quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Indiferença - Pequenos Ensaios em Direção à Verdade - Aleister Crowley

O estado mental caracterizado por Indiferença é comumente chamado de Trance; mas esta apelação é infortunada. De fato, em certo senso esse estado é precisamente o contrário de um Trance; pois êxtase usualmente implica Samadhi, e esse estado especificamente exclui qualquer tal ocorrência. Samadhi implica numa unificação, enquanto esse estado é uma voluntária dissociação. No entanto, não há nada nele que sugira necessariamente qualquer prática. dos Irmãos Negros; pois não é, propriamente falando, uma Consecução; é antes uma atitude convincente. E é uma atitude da maior importância e utilidade prática. Nós não podemos permanecer indefinidamente em qualquer Samadhi; ao mesmo tempo, é bom que enchamos os intervalos entre nossos Samadhis de trabalho positivo, de forma a ficarmos tão livres quanto possível para darmos o passo seguinte. Devemos, portanto, cultivar uma atitude mental que não esteja restringida por qualquer forma de desejo. O Estado de Indiferença é, assim, uma forma daquele Silêncio que é defesa e proteção; e está relacionado com a Terceira Nobre Verdade do Budismo, a Cessação da Dor.
A idéia geral desse estado é que a mente deveria reagir automaticamente a toda e cada impressão: "Não importa se o Evento é sim ou não". Blavatsky comenta que a sensação é levemente tinta de desgosto. Mas isto é um erro; um tal estado é imperfeito. Deveria, pelo contrário, haver uma alegria bem definida; não alegria na impressão mesma, mas alegria em nossa indiferença para ela. Esta alegria surge, sem dúvida, do senso de poderio envolvido; mas isto, novamente, é uma imperfeição; nós deveríamos antes nos alegrarmos de que reconhecemos a verdade ultimal que "existência é pura alegria"; e não de algum sentimento mais imediato que este.
Deve ser comentado que a consecução e a manutenção deste estado depende em grande parte da mestria de diversos Trances. Por exemplo: nós devemos ter nos convencido da Primeira Nobre Verdade através do Êxtase de Tristeza, ou não seria lógico sermos indiferentes a todas as coisas; poderia haver, na ciência daquela percepção de "sabbé pi Dukkham", alguma impressão que naturalmente levasse a algum estado livre de Dor; e tal não é o caso. Liberdade de Dor depende de Liberdade de qualquer impressão.
No entanto, não seria justo dizermos que este Estado de Indiferença se assemelha àquele Embotamento que segue o agudo espasmo de Sofrimento; não é a anestesia de um nervo exaurido por excesso de dor. Não há nunca espaço no currículo de Magista para passividade -- naturalmente, excetuamos aqui o que podemos chamar de Passividade Ativa ou Voluntária, descrita em Liber LXV. Indiferença deve ser uma condição intensamente ativa. Podemos compará-la à facilidade de um esgrimista perito, que apara a desvia todo possível ataque do seu antagonista com igual vigor, inconsciente de seus atos, porque treinou se olho, seu pulso, e mesmo sua lâmina para que reajam por si mesmos. Assim, Indiferença é a forma espiritual da Consciência Automática do Adepto; e isto reside em Yesod, o lugar da Fortaleza na Fronteira do Abismo, tal como está descrito em Liber 418, no Undécimo Aethyr.
Esta indiferença sendo um hábito da Mente Norma, é mais fácil de atingir que qualquer verdadeiro Estado Samádico, e exige menos habilidade técnica. Este é particularmente o caso porque, como foi notado acima, o Êxtase de Tristeza foi um preliminar quase necessário à devida compreensão daquilo que esta Indiferença implica. O método, portanto, de adquirir (este verbo deve ser preferido a 'atingir') Indiferença é simples; é, com efeito, o Caminho do Tao.
As seguintes Sortes podem se provar úteis ao Aspirante:
A Existência só pode ser compreendida como sendo um Contínuo.
Todas as partes da Existência são portanto ultimalmente equivalentes, cada uma sendo igualmente necessária para completar o todo.
Cada evento deve assim ser recebido com igual honra, e reação a ele executada com igual indiferença.
Para oferecermos um paralelo prático: Suponhamos que vamos receber mil libras, e que esta quantia será paga em diversas moedas, com certificados de pagamento para diversas somas. Desde que saibamos de antemão que o balanço em nosso favor e 1000 Libras, nós não nos excitamos com a chegada de qualquer item particular; mas persistimos em contá-los tranqüilamente, reagindo corretamente, quer um débito ou um crédito seja o caso, mantendo perfeita calma e acuidade. Cada anotação no nosso livro de contas poderá ser diferente; mas nossa atitude mental é invariável. A ansiedade da mente infilosófica é na realidade devida a ignorância da verdadeira natureza da alma.
Estamos aptos a supor que cada Evento, quando ocorre, é 'bom' ou 'mau' -- que ele indica que nós estamos ganhando, ou perdendo. Mas tão cedo percebamos que o incidente é de importância secundária, que o resultado final está predeterminado, torna-se absurdo que permitamos que um detalhe do processo ilusório que a Natureza utiliza para expressar simbolicamente a fatalidade da Verdade nos afete mais que qualquer outro.
É interessante observar aqui que este método de adquirir Indiferença independe por completo de qualquer familiaridade com Êxtase de Tristeza; é uma simples e normal consideração, baseada em premissas estritamente thelêmicas. É, pois, bastante recomendável. Os métodos do morto Aeon de Osíris eram , de fato, acompanhados de considerável perigo. A questão de Separabilidade do Universo, por exemplo, é crítica; também, é erro dependermos de uma teoria tal como aquela implicada na Primeira Nobre Verdade em seus aspectos externos. É muito melhor adotarmos a atitude puramente intelectual, e ancorá-la subseqüentemente em Neschamah pelo simples processo de transcender a mente racional normal da maneira usual, pelo Método de Contradição (ou acasalamento de Opostos), tal como este é descrito em Konx Om Pax, e nos melhores Ensaios sobre a Santa Cabala.
Podemos, além disto, ser levados a vários tipos de erro se considerarmos a Indiferença como um estado inferior a Samadhi. Em passiva, imperfeita, um intermezzo; quando deveria ser considerada um estado de Paz com Vitória.
É necessário apenas acrescentarmos, em conclusão, que Indiferença não é perfeita até que tenha adquirido por completo pelo menos uma das características de Samadhi: o Automatismo. Enquanto ainda há qualquer necessidade de esforço consciente ao lidarmos com qualquer impressão, enquanto ainda há qualquer necessidade de rememorarmos o processo através do qual a Indiferença é alcançada, ou mesmo qualquer necessidade de interferirmos conscientemente na, ou de reconhecermos conscientemente a presença da, puramente espontânea, elástica ação reflexa, o Aspirante ao Summum Bonum, à Verdadeira Sabedoria e à Felicidade Perfeita ainda não adquiriu adequadamente o Hábito de Indiferença.

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