terça-feira, 20 de dezembro de 2011

O “Pior Homem do Mundo” Conta a Espantosa História de Sua Vida

Aleister Crowley

Artista, Poeta, Alpinista e Magista

The London Sunday Dispatch, 18 de Junho de 1933

Se há um assunto que eu deteste é Aleister Crowley. Por outro lado, não há nenhum mistério nisso. Então, se alguém estiver interessado, aqui segue!
Eu tenho sido atingido com longas flechas. Eles têm me chamado de o “pior homem do mundo”. Eles têm me acusado de fazer de tudo, desde assassinar mulheres e atirar seus corpos no rio Sena, até traficar drogas.
Alguns jornalistas famosos tem se deleitado em me atacar na imprensa. James Douglas me descreveu como “um monstro de perversidade”. Horatio Bottomley me condena como um canibal “sujo e degenerado” — tudo que ele pudesse pensar.

 

Assassinando Meu Secretário

Alguns foram mais precisos.
Em um livro que eu peguei recentemente o autor contou uma fábula de como eu assassinava gatos com terríveis rituais na Sicília.
Alguns jornais irresponsáveis me acusaram de ter assassinado meu secretário!
O valor de todo este absurdo é de certa forma descontado pelo fato de que estou de volta à Inglaterra depois de vagar pela maior parte do mundo, e sigo meu caminho sem interferências.
Nenhuma acusação judicial de qualquer tipo jamais foi feita contra mim.
A lenda diz que o meu dossiê na Scotland Yard ocupa uma sala inteira. Há uma estória de que o Senhor Byng, quando assumiu o comando, viu uma ala do edifício especialmente grande e protegida de maneira bastante incomum.

“O que é isso?”

“Os arquivos sobre Aleister Crowley”.

“Meu Deus do céu!”

“É claro, ainda não guardamos as coisas do último mês. Está um pouquinho congestionado”.

“Veja, isso tem que parar! Não podemos erguer novos edifícios a cada poucas semanas. Feche o registro!”

Ninguém para pra prestar atenção em mim na rua. Minha aparência é, suponho eu, a de um simples senhorio na cidade para um fim de semana.

Toda a minha notoriedade decorre do fato de que eu sou um magista.

EU SOU O MESTRE THERION.

Praticamente toda a minha vida foi gasta no estudo da magia.

 

Discussão Tola sobre Missa Negra

Pessoas tolas dizem que eu sou um Mago Negro, que eu tenho o hábito de celebrar a Missa Negra e o Sabá das Bruxas, que eu como bebês recém-nascidos e exploro o céu montado em um cabo de vassoura.
Eles dizem que Satanás é meu mestre e que eu sou seu fiel agente.
Mas eu sou um mago branco, não um negro. Eu pertenço a uma ordem secreta que tem representantes em todo o mundo; estamos todos trabalhando para o bem da humanidade, não para a sua queda.
Deixe-me acrescentar que para um magista é impossível ser um homem de mau caráter. Ele não se importa com convenções, mas ele precisa das mais austeras virtudes. Seus poderes são limitados por ele próprio.
O homem que, tendo praticado ritos estranhos, torna-se um bêbado ou um drogado, evidentemente é um fracasso como magista. Ele perdeu o controle.
Isso me leva a o que é a magia. O homem comum é inclinado a rir da palavra. Ele diz que é um fantasma das mentes mórbidas e ignorantes das Idades Antiga e Média.
Embora seja supersticioso o suficiente para acreditar em sinais e presságios, em astrólogos e quiromantes, que afirmam ler o destino nas estrelas e nas mãos.
Se pudesse ser mostrada a um inglês de uma ou duas gerações atrás uma pequena caixa preta e fosse dito que, se ele virasse um botão, o Presidente dos Estados Unidos falaria com ele, ele teria rido da ideia.

 

Magia Hoje – Ciência Amanhã

Se alguém pudesse tê-lo convencido de que a voz realmente era a do Presidente, esse inglês teria sido forçado à conclusão de que a caixa preta era mágica.
E no entanto, sabemos agora que a façanha é bem possível, e que a caixa é apenas um tipo de magia agora revelada ao profano como o “rádio”.
O que é magia hoje será ciência amanhã. Os hinduístas “adoram ídolos”. Sim? Mas o que exatamente eles querem dizer com isso? Como eu mesmo observei: eles obtém resultados muito interessantes de sua “adoração”.
Nós, do ocidente esclarecido, dizemos que a sua adoração é superstição ignorante e os resultados coincidências. Mas nós não estamos na posição do nosso mítico inglês ouvindo o barulho da caixa preta?

 

Suástica Sobre Meu Coração

Em meu livro, Teoria e Prática da Magick, será encontrada a definição da palavra magia, ou magick, como prefiro escrevê-la, para distinguir o verdadeiro do falso.
É “a ciência e a arte de fazer com que mudanças ocorram de acordo com a vontade”.
Nós magistas somos homens da ciência que, pela prática de nossa arte, nos mantemos logo à frente do entendimento popular. O resultado é que somos mal compreendidos e injuriados por toda nossa vida.
Depois de estamos mortos — às vezes séculos depois — o mundo se atualiza, e descobre que éramos benfeitores e não vilões.
Estou escrevendo estes artigos como uma explicação da magia. Infelizmente, meu nome é universalmente identificado com o assunto, então eu temo que devo me arrastar para o palco. Deixe-me condensar a minha história pessoal em alguns parágrafos.
Eu nasci em Leamington, Warwickshire, em 12 de outubro de 1875, filho de Edward Crowley, que era um colega de John Nelson Darby, o fundador dos Irmãos de Plymouth.
Ao nascer, eu tinha três dos sinais distintivos de um Buda. Eu tinha a língua presa, eu tinha uma membrana característica que necessitava de uma operação, e sobre o centro do meu coração eu tinha quatro pelos enrolados da esquerda para a direita sob a forma exata de uma suástica.
Antes que Hitler existisse, eu existo.
Na escola eu era apaixonado pela poesia e pela química. Eu tinha um instinto para o xadrez; a experiência provou rapidamente a minha capacidade. Eu nunca perdi para ninguém até que — em Cambridge — eu conheci H. E. Atkins, campeão amador da Grã-Bretanha por sete anos consecutivos.
Foi em Cambridge que eu percebi a futilidade das ambições mundanas. Eu queria ser um poeta e alcançar o maior sucesso possível no serviço diplomático, para o qual o falecido Lorde Salisbury me preparava.

 

Comunidade Secreta de Santos

De repente, todas as ambições comuns da vida pareciam vazias e sem valor. O tempo esfarela tudo; devo encontrar material resistente para a construção. Procurei desesperadamente por ajuda, por luz. Eu invadi cada biblioteca e livraria da Universidade.
Um livro me contou de uma comunidade secreta de santos na posse de toda a graça espiritual, das chaves do tesouro da Natureza. Os membros desta igreja viveram a sua vida secreta de santuário no mundo, irradiando luz e amor a todos aqueles que estiveram em seu escopo.
A sublimidade da ideia me encantou; ela satisfez minha paixão pelo romance e pela poesia. Eu determinei com todo o meu coração que me tornaria digno de chamar a atenção dessa misteriosa irmandade.
Então um dos primeiros princípios da magia foi revelado a mim.
Basta querer com toda a sua vontade aquilo que se quer. Você que lê isto — o que quer que você queira, você pode fazer. É apenas uma questão de controlar os meios.
A primeira prova que eu tive dessa capacidade de operar milagres que está latente em todos os homens foi esta: mesmo antes de eu ter emitido o pedido de orientação havia um homem ao meu lado para respondê-lo.
Mas o primeiro chamado: 1896. Em um bar sob a sombra da montanha Matterhorn eu encontrei um alquimista.
Ele é um dos químicos técnicos mais famosos de Londres. Uma de suas façanhas científicas foi a “fixação” do mercúrio (ou seja, torná-lo sólido em temperaturas comuns) e ele fez isso pelos desprezados processos alquímicos da Idade Média.

 

£ 100.000 Pela Minha Passagem Só de Ida

Ele era um membro da Ordem Hermética da Golden Dawn, da qual algumas imitações fraudulentas criaram tanto escândalo nos anos posteriores. Através de sua ajuda eu fui iniciado na Ordem, em novembro de 1898.
Eu percebi que eu havia encontrado a chave para o conhecimento e poder ilimitados, que eu havia começado o caminho que possibilitaria ao homem transcender todas as aflições e decepções da vida.
O Caminho! Eu não achava que ele me levaria por todas as terras mais obscuras e perigosas sobre este planeta, e me custaria £ 100.000 por uma passagem só de ida.
O Caminho! Um dos segredos finais — ouça! — é este: nem mesmo a glória inefável e o êxtase do objetivo, mas o Caminho em si, com todos os seus perigos, dificuldades e sofrimento, é a valiosa recompensa.
A cerimônia de iniciação foi impressionante. Eu fui deixado pelos meus padrinhos na porta de um templo secreto (até hoje eu não devo revelar o seu paradeiro) pelo Kerux ou Mensageiro; um homem com um manto dourado com uma espada desembainhada.
Ele me conduziu através do primeiro dos Grandes Pilões. Depois de ser vendado e amarrado, purificado sendo aspergido com água e consagrado pelo fogo, fui levado no escuro com a fumaça do incenso.
Fizeram com que eu me ajoelhasse diante de um altar e repetisse um juramento formidável de fidelidade, de sigilo, e de abstinência de qualquer tipo de conduta que pudesse prejudicar o meu poder de autocontrole.
A venda foi removida de meus olhos diante de um trono posto na escuridão no oeste. Aqui fui confrontado por um oficial de capuz negro representante do deus Hórus.
Ele me deu minha primeira injunção: “O medo é o fracasso e o precursor do fracasso. Sê, portanto, sem medo, pois no coração do covarde não habita a virtude. Tu me conheceste. Prossigas”.
A venda também foi retirada quando cheguei ao trono no leste, onde o oficial representando o deus Osíris me deu outra injunção — que o caminho da consecução repousa no conhecimento e uso de perfeito equilíbrio, justiça, retidão e verdade.
Finalmente eu fui desamarrado e convidado a tomar o meu lugar no norte, o lugar de maior escuridão, para mostrar que eu tinha dado apenas o primeiro passo em uma estrada longa e difícil.

