era sairmos de sua casa, e assim fizemos, para nunca mais voltar. (2)
Trocamos correspondência com este discípulo ainda durante alguns meses após esse incidente; finalmente, sua insubordinação e desrespeito nos levaram a cortar contato com ele.
Doze anos mais tarde esse mesmo indivíduo entrou novamente em contato conosco. Submetemo-lo a um teste preliminar de obediência, no qual ele passou; e aceitamo-lo como discípulo uma vez mais. Logo, porém, pressentimos que não mudara em nada: seus recalques, e seu ódio surdo por nós, (3) continuavam os mesmos. Havíamos ensinado a esse homem uma fórmula mágica de grande poder. (4) Ao entrar ele em contato conosco novamente, solicitamos-lhe que nos enviasse um Relatório Mágico dos doze anos decorridos. Assim fez. Averiguamos que, com o auxílio da fórmula de poder que lhe fornecêramos, tinha melhorado bastante o nível de vida de sua família; mas averiguamos igualmente que era perigoso contrariá-lo em alguma coisa. Entre outros casos, citava um militar de alta patente que o prejudicara indiretamente num negócio; pouco após, a filha desse militar falecera de um mal súbito. Um negociante tentara passa-lo para trás numa empreitada; este comerciante caíra seriamente doente, e um filho seu morrera num acidente de automóvel. O Relatório indicava que nosso discípulo associava as desventuras desses opositores com a interferência deles em suas atividades.
Escrevemos-lhe, reprovando-o duramente. Você se chama de telemita, dissemos-lhe, mas a sua psicologia parece aquela de qualquer feiticeira da Idade Média.
Replicou-nos, furioso, dizendo que não tínhamos moral para acusa-lo, pois tentáramos hipnotizar a sua filha para que nos servisse de concubina. “Ou você acha que é atitude de um Iniciado decretar a uma menina de oito anos que vai passa-la na cara daí a dez anos? E a Vontade da menina, não entra em conta?”
Lemos esta carta com profundo espanto: pensávamos que a estupidez e a obstinação de pretensos candidatos à Iniciação não poderiam nos surpreender mais; e aqui estava um desmentido. É claro que esquecêramos, tanto o incidente, quanto a menina; mas a insistência do pai trouxe-nos a cena de volta à memória. Poderíamos ter tentado explicar que nunca nos passara pela mente forçar a menina a se submeter a nós (!); mas a explicação era tão óbvia que oferece-la a um pretenso candidato à iniciação telêmica seria uma farsa. Além disto, tínhamos certeza de que este homem não nos acreditaria se nos desculpássemos; ele pensaria que estávamos mentindo. Ele renovara contato conosco simplesmente para nos “provar” que não tínhamos mais “poder” do que ele sobre a sua filha; para provar que era mais poderoso do que nós.
Enviamos-lhe, pois, as seguintes linhas:
“Sinto muito que você se sinta tão inferiorizado em relação a mim, e morreria com prazer para evitar que minha existência lhe oprimisse tanto; mas infelizmente tenho compromissos prévios que considero de maior importância que o conforto do seu ego puramente mundano.
“Quanto a sua filha, eu tinha esquecido a existência da menina, mas lembrome agora de que percebi nela uma certa grosseria do sensorium (kama-rupa), que sem dúvida ela herdou do pai. Ela terá que procurar outro parceiro ou parceiros para este fim. Faço votos sinceros, em benefício do progresso dela nesta encarnação, que encontre alguém um pouco mais refinado do que ela, e bastante mais refinado do que o pai”.
A finalidade desta carta era testar o controle egóico do discípulo; como já esperávamos, ele fracassou na ordália, o que nos possibilitou cortar contato com ele pro completo. (5)
Pode parecer incrível que, nos dias de hoje, uma pessoa interessada (ou que se diz interessada) em parapsicologia possa ignorar o trabalho de pioneiros como Freud, Adler, Jung, Stekel e Reich. Mas no Brasil tudo é possível, até mesmo censura e “liberdade dirigida”. Afinal de contas, o que se pode esperar de um país que permite que se diga dele que é o país mais católico romano sobre a face da terra?
Esperamos que nossos leitores, pelo menos, já tenham ouvido falar no Complexo de Édipo e no Complexo de Electra; mas é possível que não tenham refletido sobre a existência do Complexo de Jocasta e do Complexo de Agamenon!
Tanto o amor materno quanto o amor paterno, no que têm de normal e sadio, são instintos puramente animais. Não há por que celebrar como “divinos” ou “inigualáveis” sentimentos que a humanidade, frequentemente, exibe com menos perfeição que outros membros da classe dos mamíferos (ou até mesmo membros de outras classes do seu filo!).
Quando o sentimento que uma mãe, ou um pai, tem por seu filho, ou sua filha, sai do nível do instinto, entra, inevitavelmente, no nível da libido. Todo sentimento de afeição humano é basicamente sexual em sua origem, como disse Freud; e é por isto que homens que zombam de homossexuais, ou os humilham enquanto os usam, são suspeitos de gostos parecidos. Tais homens, em geral, têm um “amigo do peito”, ou pertencem a uma patota favorita, ou têm reuniões anuais com colegas de universidade ou de colégio.
Eça de Queiroz definiu a família, em certa ocasião, como “um grupo de egoísmos que janta de chinelas”. No que concerne ao egoísmo, este fino epigrama se aplica a qualquer grupo humano; o problema consiste em que o egoísmo pode se tornar demasiado, como no caso do pai (tipicamente um super-pai brasileiro) acima referido. Este assunto da possessividade genitora (ou talvez devêssemos dizer genital!) foi delicadamente tratado por Gibran em um dos seus poemas:
“Vossos filhos não são vossos filhos.
“Eles vêm através de vós, mas não de vós.
