segunda-feira, 4 de julho de 2011

Poder e Autoridade - por Aleister Crowley

Cara Soror:[1]

Faze o que tu queres deverá ser o todo da Lei.

Muito obrigado pela sua última carta. Eu não esperava menos. Tão logo alguém assume um cargo de autoridade, mesmo em uma escala muito pequena, seus problemas começam em uma escala muito maior.[2]
Imagine você, se puder, tudo aquilo que passei neste último quarto de século ou mais. Meus subordinados estão sempre me pedindo por ascensão na Ordem; eles acham que somente se fossem membros do 266º grau tudo no jardim seria maravilhoso. Eles acham que apenas se possuíssem os segredos do 148º grau seriam capazes de realizar todos aqueles milagres que atualmente escapam de seu alcance.
Esses pobres idiotas! Eles não compreendem a diferença entre Poder e Autoridade. Eles não entendem que existem dois tipos de graus, completamente diferentes.
Por exemplo, na teoria da Igreja de Roma um bispo é uma pessoa à qual foi conferido o poder mágico de ordenar sacerdotes. Ele pode escolher uma pessoa totalmente indigna para tal ordenação, isso não faz diferença; e o sacerdote, por mais indigno que possa ser, tem apenas que seguir a fórmula correta que realiza o milagre da Missa, para que aquele milagre seja realizado. Isto é porque na Igreja nós estamos lidando com uma qualificação religiosa em oposição à qualificação mágica ou científica. Se a Royal Society[3] elegesse um sapateiro, como poderia fazê-lo, isso não investiria o Novo Companheiro com o poder de determinação de um ponto de ebulição, ou de realizar a leitura de um Vernier.
No nosso próprio caso, embora a Nossa autoridade seja pelo menos tão absoluta quanto a do Papa e a da Igreja de Roma[4], ela não confere a mim qualquer poder transferível para os outros por qualquer ato de Nossa vontade.[5]
A nossa própria autoridade veio a Nós porque foi conquistada, e quando Nós conferimos graus a outras pessoas a Nossa dádiva é inteiramente ineficaz a menos que o beneficiário tenha realizado seus esforços.[6]
Colocando em termos ligeiramente diferentes: Qualquer grau concedido é, por assim dizer, um selo sobre um resultado preciso; e embora possa ser de Nosso agrado explicar o segredo ou segredos de qualquer grau ou graus concedidos a qualquer pessoa ou quaisquer pessoas, isto não faz o menor efeito, a menos que ele prove pela sua própria pessoa, que a habilidade de realizar aquelas funções as quais todos Nós realizamos lhe concederão o direito de realizar e o Conhecimento para realizar.
Quanto mais você progride na Ordem, mais você se encontrará importunado por pessoas que simplesmente falharam em compreender este ponto da teoria Mágica.
Um outro ponto, é que o ato de ensinar é em si mesmo muito complicado; mesmo coisas simples tais como viajar no plano astral não serão realizadas qualquer que seja a quantidade de ensinamentos, a menos que o aluno tenha tanto a capacidade quanto a energia e também a habilidade teórica e intelectual para conduzir as práticas de modo bem sucedido. (Eu já falei bastante sobre isto na minha carta sobre Aptidão.)[7]
Eu achei que é muito importante que você reforce estes pontos para todas as pessoas. É absolutamente lamentável assistir aos esforços em vão dos incompetentes; eles são tão sérios, tão sinceros, tão merecedores, sob todos os aspectos, de toda recompensa possível e, ainda assim, eles parecem incapazes de avançar um único passo.
Há outro lado deste assunto que realmente se aproxima do ato criminoso. Existem vários professores, mestres, bispos e sabe-se lá deus mais o que, andando por aí e fazendo algo pouco melhor do que vender graduações, graus e segredos. Tais práticas, de fato, não são melhores do que a fraude comum.
Por favor, fixe em sua mente que Conosco qualquer grau, qualquer cargo de autoridade, qualquer tipo de classe, é completamente sem valor, exceto quando não for apenas um carimbo sobre a realização ou conquista real.[8]
Pode parecer a você que eu estou chutando um cachorro morto, que é pouco melhor que perda de tempo para eu continuar insistindo, como estou fazendo agora, que aquilo que qualquer pessoa comum pensaria era evidente para a inteligência mais mediana; porém como uma simples questão de fato, quanto mais você avança na Ordem, e quanto mais pessoas você conhece, mais você encontrará esta atitude, algumas vezes absurda e algumas vezes abominável, se erguendo e lhe golpeando na face.
Esta é uma das razões porque quanto mais eu envelheço e quanto mais experiência eu adquiro sobre a natureza humana, mais eu me convenço da sabedoria dos Chefes da A.·. A.·., onde a associação com qualquer outra pessoa exceto o seu superior imediato ou a pessoa sobre a qual você é responsável, é desencorajada de todas as formas possíveis.
Naturalmente existem exceções. É necessário, embora lamentavelmente seja assim, para que a instrução sobre as práticas pessoais sejam dadas ou recebidas. Por tudo isso, eu gostaria de pode lhe mostrar 200 ou 300 cartas que eu recebi nos últimos vinte anos ou mais: elas me dizem sem sombra de dúvida que qualquer coisa como fraternização resulta apenas em problemas. Quando você desejar instrução do seu superior, deveria ser apenas para questões bem definidas e nada mais. Qualquer violação desta convenção é quase certeza de levar a um tipo ou outro de problema. Isso pode, de fato, ser considerado como um defeito de concentração se houvesse a comunicação entre quaisquer pares de membros da Ordem, exceto em casos de necessidade.
Eu sei que deve parecer difícil para a irmandade mais frágil da Ordem que devamos mostrar pouca evidência de sucesso na Grande Obra com a qual todos nós estamos comprometidos. É uma convenção bastante universal que o sucesso deve ser medido pelos membros. As pessoas gostam de sentir que elas têm centenas de Lojas das quais possam obter assistência nos momentos de desânimo.
Contudo, uma satisfação muito mais verdadeira e profunda é encontrada quando o estudante conduziu o seu trabalho satisfatoriamente totalmente através dos seus próprios esforços. Certamente você teve exemplos suficientes nestas cartas, onde em momentos de desespero a pessoa subitamente desperta para o fato de que apesar de todas as aparências, ela tem sido observada e protegida por um plano superior. Eu poderia dizer, de fato, que esta experiência da proteção secreta dos Chefes da Ordem vale por mil testemunhos aparentemente suficientes dos fatos.
Eu gostaria que você mantivesse isto muito bem guardado no seu coração, querida Irmã, e mais ainda, tenha em mente o que eu escrevi nesta carta de modo que possa reconhecer, quando a oportunidade surgir, que a melhor evidência do poder e da inteligência da Ordem é ser constantemente encorajado ao longo do caminho difícil por episódios tais que sejam possíveis de se explicar por meio do que poderia ser considerado como circunstâncias normais.
Finalmente, deixe-me insistir que isto é um sintoma definido de problema de saúde Mágica, quando a ânsia pela manifestação daquele poder e inteligência surge entre o obreiro e a sua obra.
Amor é a lei, amor sob vontade.

