quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Riso - Pequenos Ensaios em Direção à Verdade - Aleister Crowley

O defeito comum a todos os sistemas de misticismo prévios ao Aeon cuja Lei é Thelema é que não havia neles lugar para o Riso. Mas a tristeza da Mãe enlutada e a melancolia do Homem moribundo são varridas ao limbo do passado pelo confiante sorriso da Criança imortal.
E não há Visão mais crítica na carreira do Adepto de Hórus que a Pilhéria Universal.
Neste êxtase ele aceita por completo a Fórmula de Osíris, e no ato de aceitá-lo ele a transcende; a lança do Centurião atravessa seu coração sem feri-lo, e a espada do Verdugo se abate inutilmente sobre o seu pescoço. Ele descobre que a Tragédia da qual tantos séculos fizeram tanto caso é apenas uma farsa para divertir crianças. Polichinelo é jogado ao chão apenas para se levantar rindo e gritando "Upa-upa-upa, lá vou eu de novo!" Colombina, Pierrô, o Carrasco e o Diabo são meramente os seus companheiros de brinquedo.
Portanto, já que (afinal de contas) os fatos que ele julgara trágicos são bastante reais, a essência da solução consiste em que ele não são verdadeiros, tal como ele pensara, de mesmo; mas são apenas um grupo de fenômenos, tão interessantes e tão comicamente impotentes para afetá-lo quanto qualquer outro grupo. Sua tristeza pessoal foi devida à sua teimosia em considerar uma insignificante seqüência de Acontecimentos como se fosse a única realidade e o significado da infinita massa de Manifestação.
É assim que a Percepção da Pilhéria Universal leva diretamente à Compreensão de Nós Mesmos como términos com o Universo, simultaneamente um com ele, criador dele, e a parte dele; um Estado Triuno que, como é bem sabido, é um dos mais necessários estágios de Samadhi. (Forma o clímax de um dos dois mais importantes capítulos do Bhagavadhgita).
Há ainda outro mérito neste assunto: Na idéia de Riso está inerente aquela de Crueldade, como já foi demonstrado por muitos filósofos; e sem dúvida é este foi o motivo por que o Riso foi excluído, pela Escola Mística dos Narizes-Compridos, do seu tedioso currículo. A única resposta consiste em encolhermos os ombros, todos os tímidos barcos deles foram a pique, um atrás do outro. A Natureza está cheia de crueldade; seus mais altos pontos de alegria e vitória estão marcados por riso. É uma legítima explosão fisiológica de uma tensão, seguida por relaxamento, que produz o riso. É notável que drogas tais como Cannabis Indica e Anhalounium Lewinii (as quais realmente "aliviam as vigas pelas quais a alma respira") causo riso imediato como um dos seus efeitos mais característicos.
Ó que grande, que saudável desprezo pelo senso limitado de si mesmo irrompe da percepção de desproporção gargantuesca expressada nesse Riso! Em verdade ele mata, com festim canibalístico, aquele azedo e enlutado missionário, o Ego sisudo, e o atira para dentro do pote. Hê-hê! a Voz da Civilização -- o Mensageiro do Deus do Cara-Pálida -- burburinho, burburinho, borbulha o panelão! Atire dentro outra pitada de cheiro verde, irmão! E a doce fumaça sobe o vela, com maravilhosa, dengosa sedução, os desavergonhados corpos das Estrelas!
Acima disso tudo em valor prático desde que o sinal rodoviário a cada curva do Caminho dos Sábios lê PERIGO no entanto surgindo disso tudo por virtude dessa execução do Ego mesma, está o emprego do Riso como garantia de nossa sanidade. Como é fácil para os charlatões da oratória seduzir o simples entusiasmo da alma! Que auxílio teremos nós, a não ser que possamos perceber o quanto eles são ridículos? Não há limite ao abismo de Idiotice em que os falso sábios nos quereriam lançar nosso único reflexo salvador é a pilhéria automática do Senso de Humor!
Robert Browning não estava longe do Reino de Deus quando Escreveu:

"Regozijai-vos de que o homem é atirado
 De mudança a mudança incessantemente,
 As asas de sua alma sempre abertas!"

E há, afinal de contas, muito pouco sal no desdém de Juvenal: "Satur est cum dicit Horatius 'Evohe!'" Pois ainda está para ser notado que qualquer homem consolou ou auxiliou seu próximo de choramingagem e suspiros.
Não, a Pilhéria Universal, se bem que não seja um verdadeiro Trance, é seguramente um meio de Graça, e com freqüência se prova o principal ingrediente do Solvente Universal.
De volta a Browning, então, às corajosos últimas palavras que ele escreveu enquanto oitenta pancadas batiam no relógio dos seus anos:

"Saúda o invisível com um brado!
Convida-o a aparecer, a se mostrar franco.
'Avante e bate-te!' --grita-lhe. Vamos, luta sempre,
"Em qualquer parte!"
Amém.
"Fosse o mundo compreendido,
 Bom seria percebido,
 Uma linda dança lírica!"

Sim! terminemos com aquela súbita, mui surpreendente Palavra de certo Anjo da Visão e da Voz, que deixou o Vidente imerso em seu êxtase solene e foi-se com a risonha alegre frase: "Mas eu--vou dançando!"
As Tábuas da Lei? Bah! Solvuntur tabulae--risu!

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