segunda-feira, 4 de julho de 2011

O Método de Thelema - por Aleister Crowley

No momento em que as portas do progresso humano estão rangendo nas dobradiças, quando a humanidade parece quase resignada à cínica contemplação da sua própria agonia na esperança de adiar sua deterioração inevitável; quando a Europa tem o aspecto de um vasto e inseguro hospital para as nações doentes; quando o próprio Extremo Oriente está bebendo do aguardente de loucura dos shibboleths[1] democráticos Ocidentais, e quando a América está afundando incessantemente em problemas renovados e insolúveis; – quando, em uma palavra, toda a terra parece exausta e fora de eixo, no seu ângulo crítico, é interessante observar com atenção os esforços de certos homens cujas pesquisas os levaram a conhecer o aspecto íntimo das leis mais secretas da Natureza.
Desde o início da história, homens sábios tentaram superar o erro, e ajudar os seus companheiros a descobrir e reconhecer a verdade. Nós devemos atribuir a eles as causas reais e mais profundas de todas as revoluções sociais e políticas. Sempre tem sido seu orgulho divulgar a todos o padrão de liberdade.
A humanidade deve muito a homens deste temperamento, pois são eles que a orientam e protegem. Por meio do desenvolvimento de certas faculdades superiores em comparação aos de inteligência humana normal com relação à mentalidade dos insetos, estes alcançaram certa compreensão e produziram certa síntese dos fatos da vida que os capacitaram de tempos em tempos a anunciar um novo princípio fundamental, por cuja aplicação a humanidade pode tomar um atalho na direção correta. É necessário apenas recordar os nomes de Platão, Aristóteles, Kepler, Newton, Bacon e Descartes. Em cada caso nós encontramos um desafio absoluto a todos os princípios aceitos e uma completa destruição cética deles; seguido pela formulação de um novo princípio que se resume em si mesmo, enquanto transcende o antigo.
No exato momento em que a futilidade das religiões formais do mundo foi reconhecida, apesar das mais firmes negações; quando os princípios básicos de religião e ética foram rejeitados subconscientemente, de modo que um tipo de neurastenia espiritual irrompeu na histeria da guerra mundial, apareceu uma figura misteriosa que é geralmente conhecida como o Mestre Therion. Instruído por chefes que até então preferiram se manter nos bastidores, ele traz aos homens livres e iluminados uma lei por cuja virtude a humanidade pode chegar a um estágio novo e mais elevado de avanço em todos os planos, do biológico ao espiritual. Ela é uma lei de liberdade e de amor, mas também de disciplina e de força. Esta lei já está em operação sob o nome de Lei de Thelema.
A fórmula desta lei é: Faze o que tu queres. Seu aspecto moral é simples o suficiente em teoria. Faze o que tu queres não significa Faça o que quiser, embora ela implique neste grau de emancipação, sendo que não é mais possível dizer à priori que dada ação está “errada”. Cada homem tem o direito – e um direito absoluto – de realizar a sua Verdadeira Vontade.
Quanto mais se examina os mais profundos envolvimentos da Lei de Thelema, mais se compreende que ela constitui uma síntese sublime, e a única possível, dos ensinamentos de todas as ciências, da embriologia à história.
Ela é a chave para todo problema que possa confrontar a mente humana; pois ela não significa exatamente uma nova religião, porém muito mais uma nova filosofia, uma nova ética. Pela primeira vez na história, nós somos capazes de conceber a ciência moral como verdadeiramente uma ciência; pois as nossas conclusões se originam das medidas dinâmicas sem referência a axiomas absurdos e postulados impudentes. Ela coordena as várias descobertas da Ciência numa estrutura perfeitamente consistente e coerente.
A Lei de Thelema é, portanto capaz de realizar uma profunda revolução do pensamento e das ações da humanidade. O Mestre Therion fornece (em uma série de ensaios, que até agora apenas uns poucos tiveram o privilégio de ler) provas históricas, filosóficas, físicas e matemáticas, da justiça e da exatidão da sua afirmação de que O Livro da Lei contém a fórmula completa do próximo grande passo no progresso humano, que é ajustar todo homem à tarefa precisamente adequada para a sua natureza individual e fornecer-lhe os meios para descobrir a natureza da sua verdadeira Vontade.
Parece razoável supor que a nova geração, orientando-se consciente ou subconscientemente por esta indicação, desenvolverá a personalidade humana até a sua plenitude. A totalidade da nossa atual civilização, com os seus grupos de possibilidades hereditárias, que até agora nunca foram usadas em plena vantagem, se formará nesta nova lei de perfeição espiritual.