Fraternalmente,
666
 
 
Notas:
  1. Nota do Revisor: Cara Soror, do Latim, Querida Irmã.
  2. Na maior parte desta carta ele estará se referindo especificamente aos problemas da O.T.O. e da Santa Igreja Católica Gnóstica.
  3. Nota do Tradutor: Uma associação fundada na Inglaterra por Charles II em 1660 para promover a pesquisa científica.
  4. Ele estava sendo polido ou discreto. A Igreja de Roma nunca teve qualquer autoridade, como a sua história de crimes e absurdos prova amplamente. Mas mesmo se ela tivesse tido autoridade, aquela autoridade teria sido retirada com o advento do Novo Æon.
  5. Isso não está inteiramente correto; dentro dos limites, o Iniciado pode inspirar alunos, ou até mesmo pessoas totalmente desconhecidas, a realizar façanhas além da sua capacidade normal. Observe a poesia de Neuburg ou a prosa de Fuller quando eles estavam sob influência de Crowley. Os limites envolvidos tinham a ver com a Vontade Verdadeira de todos os envolvidos. Os “Irmãos Negros” abusarão de seus joguetes sem escrúpulos. Compare o destino de Krishnamurti nas mãos de Leadbeater e Besant com o destino de Israel Regardie nas mãos de Crowley. Regardie sobreviveu para se revelar um mentiroso e um ladrão; Krishnamurti sobreviveu para ser uma pessoa mais honrada do que os seus falsos mestres. Crowley jamais abusou da Verdadeira Vontade de Regardie, mas Regardie constantemente abusava da Vontade de Crowley — se me desculpar o trocadilho.
  6. Observe por exemplo os efeitos de conferir, sem que seja bondade mal orientada, o IX° O.T.O., á um indivíduo totalmente despreparado, Grady McMurtry; e compare a história de McMurtry desde aquela ocasião com a história, por exemplo, de Karl Germer.
  7. Esta última sentença foi removida por Regardie.
  8. Novamente, o próximo parágrafo foi removido por Regardie.

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