 

Viajando no Plano Astral

Todo esse ritual pode impressionar o leitor como sendo desnecessário. Mas seu propósito é estampar indelevelmente as injunções na memória, mais sobre as partes mais profundas do ser espiritual do homem do que nas camadas superficiais da mente consciente.
Estou proibido de mencionar os nomes dos que me iniciaram, mas dentre eles estavam alguns dos homens e mulheres do Império mais ilustres em literatura, arte, política, teatro, diplomacia e exército.
Então eu era um neófito — um novo ser nascido em um novo mundo. Eu nunca retornei para o velho mundo dos grosseiros enganos e ilusões da matéria conforme os sentidos o descrevem.
Aqueles que se tornam magistas podem viajar no plano astral, visitando lugares distantes enquanto o corpo ainda permanece em casa. Eles prepararam e comprovaram um elixir da vida; eles são vistos frequentemente rodeados de uma aura de luz.
Eu mesmo testei todas essas reivindicações e descobri que são verdadeiras. Não há limite para as possibilidades de uma realização.
Mas estas só são coisas superficiais. A magia transcende o espaço e o tempo. Tudo é possível para um adepto, mas a virtude de seu conhecimento e poder desertariam se ele os usasse para fins egoístas ou lucro pessoal.
Na verdade, estas palavras “egoísta” e “pessoal” deixam de significar qualquer coisa para o iniciado. Ele se desenvolve, e encontra-se por perder o seu antigo self limitado em tudo o que é: pois “tudo o que vive é santo”.
Na próxima semana descreverei minha peregrinação pelo mundo em busca de realização mágica.

Origem da tradução:
Traduzido por Frater S.R.

Eu Me Torno Invisível

Aleister Crowley

“O Pior Homem do Mundo”

The London Sunday Dispatch, 18 de Junho de 1933

Aleister Crowley na semana passada descreveu a sua iniciação em uma Ordem Secreta, como ele foi amarrado e vendado, obrigado a repetir um juramento formidável diante de oficiais de capuzes pretos, e se tornou “um novo ser nascido em um mundo novo”.


Após a minha iniciação eu me sentia como um bárbaro que acabou por vagar em uma fábrica de explosivos de alta potência. Eu tive que aprender as leis da vida todas de novo desde o começo.
Eu sempre penso no Os Primeiros Homens na Lua do Sr. Wells. Como agir quando as condições fundamentais da vida são alteradas? O perigo de cometer erros fatais está sempre presente.
Uma parte necessária da prática da magia é a invocação de seres Divinos e angelicais e a evocação de forças cegas, algumas das quais são consideradas “malignas” pelos incultos.
É claro que existem forças que são definitivamente maliciosas. Nunca será necessário que um magista lide com elas, exceto como um bacteriologista estuda germes de doenças para descobrir sua natureza e subjugá-los.
Em 1899 eu havia passado por sete estágios de iniciação. Estes me constituíram num Adepto, mas ainda ocorriam incidentes comigo.

 

Templo em um Apartamento de Londres

Eu construí um templo privado em um apartamento em Chancery Lane. Era uma sala de espelhos, cuja função era a de concentrar as forças invocadas. Ele continha um altar de acácia coberto com ouro e certos símbolos e insígnias secretos da Ordem.
Certa noite, após uma cerimônia em que um químico analítico famoso foi meu líder, eu tranquei a porta e saí com ele para uma refeição.
Quando voltamos a porta estava aberta, embora a fechadura não tenha sido forçada, e todo o conteúdo do templo havia sido atirado por todo lado e estava na mais desordenada confusão.
Então a diversão começou. Vimos — e meu professor foi capaz de identificar — centenas de formas, estranhos “rostos semiformes” que se amontoavam na sala, marchando em dança fantástica por seus limites.
Essas forças definitivamente eram maliciosas, demônios, que devemos estudar e conquistar.
Mais tarde, quando eu estava transferindo meus aparatos para a minha casa na Escócia, eu contratei dois trabalhadores para remover os espelhos. Enquanto trabalhavam eles foram subitamente subjugados, nocauteados por atacantes invisíveis. Demoraram-se várias horas para reanimá-los.
As pessoas que passavam pela porta de repente caíam em convulsões. Esse apartamento permaneceu sem um inquilino por vários anos depois que eu saí. Tudo isso foi porque eu não tinha experiência o suficiente para controlar as forças.
Foi sob direção do chefe da Ordem que então eu fui para a Escócia, para a minha mansão de Boleskine, que fica há duas ou três milhas das Cataratas de Foyers.
Meu objetivo secundário— o principal é sagrado demais para discutir — colocado em palavras simples era de obter controle sobre os “quatro grandes príncipes” do mal do mundo.
De acordo com as regras da magia, eu construí um terraço de frente para o norte e distribuí cargas de areia de rio nele.
Eu trabalhei na sala de café-da-manhã fazendo os talismãs que eram necessários para o meu propósito. O sol penetrava na sala, mas em vão; havia uma escuridão que podia ser sentida. Os demônios, as forças malignas, se reuniram em torno de mim tão densamente que eles estavam obscurecendo a luz. Era uma situação reconfortante. Não poderia haver mais dúvida quanto à eficiência da operação.
Mas eu continuei com meu trabalho, mesmo que eu tenha tido que acender uma lâmpada com o sol brilhando lá fora.
Os demônios também se reuniram na guarita que eu construí no terraço. Eles ainda eram formas vagas, rostos vistos pela metade. Me acostumei com eles.

 

Meu Caminho Perigoso para o Poder

Eles tiveram efeitos curiosos sobre a vizinhança. Parte da estrada principal de Inverness a Fort Augustus passava pela minha propriedade. Logo superstições sobre a estrada fez com que os cidadãos locais a evitassem. As pessoas se recusavam a usá-la após o anoitecer.
Até mesmo os operários fortes e beberrões de Glasgow que foram empregados na Foyers fariam um caminho mais longo para evitar aquela estrada misteriosa.
As forças tiveram outros efeitos piores. Um empregado (que não tocava o álcool há 20 anos) de repente se embebedou e tentou assassinar sua esposa e filhos. Este foi um de muitos casos semelhantes.
Em um verão mais de metade dos meus cães de caça morreram. Meus servos sempre estavam ficando doentes.
Um dos homens que eu empreguei para fazer os campos de golfe enlouqueceu e tentou matar a minha esposa.
Eu percebi, a esta altura, que o meu caminho para o poder deveria ser imensamente difícil e cheio de perigos. Mas eu não olhei para trás.
Eu comecei a minha peregrinação a países longínquos. O México foi o primeiro. Eu fui enviado para lá pelo chefe da Ordem para consagrar um sacerdote para servir à Lâmpada da Luz Invisível.
No México, também, eu fiz as minhas primeiras experiências na aquisição de invisibilidade. Invocando o Deus do Silêncio, Harpócrates, pelo ritual adequado na frente de um espelho, eu gradualmente cheguei ao estágio em que meu reflexo começou a piscar como nas imagens de um cinema antigo.
Nunca desapareceu completamente. Na verdade, essa experiência me mostrou que eu estava no caminho errado. O sucesso não estava em um desaparecimento óptico, mas sim no poder de fascinação. “Tendo olhos, não veem”.
Seja como for, eu era capaz de sair com um manto escarlate e dourado com uma coroa de joias na minha cabeça sem chamar qualquer atenção. Eles não podiam me ver.
Este foi o início de uma arte que me foi bem útil em Calcutá, anos depois. Enquanto eu estava caminhando pelo bairro local à noite, eu fui atacado por ladrões.
Quando eu vi uma faca brilhar eu pensei que isso já era demais; embora com as mãos restritas, eu consegui disparar meu revólver. Centenas de nativos despertaram pela imediata notícia de que me procurassem, mas eu fui capaz de andar despercebido dentre eles, e escapar.

 

Sacrifício na Cidade Sagrada

Minhas viagens me levaram ao Ceilão, onde eu me dediquei ao Yoga.
Eu obtive um bangalô em Kandy e fui orientado nos fundamentos da arte. O Yoga pode ser ensinado em oito palavras. “Sente quieto! Pare de pensar! Cale-se! Saia!” É o aprendizado que é difícil.
Meu sucesso com Yoga foi tão grande que se tornou perigoso. Para o meu próprio bem eu deixei ele de lado por dois anos, partindo do Ceilão e indo para a Índia.
Uma coisa curiosa aconteceu em uma ocasião. Em Madura eu entrei em um templo e sacrifiquei uma cabra. Logo depois eu apaguei completamente meus rastros por uma viagem marinha — uma grande tempestade estava assolando, e eu era a única pessoa a bordo do navio.
Algum tempo depois voltei para a Índia e visitei alguns amigos, que não sabiam nada sobre minhas atividades em Calcutá.
Disseram-me que os seus servos estavam animados sobre um conto estranho de que eu havia sacrificado uma cabra em Madura, a cidade mais sagrada do sul da Índia.

 

Entidade Toma Forma Humana

Como os habitantes locais obtiveram essa informação? Obtiveram pelo “telégrafo nativo”.
Então eu fui para o Egito, e — para minha surpresa intensa — fui convocado pelos chefes secretos da Ordem. Fui comandado a retornar para a Inglaterra para lá reconstruir o sistema da organização, já que a forma externa da Ordem havia desmanchado devido à queda de seu embaixador-chefe para o mundo “sem o véu”, e escrever os segredos.
De acordo com isso eu condensei e publiquei o conhecimento em um periódico chamado de O Equinócio. A sede nesta época era um estúdio em Victoria Street. Ali, em nosso tempo livre, começamos a celebrar os ritos de Elêusis.
Alguns desses ritos frequentemente se conectavam com resultados estranhos. Em diversas ocasiões vimos e sentimos um estranho entre nós, mas quando as luzes eram aumentadas, não havia mais ninguém lá.
Nossas cerimônias fizeram com que uma entidade tomasse a forma humana e fosse vista entre nós.
O sucesso destes rituais privados induziu-me a alugar o Caxton Hall para sete performances, que foram abertas ao público. Bottomley atacou os rituais como sendo obscenos e blasfemos. Ele só estava refletindo na imprensa a depravação de sua própria mente.

