quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Magia Prática de Franz Bardon em Pré-Venda

A Editora Linhas Tortas abre 2011 com uma das mais importantes obras sobre ocultismo já publicada: Magia Prática - 10 Passos para a Iniciação, de Franz Bardon, é um tesouro da magia hermética para quem busca a evolução e a compreensão dos mistérios da magia. A tradução de Eddie Van Feu procurou manter a essência do original alemão, permitindo assim não só uma melhor compreensão do leitor, mas também um aprendizado eficiente, pois Bardon era também um grande professor.  O livro está em processo final, já a caminho da gráfica, e já está disponível para pré-venda. Quem adquirir o livro em pré-venda, também receberá um brinde exclusivo. 

MAGIA PRÁTICA - 10 PASSOS PARA A INICIAÇÃO
de Franz Bardon
Tradução de Eddie Van Feu
328 páginas
Preço: R$ 48,00
EM PRÉ-VENDA
Lançamento: 28 de fevereiro de 2011
Pedidos pelo e-mail: linhastortas@alcateia.com ou pelo tel.: (21)3872-4971

Albert Raymond Costet - Conde de Mascheville - CEDAIOR

Albert Raymond Costet - Conde de Mascheville, aliás CEDAIOR, como viria a ser conhecido no meio iniciático. Nasceu em Valence, na França em 1º de setembro de 1872. Aos treze anos deixou sua terra natal para estudar no Conservatório de Paris e continuar seus estudos de violino. Nesta ida à Paris permaneceu alguns dias em Lyon onde teve a felicidade de conhecer Philippe Nizier, ( Mestre Philippe de Lyon , nota Hermanubis)

Foi iniciado em 1892 por Ivon Leloup - SEDIR. Tornou-se, pouco após, Mestre de Cerimônias da "Loja Hermanubis" que era presidida por Sédir e na qual se estudava especialmente a Tradição Oriental. Em 1893 já era S.I. e Gnóstico. Em 1894 fora consagrado Bispo pelo próprio Patriarca da Igreja Gnóstica: Jules Doinel - VALENTINIUS.

Junto com seu iniciador, CEDAIOR - SDR/2-H, realizou uma quantidade de experiências de psicometria e se dedicou, nos anos de 1889 até 1909 a Maçonaria, Martinismo e ao Orientalismo. Fez em Paris e arredores, junto com Oswald Wirth, uma campanha de conferências sobre simbolismo, em lojas de diferentes Ritos sem resultados alentadores.
Inspirado pela profecia de seu Mestre espiritual Valentinius que disse: "Tudo o que fazes na França é apenas preparatório para ti. A tua missão pessoal é do outro lado do mar. Nada mais és para o velho mundo!", Cedaior juntamente com sua esposa e seu filho decide dar um novo rumo a sua caminhada iniciática.

Desembarcam em 26 de fevereiro 1910 em Buenos Aires, Argentina, trazendo consigo apenas sua "bagagem" intelectual. É importante destacar que na época Cedaior já era Doutor em Kabbala, pela Ordem Kabbalística da Rosa Cruz.

O trabalho de divulgação do Martinismo é então, muito difícil e rende poucos frutos, apesar do contato travado por Cedaior com os maçons do sul do continente. Na Argentina funda a Igreja Expectrante em 17 de agosto de 1919.

É devido a grande amizade desenvolvida com uma brasileira, Sra. Ida Hoffmann, que Cedaior decide investir seu trabalho no Brasil. Em 1923, chega finalmente ao Brasil, indo inicialmente morar em um sítio de propriedade da Sra. Ida Hoffmann, aliás PEREGRINA, na cidade de Joinville, estado de Santa Catarina. Ida Hoffmann era iniciada de Theodor Reuss, o alemão que era Grão Mestre do Rito Antigo e Primitivo de Menphis-Misraim e chefe da O.T.O. - Ordo Templi Orientalis.

Em 30 de novembro de 1924, retorna o Brasil o seu filho mais velho, Léo Alvarez Costet de Mascheville, que estivera dois anos na França prestando serviço militar e aproveitando para manter contato nos meios Martinistas. Léo de Mascheville, foi iniciado por seu pai em 1920, adotando o nome simbólico de JEHEL.