“E embora vivam conosco, não vos pertencem.
“Podeis dar-lhes vosso amor, mas não vossos pensamentos.
“Porque eles têm seus pensamentos próprios.
“Podeis abrigar-lhes o corpo, mas não o espírito.
“Podeis esforçar-vos em ser como eles, mas não busqueis faze-los como vós.
“Pois a vida não anda para trás.
Por nossa vez, em “Chamando os Filhos do Sol” publicamos as seguintes linhas:
“Quereis educar bem os vossos filhos? Tratai-os como frescas encarnações da divindade, deuses recém-descidos ao mundo, verdes mensageiros das alturas, emissários do mundo misterioso do além-túmulo a que ireis dar um dia. Proporcionailhes todas as oportunidades de adquirir conhecimento e experiência, e deixar que eles escolham livremente entre todas as oportunidades que lhes proporcionais. Não os limiteis nunca a não ser nas coisas que o bom senso manda, isto é, na conservação da saúde e na disciplina da inteligência. Está bem comandar a uma criança que não ponha a mão no fogo; mas é melhor ainda explicar-lhe que o fogo queima os descuidados, e dar-lhe uma demonstração. Quando vosso filho ou vossa filha atinge a idade da responsabilidade, isto é, a puberdade, momento em que o Fogo se manifesta pela primeira vez através da inteira carne, ou a Água jorra pelos portais da vida com sua doçura e alegria, não tenteis apagar o fogo, nem tenteis represar a água. Ensinai antes ao menino ou à menina tudo que sabeis a respeito da reprodução dos sexos, o que não é muito; ensinai-lhes como evitar a concepção involuntária, tendência natural do ser instintivo; ensinai-lhes as regras de higiene que conservam o aparelho criador livre das chamadas doenças venéreas; e assim, cumprindo o vosso dever, deixai que corram os vossos filhos livremente o largo mundo. Se tivestes o cuidado de respeitar o julgamento de vossos filhos desde o berço, se cultivastes com desvelo a vossa essência interna, ressoando assim na virtude interna de vossos filhos, se, enfim, habituastes os vossos filhos as destemor e à liberdade, eles amarão sem prejudicar e sem serem prejudicados, e voarão mais alto e mais longe do que jamais alcançastes.
“Que maior fonte de orgulho podem ter os pais, do que ver como os seus filhos os ultrapassaram em tudo? E há nisto simples e saudável egoísmo, que se fazeis de vossos filhos homens e mulheres mais livres e mais fortes do que sois, eles, por sua vez, farão de vós homens e mulheres mais livres e mais fortes ainda, quando reencarnardes no meio deles.
“Cada criança que nasce e cresce saudável e livre é a esperança da humanidade. Portanto, regai as flores, ó homens, se quereis um dia colher os frutos!”
Estes ideais podem ser considerados nobres, ou estúpidos, pelos leitores; o problema é que eles não são, realmente, idéias: são conclusões baseadas em fatos.
Este capítulo leva como título A família e outras superstições. Que é uma superstição? Os dicionários definem a palavra como significando apego exagerado a alguma crença ou dogma sem base nos fatos. Mas embora a humanidade, como bem disse Fernando Pessoa, tenda a ser estúpida, ela não é estúpida a ponto de se apegar espontaneamente ao que não é prático. Uma superstição, portanto, é um apego exagerado a algum fato, ou conjunto de fatos, que já foi prático e adequado ao bemestar humano; mas que deixou de assim ser, por algum motivo.
Ora, o mais comum motivo pelo qual atitudes deixam de ser práticas é o processo evolutivo, isto é: a Lei de Mudança.
Em épocas pré-históricas a família era fonte de união e de força para um grupo de seres humanos; juntos eles eram mais eficientes contra outros grupos, ou contra os grandes perigos que os cercavam.
Em épocas históricas, antes da idade industrial, ainda a família era útil – mas principalmente útil aos pais, cujo principal motivo para terem filhos era a obtenção de trabalhadores na lavoura ou no artesanato a quem não precisavam pagar salários.
Na época moderna, com a industrialização das cidades e a mecanização da agricultura, a família deixou de ter sentido econômico. Filhos, a não ser para os muitos pobres ou para os muito ricos, são um peso e uma desvantagem.
Note-se que nunca houve, na formação da família, qualquer verdadeiro sentido de “amor” ou “amizade”. A lenda do “amor fraterno” é desmentida pela lenda de Júpiter matando Saturno para lhe herdar o trono; a lenda do “amor paterno” é desmentida pela lenda de Jeová expulsando Adão e Eva do Paraíso; a lenda do “amor materno” é desmentida por Cibele, emasculando seu filho Átis para conserva-lo preso.
A realidade é bem outra: a família não apenas é um grupo de egoísmos que janta de chinelas, como é um círculo telepático de conformismo e inércia.
Como escreveu o Mestre THERION: “Em todo sistema de treino mágico ou místico, a primeira condição que os Aspirantes devem cumprir é colocar a família de uma vez por todas, fora do seu círculo.
“Mesmo os Evangelhos insistem claramente e persistentemente nisto.
“O próprio Cristo (isto é, quem quer que seja designado por este título na passagem) renega a sua mãe e os seus irmãos (Lucas, viii, 19). E repetidamente ele condiciona o discipulado à renúncia total de todos os laços familiares. Ele nem sequer queria permitir a um homem que comparecesse ao enterro do pai! (6)
“Eu creio que a definição do problema deveria incluir qualquer conjunto de pessoas as quais têm interesses em comum dos quais elas esperam que você compartilhe. A nossa velha turma, o nosso clube, a nossa firma, o nosso partido, o nosso país: qualquer um desses poderá se irritar bastante se você se interessar por assuntos que nada têm a ver com eles. Mas a família é o tipo clássico, porque a sua atração é tão potente e persistente. O condicionamento começou quando você nasceu; a sua personalidade é deliberadamente repuxada e contorcida para se adaptar ao código dos seus parentes; e o conhecimento que eles têm da zoologia é tão imperfeito que estão sempre certos de que o Patinho Feio deles é na realidade uma Ovelha Negra.