 

Invocando o Espírito de Marte

Uma garota tocava violino durante os ritos. Ela era um boa violinista, mas sob a influência das cerimônias, ela era mais; ela tocava sublimemente, como um gênio supremo, nas invocações mágicas dirigidas sobre ela.
Durante uma cerimônia, em julho de 1909, no estúdio em Victoria Street, nós invocamos Bartzabel, o espírito de Marte.
Um dos presentes era um homem de importância no Almirantado, um comandante cujo nome é conhecido demais para mencionarmos. Ele perguntou ao espírito, que havia sido invocado em um homem especialmente purificado e consagrado, se “nação se levantaria contra nação”.
Bartzabel respondeu que iria. Sendo questionado mais, o espírito disse que a guerra começaria dentro de cinco anos, e que as nações que seriam destruídas seriam a Turquia e a Alemanha.

 

Profecia da Primeira Guerra Mundial

Dentro de duas semanas do fim desses cinco anos a Grande Guerra eclodiu.
O homem da marinha era um Adepto da Ordem, e ele desempenhou um papel importante na luta. Sempre que os assuntos do mundo chegam a uma fase crítica os Adeptos sempre têm alguém nos bastidores.
Rudolph Steiner, o homem que foi responsável pela derrota da Alemanha, era o Grão-Mestre da O.T.O. na Áustria, uma ordem semimaçônica da qual eu era o Grão-Mestre na Inglaterra.
Steiner se desligou da Ordem, porque ele ficou apavorado diante de uma das provações que tinha que passar. Assim ele foi afastado da verdadeira magia, mas se tornou conselheiro secreto de Von Moltke.
A direção de Steiner resultou em Von Moltke não tomar Paris quando esta estava ao seu alcance, e esse erro custou à Alemanha toda a guerra.
Steiner provou sua incapacidade de se tornar um grande magista e foi enganado por poderes traiçoeiros, destruindo o seu país.
Na próxima semana exporei as abominações da Magia Negra e demonstrarei como são absurdas as acusações que ligam o meu nome com essas práticas.

Origem da tradução:
Traduzido por Frater S.R.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Um Memorando a Respeito do Livro da Lei por Aleister Crowley

Quase todos os versos d’O Livro da Lei contém abundantes verdades matemáticas e filosóficas veladas em inglês aparentemente padrão, sendo que seu inglês tem, não obstante, o seu significado normal. Você terá notado que o estilo do Livro é na maior parte espantosamente sublime, e a maravilha inefável a respeito de tudo isso é por eu o ter escrito a partir do ditado de uma voz cujo dono eu não conseguia ver, exatamente uma hora para cada capítulo, em três dias consecutivos. É, portanto, muito certo que o autor seja alguém em posse de conhecimento e genialidade totalmente além da minha capacidade. Realmente, me sinto seguro em dizer que está além da capacidade de qualquer ser humano imaginável. A propósito, existem passagens no Livro que confundiram a análise crítica até que certos eventos, que estavam inteiramente fora do meu controle, se realizaram anos após tê-lo escrito, os quais ainda assim forneceram provas claras de que o Autor do Livro sabia o que iria acontecer ou era capaz de fazer com que os eventos se passassem.

Posso lhe dar um exemplo muito estranho?[1] Eu estudei o Livro todos estes dezoito anos. O Verso 19 do Capítulo III me intrigou totalmente. Como eu poderia “contar bem” o nome da Estela; ela nunca teve um nome! Mas eu brinquei com os números e de repente me ocorreu que 718 era o valor do nome “Estela 666”. “É isso”, eu disse para mim mesmo. “Num certo sentido a Estela é a minha Estela”. Mas eu não estava muito satisfeito, e então aquilo veio sobre mim como um terremoto, que afinal de contas, a Estela realmente possui um nome, sua descrição no catálogo do Museu em Bulaq – aquele nome, o único nome que ela teve, era realmente Estela 666.

Com relação ao controle de eventos externos, deixe-me lhe contar um incidente extraordinário. Em novembro de 1917, foi publicada a conclusão do meu artigo em The International, “O Renascer da Magia(k)”[2]. Ele desafiava os leitores a descobrir a quem era referido como 666 (meu Mote Mágico ΤΟ ΜΕΓΑ ΘΗΡΙΟΝ[3] soma 666). Uma noite de Janeiro, eu pedi a uma Inteligência[4] com a qual eu estava em contato, se eu poderia soletrar o meu mote em Hebraico de modo a obter novos números que pudessem lançar alguma luz sobre o assunto. Ela respondeu, “Sim”. Eu perguntei, “Todas as três palavras do nome ou apenas a última?” Ela disse, “Apenas a última”. Então eu tentei todas as possibilidades de soletração de Therion e não tive resultados. Aquilo foi numa noite de sábado. Eu fui para o escritório numa “Segunda-feira Sem Expediente” para verificar a minha correspondência. Nada ali. 

Porém na terça-feira Viereck[5] encaminhou uma carta endereçada à ele, a qual chegou na segunda-feira, tendo sido escrita na noite de sábado mais ou menos na hora na qual eu tinha feito a minha consulta. O autor do texto era totalmente desconhecido de todos nós. Ele pediu a Viereck para me contar que ele tinha resolvido o enigma no meu artigo de novembro e forneceu a soletração de Therion em Hebraico chegando ao valor 666. Isto foi espantoso o suficiente; porém muito mais estava por vir. O estranho assinava seu nome como Samuel bar Aiwaz bie Yackou de Sherabad, do que eu deduzi que o nome do seu pai era Aiwaz[6]. Este nome me foi dado como sendo do Autor d’O Livro da Lei; vide Capítulo I, Verso 7. Eu simplesmente ouvi o nome, o qual eu supunha que fosse um nome composto como Tzadquiel ou Taphthartharath[7]; Eu não tinha a menor ideia de que este era um nome humano normal. Eu tentei soletrá-lo e o transformei em 78. Agora, contudo, eu escrevi ao Amigo Samuel solicitando a soletração correta, a qual ele forneceu. Fiquei surpreso ao descobrir que o valor era 93, tal como o de Θελημα[8], a palavra da Lei, e Αγαπη[9], o método de executar aquela Lei. Portanto o Autor do Livro tinha, por assim dizer, assinado o mesmo, identificando-se infalivelmente através deste número com a essência da mensagem que ele veio transmitir.

Estes dois incidentes são simples amostras selecionadas dentre um número imenso. Eu espero me reunir este mês com um Catedrático de matemática[10] de modo que possamos reunir, classificar e esclarecer as inúmeras evidências de que este livro é de origem supra-humana. Você finalmente compreenderá porque eu o considero incomparavelmente o mais importante documento humano existente. Você me desculpará, de fato, se eu pareço um tanto insano sobre este assunto; mas realmente, dificilmente se passa um momento sem a descoberta de algum segredo novo e importante nas suas páginas secretas. Os próprios erros no Livro, como possam parecer, ocultam estranhos segredos. Por exemplo: Capítulo III, Verso 47 – “este círculo quadrangular na sua falha”. Os Hebreus ocultaram o valor π no Nome do Deus ALHIM[11], que está incorreto na quarta posição.[12] Mas ao atribuir à nossa chave secreta ShT para santificar este nome nós obtivemos 3.141593, π correto em seis posições (observe 31 e 93).[13]

Mas esta observação não deve ser tão infinita quanto os decimais de π! Você deve perdoar um homem doente e solitário por lhe impor o assunto mais próximo do seu coração. Eu estou realmente muito ansioso para que você traga a Lei de Thelema ao seu trabalho como uma solução para o horrível desespero, a futilidade e a estupidez desta vida de perplexidade. “Faze o que tu queres” explica e justifica a existência. Nós fazemos o que fazemos porque esta é a nossa natureza; os Geis[14] que impomos sobre nós mesmos para se ter uma noção da nossa Ideia Secreta. A “Ânsia por resultado” arruína a nossa obra e a torna ridícula. Não pode haver resultado. Estamos aprisionados pela nossa própria ilusão – Auto inventada. A vida de Manuel[15] foi Sucesso, sendo totalmente a auto realização simbólica de um garoto criativo – uma série de ilusões que resultaram em nada e que ainda assim lhe permitiu ver, externada, a reação do Universo sobre as várias facetas do diamante Alma. A excursão de Jurgen foi um fracasso, porque ele trabalhou com “ânsia de resultado” para obter alguma coisa fora de si mesmo, não sabendo o que (e menos ainda, que nada do gênero existe), porque ele não pôde encarar o fato de que ele tinha vendido o poeta ao prestamista.[16] Eu li para você corretamente? 

Eu estava um pouco triste quanto ao capítulo 22 de Jurgen[17], sentindo que de algum modo você havia entendido mal a minha mensagem. Pois nenhum de nós, nem mesmo o menos espiritualmente desenvolvido, pode se tornar totalmente pleno através da autossatisfação. Cada um de nós tem uma Vontade de eterna importância, necessariamente relacionada com tudo o que existe, e todos os nossos desejos conscientes são muitas máscaras – uma expressão constate ocultando a nossa infinita variedade. Todos nós somos Triângulos Ideais, e todo triângulo que nós desejamos nada mais é do que um simples caso verídico exclusivo, embora ocultando e até mesmo negando todas as outras possibilidades da Verdade real, inexprimível na forma, e tão menosprezada como ilusão pelos espíritos aprisionados aos sentidos.