A chegada de Jehel dá um novo alento aos que aqui estavam e com seu entusiasmo incita o pai a empreenderem juntos uma nova investida no sentido de acender definitivamente a chama do Martinismo no Brasil.
Assim, a família faz novamente as malas e muda-se para Curitiba, cidade onde finalmente conhecem Darío Vellozo, com o qual já se correspondiam por carta há muitos anos.

Jehel e Cedaior propõem a Darío Vellozo fazerem um movimento de reorganização do Martinismo no continente. Mas este, devido a sua idade avançada e precário estado de saúde, prefere transferir as funções do cargo de Soberano Delegado Geral para o Brasil para Cedaior, permanecendo porém um dedicado amigo.

Em 22 de agosto de 1925 é fundada em Curitiba a Loja "Hermanubis", em homenagem `a primeira loja que Cedaior frequentou em Paris, sendo Jehel seu Phil...Desc..., situada discretamente na Rua 15 de Novembro junto às oficinas do Jornal "Diário da Tarde" que era de propriedade do Dr. Generoso Borges de Macedo - GEMINI.
Fundam no ano seguinte a Loja "Papus" em Goiás. Nos anos em que se seguem, pai e filho difundem o Martinismo pelo Brasil, quando enfim, em 1931, radicam-se em Porto Alegre, sul do Brasil.

É em Porto Alegre que reúnem um conjunto de fatores propícios à causa, como a prosperidade financeira e o encontro de "solo fértil", isto é, de homens realmente aptos a via iniciática. Finalmente começa o impulso mais forte dado ao Martinismo no país até então.

Em 1936 Cedaior muda-se novamente. Vai residir em São Paulo, junto aos Martinistas desta cidade. Todavia, devido a sua idade, transfere a direção da Ordem ao seu filho Léo de Mascheville (Jehel).

É necessário que se faça aqui uma ressalva. Apesar de tudo o que aprendemos tradicionalmente de boca-a-ouvido, é preciso reconhecer que a grande expansão realizada no Martinismo na América do Sul se deve ao trabalho de Léo de Mascheville, como veremos adiante.
Até o ano de 1936, o Martinismo no Brasil se expandia de maneira tímida, de homem-a-homem, com poucas lojas estabelecidas, sem um órgão central.

Em 28 de setembro de 1937 falece Dario Velozzo. É apenas em 23 de dezembro de 1939 que é fundada, em Porto Alegre, Brasil, conforme sua Constituição Geral, a "Ordem Martinista da América do Sul", vindo a congregar praticamente todos os Martinistas em atividade no Brasil, Argentina e Uruguai.

Ordem esta formada, conforme as próprias palavras de Jehel, "como uma miniatura da Ordem estabelecida por Papus". Assim, sua estrutura interna era semelhante a elaborada por Papus, tentando manter a maior fidelidade à tradição do Martinismo. Conforme sua Constituição Geral,
promulgada em 14 de março de 1940, soberana e independente de qualquer órgão central francês.

O rito era composto por três graus os quais se ascendia mediante exame: Associado, Iniciado e Superior Incógnito, somando-se ainda a dignidade de Iniciador. Sua ritualística, paramentos, decorações de loja, etc... eram nitidamente inspirados no famoso "Rituel dressè par TEDER". ( Ritual de Teder em tradução pelo grupo Hermanubis)

Conforme as palavras de Jehel o funcionamento das Lojas se dava da seguinte maneira: "Cada Iniciador tem a obrigação de ajudar a seus Discípulos a estudarem os "Programas de cada grau..." que consistiam no estudo de simbolismo maçônico, tarot, alfabeto hebraico, Cabala, astrologia, magnetismo, magia, teurgia, evangelhos, obras de Saint-Martin e outros mestres, etc.. "Nas cerimônias coletivas, semanais, as reuniões têm caráter múltiplo: além da parte ritualístico-mística, que alimenta a alma psíquica e o Egrégoro; fazem-se experiências magnéticas, outras de percepções metapsíquicas, etc.. E sem dúvida, a parte mais essencial e útil, é a longa cadeia de união, para a prece mágico-mística..."

