quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Silêncio - Pequenos Ensaios em Direção à Verdade - Aleister Crowley

De todas as Virtudes Mágicas, de todas as Graças da Alma, de todas as Consecuções do Espírito, nenhuma te sido tão mal-compreendida, até quando foi sequer vislumbrada, quanto o Silêncio.
Não seria possível enumerarmos os erros mais freqüentes; podemos dizer que mesmo o ato de pensarmos no silêncio é em si um erro; pois a natureza do Silêncio é Puro Ser, isto é, Nada; de forma que ele está além de qualquer intelecção ou intuição. Assim, o máximo que este nosso Ensaio pode fazer é ser uma espécie de Sentinela, uma Clafetagem, como se fosse, da loja onde o Mistério do Silêncio é celebrado.
Para esta atitude há grande autoridade tradicional: pois Harpocrates, Deus do Silêncio, é chamado "O Senhor de Defesa e Proteção".
Mas Sua natureza de forma alguma é aquele silêncio negativo e passivo que a palavra comumente conota; pois Ele é o Espírito que Vaga Aonde quer; o Puro e Perfeito Cavaleiro-Andante, que soluciona todos os Enigmas, e abre o Portal Fechado da Filha do Rei. Silêncio, no senso vulgar da palavra, não é a resposta ao Enigma da Esfinge; é aquilo que é criado por essa resposta. Pois Silêncio é o Equilíbrio de Perfeição; de maneira que Harpocrates é a Chave uniforme, universal, de todo e qualquer Mistério. A Esfinge é o Enigma, ou Donzela: a Idéia Feminina, para a qual só existe um complemento, sempre diverso em forma, sempre igual em essência. Este é o significado do Gesto do Deus; é surgido mais claramente na forma adulta d'Ele como o Tolo do Taro e como Bachus Diphues; e é mostrado sem qualquer possibilidade de engano quando Ele aparece como Baphomet.
Quando nós perscrutamos mais estreitamente o simbolismo d'Ele, a primeira qualidade que nos chama atenção é, sem dúvida, a Sua inocência. Não é sem profunda sabedoria que Ele é chamado o gêmeo de Hórus; e este é o Aeon de Hórus; foi Ele quem enviou Aiwass Seu ministro para proclamar Sua chegada. O Quarto Poder da Esfinge é o Silêncio; para nós, então, que aspiramos a este poder como a coroa de nossa Obra, será da máxima importância conquistarmos por inteiro a inocência d'Ele. Nós devemos antes de mais nada compreender qual a raiz da Idéia de Responsabilidade Moral, da qual o homem estupidamente se orgulha como distinguindo-o dos outros animais, é Restrição, que é a Palavra de Pecado. Em verdade há significado na fábula hebraica de que o conhecimento do Bem e o Mal produz a Morte. Readquirir Inocência é conquistar o Éden. Nós devemos aprender a viver sem a consciência assassinada de que cada alento que tomamos impele as velas dos nossos frágeis barcos ao Porto do Túmulo. Nós devemos descartar o Medo através de Amor; desde que todo Ato é um Orgasmo, a resultante-consequência da totalidade dos atos não pode ser senão Nascimento. Também, Amor é a lei; portanto, todo ato tem que ser Retidão e Verdade em sua realidade essencial. Através de certas Meditações isto pode ser compreendido e assimilado e deve ser tornado tão completo que nos tornarmos inconscientes de nossa Santificação; pois só então a Inocência é perfeita. Esta atitude é, de fato, uma condição necessária de qualquer contemplação correta daquilo que estamos habituados a considerar como a primordial tarefa do Aspirante: a solução do problema, "Qual é a minha Verdadeira Vontade?" Pois até que nos tornemos inocentes nós seguramente tenderemos a julgar nossa Vontade por algum Padrão que nos parece "certo" ou "errado"; em outras palavras, tenderemos a criticar nossa Vontade de fora, enquanto que a Verdadeira Vontade deve saltar, uma fonte de Luz, de dentro de nós, e fluir desimpedida, fervente de Amor, para o Oceano da Vida.
Esta é a verdadeira idéia de Silêncio; é a nossa Vontade que surge, perfeitamente elástica, sublimemente protéica, para encher todo e cada interstício do Universo de Manifestação que ela encontra em seu caminho. Não existe qualquer golfo demasiado grande para sua força imensurável; não existe qualquer canal demasiado estreito para sua imperturbável sutileza. Ela se adapta com precisão a toda e qualquer necessidade; a fluidez dela é a garantia de sua fidelidade. Sua forma é sempre modificada por essa da particular imperfeição que ela encontra: sua essência é idêntica em todo e cada caso. E sempre o efeito de sua ação é Perfeição, isto é, Silêncio; e esta Perfeição é sempre a mesma, sendo perfeita; no entanto sempre diversa, porque cada caso apresenta sus próprias quantidades e qualidades particulares.
É possível até para a inspiração poética produzir um ditirambo sobre o Silêncio; pois cada novo aspecto de Harpocrates é digno da música do Universo através da Eternidade. Eu simplesmente fui levado por meu leal Amor àquela estranha Raça entre a qual me encontro encarnado a compor esta imperfeita senda da infinita Epopéia de Harpocrates, como sendo a faceta da fecunda Luminosidade d'Ele que refratou a mais necessária luz sobre minha própria tateante Entrada no Sacrário de Sua fulminante, de Sua inefável Divindade.
Eu louvo a luxuriante Raptura de Inocência, o viril e pantemorfo Êxtase de toda Fruição; eu louvo a Criança Corada e Conquistadora cujo nome é Força e Fogo, cuja sutileza e pujança tornam a serenidade certa, cuja Energia e Persistência alcançam a Consecução da Virgem do Absoluto; que, manifestada, é o Flautista que sopra na flauta de sete bocas, o Grande Deus Pã; e que, retirando-se à Perfeição que ela quis, é o Silêncio.

Nenhum comentário:

Postar um comentário