quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Trance - Pequenos Ensaios em Direção à Verdade - Aleister Crowley

A palavra êxtase implica um passar além; isto é, além das condições que oprimem. O único propósito de todo verdadeiro treino místico e mágico é nos tornarmos livres de qualquer limitação. Assim, corpo e mente, no mais amplo senso, são os obstáculos no Caminho dos Sábios; o paradoxo, por trágico que pareça, é que eles são também os meios de progresso. Como nos desfazermos deles, como passar além deles e transcendê-los, é o problema; e é tão estritamente prático e científico quanto aquele de eliminar impurezas de um ás, ou de utilizar as leis da Mecânica habilidosamente.
Aqui jaz o inevitável defeito lógico nas Sortes do Adepto: que ele é limitado pelos próprios princípios que ele quer sobrepujar; e eles se apressam a executar uma vingança terrível sobre aquele que tenta se livrar deles arbitrariamente!
É na prática, e não na teoria, que esta dificuldade subitamente desaparece. Pois quando nós tomamos medidas racionais para inibir a operação da mente racional, a inibição não resulta em caos, mas sim em percepção do Universo através de uma faculdade à qual as leis da Razão não se aplicam; e quando, retornando ao estado normal, nós procuramos analisar aquela experiência, nós percebemos que a descrição abunda em absurdos lógicos.
Se insistimos em examinar o assunto, entretanto, gradualmente se torna claro (gradualmente, porque o hábito de êxtase deve ser firmemente estabelecido antes que suas fulminantes impressões se tornem verdadeiramente inteligíveis) que não há dois tipos de Pensamento, ou de Natureza, mas um apenas. A Lei da Mente é a substância única do Universo, como também o único meio através do qual nós o percebemos. Assim, não há nenhuma verdadeira antítese entre as condições de êxtase e aquelas de raciocínio e percepção; o fato que o êxtase não é amenável às regras de discussão intelectual é impertinente. Nós dizemos que em Xadrez um Cavalo viaja na diagonal de um retângulo medindo três por dois quadrados; não mencionamos, nem consideramos, seu movimento como um objeto material no espaço. Nós descrevemos uma definida, limitada relação em termos de um especial significado obtido através de um simbolismo arbitrário; quando analisamos qualquer exemplo dos nossos processos mentais ordinários, nós percebemos que o método de funcionamento deles é inteiramente análogo. Pois aquilo que nós 'vemos', 'ouvimos', etc., depende, por um lado, de idiossincrasias, e por outro, de interpretação convencional. Assim, nós concordamos em dizer que relva é verde, e em evitar caminhar na beira de despenhadeiros, sem qualquer tentativa de nos certificarmos de que quaisquer duas mentes tem concepções exatamente idênticas do que essas coisas possam ser; e justamente dessa mesma forma nós concordamos quanto aos movimentos das peças de xadrez. Pelas regras do jogo, então, nós devemos pensar e agir, ou nos arriscamos a cometer todo tipo de erro; mas podemos estar perfeitamente cônscios de que as regras são arbitrárias, e de que afinal de contas a coisa toda é um jogo. A tolice constante do místico tradicional consistia em se envaidecer tanto ao descobrir que o Universo não era mais que um brinquedo inventado por ele para seu próprio divertimento que ele se apressava a exibir seus poderes em uma deliberada incompreensão e um abuso do brinquedo. Ele não percebia o fato de que justamente porque o Universo não mais que uma projeção do seu Ponto de Vista, é integralmente a Ele Mesmo que ele ofendia!
Aqui jaz o erro de Panteísmo tal como aquele de Mansur el Hallaj, que Sir Richard Burton critica tão deliciosamente (no Kasidah), zombando da sua impotência--
"Mansur era sábio, mas mais sábios aqueles
 Que com muitas pedras o mataram.
 E se bem que o sangue dele serviu de testemunho,
 Nenhum Poder-Sabedoria pode consertar-lhe os ossos."
Deus estava nas pedras atiradas tanto quanto dentro do turbante de Mansur; e quando os dois se chocaram um com o outro, um ponto de percepção do fenômeno foi obscurecido -- o que absolutamente não era o seu intento!
Para nós, entretanto, este assunto não é de lamentar; é (como fenômeno) um Ato de Amor. E a definição mesma de um Ato de Amor é a Passagem Além de dois Eventos em um Terceiro, e o retiro deles a um Silêncio ou Nada por simultânea reação. Neste senso, pode ser dito que o Universo é um constante ingresso em Trance; e de fato, a correta compreensão de qualquer Evento, através da Contemplação apropriada, deveria produzir o tipo de êxtase próprio à síndrome Evento-Indivíduo no caso.
Agora, toda Magia é útil para produzir Trance; pois (1) treina a mente na disciplina necessária o Yoga; (2) exalta o espírito à impessoal e divina sublimada que é a primeira condição de sucesso; (3) amplia as fronteiras da mente, assegurando-lhe completa mestria de todos os planos mais sutis da Natureza, assim lhe fornecendo material adequado para a consumição estática da Eucarístia da Existência.
A essência da idéia de êxtase está em verdade contida na de Magia, que é preeminente a transcendental Ciência e Arte. Seu método é, em um senso primordial, o Amor --a chave mesma de Trance; e em outro senso, uma passagem além das condições normais. Os verbos transcender, transmitir, transcrever, e outros semelhantes, são de virtude cardinal em Magia. Daí, "Amor é a lei, amor sob vontade" é a suprema epítome da doutrina mágica, e sua Fórmula universal. Nem necessita qualquer homem temer afirmar ousadamente que qualquer Operação Mágica só é completa quando é caracterizada (em um sendo ou outro) pela ocorrência de Trance. Foi malfeito restringir o uso da palavra à substituição da consciência dualística humana por aquele impessoal e monístico estado de Samadhi. O fogo-fátuo do Erro pula rápido do atoleiro da Ignorância quando se faz qualquer distinção forçada "entre uma coisa e qualquer outra coisa". Sim, em verdade, e Amém! é a primeira necessidade, assim como a última consecução de Trance, abolir toda forma e toda ordem de dividualidade, tão depressa quanto esta se apresente. Por este raio de luz podeis ler no Livro de vosso próprio Relatório Mágico o autêntico estigma de vosso próprio sucesso.

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