Verdadeiramente e Amém! Minha solidão silenciosa nesta Abadia[18], com suas janelas abertas sobre o Eterno e seus portões fechados para o Condicionado[19] fortalece constantemente a minha convicção de que tão grande Mestre de Pensamento e Linguagem como você não ousa deixar o mundo sem Esperança. A sua mais profunda, até então, tem sido proclamar uma Fé irracional de que o Heroísmo altruísta de algum modo se vale de um homem contra a insanidade abjeta e sem propósito da vida. Você não pode parar ali. Deve ser provado que a energia é indestrutível, que nada é desperdiçado, que toda Obra Verdadeira vale a pena. E eu espero que os meus Mestres possam estar lhe usando para colocar Sua Chave em suas mãos, que você possa abrir as portas do Palácio Secreto do Rei e mostrar às pessoas que riquezas inesgotáveis são as deles – justamente quando parecia que a Penúria era total. Você mostrou que nada no mundo, por mais grandioso e glorioso, vale a pena de se esticar uma mão para agarrar; mostrou agora que tudo no mundo, por menor e mais desprezível, vale os sofrimentos e os perigos de uma vida para se obter. (Você fez isto, de uma forma, em Domnei.)[20]. Eu quero um livro que complete o grupo Jurgen-Manuei em uma Trilogia, e observe o Grande Tolo, nada sabendo por que está identificado com o Todo (que, não sendo dividido contra si mesmo, não pode ser conhecido), nada fazendo porque está fazendo a sua Verdadeira Vontade, cumprindo a Vontade Universal ao não opor nenhuma resistência à ela numa tentativa de arrebatar alguma ilusão, e nada sofrendo porque percebe que tudo o que acontece para ele é uma descrição refletida dele mesmo. Ele segue rindo e dançando através do mundo, e destrói todo mal e sofrimento por onde ele passa, pelo simples método de mostrar a todos a quem encontra que os seus vícios e os seus desgostos surgem da ignorância, que cada um deles é perfeito ao seu modo, cada um é uma ilusão necessária por meio da qual o Todo se torna consciente de si mesmo (assim como o Tolo interpreta a si mesmo para si através do seu próprio conjunto de ilusões) e cada um é apenas um estorvo para si e para os outros ao seguir falsos Ideais, interferindo com os outros por várias razões equivocadas, e assim por diante, assim causando todo tipo de colisões, perdendo o seu caminho e então se desesperando em busca da Direção, temendo o Futuro, lamentando o Passado e usando de forma errada – o Presente. O Tolo mostra a cada um o seu caminho apropriado e o coloca nele; logo parece que há espaço no mundo para todos em igualdade, que todos são igualmente dignos de se maravilhar e venerar, aquela Perfeição que é inerente no Todo, e que o objetivo da Vida (que é movimento) é mostrar um cortejo todo mutante, então capacitando cada um a se tornar consciente do Todo, que de outra forma permaneceria homogêneo, vazio de quantidade e qualidade, Desconhecido e Desconhecível.

Eu realmente espero que você perceba este ponto de vista. Isto me livrou do desespero espiritual, tornou todas as coisas inteligíveis e adoráveis para mim, me proporcionou um radiante deleite na minha Obra, a qual eu quase havia abandonado como se fosse uma idiotice; eu estou enamorado com a vida, e pronto para cavalgar com a Morte rumo a uma nova Aventura.

O mundo está morrendo de desgosto com a sua própria vaidade horrível; a tarefa é monótona e árdua, a maçã de Sodoma é seu único alimento[21], o esquecimento é seu único prazer, e “Não tenha Esperança” é a sua palavra final de sabedoria. Você declarou esta sentença mais terrivelmente do que qualquer homem desde Gautama[22]; pois você não deixou nenhuma saída, seja no tempo ou no espaço, ou condição de existência, para qualquer ser, de Koshchei até Dame Lisa[23]. O mundo está esperando que você pronuncie a palavra mágica Thelema, que transforma toda maldição em Bênção, dá sentido a mais incoerente insensatez e carrega a árvore mais estéril de frutas amadurecidas ao sol. Esqueça este discurso extenso! Minhas palavras são de pouca importância; mas se você ler O Livro da Lei o suficiente, o Espírito do Senhor que está em você lhe mostrará o esplendor desta Liberdade, e lhe inspirará a propagar a sua luz solar através do prisma da sua Arte, para que os homens possam contemplar o seu “Arco Íris entre as Nuvens”[24] e saber que o dilúvio diminuiu sobre a face da Terra.
 
 
Notas:
  1. Isto foi escrito para o romancista americano James Branch Cabell (1879-1958), o autor de Jurgen: Uma Comédia de Justiça (1919). O Capítulo 22 de Jurgen foi baseado livremente no “Liber 15” de Crowley, a Missa Gnóstica da O.T.O..
  2. Vide “O Renascer da Magia(k)”, página 13.
  3. Grego, “a Grande Besta”, o mote de Crowley como um Magus 9º=2 A∴A∴.
  4. Amalantrah; a entrevista em questão foi realmente em 24 de Fevereiro. Vide “Liber 729, A Operação de Amalantrah”, O Equinócio IV (3). Crowley fornece outro relato deste episódio no Livro 4, Parte III, Apêndice 3.
  5. George Sylvester Viereck (1884-1962), o empregador de Crowley como editor do The International.
  6. Samuel Aiwaz Jacobs (c.1891-1971) era um tipógrafo e estilista de livro que fundou a Golden Eagle Press. Um ensaio de Jacobs (que – como Jurgen – faz uma paráfrase à Missa Gnóstica) é republicado como o Epílogo desta coleção de ensaios. A carta holográfica de Jacobs sobrevive na Yorke Collection, Warburg Institute, Universidade de Londres, e aparece como apêndice ao “Liber 729”, loc.cit.
  7. Tzadkiel é do hebraico tzaddiq (“correto, justo”) e El, Deus. Aqui, ele é o anjo da justiça. O nome Taphthartharath vem da obra de Paracelso sobre talismãs, onde o espírito do planeta Mercúrio é identificado como Tophtharthareth. Sem qualquer etimologia conhecida, ele se qualifica como um “nome inventado”.
  8. Grego, thelema, vontade.
  9. Grego, agape, amor.
  10. Norman Mudd (c.1890-1934) foi educado em Cambridge e era professor de matemática na Grey University College, Bloemfontein, África do Sul, antes de se unir a Crowley na Abadia de Thelema em Cefalù. Ele realizou um estudo determinado da interpretação matemática de O Livro da Lei, mas o levou a extremos tais que Crowley chegou a rejeitar os resultados.
  11. Geralmente transliterado como Elohim, “os deuses”, אלהים  = 86.
  12. O professor de Crowley, Allan Bennett, explicou isto no seu ensaio “Uma Nota Sobre o Gênesis”, O Equinócio I (2) (1909), p.183. “Escreva as letras deste Nome em qualquer Pentagrama de Invocação; e o Pentagrama de Banimento deste terá o valor 3.1415 (através da Qabalah das nove Câmaras)”. Ou seja, arrumando estas cinco letras como um pentagrama, pode-se lê-las de trás para frente enquanto se retiram os zeros nos seus valores numéricos hebraicos. Isso resulta em הימאל (respectivamente 3 1 4 1 5) , ou seja, 31415.
  13. ShT é שט, cujos valores numéricos hebraicos 9 e 300 se tornam 9 e 3 através da Qabalah das nove Câmaras, ou seja, 93. Vide Livro 4, Parte IV (O Equinócio dos Deuses), cap. 7, §3.
  14. Literalmente “tabu”, do gaélico geas, “proibição, tabu”, e geasa, “obrigação”, seja mágica ou relacionada à honra.
  15. Conde Manuel é o herói das Figuras da Terra de Cabell e o regente da terra de Poictesme.
  16. Em Jurgen, o personagem título é um prestamista de meia-idade que, ao receber um ano de juventude, deixa sua esposa, Dame Lisa, em troca de aventuras eróticas na terra de Poictesme.
  17. O capítulo que levou ao “Liber 15, Ecclesiae Gnosticae Catholicæ Canon Missæ” de Crowley, a Missa Gnóstica da O.T.O..
  18. Crowley estava escrevendo da Abadia de Thelema em Cefalù, Sicília.
  19. Os textos datilografados exibem “próximo do Estipulado”, provavelmente em erro.
  20. James Branch Cabell, Domnei: Uma Comédia da Adoração da Mulher (1920); vide Obras Citadas. Este foi o livro de Cabell depois de Jurgen.
  21. Em O Livro das Mentiras, o capítulo 67 é intitulado “Maçãs de Sodoma”. Em seu comentário, Crowley observa que “é inútil tentar abandonar a Grande Obra”.
  22. Gautama Buddha (c. 563 – 483 Antes da Era Comum), fundador do Budismo.
  23. Koshchei é uma figura do conto de fadas russo “A Morte de Koshchei o Imortal” No Livro Vermelho das Fadas de Andrew Lang. No Jurgen de Cabell, Dame Lisa é a esposa que Jurgen abandona; eles voltam a se unir no final.
  24. Gênesis 9:13.

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

O Ideal de Karma-Yoga - Swami Vivekananda

A mais admirável idéia da religião vedanta é a de podermos alcançar o mesmo fim por diferentes caminhos. Esses caminhos estão generalizados em quatro: o da ação, o do amor, o da psicologia e o do conhecimento. Mas deveis lembrar-vos ao mesmo tempo de que estas divisões não são muito marcadas nem se excluem umas às outras. Cada uma se mistura com as demais; porém, de acordo com o tipo que prevalece, damos o nome a cada divisão. Não quero com isto dizer que não encontreis um homem que não possua outra faculdade além da de agir, nem homens que sejam somente devotos fervorosos, nem outros que não possuam mais do que simples conhecimento. Estas divisões são feitas de acordo com o tipo ou tendências que parecem prevalecer em cada indivíduo. Já vimos que finalmente estas quatro sendas convergem para um ponto só. Todas as religiões e métodos de ação e adoração nos conduzem a fim idêntico.

Procurarei indicar-vos qual é este fim. É a liberdade tal como a compreendo. Tudo quanto percebemos ao nosso redor está lutando por essa liberdade, desde o átomo ao homem, desde a insensível partícula de matéria isenta de vida até a existência mais elevada da terra, a alma humana. O universo inteiro é, em verdade, o resultado desta luta pela liberdade. Em todas as combinações cada partícula trata de seguir sua trajetória própria, porém as demais as mantêm sujeitas. Nossa terra procura fugir do sol, e a lua da terra. Tudo tende a uma dispersão infinita.

