quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Homem - Pequenos Ensaios em Direção à Verdade - Aleister Crowley

O que é o homem, para que tu estás atento nele?

Sendo o homem o assunto destes Ensaios, é apropriado explicar primeiro o que será significado por esta palavra.
O homem é um microcosmo; isto é, uma imagem (concentrada ao redor do ponto de consciência) do macrocosmo, ou Universo. Este Teorema é garantido pela demonstração hilo-idealística da qual o Universo perceptível é uma extensão, ou fantasma, do sistema nervoso.
Segue disto que todos os fenômenos, internos ou externos, podem ser classificados para o propósito de discutir suas relações observadas, de qualquer modo que nossa experiência demonstre ser a mais conveniente. (Exemplos: as elaboradas classificações da ciência, química, física, etc, etc. Não existe verdade essencial em qualquer desses ajudas ao pensamento: a conveniência é a única medida). Agora, para o propósito de analisar a natureza espiritual do homem, de registrar e medir as suas experiências espirituais nesse gênero, de planejar seu progresso às alturas mais elevadas da consecução, vários sistemas tem sido inventados. Aquele do Abhidhamma é exteriormente e do mesmo modo tanto o mais prático quanto mais científico, e mais real; mas para estudantes Europeus é certamente de difícil manejo, para não citar outras linhas de crítica.
Por isso, a despeito do perigo da falta de precisão, envolvido no uso de um sistema cujos termos são amplamente simbólicos, tenho, por muitas razões, preferido apresentar ao mundo com uma base internacional de classificação, o sistema clássico-matemático que é vulgarmente e erroneamente (embora convenientemente) chamado de Cabala.
A Cabala, isto é, a Tradição Judaica concernente à interpretação iniciada das Escrituras deles, é em grande parte ou ininteligível ou tolice. Mas ela contém em seu plano horizontal a jóia mais preciosa do pensamento humano, aquela disposição geométrica de nomes e números que é chamada de Árvore da Vida. Eu a chamo de preciosa porque tenho constatado que ela é o método mais conveniente até agora descoberto de se classificar os fenômenos do Universo, de registrar as suas relações. A prova disto consiste na assombrosa fertilidade de pensamento que sucedeu a minha adoção desse esquema.
Desde que todos os fenômenos de qualquer modo podem ser referidos à Árvore da Vida (a qual pode ser multiplicada ou subdividida à vontade, em consideração à conveniência), é evidentemente vão tentar qualquer avaliação completa dela. As correspondências de cada unidade - as Dez Sephiroth e os Vinte-e-Dois Caminhos - são infinitas. A arte de usá-las consiste principalmente em referir todas as nossas idéias a ela, descobrindo então a natureza comum de certas coisas e as diferenças essenciais entre outras, de modo que, enfim, se obtem uma concepção simples da incalculavelmente vasta complexidade do Universo.
O assunto todo deve ser estudado no Livro 777, e as atribuições principais confiadas à memória; então, quando pelo uso constante o sistema é afinal compreendido - ao contrário de ser meramente memorizado - o estudante perceberá a pura luz adentrando-se nele em cada aspecto, na medida em que ele continue a avaliar cada item do novo conhecimento que ele obtém por essa Regra. Pois para ele o Universo então começará a aparecer como um coerente e um necessário Todo.
Para o propósito do estudo destes Pequenos Ensaios, será suficiente dar um simples esboço da Teoria Cósmica neles implicada: mas pode ser somado que, quanto maior a compreensão da Árvore da Vida que o leitor trouxer, tanto mais claro o pensamento aparece, e mais convincentes suas conclusões.
A Constituição do Homem é quíntupla.
(1) Jechidah.
Este é o princípio quintessencional da Alma, o qual faz o homem ao mesmo tempo idêntico a toda outra centelha de Divindade e diferente (quanto ao seu ponto de vista, e ao Universo do qual ele é o centro) de todas as outras. É um Ponto, possuindo apenas posição; e aquela posição só é definível através de referência a eixos coordenados, a princípios secundários, que só lhe pertencem pers accidens, e devem ser postulados à medida que nossa concepção cresce.
(2) Chiah.
Este é o Impulso Criador ou Vontade de Jechidah, a energia a qual demanda a formulação do eixo de coordenadas supracitado, para que Jechidah possa obter auto-realização, uma compreensão formal daquilo que é implícito a sua natureza, de suas qualidades possíveis.
(3) Neschamah.
Esta é a faculdade de compreender a Palavra de Chiah. Ela é a inteligência ou intuição do que Jechidah deseja descobrir sobre de si próprio.
Estes três princípios constituem uma Trindade; eles são um, porque eles representam o ser, e o aparato que fará possível a manifestação de um Deus na humanidade. Mas eles são apenas, por assim dizer, a estrutura matemática da natureza do homem. Pode-se compará-los com as leis da física, como estas são antes de serem descobertas. Não existem, por enquanto, quaisquer dados pelos quais uma examinação possa discernido-los.
Um homem consciente, consequentemente, possivelmente não pode saber coisa alguma desses três princípios, embora eles constituam a sua essência. É a obra da Iniciação viajar interiormente em direção a eles. Ver, no Juramento de um Probacionista da AA: "Eu me comprometo a descobrir a natureza e poderes de meu próprio Ser."
Este princípio triuno sendo completamente espiritual, tudo que pode ser dito sobre ele é realmente negativo. E ele é completo em si próprio. Além dele desdobra-se o que é chamado O Abismo. Essa doutrina é extremamente difícil de explicar; mas ela corresponde mais ou menos a lacuna no pensamento entre o Real, o qual é ideal, e o Irreal, o qual é atual. No Abismo todas as coisas existem, de fato, pelo menos em potencial; mas são desprovidas de qualquer possível significado, pois falta-lhes o substrato de Realidade espiritual. Elas são aparências sem Lei. Eles são, então, Ilusões Insanas.
