quarta-feira, 29 de junho de 2011

De Lege Libellum

Astrum Argentum

Prefácio - A Lei

Faze o que tu queres há de ser tudo da Lei.

EM RETIDÃO DE CORAÇÃO vinde aqui, e ouça; pois sou eu, TO MEGA THERION, quem deu esta Lei a todo aquele que se percebe santo. Sou eu, e não outro, quem quer vossa Liberdade completa, e o crescimento dentro de vós de Conhecimento e Poder completos.
Vede! O Reino de Deus está dentro de vós, mesmo como o Sol está eternamente nos céus, tanto à meia-noite quanto ao meio-dia. Ele não se ergue, não se põe; é a sombra da terra que o esconde, ou as nuvens sobre a face dela.
Deixa-me então vos declarar este Mistério da Lei, tal como ele me foi dado a conhecer em diversos lugares, em montanhas e em desertos., mas também em grandes cidades; eu o declaro para vosso conforto e coragem. E assim seja como todos vós!
Sabeis, primeiramente, que da Lei surgem quatro Raios ou emanações; de forma que se fazeis da Lei o centro de vosso ser, eles inevitavelmente, vos encherão de benefício oculto. E os quatro são: Luz, Vida, Amor e Liberdade.
Pela Luz contemplareis a vós mesmos, e vereis Todas as Coisas, que em verdade são apenas Uma Coisa, que tem sido chamada de Nada por um motivo que mais adiante vos será declarado. Mas a substância da Luz é Vida, desde que sem Existência e Energia a Luz não poderia ser. Pela Vida, portanto, vos sois tornando vos mesmos, eternos e incorruptíveis, flamejantes como sóis, auto-criados e auto-mantidos; cada um de vós é o centro único do Universo.
Ora, assim como pela luz vistes, pelo amor sentis. Há um êxtase de puro Conhecimento, e outro de puro Amor. E este Amor é a força que une coisas diversas, para a contemplação, na Luz, da Unidade delas. Aprendei que o Universo não está imóvel; está num extremo movimento cuja soma é Descanso. E esta compreensão de que estabilidade é Mudança, e Mudança Estabilidade, que Ser é Acontecer, e Acontecer é Ser, é a chave do Palácio Áureo desta Lei.
Finalmente, através da Liberdade tendes o poder de dirigis vosso curso de acordo com vossa Vontade. Pois a extensão do Universo é sem limites, e vós sois livres de tomar prazer como quiserdes, já que a variedade de existência é, igualmente, infinita. Pois também isto é a Alegria da Lei: que não há duas estrelas iguais, e vos deveis compreender que esta multiplicidade é, ela mesma, Unidade, e que sem ela a Unidade seria impossível. E isto é uma dura asserção à Razão, que é apenas manipulação da mente, chegardes ao Conhecimento puro através da percepção direta da Verdade.
Aprendei, também, que essas quatro Emanação da Lei flamejam em todas os caminhos; elas vos serão úteis não só nessas Rodovias do Universo das quais eu escrevi, mas em qualquer Atalho de vossas vidas diárias.
Amor é a lei, amor sob vontade.

 