Tudo quanto vemos no universo tem como base esta luta pela liberdade; é impulsionado por esta tendência que o santo ora e o ladrão rouba. Quando a linha de ação não é correta, a chamamos mal, e quando sua manifestação é correta e elevada, a chamamos bem. Mas o impulso é o mesmo: a luta pela liberdade. O santo está oprimido pelo conhecimento de seu cativeiro e precisa livrar-se dele; por isso adora a Deus. O ladrão crê que não possui certas coisas e trata de desfazer-se desta necessidade, ver-se livre dela e por isso rouba. A liberdade é o único objetivo da natureza, seja consciente ou inconsciente; e consciente ou inconscientemente, todos lutam para este fim.

A liberdade que o santo busca difere muito da que busca o ladrão. A liberdade amada pelo santo leva-o ao gozo da felicidade infinita e inefável, enquanto que aquela em que o ladrão pôs seus amores, forja unicamente novas cadeias para a sua alma.

Em todas as religiões se encontra esta luta pela liberdade. É o fundamento de toda moralidade, do altruísmo, o que significa desvencilhar-se da ideia de que os homens são idênticos aos seus pequeninos corpos. Quando vemos que um homem pratica uma boa ação auxiliando os outros, verificamos que ele não pode estar confinado ao limitado círculo do “eu e meu”. Não há limite para este renunciar do egoísmo. Todos os grandes sistemas de moral pregam o absoluto altruísmo.

Suponde que este absoluto altruísmo fosse alcançado por um homem. Que aconteceria? Já não seria mais o Sr. Fulano de Tal, pois teria alcançado uma expansão infinita. Aquela sua pequena personalidade anterior teria desaparecido para sempre. Ter-se-ia volvido para o infinito, e a conquista desta expressão infinita é em verdade a meta de todas as religiões e de todos os ensinamentos filosóficos e morais.

O personalista se assusta ante esta concepção filosófica. No entanto, em sua pregação se oculta a mesma ideia. Ele não limita o altruísmo do homem. Suponde que um homem chegasse a ser perfeitamente altruísta sob o sistema personalista, como faríamos para distingui-lo dos perfeitos de outros sistemas? Aquele chegou a ser uno com o universo, o que é o fim de todos nós; porém o personalista não tem o valor de seguir seu próprio raciocínio até suas últimas conclusões lógicas. Karma-Yoga é a aquisição, mediante o altruísmo, dessa liberdade que constitui a meta de toda natureza humana. Cada ação egoísta retarda nossa chegada à meta, e cada ação altruísta a acelera; por isto a única definição que se pode dar da moral é esta: O egoísta é imoral, e o altruísta moral.

No entanto, se entrardes em detalhes, já não nos parecerá tão simples o assunto. Por exemplo: o ambiente faz com que os detalhes variem. Uma ação pode ser altruísta em certas circunstâncias, e egoísta em outras. Portanto, limitamo-nos a dar uma definição geral, deixando que os detalhes sejam elaborados em relação com as diferenças de tempo e de lugar. O que em um país é moral, é imoral em outro. O fim visado pela natureza é a liberdade, e esta se obtém semente pelo altruísmo; cada pensamento, palavra ou ação isenta de egoísmo nos aproxima da meta, e consequentemente, é moral.

Como vedes, esta definição é aceita por todas as religiões e sistemas de moral. Em certas filosofias, a moral tem sua origem num Ser Superior: Deus. Se perguntais porque deve um homem fazer isto em vez daquilo, responder-vos-ão que é o mandato de Deus. Porém, independentemente da origem, seu código de moral se baseia no mesmo princípio: não pensar no eu. Não obstante, pessoas de tão elevado conceito de moral se atemorizam ante a ideia de terem que abandonar ou renunciar suas mesquinhas personalidades. Ao homem que se aferra à sua insignificante personalidade podemos pedir que considere o caso de uma pessoa perfeitamente altruísta, que não tenha outro pensamento nem preocupação senão os outros, e inteira relegação do “a si mesmo”. 

Este “a si mesmo” lhe é conhecido só quando pensa, age ou conversa para si mesmo; se sua consciência abarca só o universal, onde está o seu “a si mesmo”? Foi-se para sempre.

Karma-Yoga, portanto, é um sistema de ética e religião destinado a obter a liberdade mediante as boas ações. O karma-yogue não precisa de nenhuma doutrina. Pode ser ateu, pode não se interessar pela sua alma nem o inquietar nenhuma especulação metafísica. Possui sua finalidade, seu modo especial de alcançar o inegoísmo, e deve alcançá-lo por si mesmo. Sua vida tem de ser uma constante realização, porque deve resolver pela ação, sem auxílio de doutrinas nem teorias, o mesmo problema ao qual o jnani aplica a razão e o bhakti o amor.

Surge agora outra pergunta: podemos fazer bem ao mundo? No sentido absoluto, não; em sentido relativo, sim. Não se pode fazer nenhum bem permanente ao mundo; se tal fosse possível, o mundo não seria mundo. Podemos aplacar a fome de uma pessoa durante um tempo mais ou menos prolongado, porém ela voltará a senti-la outra vez. O prazer que podemos oferecer é momentâneo. Ninguém pode curar definitivamente esta febre de prazer e de dor.

Pode alguém conceder ao mundo a eterna felicidade? Para que uma onda se erga à superfície das águas, deve haver uma depressão equivalente. As coisas boas deste mundo estão relacionadas com as necessidades e inveja do homem. Não podem ser aumentadas nem diminuídas. Considerai por um momento a história da raça humana. 

Não encontramos as mesmas alegrias e infelicidades, os mesmos prazeres e dores, as mesmas diferenças de classe? Não são uns ricos e outros pobres; estes altos e aqueles baixos; alguns sãos e outros enfermos? Pois o que acontecia com os egípcios, os gregos e os romanos, acontece hoje com os americanos. A história se repete indefinidamente; no entanto, podemos observar que ao lado dessas incuráveis diferenças de prazer e dor, sempre houve luta por aliviá-las.

Cada período da história contou com milhares de homens e mulheres que se esforçaram por tornar a existência mais agradável para as futuras gerações. Mas em que proporção conseguiram? Só podemos mudar a pelota de um lugar para outro. Deixamos a dor no plano físico e se dirige ao mental. É como na cena do Inferno de Dante, em que aos miseráveis se entrega uma bola de ouro para que façam rolar até o alto de uma montanha. Cada vez que a fazem subir um trecho, a gravitação a faz voltar. Nossas conversas sobre a idade de ouro não são mais do que encantadores contos para crianças. As nações que sonham com a idade de ouro pensam que para o seu povo lhes virá o melhor. Esta é a assombrosa ideia altruísta, da idade de ouro.

Não podemos aumentar a felicidade deste mundo; nem tampouco nos é possível aumentar a dor. A soma de prazer e dor será sempre a mesma. Este fluxo e refluxo de prazer e dor é a própria essência do mundo; sustentar o contrário equivaleria a dizer que pode haver vida sem morte. Algo completamente absurdo, porque a ideia de vida implica necessariamente a de morte, e o prazer deve. ter a dor como contraparte.

A lâmpada está ardendo e consumindo-se constantemente, e esta é a sua vida. Se quereis ter vida, deveis morrer constantemente por ela. A vida e a morte são uma e a mesma coisa, contemplada de dois pontos de vista; são a ascensão e descida da mesma onda; em síntese: uma olha a “ascensão” e se faz otimista; outro olha a “descida” e se faz pessimista. Quando uma criança vai à escola e seus pais a cuidam, tudo lhe parece feliz; sua necessidades são simples, e como resultado, é grande otimista. Porém, o ancião, com suas múltiplas experiências, busca mais o repouso. Assim também são as velhas nações, que apresentam sinais de decadência e têm menos esperanças do que as novas. Há um provérbio na Índia que diz: “Mil anos de cidade e mil anos de bosque”. Esta mudança em bosque, e vice-versa, ocorre em todas as parte, e torna os povos otimistas ou pessimistas, segundo o ponto de vista que adotem.

A primeira coisa em que devemos pensar é na igualdade. Essas ideias do século de ouro têm dado um forte impulso à ação. Muitas religiões pregam que Deus virá reger este universo e que então as condições serão iguais para todos. As pessoas que pregam estas doutrinas são simples fanáticos, e os fanáticos são, em verdade, os homens mais sinceros. O cristianismo foi pregado sob sugestões desse fanatismo, e assim atraiu os gregos e os romanos escravos. Acreditam estes que sob a religião de um século de ouro, terminaria a escravidão e teriam o suficiente para comer e beber; e portanto, abraçaram a causa cristã. Os que originalmente pregaram a ideia, foram simples fanáticos ignorantes, porém sinceros.

Nos tempos modernos esta aspiração de século de ouro se encerra na fórmula: liberdade, igualdade, fraternidade. Isto também é fanatismo. A verdadeira igualdade jamais existiu nem existirá sobre a terra. Como podemos ser todos iguais? Esta espécie de igualdade implica a morte total. Qual é a causa do mundo ser como é? O equilíbrio perdido. No estado primitivo, chamado caos, existe perfeito equilíbrio. Como surgiram as forças criadoras do universo? Pela luta, competição e conflito.

Supondo que as partículas da matéria se achassem em equilíbrio, seria possível a criação? A ciência afirma que não. Agitai a água e vereis que cada uma de suas partículas voltará à quietude, precipitando-se umas contra as outras; e do mesmo modo os fenômenos que constituem o universo (as coisas que ele encerra) lutam por volver ao perfeito equilíbrio. Produz-se uma perturbação, e de novo ocorrem a combinação e a criação. Ao mesmo tempo, as forças que lutam pela igualdade são tão necessárias à criação como as que a destroem.

A igualdade absoluta, isto é, o perfeito equilíbrio das forças em luta em todos os planos, não é possível em nosso mundo. Antes de alcançar esse estado, o mundo será inadequado para qualquer espécie de vida. Vemos então que o século de ouro e a igualdade são impossíveis, e se quiséssemos levá-los à prática, nos conduziriam à destruição. Que é que constitui a desigualdade entre os homens? Principalmente a diferença de cérebros.

Ninguém, a não ser um desequilibrado, diria hoje que nascemos com a mesma capacidade cerebral. Chegamos ao mundo com faculdades determinadas, impossíveis de alterar. Os índios americanos habitavam esta região há milhares de anos, porém chegaram vossos antepassados e desde então mudou o aspecto da região. Por que não fizeram os índios melhoramentos nem construíram cidades, se somos todos iguais? Com os vossos antepassados apareceu uma classe diferente de poder cerebral.