“A força toda da família está no fato de que ela só se preocupa com a família; sua fórmula mágica, portanto, é necessariamente hostil a um fito tão exclusivamente individual quanto é a Iniciação.
A renúncia à liberdade individual em prol de um grupo, por penosa que seja, possibilitou a sobrevivência de nossa espécie na pré-história; mas nos tempos modernos não é necessário mantermos uma concepção grupal que só foi realmente útil aos trogloditas.
Nós todos sabemos que a “revolução” de 1964 e.v. foi feita por católicos romanos e teve como grupo tático a “família”. O pretexto desta empreitada financeira por parte de interesses escusos era precisamente que o “materialismo ateu” iria “destruir a família e os valores cristãos”.
Quanto aos valores “cristãos”, já os discutimos suficientemente em Carta a um Maçom, e não desejamos repetir o que lá dissemos há quinze anos. Quanto à família, talvez seja uma surpresa para os ingênuos, mas ninguém defende a família, e o conformismo e a apatia moral que ela representa, como o totalitarismo soviético ou o totalitarismo chinês.
A existência da família diminui a possibilidade de revolta contra o Sistema – qualquer que seja o Sistema – porque diminui a iniciativa e o espírito de aventura do cidadão individual.
Lembramo-nos de que, quando os Estados Unidos entraram na Guerra da Coréia, discutiu-se a possibilidade de que o Brasil enviaria uma força expedicionáriacomo fez o Canadá, por exemplo. Estávamos no círculo familiar nesta ocasião quando o assunto veio à baila.
- Se o Brasil enviar uma força expedicionária eu irei – dissemos.
Nossa mãe olhou-nos com assombro.
- Irá por que?
- Porque eu sou reservista e fui aluno do Colégio Militar. Além disto, detesto o comunismo.
- Você não irá não! – nossa mãe gritou. – Se for preciso, eu corto o soeu dedo indicador para você não ir!
Bom, pelo menos era apenas o nosso dedo indicador que ela queria cortar. Mas embora, na época, não soubéssemos da história de Átis, achamos que seria prudentes sairmos da vizinhança de uma pessoa que considerava qualquer parte de nosso corpo sua propriedade particular; e assim fizemos tão logo atingimos a maioridade. Fomos morar nos Estados Unidos, e só regressamos ao Brasil depois da morte de Jocasta.
O que nos traz a considerações de outra superstição muito popular, o “amor materno”. Quanto a este, tem a dizer o Mestre THERION:
Você declara entusiasticamente que o amor da mãe pela prole é algo que homem nenhum pode entender; (7) e você parece achar que este argumento é irrespondível!
Bem, alguns homens, pelo menos, tentaram entende-lo; entre outros, entra Émile Zola, com seu romance La Terre debaixo do braço.
Irá ele bancar o poeta romântico e nos falar de rosas perfumosas e do brilho do orvalho na noite enluarada?
De jeito nenhum.
A Terra, para ele, é realmente a mãe de todos os seres humanos: fonte única do nosso alimento essencial; à terra estamos todos acorrentados pelos nossos inexoráveis corpos, nossa necessidade irresistível de viver – e de morrer.
Não é sublime a tese? E como Zola a demonstra? Simples: uma vaca está parindo uma cria num estábulo; ao mesmo tempo, a dona da vaca está parindo uma criança na casa da fazenda. O escritor descreve os dois acontecimentos simultaneamente; pula de um para o outro de tal forma que breve o leitor perde o fio e não sabe se é a vaca que está “dando à luz” ou se é a mulher quem está tendo cria.
O mingau ralo acumulado de um bilhão de sentimentalistas estala em vão contra este feio penhasco de verdade nua.
Mas – dirá você – está bem, Zola está descrevendo o parto de uma mulher do campo, uma pessoa rústica e de sentimentos grosseiros.
Esta desculpa não serve, Ó tu Aspirante à Sabedoria Secreta! Sob o efeito de anestésicos, as mais refinadas senhoras das mais altas posições sociais e com as melhores reputações religiosas são capazes de dizer torrentes de sujeiras que envergonhariam as mais grosseiras megeras das favelas.
Daí concluímos que enquanto nossa existência estiver ligada aos reinos animal e vegetal, de maneira a permanecermos escravos natos dos hábitos totalmente inevitáveis da matéria, continuaremos sendo arrastados de volta de qualquer vôo do ideal ou da imaginação que tente quebrar as cadeias que nos ancoram à lama.
Mas há outro aspecto do “amor materno” que é urgente, prático, e independe de considerações filosóficas.
O que encontramos, na prática, como conseqüência deste instinto “sublime” e “sagrado” ?
A fórmula mágica do homem é atirar-se para fora; a da mulher é encerrar dentro de si mesma. (8)
Portanto, como até Jung percebeu em seu primeiro livro, e declarou explicitamente, a primeira tarefa da hombridade – do “herói” – é escapar da mãe. Ora, no caso do filho, com sua fórmula masculina, é fácil “cuspir no prato que comeu”; mas a filha não tem porrete (9) nem espada (10); sua única esperança é arranjar um homem como fez a mãe: a ameba, que nasce por fissão, nutre-se estendendo seus pseudópodes para desenvolver quaisquer partículas que cheguem ao seu alcance; ela é um parasita de sua própria genitora até que a fissão se complete.
A fórmula da mulher normalmente se manifesta como o instinto possessivo; frequentemente se mascara em “instinto protetor”, mas a verdade essencial é que seu impulso é devorar. Daí a idéia mortal do “lar”, onde ela pode digerir suas vítimas em segurança e tão devagar lhe aprouver. (11)
