quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Castidade - Pequenos Ensaios em Direção à Verdade - Aleister Crowley

Todas as Obras de Literatura Antiga e Medieval que mais particularmente concernem ao Buscador da Verdade concordam em um ponto. Os mais reles Grimórios de Magia Negra, tanto quanto os mais altos vôos filosóficos da Irmandade que nós não nomeamos, insistem na Virtude da Castidade como de central importância no Portal da Sabedoria.
Primeiro seja notada a palavra Virtude: a qualidade de Hombridade, o mesmo que Virilidade. A Castidade do Adepto da Rosa e Cruz, dos Cavalheiros do Graal de Monsalvat, é o completo oposto daquilo que o poeta pôde escrever:

"... falsa Castidade que sacia
Sua luxúria solitária e mia
Em público, de boca babujosa."

e o oposto daquele frigor emasculado tão decantado por poetas da laia de Alfred Tennyson e outros Acadêmicos.
A Castidade cuja Energia Mágica tanto protege quanto impele o aspirante aos Mistérios Sagrados é precisamente o contrário, em sua mais profunda natureza, de todas as concepções vulgares dessa Virtude; pois em primeiro lugar, é uma paixão positiva; em segundo lugar, relaciona-se apenas através de obscuros laços mágicos com a função sexual; e em terceiro lugar, é o inimigo mortal de toda forma de moralidade e sentimentalismo burgueses.
Podemos criar em nossas mentes uma concepção mais clara desta, a mais nobre e mais rara--no entanto, a mais necessária--das Virtudes, se estabelecermos a distinção entre ela e um dos seus ingredientes: Pureza.
Pureza é uma qualidade passiva, ou pelo menos estática; significa a inexistência de qualquer mistura com qualquer outra coisa; como em puro alumínio, pura matemática, pura raça. O uso da palavra em expressões tais como leito puro, que sugerem ausência de contaminação, é um uso derivado e secundário.
Castidade, por outro lado, como a etimologia (castus, possivelmente relacionado com castrum, um campo fortificado) mesma sugere, podemos sugere, podemos supor que afirma uma atitude moral de prontidão para resistir a qualquer assalto contra um existente estado de Pureza.

"Tão cara ao céus é a santa castidade
 Que quando uma alma é assim vista sincera
 Mil anjos de libré em volta a servem."

Cantou Milton, com a capacidade de ver através de véus do verdadeiro poeta; pois tal serviço é puro desperdício a não ser que seja exigido por nossa atividade.
A Esfinge não será domada se nos mantivermos afastados dela; e a inocência bruta do Paraíso está sempre à mercê da Serpente.
É a Sabedoria dela que deveria guardar nossos Caminhos; nós necessitamos sua rapidez, sua sutileza, e sua régia prerrogativa de dar a morte.
A Inocência do Adepto? Nós imediatamente nos lembramos da pujante Inocência de Harpocrates, e de Sua Energia de Silêncio. Um homem casto não é, portanto, meramente um que evita o contágio de pensamentos impuros e os resultados destes; é um homem cuja virilidade é capaz de restaurar Perfeição ao mundo em volta dele. Assim, o Parsifal que foge de Kundry e suas servidoras, as feiticeiras-flores, perde seu caminho e deve vagar durante longos anos no Deserto; ele não é verdadeiramente casto até que é capaz de redimi-la, um ato que ele executa através da reunião da Lança e do Sangraal.
Castidade pode, portanto, ser definida como a estrita observança do Juramento Mágico; isto é, à Luz da Lei de Thelema, absoluta e perfeita devoção ao Sagrado Anjo Guardião, e firme marcha no Caminho da Verdadeira Vontade.
Castidade é inteiramente incompatível com a covardia da atitude "moralista", a emasculação da alma e a estagnação do ato que comumente caracterizam o homem chamado casto pelo vulgo.
"Cuida-vos de abstenção de agir!"--não está isto escrito em Nossa lição? Pois a natureza do Universo sendo Energia Criadora, qualquer recuo blasfema a Deusa, e tenta introduzir os elementos de uma verdadeira morte no pulso da Vida.
O homem casto, o legítimo Cavaleiro-Andante das Estrelas, impões sempre sua essencial virilidade sobre o útero palpitante da Filha do Rei; com todo golpe de sua Lança ele penetra o coração da Santidade, e faz jorrar a Fonte do Sangue Sagrado, esguichando seu orvalho escarlate através do Tempo e do Espaço. Sua Inocência derrete, com sua Energia-branca-em-brasa, as vis cadeias daquela Restrição que é Pecado; e sua Integridade, em sua fúria de Retidão, estabelece aquela Justiça que (só ela) pode satisfazer a ânsia ardente da Feminilidade cujo nome é Oportunidade. Tal como a função do castrum ou castellum não é meramente resistir a um sítio, mas também compelir a Obediência à Lei e à Ordem todo pagão que possa ser alcançado pelo circuito de seus cavaleiros, assim também o Caminho da Castidade consiste em mais que de vendermos nossa pureza contra assalto. Pois aquele que é imperfeito não é completamente puro; e nenhum homem é perfeito em si mesmo sem que se expresse em todas as suas possibilidades. Assim, devemos ser prontos a buscar toda aventura apropriada, e usufrui-la, vendo bem que de forma alguma isto nos distraia ou desvie de nosso propósito, poluindo nossa verdadeira Natureza e impedindo nossa verdadeira Vontade.
Portanto, ai do impuro que desdenha a aparentemente trivial, ou foge acovardado da desesperada, aventura. E ai, três vezes ai, e quatro vezes ai daquele que é desviado pela aventura, relaxando sua Bondade e esquecendo seu Caminho; pois da mesma forma que o preguiçoso e o covarde estão perdidos, também o fraco que se deixa jogar por circunstâncias é arrastado para dentro do mais profundo do Inferno.
Senhor Cavaleiro, seja atento: vigie junto a suas armas, e renove seu Juramento; pois é de sinistro augúrio, e mortalmente carregado de perigo qualquer dia que não enchemos a transbordar de alegres e audazes proezas de senhoril, de viril Castidade!

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