São criados os G.I.D.E.E, Grupos Independentes de Estudos Esotéricos em Montevideo, Buenos Aires e La Plata. E em abril de 1942, o órgão oficial da Ordem: a revista "La Iniciación", nos moldes da revista francesa, foi publicada até outubro de 1947.

Foram também publicadas as traduções de vários livros clássicos em duas coleções: "La Biblioteca de la Orden Martinista" e "La Biblioteca de la Orden Kabbalística de la Rosa+Cruz".

Como ordem "interior" funcionam os trabalhos da "Ordem Kabbalística da Rosa+Cruz" com seus graus de: Bacharel em Kabbala, Licenciado em Kabbala e Doutor em Kabbala. Sendo considerados espectivamente o 5º, 6º e 7º graus da Ordem Martinista.

A Ordem Martinista da América do Sul recebeu também influência do Martinismo do Chile através de Leon Tournier (Grupo Bethel), que era iniciado de Papus, mas tinha Carta Constitutiva emanada do Martinismo Lyonês.

Paralelamente funcionam ainda a "Igreja Gnóstica" e o "Suddha Dharma Mandalam", que era uma escola de filosofia Hindu, que chegou ao Brasil via Chile e que propagava as práticas das diversas linhas de Yoga.

Em 22 de janeiro de 1943, em Porto Alegre, falece CEDAIOR Este trabalho de expansão pode ser confirmado pelo bom número de "Grupos de Estudo" em funcionamento, bem como um grande número de Iniciados. Em 29 de outubro de 1944, (em plena II Grande Guerra) é concedida a Carta Constitutiva nº 23 ao "Grupo de Estudos Mahasaya" e apenas um dos Iniciadores atingia a cifra de 155 iniciados. (JHL/4 AAAAAAZ). Totalizavam 23 "Grupos", 5 "Lojas" e 442 iniciados.

Em meados de 1945 ocorre um cisma entre alguns membros, vindo a Ordem a se dividir em facções: A "Ordem Martinista da América do Sul" que é assumida por Pedro Pinto Soares Freire, de nome simbólico ATHAUALPA ou ainda MAUÁ, atuando no Brasil; a "Ordem Martinista" ramo continuado por Jehel, com sua sede em Montevideo, Uruguai; e a "Ordem Martinista Universal" com sede no Rio de Janeiro. Pedro Freire, ou Athaualpa, era S.I.I, tendo recebido o diploma de Doutor em Kaballa de Francisco Waldomiro Lorenz, SÉVAKA, e posteriormente foi nomeado PATRIARCA da Igreja Gnóstica por Robert Ambelain, AURÍFER. Tal investidura foi muito contestada na época, sendo hoje apenas um dos diversos ramos da Igreja Gnóstica pelo mundo. Desta geração de Iniciadores, cabe ainda salientar a figura do Dr. Ernesto Braga, tido por seus discípulos como um iniciado de ordem superior.
Contou-nos um de seus últimos discípulos, um episódio pitoresco que pode ilustrar a figura que era o Dr. Braga e a aura de misticismo que o rodeava:

O rapaz, que não é conveniente revelar seu nome, empreende uma viagem de Porto Alegre ao Rio de Janeiro. Durante o vôo, o avião passa por uma enorme turbulência. Voando pela primeira vez, é acometido de um forte enjôo seguido de vômitos. Desesperado, tranca-se no toalete e suplica mentalmente: "Braga, por favor, me ajude!". Aterrissando o avião no Rio de Janeiro, restabelecido do seu enjôo, o rapaz resolve comprar um presente para levar para seu Mestre.

Passado alguns dias, tendo retornado a Porto Alegre, foi a reunião semanal Martinista a qual era presidida pelo Dr. Braga, aproveitando a oportunidade para presenteá-lo. Ao encontrar seu mestre, estando vários irmãos no mesmo recinto, em ambiente de muita amizade e camaradagem, desafia Dr. Braga a adivinhar o que contém o embrulho.