Portanto, quando a gente ouve dizer que uma mãe é “tão boa”, “tão dedicada à filha” – coitada da filha!
Não lhe permitem nunca decidir por si mesma, nem sequer nas coisas mais mínimas; está acorrentada pé e mão ao seu “decente lar cristão”; é uma criada doméstica sem férias nem salário. Nem poderá escapar, a não ser que o vampirismo da mãe se manifeste na forma de vende-la em leilão ao “melhor partido”.
Será preciso acrescentar que a “boa mãe” usualmente não está consciente de tudo isto, e que lerá esta simples descrição dos fatos com revolta e indignação?
Mas a verdade é esta: a fórmula feminina é a Morte: o “retorno à Grande Mãe” é a catástrofe do herói nas lendas.
Deveria ser desnecessário acrescentar a conclusão; portanto, talvez seja melhor que eu a acrescente: Quem quer que não tenha destruído totalmente e para sempre qualquer vestígio deste instinto em si mesmo ou si mesma, arrancando toda raiz e torrando-a com Fogo, não está em condições de dar o primeiro passo no Caminho dos Sábios.
Não é com estas poucas mas bem escolhidas palavras que eu me proponho a aumentar minha popularidade nos clubes de senhoras nos Estados Unidos. (12)
Faz aproximadamente dez anos um conhecido nosso, judeu e sionista, levou-nos a visitar parentes seus em Niterói. Era o primeiro contato que tínhamos com uma família ortodoxa israelita, e tivemos oportunidade de constatar que os complexos e recalques relacionados com a família não são exclusividade dos católicos romanos (13)
Entre os membros da família havia uma moça de uns vinte e cinco anos, inteligente e atraente, que trabalhava em posição de responsabilidade numa firma comercial; e em dado momento seus parentes começaram a insistir com ela sobre as grandes vantagens de se casar e constituir família; eventualmente, sobre as doçuras de ser mãe e ter filhos.
Observando a expressão fisionômica da moça enquanto seus parentes falavam, fomos levados a fazer o seguinte comentário:
- Pessoalmente, eu não gosto de ver uma mulher grávida. Acho feio, grotesco, e animal. Lembra-me uma vaca a ponto de dar cria.
Enquanto os parentes constrangidos (e talvez chocados) pararam um momento de falar, a moça nos lançou um olhar de compreensão e gratidão. Quando a conversa recomeçou, os familiares passaram a outro assunto.
Ao sairmos da residência, nosso conhecido nos exclamou:
- Você não tem um pingo de tato! Aquela menina não quer casar, e você ainda via e diz uma coisa daquelas na frente dela!
Não replicamos a este comentário; mas o que ocorrera é que tínhamos sentido a relutância da moça, e tínhamos sentido que sua origem era precisamente uma repulsa pelo embrutecimento do espírito que a gravidez representa. Nossa intenção fora trazer-lhe seus próprios motivos à consciência, e provar-lhe que não estava só no mundo, nem era anormal por suas reações.
Em nossa opinião, não diminuímos as possibilidades da moça se tornar esposa e constituir família pela produção dessa catarse: pelo contrário. Decisões no nível humano só devem ser tomadas em sã consciência. As mulheres que reconhecem e admitem que a gravidez, o parto, e a maternidade são atividades puramente animais, quase sempre são as melhores ma~es: são as que menos tentam aprisionar e escravizar seus filhos.
A lenda da “Virgem Maria” – isto é, de uma mulher que concebe sem cópula e pare sem dor – é uma tentativa patética do falso misticismo cristista de evitar a percepção, por parte da humanidade, de que a “Família” – longe de ser santa – é um dinossauro cultural em vias de extinção. Reproduzimos aqui um trecho de uma carta publicada num jornal brasileiro de grande circulação durante a “Semana Santa” de 1978 e.v. por um padre romano:
“... nada nos impede admitir que o próprio Jesus, nascendo para sofrer, quisesse poupar à sua Mãe as dores do parto.
Não consta que o parto de Maria tenha sido doloroso. O que consta é que ela se dirigiu para ele com um entusiasmo radioso e a animação do amor(comum em quase todas as mães) de que o canto do Magnificat é uma manifestação calorosa. Consta também que no estábulo, com o seu filho recém-nascido, ela estava serena e silenciosa.
É claro que para os católicos o parto de Nossa Senhora foi em tudo e por tudo diferente de todos os outros partos. É natural que não gostemos e que, até, nos sintamos feridos e machucados com qualquer coisa que se diga em detrimento da grandeza humana e divina da mãe que amamos e reverenciamos e que tomemos como ingênua qualquer tentativa de pôr em dúvida a sua nobreza.
“... Seja-nos lícito introduzir uma apreciação terminal. A tolice talvez não chegue a ser uma ofensa à Virgem, mas é, sem dúvida, um desserviço à maternidade. Expor a maior das mães dando um espetáculo de descontrole e de medo não ajuda as futuras mães a viver jubilosamente, com radiosa expectativa, à espera de seus filhos e a alegria de vê-los nascer. O filme, assistido por gente jovem, por moças que esperam ser mãe (sic), oferecerá uma falsa imagem do parto, irá semear insegurança e apreensão e, consequentemente, (sic) fará um grande mal”.
É realmente afortunado que os tempos progrediram, e os católicos romanos não podem desabafar seus “ferimentos” e “machucaduras” teológicos da forma como faziam na época da Inquisição. O mais interessante é que a carta acima foi escrita em protesto a um pseudo-documentário sobre “as condições políticas que levaram à execução de Jesus”, exibido em horário nobre pela TV Globo, a mais católico-romana das cadeias de TV brasileiras!