A absoluta igualdade é morte. Enquanto durar este mundo, existirá a diferenciação, e a idade de ouro da igualdade perfeita chegará só quando chegar a seu termo um ciclo de criação, Antes, essa igualdade não poderá existir. No entanto, esta ideia de realizar o século de ouro é um estímulo de grande poder. Assim como a desigualdade é necessária para a criação, também o é a luta para limitá-la. Se não houvesse luta para sermos livres e voltarmos a Deus, não haveria criação. É a diferença entre essas duas forças que determina os motivos para atuar, alguns tendentes às limitações e outros à liberdade.

Este mundo, semelhante a duas rodas que giram uma dentro da outra e em sentido oposto, constitui um mecanismo terrível; se nos descuidarmos, pode prender nossa mão e arrastar-nos. Todos cremos que uma vez cumprido o dever imediato, descansaremos; porém, mesmo antes de havê-lo terminado, outro dever nos espera. Todos nós somos arrastados por esta poderosa e complexa máquina, que é o mundo. Só há dois modos de evitá-la: um é renunciando todo interesse pela máquina, deixando-a funcionar só; noutras palavras, abandonando nossos desejos.

Isto é muito fácil de dizer, porém difícil de fazer. Não sei se entre vinte milhões de homens haverá um que seja capaz de fazê-lo. O outro modo consiste em submergirmos no mundo e aprender o segredo do trabalho. Não fujais da engrenagem do mundo; ao contrário, permanecei nele e aprendei o segredo do trabalho. Mediante o trabalho correto, feito em seu interior, pode-se alcançar a libertação. Atravessando esta maquinaria, chega-se à saída.

Vimos o que é ação: uma parte dos alicerces da natureza, a qual não deixa nunca de agir. Aqueles que creem em Deus o compreenderão melhor, pois sabem que Deus não necessita de nossa ajuda. Mesmo que este universo não detenha nunca sua marcha, nossa meta é a liberdade, nosso fim o altruísmo, e, de acordo com Karma-Yoga, o fim há de ser conquistado mediante a ação.. Todas as ideias de tornar o mundo feliz podem ser boas como motivos poderosos para os fanáticos; porém sabemos que o fanatismo produz tanto o mal como o bem. O karma-yogue pergunta a si mesmo por que há de haver outro motivo para agir, além do amor inato pela liberdade. Colocai-vos mais acima dos motivos mundanos. Tendes direito à ação mas não aos frutos.

“O homem pode exercitar-se para conhecer e praticar esta verdade”, afirma o karma-yogue. Quando a ideia de fazer o bem faz parte de sua própria existência, já não busca nenhum motivo externo. Façamos o bem só porque é bom fazê-lo; “aquele que realiza boas ações, ainda que seja só para alcançar o céu, prende-se a si mesmo”, diz o karma-yogue. Qualquer ação executada com egoísmo, em vez de libertar, forja novas cadeias para nossos pés.

De modo que a única solução consiste em renunciar os frutos da ação, não se ligando a ela. Sabeis que o mundo não somos nós, nem nós o mundo. Somos o Ser eternamente em repouso e em paz. Por que, pois, temos que nos ligar a alguma coisa? É muito bom dizer que deveríamos desligar-nos de tudo, porém, como consegui-lo? 

Cada ação boa que praticamos sem esperar recompensa, em vez de forjar novas cadeias, romperá uma das já existentes. Cada bom pensamento que enviemos ao mundo, sem desejar recompensa alguma, será computado pelo karma e romperá um novo elo de nossa cadeia, tornando-nos mais puros. No entanto, isto pode parecer algo quixotesco em vez de prático. Tenho lido muitos argumentos contra o Bhagavad-Gita, e são muitos os que afirmam que os homens não podem agir sem motivos. Eles nunca viram obras altruístas a não ser influenciadas pelo fanatismo, e por isso falam desta forma.

Como conclusão vos direi algumas palavras sobre um homem que praticou os ensinos de Karma-Yoga. Este homem foi Buda, o único que levou estas práticas à sua perfeição máxima. Todos os profetas do mundo, com esta única exceção, podem ser divididos em duas classes: uma, os que afirmam ser encarnações de Deus, e outra, os que dizem ser apenas mensageiros de Deus. Ambas obtêm seu impulso do exterior, por muito espiritual que seja a linguagem que utilizam. Buda foi o único profeta que disse: “Não me preocupo em conhecer vossas diversas teorias acerca de Deus. De que serve discutir sobre as sutis doutrinas da alma? Praticai o bem e ele vos conduzirá à verdadeira liberdade”.

Sua conduta estava absolutamente desprovida de móveis pessoais; no entanto, quem o excedeu como trabalhador? Mostrai-me na história um caráter que se tenha elevado a esta altura. A raça humana produziu só um caráter de tão elevada filosofia e de tão vasta compaixão. Este grande filósofo, que pregou a mais elevada doutrina, tinha, no entanto, a mais profunda compaixão pelos animais, sem que jamais se atribuísse mérito algum por isso. Foi o karma-yogue ideal, agindo em todos os momentos sem motivos pessoais. A história da humanidade o apresenta como o maior entre, os nascidos, a melhor combinação de coração e cérebro que já existiu, a alma maior e mais poderosa que se manifestou.

É o primeiro dos reformadores que o mundo conheceu. Foi o primeiro que se atreveu a dizer: “Crede, porém não porque isto seja costume em vosso país; discerni e analisai tudo, e depois disto, se virdes que fará bem aos outros e a todos, crede, vivei e praticai; e depois fazei que outros o vivam”. Age melhor quem não busca dinheiro, nem fama, nem coisa alguma. Quando um homem realizar isto, será um Buda, e surgirá dele tal força de ação que transformará o mundo. Um homem assim representa o mais elevado ideal de Karma-Yoga.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Liberdade - Swami Vivekananda

Além do significado de atuar, dissemos que, psicologicamente considerada, a palavra karma quer dizer causação. Qualquer trabalho, ação ou pensamento que produza um efeito, chama-se karma. Assim, “lei de karma” significa “lei de causa e efeito”. Onde quer que exista uma causa, produz-se um efeito; esta necessidade não pode ser evitada, e é, segundo nossa filosofia, uma lei que se cumpre em todo o universo, enquanto de um modo é o resultado de uma ação passada, de outro modo se converte em causa de seu próprio efeito. É necessário, além disso, considerar o que significa a palavra lei. Por lei entendemos a tendência de repetir uma série de fenômenos. Quando vemos um fato seguido de outro ou que transcorre simultaneamente, esperamos que esta sequência ou coexistência torne a ocorrer.

Os antigos lógicos e filósofos da escola Nyâyâ denominavam esta lei de Vyâpti. Segundo eles, nosso conceito de lei se deve à associação. Uma série de fenômenos está em nossa mente, associada a certas coisas, segundo uma ordem invariável; desta forma, qualquer coisa que percebemos num dado momento é imediatamente transferida a outros fatos de nossa mente. Toda ideia, ou, segundo nossa psicologia, cada vibração produzida na substância mental chitta, deve dar nascimento a vibrações semelhantes. Esta é a ideia psicológica da associação e o motivo é apenas um aspecto deste princípio. A associação se chama Vyâpti

No mundo externo a idéia de lei é igual à do mundo interno: a expectativa de que um fenômeno particular seja seguido por outro e que a série se repita. Portanto, estritamente falando, a lei não existe na natureza. Praticamente é um erro dizer que a gravitação existe na terra ou que há alguma lei que exista objetivamente nalguma parte da natureza.

A lei é o método ou a maneira como nossa mente percebe um série de fenômenos; tudo está na mente. Certos fenômenos que ocorrem sucessiva ou simultaneamente, capacitam nossas mentes a perceber o método da série, e constituem o que chamamos lei.

A imediata questão a considerar é a definição de uma lei universal. Nosso universo e a porção de existência caracterizada pelo que os psicólogos sânscritos chamam Desha-kâla-nimitta, ou seja, o que a psicologia europeia chama espaço, tempo e causação. O universo é apenas uma parte da existência infinita, posta num molde particular composto de tempo, espaço e causação. Do que se deduz que a lei é semente possível dentro deste universo condicionado, não podendo existir lei alguma fora dele. Quando falamos de universo, entendemos somente a porção de existência limitada por nossa mente; o universo dos sentidos, que podemos ver, sentir, tocar, ouvir, pensar e imaginar. É o único que está sob a lei; além dele a existência não pode estar sujeita à lei, porque a causação não se estende fora do mundo de nossas mentes. Tudo quanto esteja fora do alcance de nossa mente e sentidos, não se acha submetido à lei de causa e efeito, pois não há associação mental de coisas na região inacessível aos sentidos, nem causação sem associação de ideias.

Somente quando “o ser” ou existência está modelado em nome e forma, é que obedece à lei de causação; diz-se, então, que está sob a lei, porque toda lei tem sua essência na causação. Portanto, não pode existir o livre arbítrio; mesmo estas palavras são uma contradição, porque o que conhecemos é a vontade, e tudo o que conhecemos está dentro do nosso universo, e modelado pelas condições de espaço, tempo e causação. Tudo quanto conhecemos ou podemos conhecer está por força submetido à lei de causação, e por consequência não pode ser livre. Agem nele outros agentes, que por sua vez se transformam em causa. Porém aquilo que se transformou em vontade, será livre quando romper os moldes em que está encerrada: espaço, tempo e causalidade. Provém da liberdade, modela-se na matriz das ligaduras, sai dela e volta de novo à liberdade.

Tem-se procurado saber donde vem e aonde vai este universo; e tem-se respondido que vem da liberdade, sujeita-se à fatalidade e volta de novo à liberdade. Assim, quando dizemos que o homem não é mais que o ser infinito se manifestando, queremos dizer que só uma parte muito pequena dele é em realidade o homem; este corpo e esta mente que percebemos são apenas uma parte do todo, apenas um ponto da existência infinita. O universo é somente uma partícula da infinita existência, e todas nossas leis e limitações, nossas alegrias, nossas felicidades e nossas esperanças, estão dentro dele; todo nosso progresso e nossa decadência se acham nos limites de sua pequena jurisdição. De maneira que vedes quão infantil é esperar uma continuação deste universo (criação de nossa mentes) e aguardar o céu que, depois de tudo, só pode ser uma repetição deste mundo que conhecemos. Como vedes, é um desejo impossível e infantil adaptar a totalidade da existência infinita a esta existência limitada e condicionada que conhecemos.