Que também não seja esquecido que o completo desenvolvimento desta nova era já é perceptível em toda parte. O governo, é verdade, ainda não reconheceu oficialmente a sutil evolução que está ocupando seu espaço, debaixo dos seus olhos. Eles estão confusos e alarmados; ou eles irrompem em caos ou reagem de forma selvagem contra as manipulações que perturbam a sua estupidez. Mas eles não evitarão o prodigioso alvorecer que está surgindo na essência do homem.
Nós demos alguma ideia sobre a natureza da Lei de Thelema e o significado geral da sua fórmula, Faze o que tu queres. Uma teoria de solidez e perfeição indestrutíveis foi  apresentada ao mundo. Surge então a questão: Como ela deverá ser posta em prática?
É aqui que surge a necessidade de criar uma técnica imensa e universal que permitirá a sua aplicação no futuro imediato. O primeiro passo é constituir um tipo de Conselho Geral, composto pelos homens de ciência mais inteligentes do mundo. Seu primeiro trabalho será interpretar, cada um sob a luz do seu próprio conhecimento, fortalecido pela interação com o conhecimento dos seus colegas, o sentido mais profundo e amplo da Lei de Thelema. As ciências existentes deverão ser solidamente interligadas dentro de um padrão harmonioso, do qual a Lei de Thelema forneça o impulso artístico.
A tarefa de formular os planos para a administração da Lei será de competência dos subcomitês, orientadas pelo Conselho central, composto de homens de ciências menos abstratas, e pelas profissões, comércio, artes e ofícios, que disponham de constante experiência com problemas práticos.
À parte deste esquema construtivo geral, o Conselho e os comitês, em uma interação regular, solucionarão em série as várias crises que atualmente ameaçam o planeta, compreendendo como cada um no seu próprio modo representa uma violação ou outra da Lei de Thelema, que é a lei da adequação. Eles serão capazes de corrigir o mal na sua origem.
Estes problemas são, em sua essência, de infinita diversidade. Muitos pareciam até agora impossíveis de resolver.
Não há necessidade de insistir nas crises interiores da humanidade, suas crises de consciência. É concebível que estes podem ser resolvidos através de uma educação definida; por um lado, as práticas de todos os sábios orientais, ainda mal compreendidos devido à confusão da sua ciência com as religiões dos seus países; por outro lado, pelos rituais vulgarmente chamados mágicos, igualmente caídos no desprezo, embora de uma eficácia muito real, por causa do grande mal entendido sobre a sua real natureza que sempre os obscureceu. Por tais meios se comprova que é possível criar (ou melhor, desenvolver), no homem, uma faculdade superior à razão; imune à crítica intelectual. Tal faculdade permitiria ao homem – de fato já permite a certos homens – contemplar o problema do sofrimento e dos infortúnios da vida com total desapego e serenidade, porque este não mais seria protegido pela superficialidade e falta de exatidão nos seus dados.
Porém não é sobre tais crises internas, sobre tais enfermidades espirituais que se precisa falar agora. É de importância mais imediata e prática discutir sobre as crises externas, aquelas que devastam as condições políticas e sociais.
De modo a aplicar a Lei de Thelema, investigar as soluções indicadas em O Livro da Lei e utilizá-los para resolver as dificuldades existentes, o apelo é apenas aos técnicos. Banqueiros, arquitetos, engenheiros, biólogos, químicos, médicos, devem combinar os seus conhecimentos e aplicá-los à descoberta da fórmula prática geral da Lei de Thelema.
O lavrador abandona o seu arado para se perder, e junto com ele a essência da sua raça, na garganta voraz da cidade. Ele tem sido tentado, pela falsa educação e visões de uma felicidade fantasiosa, a violar a verdadeira lei do seu ser… Um erro mais sutil é visto na luta de classes. O tom de Sísifo (rei de Corinto condenado para sempre a empurrar uma pedra até o alto de uma colina no Hades, e vê-la rolar de volta à base para então começar tudo de novo) que impregna a questão trabalhista tem sido sustentado por aquelas interpretações errôneas radicais acerca do problema do bem-estar, que consiste em supor que a posse de um automóvel é o bem absoluto. O trabalho artesanal está morto. A perfeição técnica, combinada com o gênio inventivo, do artesão, não é mais o orgulho e a felicidade de todo povoado. O operário moderno esconde, debaixo dos trapos do socialismo e da democracia, úlceras indolentes incuráveis. A colonização mais uma vez está em toda parte numa condição crítica. Em alguns casos, tanto a nação governante quanto a nação governada estão cambaleando sob o peso de verdadeiras cruzes, pois nenhuma compreende como to elaborar a sua inter-relação de tal modo a garantir para ambas, igualmente, as possibilidades máximas do seu crescimento natural.