Note-se a dicotomia característica do dogma cristista, e particularmente do dogma católico romano: o padre protesta porque o “documentário” exibe a “maior das mães” sentindo dores do parto; a seguir, alega que esta exibição irá desencorajar futuras genitoras de aumentar a superpopulação mundial; mas enfatiza, simultaneamente, que a única mulher que foi isentada pelo Sistema das dores, e desconfortos decorrentes do parto foi a “mãe de Deus”.
Como de costume, a Igreja Romana nada dá, e tudo quer tomar, à raça humana. Seria o caso de sugerir a esse padre, que não quer que as mulheres exibam descontrole nem medo, que ache um meio de engravidar e parir, ele mesmo, a fim de ver como é bom.
O complexo de culpa e o desejo de ser punido é incutido no cristista praticamente desde o berço: a religião inteira celebra a apoteose da dor e do sofrimento. Sofrer é expiar; expiar é ser salvo; ser salvo é não ir para o inferno, onde seguramente irão parar todos que não pertençam a essa “santa religião”.
Digamos, alto e bom tom, algumas verdades: a gravidez é um peso inestético e incômodo; o parto é um acontecimento desagradável e bestial; os filhos, no mundo atual, representam um tal peso financeiro que só uma minoria de seres humanos está emocionalmente capacitada para agüentar a carga de tensão nervosa que decorre da criação de uma família.
Essa minoria inclui pouquíssimos crististas. O próprio treino religioso que eles recebem desprepara-os para as realidades da vida.
Lembramo-nos de que, numa classe mais adiantada daquele mesmo curso de onde fomos despedidos, trouxemos à baila numa conversação em inglês o assunto de bebês de proveta. Sugerimos que dentro em breve serão poupados às mulheres o peso da gravidez e o sofrimento do parto: uma vez constatado que o óvulo foi fertilizado, ele poderá ser facilmente extraído, sem dor nem dano, e colocado num útero artificial onde as necessárias substâncias nutrientes poderão ser cuidadosamente dosadas de acordo com o desenvolvimento do feto. (Isto não é nem sonho nem ficção-científica: a experiência já foi feita, debaixo de enorme sigilo, em muitas partes do mundo).
Uma das moças presentes protestou calorosamente contra a idéia.
- Eu quero sofrer a dor do parto do meu filho!
Note-se que disse filho. Algumas perguntas elucidaram os seguintes fatos: essa moça recentemente fizera uma operação plástica para corrigir um nariz demasiado grande; estava noiva, e era extremamente ciumenta e possessiva; e era aluna de cursilho...
Para aqueles de nossos leitores cujo conhecimento de psicologia é rudimentar: pessoas de ambos os sexos que são naturalmente dotadas de grande beleza física tendem a ser menos ciumentas e possessivas que aquelas (a grande maioria) que, por algum motivo, têm dúvidas sobre a sua capacidade de atrair o sexo oposto (ou o seu próprio!). Não fosse o condicionamento provocado por mil e seiscentos anos de cristismo, é provável que a atitude dos belos, de ambos os sexos, para com a “infidelidade” sexual, fosse tão adulta e equilibrada quanto aquela que os nativos dos arquipélagos dos Mares do Sul tinham antes da invasão dos missionários crististas (14). Juntando-se aos recalques dessa moça o seu condicionamento como aluna de cursilho, não é de admirar que expressasse desejo de sofrer sem necessidade!
A idéia de que aquilo que nos causa dor e sofrimento para obter tem mais valor do que as coisas que conseguimos sem dificuldade é, evidentemente, irracional: provém da concepção do Deus Sacrificado, que tanto influenciou as culturas indoeuropéias, principalmente os judeus e os crististas. Sacrificar significa, simplesmente, consagrar; a associação desta idéia com sensações e situações dolorosas é um condicionamento masoquista que (como é inevitável) inclui uma corrente subconsciente de sadismo.
A origem deste condicionamento foi brilhantemente estudada em “O Ramo Dourado” pelo grande antropologista inglês Sir James Frazer. Este livro, que por óbvios motivos nunca ainda foi publicado em português, traça as analogias entre os vários cultos do Deus Sacrificado no continente europeu, e suas origens na pré-história da Europa e da Ásia. Esta obra monumental está dividida em vários volumes, cada um cobrindo um deus que morre e ressuscita. “Jesus” ocupa um dos volumes apenas.
Do ponto de vista científico – isto é, do bom-senso organizado – a dor é um sintoma de erro ou ineficiência. A dor fisiológica (que é a origem de qualquer concepção emocional ou mental do sofrimento) foi estabelecida para nos servir de aviso de que há algo errado na relação do nosso psicossoma com o nosso meio-ambiente. A idéia de que há um valor moral especial em sofrer é uma característica cultural e adquirida; não é uma tendência normal (isto é, sadia) em qualquer espécie viva; principalmente não na espécie-humana.
O grande Fernando Pessoa, em certa ocasião, escreveu estas linhas lapidares:
“O amor é que é essencial.
O sexo é só um acidente
Pode ser igual
Ou diferente
O homem não é um animal:
É uma carne inteligente,
Embora às vezes doente”.
Os animais raramente experimentam dor durante o parto; e é sabido que em certas tribos primitivas as mulheres simplesmente escolhem um lugar solitário e se agacham quando chega a hora de parir; e o fazem sem gritar, sem gemer, e sem necessidade de parteira ou obstetra.
O fato de que o parto está se tornando progressivamente mais doloroso para a mulher civilizada indica que a humanidade está se distanciando cada vez mais das sua origens puramente animais; a “carne” está se tornando mais “inteligente”, consequentemente mais complexa e mais sensível. Ora, é preciso usar a inteligência se quisermos aliviar a carne!