Quando um homem afirma que terá sempre a mesma coisa que agora possui, ou, como tenho dito algumas vezes, quando ele pede uma religião confortável, podeis estar seguro de que se degenerou tanto que já não é capaz de pensar em algo mais elevado do que o é atualmente. Este homem é tão só o que são suas mesquinhas circunstâncias atuais. Esqueceu sua natureza infinita, e seu pensamento se circunscreve às pequenas alegrias, tristezas e aborrecimentos do momento. Pensa que esta coisa finita é o infinito; e não somente isto, mas não quer abandonar tão ridícula ideia. Aferra-se desesperadamente a Trishnâ, a sede de viver, que os budistas chamam Tanhâ e Tissâ. Podem existir milhões de classes de felicidades, de seres, de leis, de progresso e de causação atuando fora deste pequeno universo que conhecemos, pois a totalidade de tudo isto compreende apenas uma seção de nossa natureza.

Para alcançar a liberdade, devemos transcender os limites do nosso universo. O perfeito equilíbrio, ou o que os cristãos chamam a paz, que se encontra além de todo entendimento, não pode ser conquistado neste mundo, nem no céu nem em lugar algum onde nossa mente possa pensar, os sentidos perceber e a imaginação conceber. Nenhum destes lugares pode nos dar a liberdade, porque todos eles estariam dentro de nosso universo e este está limitado pelo tempo, espaço e causação. Podem existir lugares que sejam mais etéreos do que nossa terra, onde os prazeres sejam mais intensos, porém mesmo esses lugares estarão dentro de nosso universo, e portanto, sujeitos à lei; por conseguinte, devemos ir mais além, e a verdadeira religião começa onde termina o nosso universo. As rápidas alegrias e sofrimentos findam onde a realidade começa. Enquanto não abandonarmos a sede de viver, a atração pela existência transitória e condicionada, não teremos nem sequer a esperança de vislumbrar essa infinita liberdade que existe além do limitado.

É lógico que não existe mais do que uma só maneira de obter esta liberdade (uma das mais nobres aspirações da humanidade): o desprezo desta pequena vida, deste pequeno universo, desta terra, do céu, do corpo, da mente e de tudo o que está limitado e condicionado. Se renunciarmos o nosso apego por este pequeno universo dos sentidos e da mente, seremos imediatamente livres. É o único modo de se livrar dos laços e ir além das limitações da lei e da causação.

Todavia, é, sumamente difícil deixarmos de nos aferrar a este universo; muito poucos o conseguem. Nossos livros mencionam um dos modos de obtê-lo. Um é chamado nei, neti (isto não, isto não), e o outro se chama iti (isto); o primeiro é negativo e o segundo positivo. A maneira negativa é a mais difícil e só possível para homens de mentes elevadas e poderosa vontade; desses que se põem de pé e dizem: “Não, não aceito isto”, e a mente e o corpo obedecem sua vontade, e surgem vencedores da prova. A maioria da humanidade escolhe o modo positivo, o caminho do mundo, usando de todas as limitações para romper essas mesmas limitações. Esta é também uma maneira de renunciar; só que age de maneira lenta e gradual, conhecendo as coisas, gozando delas e obtendo, desta maneira, experiência, conhecendo a natureza das coisas até que a mente termina por abandoná-las.

O primeiro modo de se desligar é mediante o raciocínio; o segundo, pela experiência. O primeiro é a senda da jnana-yoga e se caracteriza pela negativa de realizar qualquer obra; o segundo é, a karma-yoga, aquela que age sem cessar. Todos devem trabalhar no universo. Só aqueles que estão satisfeitos com o Ser, cujas mentes nunca saem fora do Ser, para quem o Ser é tudo em todos, não trabalham. Os demais devem trabalhar.

Uma corrente que flui por seu impulso próprio cai numa cova e forma um redemoinho, e depois de girar algum tempo volta a seguir seu curso. A vida humana se assemelha a esta corrente. Penetra no redemoinho, gira neste mundo de espaço, tempo e causação exclamando: “meu pai, meu irmão, meu nome, minha fama, etc.”, e por fim sai dali e readquire a liberdade original. Conhecendo-a ou não, sejamos ou não conscientes dela, todos trabalhamo-los para sair do sono do mundo. A experiência do homem é para torna-lo capaz de sair deste torvelinho.

Que é Karma-Yoga? É o conhecimento do segredo da ação. Todo universo trabalha. Para que? Para sua elevação, para sua liberdade. Desde o átomo até o mais elevado dos seres, trabalha para alcançar a liberdade de mente, do corpo e do espírito. Todas as coisas pugnam continuamente por obter a liberdade e fugir da escravidão. O sol, a lua, a terra, os planetas, todos trabalham para se libertarem das limitações. As forças centrífugas e centrípetas da natureza caracterizam o nosso universo. Em vez de sofrermos para chegar a conhecer as coisas como elas são, aprendemos de Karma-Yoga o segredo da ação, o método de trabalhar, a maneira de agir.

Uma soma enorme de energia pode ser gasta em vão, se não soubermos como utilizá-la. Karma-Yoga transforma o trabalho em ciência, e com seu auxílio aprenderemos a utilizar melhor as forças deste mundo. A ação é inevitável, e assim deve ser; porém devemos atuar com o mais elevado propósito.

Karma-Yoga nos ensina que este mundo possui uma existência efêmera, passageira, e que a liberdade não se encontra aqui, porém mais além. Para poder escapar das ligaduras do mundo, devemos viver com cautela. Podem existir pessoas excepcionais, como as que acabo de citar, capazes de se desligarem do mundo, como uma cobra abandona sua pele e separada dela a contempla. Sem dúvida alguma existem esses seres excepcionais, porém o resto da humanidade tem que passar lentamente pelo mundo da ação; karma yoga ensina o processo e o método de realizá-lo com vantagem.

“Trabalha sem descanso porém abandona tudo aquilo que te ligue ao teu trabalho”. Não vos identifiqueis com coisa alguma. Conservai vossa mente livre. As dores e misérias que contemplais são as condições necessárias deste mundo. A pobreza, a riqueza e a felicidade são momentâneas; não pertencem de forma alguma à nossa natureza real. Nossa natureza está muito além do sofrimento e da felicidade, além dos sentidos e além da imaginação.

No entanto, devemos continuar trabalhando sem descanso. “O sofrimento vem do fato de se ligar à ação”. No momento em que nos identificamos com a ação, sentimo-nos infelizes; porém, não nos identificando com ela, evitamos a desgraça.

Se um lindo quadro pertencente a qualquer pessoa fosse posto ao fogo, não nos sentiríamos infelizes, porém, quando é o nosso próprio quadro que se queima, então nos consideramos infelizes. Por que isto? Os dois quadros são formosos, talvez cópia do mesmo original, porém em um caso se sente muito mais aflição do que no outro. É porque no último caso nos identificamos com o quadro, o que não aconteceu com o primeiro.

O eu e o meu são a causa de toda dor. Com o desejo de posse surge o egoísmo, e com ele a miséria. Cada ato, cada pensamento egoísta, nos liga a alguma coisa, e imediatamente nos convertemos em seus escravos.

Cada ondulação em chitta que diz “eu e meu”, liga imediatamente uma cadeia em nós e nos transforma em escravos, e quanto mais dissermos “eu e meu” , mais aumentaremos a escravidão e a aflição.

Portanto, Karma-Yoga nos ensina a desfrutar a beleza de todos os quadros do mundo, porém sem nos identificarmos com nenhum deles. Nunca digais “meu”. Quando disserdes esta coisa é minha, o sofrimento surgirá imediatamente. Nem sequer digais mentalmente “filho meu”. Possuis um filho, porém não digais “meu”. Se o fizerdes, começareis a ser infelizes. Não digais “minha casa” nem “meu corpo”. Toda a dificuldade está nisto. O corpo não é vosso, nem meu, nem de ninguém. Os corpos vem e se vão impulsionados por leis naturais, porém nós não somos nada mais do que o testemunho, e como tais, donos de nossa liberdade. Este corpo não é mais independente do que um quadro ou uma parede. Por que havemos de nos ligar a um corpo? Se alguém pinta um quadro, quando o termina segue seu caminho. Não projeteis esse tentáculo de egoísmo: “eu devo possuí-lo”. Tão logo o projeteis, começa a desdita.

Assim, karma-voga diz: controlai primeiramente o tentáculo do egoísmo, e quando o tiverdes conseguido, não permitais que a mente se submerja de novo nas ondas do egoísmo. Então podereis enfrentar o mundo e trabalhar tanto quanto puderdes. Frequentai qualquer companhia, aonde quer que vades, e nunca sereis contaminados pelo mal. A folha de Loto está na água mas esta não pode aderir a ela; assim sereis vós no mundo. Isto se chama vatragya, ou desapego. Creio que já vos disse que sem desapego não pode haver yoga.

O não ligar-se a coisa alguma é a base de todos as yogas. O homem que renuncia viver numa casa, usar vestimentas ricas ou comer alimentos delicados, e mora no deserto, pode, não obstante, estar muito ligado. Sua única posse, seu corpo, pode ser tudo para ele, e enquanto viver estará lutando por amor ao seu próprio corpo. O desligar-se não é ação que possamos cumprir com o corpo físico, porém com a mente. A cadeia que nos escraviza ao “eu e ao meu” está na mente. Se nosso corpo e nossos sentidos estiverem desligados, seremos livres em qualquer parte em que nos encontremos.

Um homem pode ocupar um trono e estar perfeitamente desligado; outro pode vestir farrapos e no entanto estar ligado. Primeiro deveis alcançar este estado de desapego e em seguida trabalhar incessantemente. Karma-Yoga dá o método que nos auxiliará a renunciar toda atração, mesmo que em verdade seja muito difícil.
Eis aqui os dois métodos para se desligar de todo laço. O primeiro é para os ateus. Estes estão entregues às suas próprias forças; atuam mediante a sua vontade própria e os podares de sua mente e discernimento, dizendo: “eu não devo estar ligado”.