I - De Liberdade

É SOBRE LIBERDADE que eu primeiro quereria vos falar; pois a não ser que sejais livre para agir, não podeis agir. No entanto, todas as quatro dádivas da Lei devem ser, algum grau, exercidas, já que as quatro são na realidade uma, mas para o Aspirante que vem ao Mestre, a primeira necessidade é Liberdade.
O maior de todos os grilhões é a ignorância. Como há um homem livre para agir, se ele não conhece seu próprio propósito? Vós deveis portanto, antes de mais nada descobrir que estrela, de todas as estrelas, vós sois: vossa relação com as outras estrelas em vossa volta, vossa relação, e identidade com o Todo.
Em nossos Livros Santos são descritos diversos métodos de realizarmos esta descoberta; e cada um deve realizá-la por si mesmo, alcançando uma absoluta certeza através de experimentação direta; não apenas raciocinando e calculando o que é provável. Então, a cada um de vós virá o conhecimento de sua vontade finita, através da qual um é poeta, outro profeta, outro ferreiro, outro escultor. Mas também, a cada um virá o conhecimento de sua Vontade infinita: se Verdadeiro Ente. Desta Vontade deixai-me, pois, falar claramente a todos, já que ela é de todos.
Compreendei antes de mais nada, que existe em vós um certo descontentamento. Analisai-a bem a natureza: no final chegareis, em qualquer caso, a uma mesma conclusão. Esse descontentamento surge na crença em duas coisas diversas, o Ente e o Não-Ente, em conflito entre elas. Também isto é restrição da Vontade. Aquele que está doente está em conflito com seu próprio corpo; aquele que é pobre está em conflito com a sociedade; e assim por diante. No fim, portanto, o problema consiste em como atingir esta percepção de unidade.
Ora suponhamos que vieste à presença do Mestre, e que Ele vos declarou o Caminho a esta consecução. Que vos impede? Ai! existe ainda muita liberdade ao longe. Compreendei isto claramente: que se estais certos de vossa Vontade, e certos de vossos meios, então quaisquer pensamentos ou atos que contrariam esses meios contrariam também aquela Vontade.
Se, portanto o Mestre vos urgisse a que aceitásseis um Voto de Santa Obediência, concordar em fazer isto não seria uma entrega da Vontade, mas um cumprimento desta.
Pois vede, o que vos impede? Ou vem de fora ou vem de dentro, ou de ambas as coisas ao mesmo tempo. Pode ser fácil para o buscador de mente forte calcar aos pés a opinião pública, ou arrancar de seu forte coração o que ele ama, em um senso; mas permanecerão sempre nele muitas afeições discordantes, como também os laços do hábito; e também estes ele deve conquistar.
Em nosso mais Santo Livro está escrito: “tu não tens direito senão fazer a tua Vontade. Faze aquilo e nenhum outro dirá não.” Escreverei tal também em vosso coração e em vosso cérebro: pois esta é a chave do assunto inteiro.
Aqui a Natureza mesma seja vosso orientador: pois em cada fenômeno de força e movimento ela proclama aos gritos esta verdade. Mesmo num assunto tão pequenino como o ato de pregar um prego numa tábua, eis este mesmo sermão. Vosso prego deve ser duro, liso, aguçado, ou não se moverá rapidamente na direção desejada. Imaginai então um prego de madeira podre, e rombudo, em verdade, isso nem mais é um prego. No entanto, praticamente a humanidade em peso é assim. Eles desejam uma dúzia de diversas carreiras; e a força que poderia ter sido suficiente para atingir eminência em uma, é desperdiçada nas outras: todas ficam anuladas.
A mais possantes forças do Universo para me manter neste intuito; se bem que agora o hábito mesmo me constrange à direção correta, no entanto eu não cumpri minha Vontade; diariamente eu me desvio da tarefa. Eu oscilo. Eu fraquejo. Eu me atraso.
Seja isto então de grande conforto para todos vós; que se eu sou tão imperfeito, e por simples vergonha eu não acentuei minha imperfeição, se eu, o Profeta, ainda mesmo se apenas me igualásseis, como seria grande a vossa consecução!
Alegrai-vos, portanto, já que tanto o meu fracasso quanto o meu sucesso são argumentos encorajadores para vós.
Examinai-vos bem, eu vos peço: analisai vossos pensamentos mais íntimos. E primeiramente abandonareis todos esses grosseiros e óbvios impedimentos à vossa Vontade: preguiça, amizades fúteis condições ou diversões dispersivas; eu não enumerarei os conspiradores contra o bem estar de vosso Estado.
A seguir, determinai o mínimo de tempo diário que é realmente indispensável à vossa vida natural. O resto vós dedicareis aos Verdadeiros Meios da vossa Consecução. E mesmo aquelas necessárias horas de labuta mundana vós consagrareis à Grande Obra, dizendo conscientemente, sempre, enquanto ocupado com essas tarefas, que vós as executais apenas para preservar vosso corpo e mente em bom estado de saúde a fim de poderdes vos aplicar seriamente àquele sublime e único Objetivo.
Pouco tempo passará antes que comeceis a compreender que tal modo de viver é a verdadeira Liberdade. Vós percebereis as distrações de vossa Vontade como o são. Elas não mais vos parecerão agradáveis e atraentes; mas serão como laços, como vergonha. E quando tiverdes atingido este ponto, sabei que atravessastes o Portal do Meio. Vós unificastes a vossa Vontade.
Da mesma forma, se um homem estivesse sentado em um teatro e a peça o entediasse, ele aceitaria de bom grado qualquer distração e se divertiria com qualquer incidente estranho às peripécias no palco; mas se a peça realmente lhe atraísse a atenção, qualquer incidente o aborreceria. Sua atitude para com estes seria uma indicação dele para com a peça mesma.
A princípio o hábito da atenção é difícil de adquirir. Perseverai, e experimentareis espasmos periódicos de repulsão. Vossa Razão mesma vos atacará, dizendo: como pode uma escravidão tão estrita ser o Caminho à Liberdade?
Perseverai. Vós nunca ainda conhecestes a liberdade. Quando as tentações tiverem sido sobrepujadas, quando a voz da Razão tiver sido silenciada, então vossa alma pulará avante, desimpedida, em seu curso escolhido; e pela primeira vez vós experimentareis o extremo deleite de serdes Mestre de vós Mesmos, portanto do Universo.
Quando isto tiver sido plenamente conseguido, quando estiverdes sentados seguramente na sela, então podereis desfrutar também todas aquelas distrações que antes vos agradaram e depois vos irritaram. Agora elas não mais farão nem uma coisa nem outra; pois elas serão vossas servas e brinquedos.
Até que tenhais atingido este ponto, não sereis completamente livres. Vós deveis matar o desejo e matar o medo. O final disto é o poder de viver de acordo com vossa própria natureza, sem perigo de que uma parte possa se desenvolver em detrimento das outras; sem qualquer preocupação de que tal perigo possa se apresentar.
O beberrão bebe e se aturde; o covarde não bebe e treme de frio; o homem sábio, livre e corajoso, bebe e glorifica Deus Altíssimo.
Esta então é a Lei de Liberdade: vós possuis toda Liberdade como vosso direito intrínseco; mas tendes que fortificar o Direito com Poder: tendes que conquistar a Liberdade para vós mesmos em muitas batalhas. Ai dos filhos que dormem sobre a Liberdade conquistada por seus pais!
“Não existe lei além de faze o que tu queres”: mas são apenas os maiores da raça que tem a força e a coragem necessárias para obedecer esta Lei.
Oh homem! olha-te a ti mesmo! Com que cuidado foste feito! Quantas idades levou tua construção! A história do planeta está entretecida com a substância do teu cérebro! Foi tudo isso sem motivo? Não há propósito em ti? Foste tu feito como és para que pudesses comer, e procriar, e morrer? Tal não penses! Tu incorporas tantos elementos, tu és o fruto de tantos Aeons de esforço, tu fostes feito tal qual és, e não outro, para algum colossal Fito.
Cria então ânimo, e busca esse Fito, e faze-o. Nada pode te satisfazer senão o cumprimento de tua transcendente Vontade, que está oculta dentro de ti. Para isto, levanta-te, arma-te! Conquista tua Liberdade para ti mesmo! golpeia fundo!