Os cursilhos são tentativas de adaptar a teologia católica-romana às condições sócio-político-econômicas do fim do Século Vinte (15). Estas tentativas estão fadadas ao fracasso enquanto o Credo de Nicéia continuar sendo o Decálogo oficial do romanismo. Entrementes, o condicionamento sadomasoquista do brasileiro médio aparece das formas mais inesperadas e surpreendentes. Veja-se, por exemplo, a seguinte anedota, extraída do jornal “O Pasquim”, que é sem dúvida alguma o portavoz presente da “vanguarda” cursilhista:
“... Esta se passa na América Central ou no Caribe, por ali. Estavam dizendo que o padre era comunista, agitador, subversivo. Aí, no domingo, todo mundo foi à sua missa pra ver o que o padre ia dizer. E ele começou:
- Meus caros irmãos, vamos hoje falar de nosso querido Generalíssimo, nosso bem amado Jefe Supremo.
O pessoal do Serviço Secreto logo se arrumou nos bancos da igreja. E o padre continuou:
- Como todos nós sabemos, ele é nuestro amado mestre, el hijo boníssimo de la pátria, el hombre que sufre para que sejamos todos felices, el major hombre de toda la tierra, el santificado conductor de nuestro pueblo eleito; el é justo e magnânimo, de una bondad imcomparable...
O pessoal todo assustado, ouvindo as palavras do padre, os agentes acalmados, afinal o padre estava dizendo tudo conforme as ordens do figurino. Nisso o padre dá uma pausa. E continua:
- Pois, meus irmãos, yo estoy seguro que podemos comparar nuestro amado jefe a el hombre mas perfecto que já hubo sobre la tierra. Podemos?
E os fiéis gritaram:
- Podemos!
- Esto quer decir – falou o padre – que nuestro Jefe és exactamente como Jesus Cristo?
- És! Gritaram os fiéis.
- Entonces – disse o padre – se ele é como Jesus Cristo, por que é que a gente não sai daqui e não crucifica logo esse disgraciado?
Ao leitor médio, condicionado não só pela sua educação num meio-ambiente cristista, como geneticamente (e artificialmente) selecionado por mil anoso de perseguições, torturas e genocídios, esta anedota pode parecer engraçada. Mas ela é tétrica para todos os Cristos – entre os quais podemos contar Sócrates, Giordano Bruno, Michel Servet, Galileo, Henrique IV de França, o Almirante Coligny, Sir Francis Bacon, e uma infindável quantidade de outros.
As condições sócio-econômicas-políticas brasileiras são tais que os disparates mais absurdos ocorrem sem que ninguém se revolte. Por exemplo, recentemente um costureiro brasileiro homossexual apareceu repetidamente num programa de televisão; à medida que sua popularidade com o público se firmava, ele começou a trazer sua estimadíssima mamã para assistir ao programa, e a enche-la de agradinhos e presentes, para gáudio das matronas cibelísticas. Eventualmente esse Átis moderno conseguiu um gordo contrato comercial com a cadeia em que aparecera – a mais católica romana de todas – e após isso deu entrevistas a jornais e revistas defendendo a concepção católica-romana da “família”!!!
Isto nos recorda uma observação ferina da escritora norte-americana Dorothy Parker: numa reunião de amigas, todas elas lésbicas, as amigas começaram a contar a ela seus casos de amor, e a se queixarem dos problemas de relacionamento: ciúmes, infidelidade, ajustamento emocional, etc. Dorothy Parker foi arregalando os olhos, arregalando os olhos, e finalmente não se conteve:
- E isto tudo de que vocês estão se queixando ainda não é nada! Foi a vez das outras arregalarem os olhos.
- Não e nada?! Você acha que ainda pode ser pior?
- Se pode! – exclamou a maliciosa Dorothy. – Pensem só: e quando começarem a chegar os filhos ?!...
As feministas (que são surdamente combatidas no Brasil, e cujo movimento é constantemente desvirtuado por falsas representantes do feminismo, todas elas crististas!) nunca conseguirão a igualdade que tanto ambicionam, e que tanto merecem, enquanto as desvantagens representadas pela gravidez e a maternidade permanecerem. É verdade que a mulher vem sendo explorada há milênios; mas isto não ocorre porque os homens sejam mais egoístas ou maldosos do que as mulheres: é o resultado simples e direto de suas desvantagens puramente animais de fêmeas.
É aconselhável que as feministas percebam que o homem não é o vilão dessa tragicomédia que a família troglodita representa: o vilão é a própria existência animal, que a inteligência procura (e pode) transcender. A única maneira de sermos verdadeiras mulheres (ou sermos verdadeiros homens!) é nos lembrarmos de que, antes de pertencermos a um determinado sexo, pertencemos à espécie humana. Fossem os homens a parirem, e as mulheres a saírem para “sustentar o lar”, as variáveis da equação trocariam de lugar; mas os termos permaneceriam exatamente os mesmos.
Não há vilões tradicionais e absolutos na natureza; não caímos do céu, nem pecamos no “paraíso”, quer por conta própria ou conta alheia: somos apenas mais uma espécie viva em evolução dentro do Universo. Recentemente, desenvolvemos instrumentos de percepção que nos causam problemas de que a maioria dos outros animais está a salvo (pelo menos por enquanto). Neste livro, procuramos tratar de alguns tipos desses problemas. Não deve ser lamentado (pelo menos em nossa opinião) que tais problemas existam: são o preço que a “carne” paga para ser “inteligente”; e não são nem permanentes, nem decretados por qualquer divindade (!). Quem aspira a escalar os cimos deve se lembrar de que os raios só atingem as montanhas. “Quem não arrisca não petisca”, diz o ditado popular; e, novamente como disse o genial Pessoa:
“Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena”.