Agora, o Abismo sendo então o grande depósito de Fenômenos, é a fonte de todas as impressões. E o Princípio Triuno projetou uma máquina para investigar o Universo; e esta máquina é o quarto Princípio do Homem.
(4) Ruach.
Isto pode ser traduzido Mente, Espírito, ou Intelecto: nenhuma dessas é satisfatória, a conotação variando com cada escritor. O Ruach é um grupo estreitamente entrelaçado de Cinco princípios Morais e Intelectuais, concentrados em seu âmago, Tiphareth, o Princípio de Harmonia, a Consciência Humana e Vontade da qual as outras quatro Sephiroth são (por assim dizer) as antenas. E estes cinco princípios culminam em um sexto, Daath, Conhecimento. Mas este não é realmente um princípio; contém em si próprio o germe de auto-contradição e assim de auto-destruição. Ele é um falso princípio: pois, tão logo o Conhecimento é analisado, ele se dissipa na poeira irracional do Abismo.
A aspiração do homem ao Conhecimento é, então, simplesmente uma via falsa: é tecer amarras de areia.
Nós não podemos entrar aqui na doutrina da "Queda de Adão", inventada para explicar em uma parábola como é que o Universo é tão infelizmente constituído. Nós estamos interessados apenas com os fatos observados.
Todas essas faculdades mentais e morais do Ruach, embora não puramente espirituais como a Tríada Superna, ainda estão, como se fosse, "no ar". Para serem úteis, elas necessitam uma base através da qual possam receber impressões; tal como uma máquina necessita combustível e alimento antes de poder manufaturar o artigo o qual ela foi concebida para produzir.
(5) Nephesch.
Isto é usualmente traduzido "Alma Animal". Ela é o veículo do Ruach, o instrumento pelo qual a Mente é conduzida ao contato com a poeira de Matéria no Abismo, para que possa senti-la, julgá-la, e reagir a ela. Este é, em si próprio, um princípio ainda espiritual, em um sentido; o corpo atual do homem é composto da poeira de Matéria, temporariamente unida pelos Princípios que a deram forma, para seus próprios propósitos, e ultimamente para o supremo propósito de auto-realização de Jechidah.
Mas Nephesch, projetado como é sem outro motivo que o tráfico direto com a Matéria, tende a compartilhar de sua incoerência. Suas faculdades de perceber dor e prazer a seduzem a prestar excessiva atenção a um jogo de fenômenos, e a evitar outros. Consequentemente, para que Nephesch faça a sua função como deveria, ele requer que seja dominado pela mais severa disciplina. O próprio Ruach não é para ser confiado neste assunto. Ele tem suas próprias tendencias à fraqueza  e injustiça. Ele tenta todo truque - e é diabolicamente engenhoso - para organizar seu trabalho com a Matéria no sentido mais conveniente à sua própria inércia, sem a menor consideração pelo seu dever para com a Tríada Superna, desligado como está de sua compreensão; de fato, confiando assim como normalmente está de sua a existência.
O quê então determina Tiphareth, a Vontade Humana, a aspirar a compreender Neschamah, submeter-se a sí própria a Vontade Divina de Chiah?
Nada senão a realização, nascida mais cedo ou mais tarde de agoniada experiência, que sua inteira relação através de Ruach e Neschamah com a Matéria, i.e., com o Universo, é, e deve ser, apenas dolorosa. A insensatez do processo inteiro o adoece. Ele começa a procurar por algum mênstruo no qual o Universo possa tornar-se inteligível, útil e agradável. Em linguagem cabalística, ele aspira a Neschamah.
Isto é o que queremos dizer, que o Êxtase de Tristeza é o motivo da Grande Obra.
Este "Êxtase de Tristeza" (que deve ser bem distiguido de qualquer trivial desespero pessoal, de qualquer "convicção de pecado" ou outras imitações da magia negra), sendo cósmico em escopo, compereendendo todo fenômeno atual ou potencial, é então uma Abertura da Esfera de Neschamah. A percepção do infortúnio de alguém é ela própria uma indicação do remédio. Ela põe o buscador na via correta, e à medida que ele desenvolve seu Neschamah ele conquista outras experiências deste elevado ordem. Ele aprende o significado de sua própria Vontade verdadeira, a pronunciar sua própria Palavra, a identificar ele próprio com Chiah.
Finalmente, realizando Chiah como o aspecto dinâmico de Jechidah, ele se torna aquele puro Ser, ao mesmo tempo universal e individual, igualmente nada, Um, e Tudo.
É da essência das Idéias da Tríada Superna que as Leis da Razão as quais se aplicam às funções intelectuais não são mais operativas. Conseqüentemente, é impossível exprimir a natureza dessas Experiências em uma linguagem racional. Além disto, o escopo delas é infinito em todas direções; assim, poderia ser fútil tentar enumerá-las ou descrevê-las em detalhe. Tudo que se pode fazer é observar os tipos mais comuns em linguagem genérica, e indicar que experiência tem mostrado as mais proveitosas principais linhas de pesquisa.
A Busca do Santo Graal, a Pesquisa pela Pedra Filosofal - por qualquer nome pelo qual escolhemos chamar a Grande Obra - é portanto infindável. Sucesso apenas abre novas avenidas de possibilidades brilhantes. Sim, verdadeiramente, e Amém! A tarefa é infatigável e suas alegrias sem limites; pois o Universo inteiro, e tudo que está nele, o que é senão o infinito pátio de recreio da Criança Coroada e Conquistadora, do insaciável, do inocente, do sempre-regozijante Herdeiro do Espaço e da Eternidade, cujo nome é HOMEM?

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