Para os crentes, existe outro método, muito mais fácil: abandonam os frutos da ação ao Senhor, trabalhando sem ligar-se aos resultados. Qualquer coisa que vejam, sinta, façam ou ouçam, é para Ele, pois nenhuma ação boa que realizarmos merece alcançar benefícios. Pertencem ao Senhor; portanto, os frutos devem ser d’Ele. Permaneçamos desligados e não esqueçamos que nada mais somos do que servos que obedecem ao Senhor, nosso Amo, e que os motivos que impulsionam Suas ações nos são desconhecidos.

Tudo o que adorardes, tudo o que fizerdes, cedei-o ao Senhor e ficai em paz. Estejamos em paz conosco mesmos e cedamos ao Senhor nosso corpo, nossa mente e tudo mais como um sacrifício. Em vez do sacrifício de verter oblações no fogo, realizai este grande sacrifício dia e noite: o sacrifício do vosso pequeno eu. “Buscando as riquezas deste mundo, Tu foste a única riqueza que encontrei; eu me sacrifico a Ti. Buscando alguém a quem amar, Tu foste o único amado que encontrei; eu me sacrifico a Ti”. 

Repitamos isto dia e noite, e acrescentemos: “nada para mim; não importa se a coisa é boa ou má, ou indiferente, pois tudo sacrifico a Ti”. Renunciemos dia e noite o nosso eu ilusório até que isto se converta num hábito, até que nos penetre no sangue, nos nervos e no cérebro, até que a todo o momento o corpo obedeça a esta ideia de renúncia do eu. Então, mesmo que vos acheis num campo de batalha, vos sentireis livre e em paz.

Karma-Yoga nos ensina que o conceito corrente do dever está em plano inferior; não obstante todos nós devemos cumprir nossos deveres. No entanto, comprovamos que esta concepção do dever é causa frequente de grandes infelicidades. O dever se transforma em uma enfermidade para nós; empurra-nos continuamente para diante. Apodera-se de nós e faz-nos miseráveis. É o veneno da vida humana. Esta ideia de dever é a canícula de um dia de verão que abrasa o mais íntimo da alma humana. Olhai estes pobres escravos do dever. Não lhes sobra tempo nem para fazerem suas orações, nem para se banharem. O dever os absorve continuamente. Vão trabalhar e ali o dever os domina. Voltam para casa, e ali pensam no trabalho do dia seguinte. O dever pesa sobre eles. Vivem como escravos, até que por fim caem nas calçadas e morrem encilhados como se fossem cavalos. É assim que compreendem o dever, quando o único dever é estar-se desligado e agir como ser livre, abandonando as obras a Deus.

Todos os nossos deveres Lhe pertencem. Felizes aqueles que recebem Suas ordens. Servimos enquanto nos cumpre servir; se fazemos bem ou mal, a quem interessa? Se fazemos o bem, não colhemos o fruto; se fazemos o mal, ficamos livres de cuidados. Estai tranquilos. Sede livres e trabalhai. Esta classe de liberdade é muito difícil de se obter. Quão fácil é interpretar a escravidão como um dever: a mórbida atração da carne pela carne! Os homens se esforçam por obter aquilo que lhes apetece. Perguntai-lhes por que o fazem, e vos dirão: “é meu dever”. Porém mentem, pois em realidade se trata da absurda avidez pelo ouro e pela ganância.

Mas, depois de tudo isto, que é o dever? É o impulso da carne, de nossas ligações, e quando temos um laço estabelecido, chamamo-lo dever. Por exemplo: nos países onde não existe o matrimonio, não há deveres entre marido e mulher; os amantes vivem juntos em virtude de suas ligações, e esta classe de vida familiar chega a estabilizar-se no transcurso de algumas gerações até converter-se em dever. É, por assim dizer, uma espécie de enfermidade crônica. Quando as ligações se tornam crônicas, as batizamos com o pomposo nome de dever. Então lhes oferecemos flores, soam os clarins, recitamos alguns versos dos livros sagrados, e geralmente o mundo continua em suas lutas e os homens se roubam uns aos outros em nome deste dever.

O dever é bom quando ponha cobro à brutalidade. Pode ser benéfico para os homens inferiores, incapazes de ter outros ideais; porém, aqueles que desejam ser karma-yogues devem abandonar semelhante conceito do dever. Não há dever para vós nem para mim. Tudo o que derdes ao mundo, dai-o de coração, mas não como um dever. Nem sequer penseis nisso. Não vos obrigueis. Além disso, por que havereis de vos obrigar? Tudo quanto fizerdes a título de obrigação, servirá para atar-vos. Por que deveis ter deveres? Cedei tudo a Deus. Neste forno ardente onde o fogo do dever queima tudo, bebei vosso copo de néctar e sede feliz.

Nós todos cumprimos a Sua vontade, e nada temos que ver com recompensas nem castigos. Se quiserdes recompensa, obtereis igualmente castigo; a única maneira de se livrar do castigo é abandonar a ideia de felicidade, porque as duas se encontram indissoluvelmente unidas. No verso está a felicidade e no reverso a infelicidade. De um lado, a vida, e do outro, a morte. O único modo de transcender a morte é abandonar o amor pela vida. A vida e a morte são a mesma coisa, observada de pontos de vista diferentes.

De maneira igual, a ideia de felicidade sem desdita ou da vida sem morte é muito boa para os escolares, porém o homem inteligente compreende que se trata de uma simples oposição de termos e renuncia a ambas. Não busqueis louvores nem recompensas por vossas ações. Sempre que praticamos uma boa ação, desejamos que nos agradeçam. No momento em que entregamos algum dinheiro para uma obra de caridade, queremos ver nosso nome inscrito nos jornais. O resultado deste desejo é a desgraça. Os maiores homens do mundo desapareceram no anonimato. Os Budas e os Cristos que conhecemos são heróis de segunda categoria, comparados com os grandes homens ignorados. Centenas destes heróis anônimos têm vivido em todos os países trabalhando em silêncio. Em silêncio viveram e em silêncio morreram, e com o decorrer do tempo seus pensamentos se manifestaram como Budas ou Cristos, os únicos que chegam a ser conhecidos por nós.

Os homens de valor não buscam renome nem celebridade. Abandonam suas ideias ao mundo; não pedem nada para si, nem estabelecem escolas ou sistemas que adotem o seu nome. Sua natureza se rebela contra estas coisas. São os verdadeiros sátvicos, ou harmoniosos, que não provocam agitação yogues, que habita numa caverna na Índia. Um dos homens mais assombrosos que já vi perdeu de tal modo a percepção de sua individualidade, que somente o Divino fala no seu interior. Se um animal lhe morde um braço, lhe oferece imediatamente o outro, pois compreende que é a vontade do Senhor. Tudo o que lhe acontece pertence ao Senhor. Nunca aparece aos homens e no entanto é um repositório de amor e de ideias amáveis.

Seguem depois os homens rajásicos ou ativos, naturezas combativas, que tomam as ideias dos perfeitos e as pregam pelo mundo. A classe mais elevada coleciona silenciosamente as ideias nobres e verdadeiras; e outros os Budas e Cristos – vão de lugar em lugar pregando e trabalhando por elas. Na vida de Gautama Buda se nos diz que Ele é o vigésimo quinto Buda. Os vinte e quatro Budas anteriores são desconhecidos para a história, conquanto o Buda que conhecemos deva ter edificado sua doutrina sobre as bases estabelecidas por seus antecessores.

Os homens superiores são tranquilos, silenciosos e anônimos. São os homens que conhecem realmente os poderes do pensamento, sabem que mesmo vivendo numa caverna e só tenham cinco pensamentos em toda a sua vida, esses cinco pensamentos viverão por toda a eternidade. Tais pensamentos perfurarão montanhas e cruzarão os oceanos. Entrarão profundamente no coração e no cérebro dos homens, que lhes darão expressão prática em suas ações na vida. Esses homens sátvicos estão demasiado próximos do Senhor para estar ativos e esforçar-se por fazer o bem, como dizem, sobre a terra. Os obreiros ativos, por bons que sejam, têm ainda um fundo de ignorância. Só quando ainda permanecem algumas impurezas em nossa natureza, é que podemos trabalhar. Em presença de uma Providência constantemente vigilante, que não deixa de se aperceber nem da descida de um pardal, como pode o homem atribuir importância alguma ao seu próprio trabalho? Não seria isto blasfemar, sabendo que Ele cuida de tudo neste mundo? A nós só nos cabe prostrarmos reverentemente ante deles, dizendo: 

Seja feita a Tua vontade”.

Os homens superiores não podem trabalhar porque não têm apego. Aqueles cujas almas já penetraram no Ser, cujos desejos estão confinados ao Ser, que já chegaram a uma associação indissolúvel com o Ser, não atuam. Ao agir deste modo, nunca deveríamos pensar que podemos ajudar nem sequer a menor partícula do universo. Não, não o podemos. Só nos ajudamos a nós mesmos. Tal é a atitude correta que deve assumir aquele que age. Se trabalhamos desta maneira, se temos sempre presente que nossa atual oportunidade de trabalhar é um privilégio que nos foi conferido, nunca ficaremos ligados a coisa alguma.

Milhões de indivíduos como eu se julgam importantes no mundo, porém morremos todos, e ao fim de cinco minutos o mundo já se esqueceu de nós. Porém a vida de Deus é infinita. “Quem pode viver um momento, respirar um momento, se não for pela vontade deste Uno Todo-poderoso?”. Ele é a Providência sempre ativa. Todo poder lhe pertence e está dentro de Sua vontade. Por Sua vontade os ventos sopram, o sol brilha, a terra vive e a morte passeia pelo universo. Ele é o Todo e está em tudo. Nós só podemos adorá-lo. Renunciai os frutos da ação, fazei o bem por amor ao bem, e só então chegareis ao perfeito desapego. Assim se romperão as ligaduras do coração e realizaremos a liberdade perfeita. Esta liberdade é, em verdade, a finalidade de Karma-Yoga.