quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Amor - Pequenos Ensaios em Direção à Verdade - Aleister Crowley

"Ora, o Magus é Amor, e liga Aquilo e Isto em sua Conjuração."
A Fórmula de Tetragrammaton é a completa expressão matemática do Amor. Sua essência é esta: quaisquer duas coisas se unem, com um duplo efeito: primeiro a destruição de ambas, acompanhada pelo êxtase do alívio da tensão da separação; segundo, a criação de uma terceira coisa, acompanhada pelo êxtase da realização da existência, que é Alegria até que, por desenvolvimento, ela se torna cônscia de sua imperfeição, e ama seu novo oposto.
Esta fórmula de Amor é universal; todas as leis da Natureza a serve,. Assim, a gravidade, a afinidade química, o potencial elétrico, e o resto-- e estes são todos meros aspectos da lei geral--são verdades de asseveração da tendência única.
O Universo é mantido pela dupla ação implicada na fórmula. O desaparecimento de Pai e Mãe é precisamente compensado pela emergência de Filho e Filha. A Fórmula de Tetragrammaton pode portanto ser considerada como uma máquina de movimento perpétuo que continuamente desenvolve raptura em cada uma de suas fases.
O sacrifício de Ifigênia em Aulis pode ser tomado como um exemplo típico da fórmula: o efeito místico é a assunção da virgem ao seio da deusa; o efeito mágico (a destruição da parte terrena dela, o viadinho) satisfaz a raiva de Aeolus, e permite aos gregos que naveguem.
Agora, não podemos compreender com demasiada clareza, nem manifestar essa compreensão demasiado em nossos atos, que a intensidade da Alegria liberada varia com o grau de oposição original entre os dois elementos da união. Calor, paixão, e valor deles será tanto maior quanto for a diferença entre as Energias compondo o casamento. Nós obtemos mais da explosão do hidrogênio com o oxigênio do que da apática combinação de substâncias indiferentes umas às outras. Assim, a união de Nitrogênio e Cloro é tão insatisfatória para cada uma das moléculas que o composto resultante se desintegra com explosiva violência ao menor cheque. Nós podemos asseverar, então, na linguagem de Thelema, que um tal ato de amor não é "amor sob vontade". É, por assim dizermos, uma operação de magia negra.
Consideremos, em um exemplo figurado, os "sentimentos" de uma molécula de hidrogênio na presença de oxigênio ou de Cloro. Deve sofrer intensamente pela percepção de sua extremo desvio do tipo perfeito de mônada, contemplando um elemento tão supremamente oposto à sua própria natureza em todo ponto. Tanto quanto ela é egoísta, sua reação deve ser escárnio e ódio; mas à medida que compreende a verdadeira vergonha que sua separabilidade representa para ela em contraste com a presença de seu oposto, esses sentimentos mudam para uma ânsia angustiada. Ela começa a cobiçar a faísca elétrica que lhe permitirá aliviar suas dores pela aniquilação, na raptura de união, de todas essas propriedades que constituem sua existência separada; e ao mesmo tempo lhe permitirá satisfazer sua paixão por criar um tipo perfeito de Paz.
Nós vemos essa mesma psicologia em toda parte no mundo físico. Um exemplo mais evidente e mais elaborado certamente poderia ter sido tirado (fosse o propósito deste ensaio menos genérico) da estrutura atômica mesma, e do esforço de átomos por solucionar a agonia de sua agitação no Nirvana beatífico dos gases 'nobres'.
O processo de Amor sob Vontade é, evidentemente, progressivo. O Pai que se mata no útero da Mãe se percebe novamente, com ela, mas transfigurado, no Filho. Este Filho age como um novo Pai; e é assim que nosso Ente é constantemente aumentado, e se torna capaz de contrabalancear um Não-Ente cada vez maior, até aquele final ato de Amor sob Vontade que abarca o Universo em Sammasamadhi.
A paixão e ódio é, assim, na realidade dirigida contra nós mesmos; ela é a expressão da dor e vergonha de separação; parece ser dirigida contra o nosso oposto apenas por transferência psicológica. A Escola de Freud tornou esta tese suficientemente clara.
Há pouca coisa, portanto, em comum entre o Amor e paixões mornas tais como 'consideração', 'fidelidade', ou 'carinho'; é o profano quem, para sua danação num inferno de comida mal feita e panos de prato após o jantar, confunde tais com Amor.
O Amor pode ser mais bem definido como a paixão de ódio inflamada ao ponto de loucura, quando por fim toma refúgio em Auto-Destruição.
O Amor vê mui claro, com o ardor de raiva mortífera, anatomizando sua vítima com aguda energia, buscando onde melhor golpear fundo e fatalmente o coração; o Amor se torna cego apenas quando sua fúria o dominou completamente, e o atirou na boca rubra da fornalha de auto-imolação.
Nós devemos, além do mais, distinguir o Amor, nesse senso mágico, da fórmula sexual; se bem que esta seja seu símbolo e seu tipo. Pois a pura essência da Magia é uma função de ultimal consciência atômica, e suas operações devem ser depuradas de toda confusão ou contaminação. As operações verdadeiramente mágicas de Amor, são, portanto, os Trances, mais especialmente os de Compreensão; como terá sido prontamente percebido por esses que fizeram um cuidadoso estudo cabalístico da natureza de Binah. Pois Ela é uniforme como o Armo e como a Morte: o Grande Mar de onde toda Vida surge, e cujo útero negro tudo reabsorve. Ela resume, assim, em si mesma o duplo processo da Fórmula de Amor sob Vontade; pois não é o "cabelo, as árvores da Eternidade" d'Ela os filamentos de Divindade-que-Tudo-Devora "sob a Noite de Pã"?
No entanto, seja lembrado que se bem que Ela é amor, a função d'Ela é apenas passiva; Ela é o veículo da Palavra, Hochmah, a Sabedoria, o Todo-Pai, que é a Vontade do Todo-Um. E portanto erram gravemente e temerariamente aqueles que tagarelam do Amor como a Fórmula da Magia; o Amor é desequilibrado, vazio, vago, indirigido, estéril, mais: um vero Cascão, o joguete de abjeto resíduos demoníacos; o Amor tem que ser "sob vontade".

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