(1) A precocidade sexual era devida à vivência do pai, o qual, antes de se casar e se tornar burguês respeitável, havia, conforme nos confiou, trabalhado como proxeneta e sido sustentado por mulheres.

(2) Estávamos hospedados em casa desse discípulo a seu convite, e a contragosto: sabíamos que as vibrações da aura de um iniciado do grau que então tínhamos podiam exacerbar o ego de principiantes, e o preveníramos desta possibilidade quando de seu convite. Ele insistira, e cedêramos. É escusado dizer que este foi um erro que não tornamos a repetir.

(3) O discípulo sempre odeia o mestre, num certo plano de consciência: é a dor do Ego ao perceber a presença do Não-Ego. O progresso iniciático depende da capacidade do discípulo de manter esta repulsa (produto da reação do Antakharana) sob controle, e obedecer ao Instrutor.

(4) Para o qual ele ainda não estava preparado. Este foi outro erro que não voltamos a cometer.

(5) Um membro da A.’.A.’. está obrigado para com seus discípulos enquanto estes não desobedecerem a uma ordem dada em nome da Ordem. Nunca antes déramos uma ordem formal a esse homem, o que nos obrigou a recebe-lo de volta quando veio à nossa procura após doze anos de silêncio. A ordem que lhe demos, neste caso, foi simplesmente que cumprisse os compromissos que ele mesmo estabelecera conosco.

