quarta-feira, 17 de agosto de 2011

A Escada - Aleister Crowley de The Winged Beetle, 1910

“Subirei e irei até meu Pai”

 

Malkuth

Escuro, escuro, tudo escuro! Eu me recolho, eu me abaixo de medo.
Acima de mim só há um tom de cidra
Como se fosse um eco do vermelho, do dourado e do azul
Harmonizados na noite e deixando sua sombra passar.
Mesmo assim, eu que estou desta forma aprisionado e exilado
Sou por direito o herdeiro da glória, a criança coroada.
Eu combino meu poder com o de meu Destino,
Eu cingi-me para atingir os deveres ultimais,
Eu me armo a guerra para vencer: –
Levantai as vossas cabeças, ó portões poderosos!
Erguei-vos, ó portais eternos!
O Rei da Glória entrará.

 

Tau

Eu passo do citrino: de índigo escuro
É essa alta coluna. Cobras e abutres inclinam
Seu ódio oculto sobre aquele que subiria.
Ó, que os Quatro me ajudem! Desgraça eterna,
Medo e tortura se amontoam no limiar. Vê! O fim
Da matéria! a imensidão das coisas
Desencadeia – novas leis, novos seres, novas condições; -
Horrendo caos; veja! estas recém-desenvolvidas asas
Falham em sua incerteza e inanição.
Só meu círculo me salva do ódio
De todos estes monstros mortos, ainda que animados.
Eu combino meu poder com o de meu Destino,
Eu cingi-me para atingir os deveres ultimais,
Eu me armo a guerra para vencer: –
Levantai as vossas cabeças, ó portões poderosos!
Erguei-vos, ó portais eternos!
O Rei da Glória entrará.

 

Yesod

Salve, tu lua cheia, ó chama de Ametista!
Estupenda montanha em cujos ombros repousam
Os Oito Acima. Mais estável é meu cume
Do que o teu – e agora eu te perfuro, véu de névoa!
Assim como uma flecha de arco de guerra lança,
Eu salto – minha vida é definida com coisas mais elevadas.
Eu combino meu poder com o de meu Destino,
Eu cingi-me para atingir os deveres ultimais,
Eu me armo a guerra para vencer: –
Levantai as vossas cabeças, ó portões poderosos!
Erguei-vos, ó portais eternos!
O Rei da Glória entrará.

 

Samech (e a travessia do Caminho de Pé)

Agora rápida, tu flecha azul de fogo esmorecido,
Perfure o arco-íris! Rápida, ó, rápida! como atravessa
Pelo mundo! Que Sandalfon e seu coro
De Anjos me protejam!
Ó! que planeta irradia
Este raio raivoso? Tuas espadas, teus escudos, tuas lanças!
Tuas carruagens e teus cavaleiros, Senhor! Esferas chovidas
De meteoros guerreiam e queimam; mas eu sou eu,
O próprio Hórus, a torrente do céu
Em chamas – eu varro os mares tempestuosos do ar
Em direção a esse grande globo que paira dourado e justo.
Eu combino meu poder com o de meu Destino,
Eu cingi-me para atingir os deveres ultimais,
Eu me armo a guerra para vencer: –
Levantai as vossas cabeças, ó portões poderosos!
Erguei-vos, ó portais eternos!
O Rei da Glória entrará.

 

Tiphereth

Salve, salve, tu sol da harmonia,
Da beleza e do êxtase!
Tu irradias brilhante e destemido!
Tu, rosa rubi, tu, cruz de ouro!
Salve, centro do plano cósmico!
Salve, imagem mística do Homem!
Eu dou o sinal de Asar assassinado.
Eu dou o sinal de Asi imponente.
Eu dou o sinal de Apep, a estrela
Da Destruição negra que tudo devora.
Eu dou o teu sinal, Asar ressurreto: -
Rebenta, ó meu espírito, de tua prisão!
Eu combino meu poder com o de meu Destino,
Eu cingi-me para atingir os deveres ultimais,
Eu me armo a guerra para vencer: -
Levantai as vossas cabeças, ó portões poderosos!
Erguei-vos, ó portais eternos!
O Rei da Glória entrará.

 

Gimel (com a travessia do Caminho de Teth)

Salve, Meia-Noite virgem, Lua brilhante Dela
Que é o pensamento e o ministro de Deus!
Pura neve, céu azul, imaculada
Hécate, no Teu livro do Destino
Leias meu nome, a alma ascendente
Que busca a meta suprema e sem sol!
E tu, grande Sekhet, o rugido! Levante,
Enfrente o leão no caminho!
Teus olhos calmos e indomáveis
Levante de uma vez, e olhe, e fure, e mate!
Passei. Salve, Hécate! Não-trilhada é
Tua subida íngreme para Deus, para Deus!
Vê, que inominada, inominável
Esfera paira acima do inescrutável?
Não há virtude em teu beijo
Para afrontar aquele abismo negro e desalmado.
Eu combino meu poder com o de meu Destino,
Eu cingi-me para atingir os deveres ultimais,
Eu me armo a guerra para vencer: –
Levantai as vossas cabeças, ó portões poderosos!
Erguei-vos, ó portais eternos!
O Rei da Glória entrará.

 

Daath

Eu estou louco, Minha razão tomba;
A torre do meu ser desmorona.
Aqui tudo é dúvida, angústia, desespero:
Não há poder na força ou na oração.
Se eu passar, é pelo poder
Do momentum de meu voo.
Eu combino meu poder com o de meu Destino,
Eu cingi-me para atingir os deveres ultimais,
Eu me armo a guerra para vencer: –
Levantai as vossas cabeças, ó portões poderosos!
Erguei-vos, ó portais eternos!
O Rei da Glória entrará.

 

Gimel (e da travessia de Daleth)

Livre dessa maldição, solto dessa prisão;
De toda esta ruína eu levantei!
Ainda pura, a lua virgem seduz
Minha passagem azul com seus sorrisos.
Agora! Ó, que amor o divino redime
Minha morte, e a banha em seus raios de luz!
Que consagração transubstancia
A minha carne e sangue, e encarna
O Pã quintessencial? Que terra
Se estende para além desta porta secreta?
Salve! Ó, tu estrela sétupla de verde,
Tu, glória quádrupla – todo este sofrimento
Apanhado em êxtase – uma benção
Para me passar cantando através da lua!
Não! Eu não sabia que glória resplandecia
Ouro da felicidade ofegante e além:
Mas isso eu sei, que eu me vou
Para o coração do grande diamante de Deus!
Eu combino meu poder com o de meu Destino,
Eu cingi-me para atingir os deveres ultimais,
Eu me armo a guerra para vencer: –
Levantai as vossas cabeças, ó portões poderosos!
Erguei-vos, ó portais eternos!
O Rei da Glória entrará.

 

Kether

Estou do outro lado do abismo de fogo;
Ouvi que eu sou o que sou!

 

O Retorno

Vê! Eu vesti a minha luz terrível
Naquele corpo nascido da noite.
Que sua mente esteja aberta para o superior!
Que seu coração seja lúcido e luminoso!
O Templo de seu próprio desejo
O Templo da Rosa Cruz!
Conforme Hórus acelera a chama, Harpócrates
A recebe, e põe a alma a descansar.
Eu que era Um sou Um, toda a luz
Equilibrada dentro de mim, justiça ordenada,
Tal como sempre foi para o iniciado do saber,
É agora, e sempre será. 
Amém

Aleister Crowley
de The Winged Beetle, 1910

Um comentário:

  1. Visitem o site www.3lefantes.com
    e leiam o livro "Travessia de Daleth"

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