segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Uma reflexão sobre a questão da sucessão (II) – A investidura Reuss-Crowley por Carlos Raposo

Na nuvem de desinformações que lança sombras sobre a pouco conhecida história da Ordo Templi Orientis, tornou-se mote um tanto corriqueiro propalar o “pior homem do mundo”, Aleister Crowley (i.e. Frater Baphomet), como o sucessor direto e legal de Theodor Reuss (i.e. Frater Merlin Peregrinus), fundador e primeiro Chefe Externo da Ordem (ou O.H.O. Outer Head of the Order). Rapidamente, refletir um pouco sobre esta sucessão será o propósito deste post.
Inicialmente, é relevante expor que, no caso da sucessão Reuss-Crowley, boa parte das mencionadas desinformações tem dupla origem. Primeiro, ela vem de ninguém menos do que o próprio Crowley; depois, vem daqueles que por alguma obscura motivação religiosa ainda precisam repetir o que ele disse.
No que diz respeito ao que foi dito por Frater Baphomet, por exemplo, especificamente relacionado a sua posição como líder absoluto da O.T.O., ele declarou abertamente em suas Confessions que em 1922 Reuss (após ter sofrido um ataque cardíaco) haveria meramente desistido da liderança da Ordem em seu favor. Nas suas palavras:
…uma corporação foi fundada sob o nome O.T.O. (Ordo Templi Orientis)… Seu propósito é comunicar em noves graus os segredos, não apenas da maçonaria (com os Ritos de 3º, 7º, 33º, 90º, 97º), mas também da Igreja Católica Gnóstica, dos Martinistas, dos Sat Bhai, dos Rosacruzes, dos Cavaleiros do Espírito Santo e assim por diante, com um décimo grau honorário para distinguir um “Rei Santo e Supremo” da Ordem, situado em cada país onde ela estiver estabelecida. O Chefe desses reis é o O.H.O. (Outer Head of the Order – Chefe Externo da Ordem, ou Frater Superior), que é um autocrata absoluto. Essa posição na ocasião era ocupada por Theodor Reuss, o Rei Santo e Supremo da Alemanha, que em 1922 se demitiu do cargo em meu favor… (Crowley, 1979:700)


The Confessions of Aleister Crowley
The Confessions of
Aleister Crowley

Citar as Confessions tem sua razão de ser: ocorre que este livro – que de modo magistralmente cínico foi denominado por Crowley como sua “autohagiografia” – passou a ser a principal fonte a partir da qual alguns grupos que hoje se denominam Ordo Templi Orientis, sobremodo os mais sectários, através da repetição de suas palavras procuram estabelecer que Frater Baphomet já servia como O.H.O. desde 1922, ainda antes da morte do fundador e verdadeiro dono da Ordem, Theodor Reuss. Entretanto, longe da abdicação de Reuss ser verídica, o que ocorre aqui é a precipitada tentativa de Crowley, sem qualquer tipo de comprovação minimamente convincente, de legitimar uma investidura como se esta lhe houvesse sido diretamente outorgada por Reuss. Contudo, como sabido, simplesmente tal sucessão jamais existiu. Ademais, quando se considera os últimos anos de vida de Frater Merlin Peregrinus e sua completa antipatia e aversão tanto em relação à Aleister Crowley quanto à religião thelêmica criada pelo mago inglês, até mesmo a hipótese da citada abdicação soa como algo absurdamente tolo.
O tema soa tão canhestro que nem sequer Karl Germer (1885-1962), fidelíssimo discípulo de Crowley (e seu legítimo herdeiro), acreditava nessa sucessão. Não foi por menos que ele afirmou não haver qualquer documento, carta ou sequer um módico registro nos diários de Crowley que comprovasse a suposta nomeação deste como líder máximo da Ordem (Koenig, 1994:43). Curiosamente, a lápide para o assunto, o esquife que encerra o caso de modo definitivo, vem do próprio Crowley, que findou por admitir por escrito a Heinrich Traenker (1880-1956), líder alemão da O.T.O., que Reuss jamais o havia escolhido como seu sucessor na Ordem (Koenig, 1999:18).
Assim, hoje é praticamente um consenso entre os historiadores aceitar o fato de que Reuss simplesmente faleceu sem apontar qualquer nome para sucedê-lo na função de O.H.O., como líder internacional da sua Ordo Templi Orientis. Outrossim, tentar apresentar ou insinuar Crowley como sucessor legítimo e direto de Reuss, como se este houvesse intencionalmente transmitido seu cargo àquele, é algo considerado tanto primário quanto equivocado, e até mesmo tendencioso, visto ser uma alegação sem qualquer consistência ou sustentação histórica. Deste modo, qualquer afirmação não embasada, cuja pretensão seja sugerir uma nomeação sucessória de Reuss para Crowley (como o fazem Wasserman, 1990:94 e Scriven, 2001a:11) deve ser apreciada com extrema desconfiança. Informações distorcidas de igual jaez, quando examinadas de modo criterioso, revelam, por parte de seus autores, ou um crasso erro histórico ou uma distorção premeditada da realidade.

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