quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Memória - Pequenos Ensaios em Direção à Verdade - Aleister Crowley

A Memória é a matéria prima da própria Consciência. Considere que nós não podemos jamais saber o que está acontecendo, mas apenas o que que acaba de acontecer; mesmo quando mais ativamente concentrado naquilo que chamamos "o presente".
Além disso, nenhuma impressão abaixo de Sammasamadhi pode jamais pretender conferir qualquer idéia coerente do Eu. Aquilo existe apenas em uma classe de Consciência tão mais profundo quanto a percepção direta; em um tipo de pensamento o qual é capaz de combinar a quintessência de inúmeras impressões em uma, como também de transformar esta tabula rasa em um positivo Ego preênsíl. Quer este processo seja alucinatório ou não, é seguramente a memória que, mais que qualquer outra função da mente, determina suas possibilidades.
Agora, qualquer que seja o aspecto que podemos tomar da natureza do Eu, está claro que o nosso limite de erro constantemente diminuirá à medida que a extensão de nossas observações é aumentada. Calcular a órbita de Netuno a partir de um período de dias quando ele é retrógrado poderia levar-nos a formidáveis falácias. Quando a memória está seriamente enfraquecida, o estado resultante se aproxima a demência. A memória é então, numa imagem, a argamassa da arquitetura da mente.
Parece impossível sequer começar a discutir sua natureza tal como esta é em si própria; pois ela não é uma Coisa no todo, mas apenas uma relação entre impressões. Nós devemos nos contentar em observar suas virtudes.
Primeiro, antes de tudo, está aquela já mencionada, sua extensão no tempo. Segundo, a faculdade de seleção.
Seria tão indesejável quanto impossível à memória retiver todas as impressões indiscriminadamente. Tais memórias são encontradas apenas em hospícios. A memória, qualquer que ela seja, depende do metabolismo cerebral; e ela prospera em uma harmonia apropriada de exercício, repouso, e economia; assim como ocorre com a força muscular.
A memória como tal, é praticamente imprestável; é como uma biblioteca abandonada. Seus dados devem ser coordenados por julgamento, e trabalhados com habilidade; ela se assemelha a um grande Órgão que requer um organista.
Pela classificação de simples impressões obtém-se idéias de mais alta ordem; a repetição deste processo dá uma estrutura à mente a qual se torna um digno instrumento do pensamento. E este meio nos capacita a reter, e a trazer à vontade de seu quieto lugar de descanso, um número de fatos mil vezes maior os quais subjugariam a memória não treinada. Deve-se moldar a própria mente de acordo com o arranjo das extremidades das fibras nervosas e do cérebro.
À Vontade! Aqui está a grande chave da correta seleção, que se deve resolutamente recordar todos os fatos que possam ser úteis, e com igual resolução esquecer todos aqueles impertinentes, para o Verdadeiro Caminho de sua Estrela no Espaço. Pois apenas assim se pode economizar a faculdade mnemônica; e isto é dizer: nenhum homem pode começar a treinar sua memória até que ele esteja cônscio de sua Vontade Verdadeira.
Existe então - como em todos os assuntos pertinentes ao intelecto - um círculo vicioso: pois só se pode se tornar cônscio da própria Vontade Verdadeira pelo julgamento (da intensidade do Samadhi) de todos os fatos que se possa assimilar. A resolução da antinomia é encontrada ambulando; isto é, através do treinamento seletivo indicado acima.
Uma complicação adicional de toda esta questão aparece durante a prática de Yoga, quando, sendo os revestimentos sucessivamente tirados da mente, se começa a recordar não apenas de fatos há muito esquecidos, mas também de assuntos os quais não se referem em absoluto ao Ego encarnado. A memória se estende no tempo até a infância, à morte prévia, e mais além a uma série ilimitada de experiências cujo escopo depende do seu grau de progresso. Mas, em paralelalo a esta intensificação da idéia do Ego, sua expansão através dos Aeons, ergue-se (consequência do enfraquecimento do Ahamkara, a faculdade de fazer-do-Ego) uma tendência a lembrar coisas as quais têm acontecido não "com si mesmo", mas  a "outras pessoas", ou seres.
Nisso está um dos mais irritantes obstáculos no Caminho dos Sábios; pois o desenvolvimento normal da memória no Tempo conduz a uma melhor compreensão da Vontade Verdadeira do indivíduo (tal como ele se concebe), de forma que ele percebe um universo teleologicamente mais racional à medida que ele progride. Ser compelido a assimilar as experiências de supostos "seres alienígenas" é tornar-se confuso: a velha mixórdia de Choronzon (Restrição seja para ele, em nome de BABALON!) boceja uma vez mais para o Adepto, ele próprio, possivelmente, já um suposto (em um sentido) Homem livre da Cidade das Pirâmides.
Mas é justamente esta experiência - a revelia de qualquer outra - a qual eventualmente insiste em sua tentativa de cruzar o Abismo: pois a alternativa à absoluta insanidade é encontrada como sendo o descobrir de uma compreensiva Fórmula Geral da Experiência Universal sem referência ao Ego (real ou suposto) em qualquer sentido.
Este paradoxo, como todos os outros, deveria ser uma lição de supremo valor: esta, que toda dificuldade é para vantagem nossa; que todo problema nos é proposto apenas a fim de nos levar a uma resposta envolvendo um triunfo infinitamente mais glorioso do que poderíamos de outra forma ter conquistado.
E é improvável que a meditação sobre todo este assunto não poderá nos conduzir a mais esta visão de Maravilha: que a própria natureza das coisas é, na realidade, apenas uma função da Memória.

Nenhum comentário:

Postar um comentário