O próprio comércio novamente – Mas aqui devemos dar uma pausa. O leitor achará muito fácil pensar em uma centena de casos onde o erro de incapacidade, a violação do que podemos chamar de lei biológica no mais amplo sentido filosófico, ameaça o bem-estar e até mesmo a própria existência do indivíduo; quer seja aquele indivíduo uma produção, uma ideia, uma pessoa, ou uma instituição.
No seu estado atual de evolução mental, os homens ainda não foram capazes de libertar suas mentes da ideia absolutamente falsa de que cada um dos problemas acima indicados tem o seu bacilo maligno particular. A opinião está parada no estágio da química antes da descoberta das Leis Periódicas – nós podemos até dizer, da Lei das Combinações de Pesos. Naqueles dias cada reação química parecia mais ou menos um fenômeno isolado, até mesmo arbitrário. Foi a descoberta da uniformidade da ação química que tornou possível o surgimento do ramo orgânico da ciência, que é a síntese dos compostos cujas propriedades seriam previstas, mesmo antes que eles fossem preparados, sobre princípios gerais puramente teóricos. É à química orgânica que a humanidade deve uma boa parte das comodidades modernas, corantes, remédios, explosivos pesados e tudo mais. Através da adoção de um princípio similar de uniformidade na ética, podemos esperar razoavelmente por um desenvolvimento paralelo construtivo das ciências social e política. É pura tolice continuar a se perder em detalhes; durante a análise de um problema, se omitir a ter em mente as correntes sutis que conectam as diversas manifestações da nossa natureza complexa.
Ao reconciliar os pontos de vista mais opostos, a Lei de Thelema ofereceu uma Chave Mestra para qualquer caixa-forte no Depósito de Segurança da alma humana. Os males que afligem a humanidade não tem uma causa independente para cada um; a única forma possível de erro é a violação da lei da sua própria natureza. Isso é nem mais nem menos verdadeiro para aquele aleijado que quer ser um lutador, ou um avarento que quer ser amado só a ele mesmo, como um arbusto de uva do monte que desejaria viver no Saara, ou um átomo de ouro cujo sonho era o de se combinar com o argônio.
A aplicação da Lei de Thelema, que implica no desenvolvimento do indivíduo dentro dos seus limites apropriados, seguindo a uma lei moral determinada pelas condições reais da sua natureza mais íntima, demonstra num primeiro exame como cada um, dentro da grande massa de erros humanos, é devido a este erro original.
O Livro da Lei diz: “Todo homem e toda mulher é uma estrela”. A imagem é dignamente sugestiva: nenhuma outra poderia mostrar mais claramente a essência da aplicação da fórmula Thelêmica. Cada ser humano deveria se considerar o centro de um círculo infinito; seu universo é de fato, para ele, diferente daquele de todas as outras pessoas, e ele simplesmente troca a realidade pela fantasia quando tenta calcular em termos daquilo que a ele foi estupidamente ensinado a considerar como o universo “real” – aquele universo objetivo, que consiste meramente de fenômenos aparentemente comuns a todos os observadores.
A realidade daquele universo, que é o universo da ciência, é apenas uma abstração; ele é, sem dúvida, quase verdadeiro para todos, falando a grosso modo; mas é completamente verdadeiro para ninguém. Mil homens olhando para um relógio veem mil relógios diferentes, embora nós assumamos a unidade do objeto. Mas o homem que vê a frente do relógio é um grande pedante se ele se recusar a dizer as horas, no caso em que outra pessoa só consiga ver a parte de trás. Ainda assim esta estupidez é o fundamento da velha moralidade em geral, e do altruísmo em particular.
Cada homem está, portanto absolutamente justificado ao se considerar como o centro do universo e ao agir desta forma. Deslocar este centro, quebrar a harmonia de um sistema humano (que corresponde com estranha precisão, por um lado, ao Universo Sideral e, por outro lado, àquele dos elétrons) é quebrar a Lei de Thelema, é blasfemar contra si mesmo. E, tanto quanto se possa dizer, não existe outro si [-mesmo]. Seus companheiros observadores, seja Deus ou seus vizinhos, são – na medida em que possa conhecê-los – apenas ideias criadas pelas alterações químicas e mecânicas no seu cérebro; e ele realmente não está ciente disso!