O Dr. Braga responde: Não vou adivinhar, porque eu sei o que há dentro deste pacote. No momento em que tivestes a boa idéia de me presentear, fizeste uma conexão mental comigo, e eu te vi. Aliás, tu já havias chamado por mim no avião quando passaste mal. E, grato pela assistência que supôs que te prestei, resolveste comprar um presente para mim. Foste numa grande loja no centro do Rio, e no bazar do terceiro andar encontraste um objeto que julgaste adequado para me presentear: uma estatueta do Buda."

Abriu o pacote e lá havia uma estatueta do Buda! No início dos anos 70 alguns membros decidem retomar o contato com o velho mundo. Tal movimento é encabeçado por Ary Xavier.

Ary Ilha Xavier - SEDIR, nasceu em Santa Maria, em 9 de junho de 1932. Veio para a iniciação através da Maçonaria, fazendo parte da Loja Eureka nº27 ainda existente na mesma cidade. A dita Loja Maçônica foi, durante muito tempo, um local de onde eram selecionados os elementos a serem iniciados no Martinismo.

Foi lá que veio a conhecer Martinistas como Pedro Freire - ATHAUALPA e Otto Germano Beust - KUNRATH. Este último nasceu na mesma cidade em 18 de janeiro de 1911, tendo militado por mais de 30 anos pelas Ordens Iniciáticas do ocidente.

Foi em 1973 que Ary Xavier fez sua primeira viagem à Paris fazendo um primeiro contato com Robert Ambelain. Com uma longa conversa, Ambelain o aconselha a procurar Phillipe Encausse, então Presidente da Câmara de Direção da Ordem Martinista e filho de PAPUS.

Após vários contatos com Phillipe Encausse, Ary Ilha Xavier é reconhecido como S.I.I. Martinista e é nomeado Soberano Delegado Nacional da Ordem Martinista para o Brasil.

Dos vários contatos estabelecidos na Europa por Ary Ilha Xavier, podemos destacar a conexão com o Rito Escocês Retificado na França; com Ivan Mosca - HERMETE, na Itália; e com José de Via - PERSIVAL, na Espanha.

A publicação do livro "Temas de Ocultismo Tradicional" de Persival, fora proibida na Espanha. Como um último pedido de um velho iniciado, Persival pede a Ary Xavier que publique o seu livro no Brasil. Antes de partir para o Oriente Eterno, Persival pode ainda ver a sua obra impressa. (“Temas de Ocultismo Tradicional" está em tradução pelo grupo Hermanubis)

Em 1976 temos a visita do então Delegado da Ordem para as Américas: Emilio Lorenzo, com sua esposa Maria Lorenzo. Tal delegação faz visitas a grupos Martinistas na Argentina, Uruguai e permanece por 40 dias no Brasil. Haviam aqui, filiados a "Ordre Martiniste", sob a jurisdição do então Delegado Nacional, cerca de trinta membros, distribuídos em três "Grupos Martinistas".
Sendo o Grupo Louis Claude de Saint-Martin nº85, sede da Delegação da Ordem para o Brasil, em funcionamento na cidade de Cachoeira do Sul, dirigido por Ary.

A Ordem Martinista via uma acelerada expansão quando foi abalada por dois acontecimentos relevantes: a morte em 12 de abril de 1978 de Ary Ilha Xavier, de câncer e de Otto Germano Beust, acometido de uma trombose cerebral na noite de 23 de setembro de 1978, permanecendo em
estado de coma profundo por 3 anos e 40 dias, vindo a falecerem 1º novembro de 1981 em Santa Maria. Este, dotado de clariaudiência, previu sua doença e data de sua morte com um ano de antecedência.
Como já dizia Eliphas levi "não se pode matar um Padre. Matando-se um Padre cria-se um mártir. Um padre mártir é a pedra fundamental de um seminário; e um seminário cria centenas de padres..."

Assim, espelhando-se no exemplo desses iniciadores que tiveram como único escopo em suas vidas a busca da iniciação real, uma plêiade de iniciados se formou, (e vem se formando) com uma sede similar a seus mestres.

