quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Conhecimento - Pequenos Ensaios em Direção à Verdade - Aleister Crowley

Daat--Conhecimento--não é uma Sephirah. Não está na Árvore da Vida; isto é, não existe realmente tal coisa.

Desta tese há muitas provas. A mais simples (se não a melhor) é talvez como segue:
Todo o conhecimento pode ser expressado na forma S=P.
Mas se assim, a idéia P está realmente implícita em S; portanto, nós não aprendemos nada, afinal de contas.
E, claro, se não é assim, a asserção S=P simplesmente é falsa.
Agora veja-se como chegamos imediatamente a um paradoxo. Pois o pensamento "Não existe uma coisa tal como conhecimento", ou "Conhecimento é uma idéia falsa", ou qualquer outra forma de enunciarmos a conclusão acima, pode ser expressado como S=P; é, em si mesmo, uma coisa conhecida.
Em outras palavras, qualquer tentativa de analisarmos a idéia de Conhecimento leva imediatamente a uma confusão na mente.
Mas isto é da essência da Sabedoria Oculta quanto a Daat. Pois Daat é a coroa do Ruach, o Intelecto; e seu lugar é no Abismo. Isto é, desintegrar-se no momento em que é examinada.
Não existe coerência abaixo do Abismo, ou no Abismo; para obtermos coerência, que é um dos principais padrões de Verdade, nós devemos atingir Neschamah.
Há outra explicação, completamente à parte da armadilha puramente lógica. S=P (a não ser que seja uma identidade, e portanto sem sentido) é uma afirmação de dualidade; ou podemos dizer: percepção intelectual é uma negação da Verdade samádica. É, portanto, essencialmente falsa desde as suas bases.
A asserção mais simples e mais óbvia não tolera análise. "Vermelhidão é vermelho" é inegável, sem dúvida; mas ao ser perscrutada, prova ser sem significado. Pois cada termo tem que ser definido através de pelo menos dois outros termos, dos quais a mesma asserção é verdade; de forma que o processo de definição é sempre "obscurum per obscurius". Pois não há quaisquer termos verdadeiramente simples. Não existe qualquer possibilidade de verdadeira percepção intelectual. O que nós supomos ser tal é, na realidade, uma série de convenções mais ou menos plausíveis, baseadas sobre o aparente paralelismo de experiência. Não há qualquer garantia definitiva de que quaisquer duas pessoas querem dizer exatamente a mesma coisa quando dizem "doce", ou "alto"; mesmo concepções tais como as de número são talvez idênticas apenas em relação a aplicações práticas vulgares.
Estas e outras considerações levam a certos tipos de cepticismo filosófico. Concepções Nechâmicas absolutamente não estão isentas desta crítica, pois, mesmo supondo que elas sejam idênticas em qualquer número de pessoas, sua expressão, sendo intelectual, sofrerá as mesmas pressões que percepções normais.
Mas nada disto sacode, ou sequer ameaça, a Filosofia de Thelema. Pelo contrário; pode ser considerado a Rocha sobre a qual ela está fundada. Pois o resultado final é, evidentemente, que todas as concepções são necessariamente únicas--mônadas; porque não pode nunca haver dois Pontos de Vista idênticos. E isto corresponde aos fatos: pois há Pontos de Vista estreitamente relacionados, e assim pode haver um acordo superficial entre eles, como há, o qual é percebido como falso ao ser analisado--tal qual demonstramos acima.
Disto será compreendido porque é que não existem quaisquer Trances de Conhecimento; e isto nos convida a inquirir a tradição nos Grimórios, de que todo conhecimento pode ser miraculosamente obtido. A reposta é que, se bem que todos os Trances são Destruidores de Conhecimento (já que, por um só ponto que seja, todos eles destroem o senso de Dualidade), no entanto eles dão ao seu Adepto os meios de conhecimento. Nós podemos considerar a faculdade de percepção racional como uma projeção da Verdade em forma dualística; de maneira que aquele que possui qualquer Verdade tem apenas que simbolizá-la em termos do intelecto para obter a imagem dela na forma de Conhecimento.
Esta concepção é difícil; um exemplo poderá torná-la mais clara. Um arquiteto pode indicar as características gerais de um edifício sobre papel através de dois desenhos -- uma planta ou uma elevação. Em qualquer dos casos, o desenho é falso sob quase todo aspecto; cada um dos desenhos é parcial, a cada um deles falta uma dimensão, e assim por diante. No entanto, em combinação, eles não deixam de representar, para imaginação treinada, aquilo que o edifício realmente é; e também, se bem que ambos os desenhos sejam "ilusões", nenhuma outra ilusão servirá à mente para que descubra a verdade que eles tencionam.
Esta é a realidade escondida em todas as ilusões do intelecto; e esta é a explicação da necessidade de que o Aspirante adquira um conhecimento adequado e acurado.
O místico vulgar afeta desprezar a Ciência como "ilusão"; este é o mais fatal de todos os erros. Pois os instrumentos com os quais o místico trabalha pertencem, todos eles, exatamente a esta ordem de "coisas ilusórias". Nós sabemos que lentes deformam imagens; no entanto, nós podemos adquirir informação sobre objetos distantes (a qual verificamos ser correta) quando a lente é construída de acordo com certos princípios "ilusórios" (em vez de um capricho arbitrário). O místico que zomba da Ciência é geralmente reconhecido pelos homens como um tolo vaidoso; ele sabe disto, e isto o endurece em sua presenção e arrogância. Nós o vemos, atiçado por sua vergonha subconsciente, atacando ativamente a Ciência; ele se alegra em apontar os aparente erros de cálculo que ocorrem constantemente, sem compreender as auto-impostas limitações da validada de qualquer asserção que estão sempre implícitas em trabalhos científicos; de forma que ele chega, por fim, a abandonar seus próprios postulados, e se refugia na carapaça do teólogo.
Mas para aquele místico que fundou firmemente o seu pensamento racional em princípios sadios, que adquiriu profunda compreensão de uma ciência fundamental, e estabeleceu as apropriadas conexões entre essa ciência e suas irmãs; que, depois, fortaleceu a estrutura inteira do seu conhecimento penetrando através dos Trances apropriados às Verdades Nechâmicas das quais aquela estrutura é a retamente-organizada projeção no Ruach; para esse místico, o campo do Conhecimento, assim bem arado, bem semeado, bem fertilizado, bem amadurecido, está pronto para a colheita. O homem que realmente compreende as fórmulas básicas de um assunto-raíz pode facilmente estender sua percepção aos ramos, às folhas, às flores e ao fruto; e neste senso os mestres medievais de Magia estavam justificados em asseverar que pela evocação de dado Daimon o Octinomos merecedor poderia adquirir perfeito conhecimento de todas as ciências, falar todas as línguas, comandar o amor de todos, e de qualquer forma lidar com a Natureza inteira do pondo de vista do Criador desta. Grosseiros são esses, crédulos ou críticos, que pensam que uma tal Evocação era trabalho de uma hora ou uma semana!
E o ganho do Adepto disso tudo? Não o puro ouro, decerto, nem a Pedra do Filósofos! Mas no entanto uma arma mui virtuosa, de muito uso no Caminho; também, um grande consolo para o lado humano dele; pois o doce fruto que pende daquela Árvore que torna os homens Deuses é precisamente este pomo amadurecido de sol chamado Conhecimento.

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