Porém ao assumir que sabe qualquer coisa inteiramente, ele conhece a si mesmo. Portanto pecar contra si mesmo é o seu único pecado possível. Se eu cometer este crime (seja qual for a forma externa que possa assumir) não será contra a lei do homem, ou contra uma lei alheia que eu blasfemo; será contra a minha própria lei, o  alicerce da minha vida, o desenvolvimento completo da minha personalidade.
Pense em uma estrela, suas relações gravitacionais com o universo! Ela exerce um esforço sobre todas as outras massas no espaço de acordo com a lei bem conhecida, uma lei única. Em todo momento, enquanto ela passa pelo seu curso, a quantidade daquele esforço é alterada; mas a Lei é sempre a mesma. O paralelo com a vida humana é tão exato, tão complexo e tão intenso, que é muito mais um assunto para meditação do que para exposição. Mas a conclusão prática para cada homem será a mesma. Ele deve estruturar a sua vida em conformidade com a Lei universal, que é também a sua lei peculiar, e que lhe garantirá estar livre de perturbação na sua própria função bem ordenada e naquela do sistema que lhe diz respeito imediatamente.
O alcance da vantagem que a estrita aplicação da fórmula, Faze o que o tu queres, é capaz de garantir para a humanidade, ultrapassa o que a imaginação pode conceber. A nossa geração infeliz, sangrando com mil ferimentos, seus nervos em frangalhos devido aos seus cegos excessos e sua falha de entendimento, não pode escapar da Lei. Quer gostemos dela ou não, a Lei de Thelema está em ação manifestamente em toda parte.
Ela é uma Esfinge cega que nos devorará, a menos que consigamos decifrar o seu enigma, atrelá-la à nossa carruagem, e conduzi-la triunfantes para Tebas. Que aqueles que constituem o corpo intelectual e executivo de pioneiros da humanidade sejam os primeiros a se alistar no exército de colegas do Mestre Therion, um mestre nomeado por nenhuma autoridade estranha, mas por um poder contra o qual nenhuma revolta jamais foi bem sucedida: o poder da lógica.
A questão suprema é: como ensinar o homem a agir de acordo com os fatos da Natureza? Ele tem que parar de tentar ignorá-los ou negá-los por preconceito, de transcendê-los através de um idealismo fantasioso baseado na falsidade ou estupidez; assim como um arquiteto não deve jamais compreender mal, calcular errado ou aplicar de modo falho a lei dos esforços e tensões.
A Lei foi proclamada. Cabe a nós interpretá-la e estabelecê-la.
Aqueles que compreendem a importância deste apelo, aqueles (falando na linguagem da própria Lei) cuja verdadeira Vontade é dirigir os destinos da raça, começarão se organizando em um corpo cuja função será a de estudar e realizar a Lei, sob a proteção do Mestre Therion, e procedendo na elaboração do método para direcionar o curso dos eventos de maneira inteligente e natural, pela primeira vez na história.
Este ensaio é dirigido principalmente aos banqueiros, capitães de indústria e, falando de modo geral, a todos aqueles cuja inclinação natural é manipular as forças sociais. A primeira condição de sua existência, para não falar da sua segurança e prosperidade, é a de que eles devem direcionar o fluxo do comércio, o sangue vital do mundo. Eles estão prestes a compreender a Lei de Thelema, pelo menos subconscientemente, pois eles não embarcam castanhas do Brasil para o Brasil, nem tentam importar milho da Geleira de Baltoro. Sua única falha tem sido a de não perceber que os mesmos princípios de senso comum que os impedia de cometer tais absurdos podem ser aplicados, com a ajuda de peritos treinados, a todo problema possível com o qual se confrontem no seu trabalho diário. Nenhum homem conhece melhor o horrível desperdício de “despesas operacionais” provocadas por inadequação de pessoal, e erros similares. (Não vou arriscar irritá-los recordando-os sobre a legislação idealista).
Tais homens estão preparados para a mensagem do Mestre Therion, pois eles controlam o mecanismo central do relógio econômico. Eles deveriam ser os primeiros a se devotar à causa, a aceitar a ideia da Lei de Thelema, e a se antecipar para organizar a investigação científica que deve ser conduzida de modo a trazer os grandes ramos da ciência moderna, da economia política à biologia e à psicologia, para contribuir com sua força no sentido de expandir o irresistível rio da realização humana.
 
Notas:
  1. Slogan de um grupo politico.

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