Em todos os finais de século, ocorre em sua última década, uma grande onda de saudosismo e nostalgia. Como não poderia deixar de ser, o século vinte vê com estupefação, uma grande onda de entusiasmo na revitalização das ordens iniciáticas em todo o mundo.

São esses ciclos maravilhosos, que contam com a cumplicidade da Providência Divina e dos Mestres do Invisível, que se estabelecem na Terra, de tempos em tempos.

Nós temos então, a felicidade de presenciar, e a oportunidade de viver (e não sermos vividos) esses momentos que ficarão na história da humanidade.

Austin Osman Spare

Austin Osman Spare (1886 - 1956)

Austin Osman Spare foi um dos artistas gráficos mais completos de seu tempo. Foi também um ocultista altamente capacitado que praticava uma forma de magia característica dos iniciados do Caminho da Mão Esquerda (este termo tem sido mal interpretado pela maioria dos escritores ocultistas; no livro "Aleister Crowley and the Hidden God", Kenneth Grant aborda o tema em questão adequadamente, explicando com maestria inquestionável que o termo significa especìficamente "o Caminho utilizado por aqueles que se valem das energias sexuais para adquirir controle dos mundos invisíveis"). Spare foi reconhecido como um Mestre deste Caminho por aqueles em condição de avaliar tais práticas e iniciou o núcleo de um movimento conhecido como Zos Kia Cultus.Não se deve pensar que basta ser iniciado de alguma fraternidade esotérica para se conseguir acesso à corrente mágica deste Cultus, nem que isto foi fácil mesmo à época de Spare. Para se beneficiar desta poderosa prática de magia, será necessário colocar-se em sintonia com o Espírito do Culto.
A vida pessoal de Spare, por mais interessante que seja, não acrescenta muito à sua obra; apesar disto, forneceremos aqui alguns detalhes biográficos apenas para situà-la no tempo. Austin Osman Spare manteve um interesse perpétuo sobre a teoria e a prática da bruxaria, que começou em sua infância em virtude de seu relacionamento pessoal com sua babá, uma velha mulher do interior da Inglaterra chamada Paterson e que dizia ser descendente direta de uma linhagem das famosas feiticeiras de Salem. Se analisarmos a obra de Spare, reconheceremos nìtidamente a influência direta de uma corrente mágica vital que, certamente, só é transmitida por via oral e que indiscutìvelmente só poderia ter sido ensinada por um iniciado de alguma antiga tradição oculta.Etimologicamente, feitiçaria ou bruxaria significa "aprisionar espíritos dentro de um círculo". Não é a mesma coisa que praticar "magia", que é a "arte de fazer 'encantamentos' ou 'fascínios'". Os métodos de Spare parecem pertencer mais à bruxaria que à magia, embora certamente envolvam ambas as técnicas.Para Spare, do mesmo modo que para Aleister Crowley, a sexualidade é o centro da bruxaria e da magia, e é a chave para ambos os sistemas. Entretanto, se para Spare a bruxaria é um meio de realização do prazer, de transformação da velhice em juventude, de feiura em beleza, da natureza em arte, para Crowley ela é um meio de adquirir e irradiar poder, transformando a fraqueza em força e a ignorância em conhecimento.Ambos tiveram seus preceptores: Crowley foi fortemente influenciado por MacGregor Mathers, Grão-Mestre da antiga Ordem Hermética da Aurora Dourada, uma pessoa de energia marcial, enquanto Spare foi grandemente influenciado por uma feiticeira, Paterson, a bruxa arquetípica, velha e feia, que podia transmutar-se numa criatura de extraordinário poder de sedução a seu bel-prazer.Crowley e Spare foram atraídos cada qual por diferentes gurus que influenciaram tanto seu caráter quanto sua obra. Isto explica porque Spare ficou tão pouco tempo na 'Fraternidade da Estrela de Prata' (Brotherhood of the Silver Star, ou A\A\ - Argenteum Astrum, fundada por Aleister Crowley a partir dos ensinamentos da Golden