(6) “Deixa que os mortos enterrem os seus mortos”.

(7) Carta a uma discípula americana, escrita poucos anos antes de morrer.

(8) Note-se que as duas fórmulas são complementares; Crowley está aqui condenando a fixação sentimental da discípula num aspecto único da polaridade dos veículos.

(9) A Baqueta.

(10) Veja-se AL iii 11, em O EQUINÓCIO DOS DEUSES.

(11) lembramos aos leitores novamente (e principalmente às leitoras) que esta carta foi escrita a uma mulher, à qual Crowley em outra carta sugerida que adotasse, como Moto Mágico de Probacionista, as palavras “Fiat Yod”, isto é: “Que o Poder Criador Espiritual Masculino se manifeste em mim”.

(12) A discípula Jane Wolfe, era uma cidadã americana.

(13) Aliás, a concepção da família usada por crististas é herança direta das recomendações do Velho Testamento. Entre os judeus primitivos, vivendo em regiões inóspitas e ainda por cima invasores de terras alheias, era conveniente manter o espírito grupal tão aceso quanto possível; e isto os profetas fizeram, sempre falando, é claro, em nome de “Jeová”. Não há qualquer sistema religioso em que a concepção da família no estilo troglodita seja tão incentivada quanto no sistema israelita; e a quantidade de supermães e superpais judeus, em conseqüência, supera até hoje, tanto em número quanto em intensidade de atavismo, o número de supermães e superpais crististas. Isto, é claro, foi em grande parte devido às perseguições que os judeus sofreram ás mãos dos meigos seguidores de “Jesus”: os judeus foram talvez o único povo da terra forçado a manter intacta a síndrome emocional da família troglodita por circunstâncias externas às suas aspirações. Isto serviu, também, para refinar este grupo cultural: durante mil anos os judeus burros ou incapazes foram sumariamente eliminados da corrente genética do grupo. Como resultado, os judeus formam hoje um dos mais eficientes e inteligentes grupos culturais sobre a face da terra, e as gerações mais recentes estão sempre na vanguarda dos inovadores das artes ou das ciências.

(14) O grande Mark Twain fez uma vez a observação ferina de que realmente era lamentável que os nativos dos mares do sul não tivessem tido a mínima concepção do que é o inferno antes da invasão dos missionários.

(15) Sabemos aliás, que grande parte do material ensinado em cursilhos foi inspirado pelas críticas feitas por nós ao catolicismo romano, em mais de quatrocentas cartas a espiões e informantes (disfarçados em candidatos à Iniciação) escritas entre 1964 e.v. e o presente.