Dawn, Aurora Dourada, e para a qual Spare entrou em 10 de julho de 1910 com o motto de Yihoveaum, que significa "Eu Sou AUM", 'eu sou a eternidade'): a disciplina que era exigida por Crowley para os membros de sua fraternidade não combinava com a concepção de liberdade de Spare, que consistia na expressão artística irrestrita do "sonho inerente" que é, de certa forma, idêntico à Verdadeira Vontade (Thelema) formulada por Crowley. Para Spare, entretanto, a transformação deste "sonho inerente" em algo real exigia um tipo de liberdade diferente daquela idealizada por Crowley. O resultado foi que Crowley, dois anos antes de sua morte em 1947, perguntado sobre o que achava de Spare, respondeu que este se havia tornado um 'irmão negro' (mago negro, um termo usado em ocultismo para representar alguém que deliberadamente se afasta da corrente evolutiva, passando a considerar como objetivo primordial o culto à sua personalidade) pelo cultivo do 'auto-amor' através do prazer. Se Crowley tinha ou não razão acaba não prejudicando o fato de que a contribuição de Spare para o moderno ocultismo foi tão grande quanto sua arte. Em duas ocasiões anteriores, em 1921 e em 1923, Crowley escrevera que seu discípulo "aprendeu muito do 'Livro da Lei' (que forma a base do Culto de Thelema de Crowley, psicografado pelo mesmo no Cairo em 1904 a partir da comunicação astral com uma entidade chamada Aiwass); o resto é uma mistura de The Book of Lies (escrito por Crowley em 1913) com William Blake, Nietzsche e o Tao Teh King" e que "seu Livro parece-me ainda melhor e mais profundo do que quando o li pela primeira vez." Estas declarações de Crowley sobre Spare são muito interessantes porque mostram que o primeiro considerava o segundo como seu aluno de ocultismo, além de o ter em alta consideração por ter o mesmo baseado suas teorias na mesma tradição oculta que Crowley ensinava, embora de uma forma um tanto diversa.Seis ou sete anos antes da publicação de The Focus of Life, Spare publicou em edição do autor, seu livro The Book of Pleasure (Self-Love), The Psychology of Ecstasy.Ambos eram e ainda são muito difíceis de se conseguir. Além disto, eles são igualmente difíceis de se entender, a não ser que se tenha a chave do sistema oculto proposto por eles.Enquanto identificado com sua bruxaria, Spare usava o nome iniciático (motto) de Zos vel Thanatos, ou simplesmente Zos. Este indica a natureza de sua preocupação maior, sua obsessão primária: o corpo e a morte. 'Zos' era definido por ele como "o corpo considerado como um todo" e nisto ele incluía corpo, mente e alma; o corpo era o alambique de sua bruxaria. Seu outro símbolo chave, 'Kia', representa o "Eu Atmosférico", o Eu Cósmico ou Eu Superior, que utiliza 'Zos' como seu campo de manifestação.O culto de Zos e Kia envolve a interação polarizada da energia sexual em suas correntes positiva e negativa, simbolizada antropomòrficamente pela mão e pelo olho. Estes são os intrumentos mágicos utilizados pelo feiticeiro para invocar as energias primais latentes em seu inconsciente. A mão e o olho, Zos e Kia, 'Toque-Total' e 'Visão-Total', são os instrumentos mágicos do Id, o desejo primal ou obsessão inata que Zos está sempre buscando para corporificá-la em carne. O sistema de Spare assemelha-se a algumas técnicas dos iógues hindus e a certas práticas da escola Ch'an (Zen) do Budismo chinês (o budismo puro praticado durante a dinastia T'ang), embora existam diferenças importantes. O objetivo da meditação é abolir as transformações do princípio pensante (v. a definição de Yoga de Patanjali - Sutras de Yoga, 1, 2), de modo que a mente individual atinja o estado não-conceitual e se dissolva na Consciência indiferenciada. No Culto de Zos Kia, o corpo (Zos) se torna sensível a todos os impulsos da onda cósmica, de modo a "ser todo sensação" para realizar todas as coisas simultâneamente em carne 'agora'. Esta pode ter sido a explicação mágica da doutrina do Cristo carnalizado ("...este é o meu Corpo; tomai e comei dele todos...") que os últimos Gnósticos, por não a compreenderem adequadamente, denunciaram como uma perversão da Gnose genuína.Nem sempre Spare definiu claramente os termos por ele criados; entretanto, ele sabia exatamente o que quis dizer com eles. Infelizmente, a gramática não era o seu forte e muito do que parece obscuro em seus escritos se deve a esta dificuldade. O Culto de Zos Kia parece postular uma interpretação literal (isto é, física) da identidade entre Samsara e Nirvana (samsara = existência fenomenal ou objetiva; sua contraparte é nirvana, que é a subjetivação da existência e, portanto, sua negação fenomenal ou objetiva). Por outro lado, os termos 'corpo', ou 'carne', podem denotar o 'corpo adamantino' (ou dharmakaya, uma expressão budista que é sinônimo de "Nada"; o neti-neti dos budistas, ou o 'nem isto, nem aquilo' no sistema de Spare) e sua realização como o universo inteiro, neste exato momento e sensorialmente. O símbolo histórico supremo deste conceito é a imagem de Yab-Yum do Budismo Tântrico. Ela representa o nada (Kia) ensaiando sua união abençoada com o corpo (Zos). No Culto de Zos Kia, isto é realizável através da carne, enquanto no Budismo Ch'an (Zen) esta união é mental. Assim, tanto no Zen quanto no Zos o objetivo é o mesmo, embora os meios variem.
O sistema de Spare também sugere uma nova obeah, uma ciência de atavismos ressurgentes, uma magia primal baseada na obsessão e no êxtase. O subconsciente, impregnado por um símbolo do desejo, é energizado pelos êxtases reverberantes na suposição de que a profundeza primal, o Vazio, responda a antigas nostalgias revivendo suas 'crenças' obsessivas originais. O "Alfabeto do Desejo" (onde cada letra representa um princípio sexual, um impulso dinâmico) foi desenvolvido por Spare para sonorizar gràficamente estes atavismos e, quando o florescimento do símbolo acontece, a explosão de êxtase é a realização de Zos.
Em seu livro "Anotações sobre Letras Sagradas" Spare diz que: "as letras sagradas preservam a crença do Ego, de modo que a crença retorne contìnuamente ao subconsciente até romper a resistência. Seu significado escapa à razão, embora seja compreendido pela emoção. Cada letra, em seu aspecto pictórico, se relaciona a um princípio Sexual... Vinte e duas letras que correspondem a uma causa primeira. Cada uma delas análoga a uma idéia de desejo, formando uma cosmogonia simbólica."
Estas vinte e duas letras, embora não sejam dadas consecutivamente nem inteiramente em quaisquer dos escritos de Spare, sem dúvida se equiparam de alguma forma com as vinte e duas cartas do Tarot, ou Livro de Thoth de Aleister Crowley e aos vinte e dois caminhos da Árvore Cabalística da Vida; elas são, de fato, as chaves primitivas da magia. Também existe uma possível afinidade com as onze posições lunares de poder refletidas, ou dobradas, nas noites claras ou escuras do ciclo lunar. O conhecimento secreto destas vinte e duas zonas de poder celestial e sua relação com o ciclo mensal da mulher formam uma parte vital da antiga Tradição Draconiana sobre a qual o Culto de Zos Kia se baseia.


" Meus amigos! ' Escapem!' Não sejam prisioneiros de imposições ou ilusões alheias, pois o que você pretende ser, é sempre inferior ao que você é (o alto estágio). Meu conselho, aos confusos, de boa fé é apreciar e obter qualquer uma de suas habilidades naturais e ignorar os críticos, auto-intitulados experts, convenções, idiomas, estilos, reações ou qualquer tipo de miopia e, se cabe outra análise, conclua em cima da habilidade descoberta que, sozinha, resiste a mórbida obliteração temporal. Muitas vezes parece estar entre o hábil homem que banca o tolo e o paspalho que o imita."
(Austin Osman Spare)