 

II - Do Amor

ESTÁ ESCRITO que “Amor é a lei, amor sob vontade”. Aqui há um Arcano velado, pois em grego AGAPE, Amor, tem o mesmo valor numérico que Qelhma? Vontade. Por isto nós compreendemos que a natureza da Vontade Universal é Amor.
Ora, Amor é o incêndio em êxtase de Dois que desejam se tornar Um. É, pois uma fórmula Universal de Alta Magia. Pois todas as coisas, sofrendo por causa da individualidade, devem necessariamente querer Unidade como seu remédio.
Aqui também a Natureza serve de aviso àqueles que buscam Sabedoria no seio dela: pois na união de elementos de polaridade oposta há uma glória de calor, de luz, e de eletricidade. Assim também, na humanidade nós contemplamos o fruto espiritual de poesia, e de toda genialidade, surgindo da semente daquilo que pessoas treinadas em Filosofia consideram apenas como um gesto animal. E deve ser bem notado que as mais violentas e divinas paixões ocorrem entre pessoas de natureza completamente inarmônicas.
Mas agora eu quereria que percebêsseis que no plano da mente não há limitações tais com a de espécie; de forma que um homem pode se enamorar de um objeto inanimado, ou de uma idéia. Pois para aquele que esteja algo adiantado no Caminho da Meditação parece que todos os objetos, salvo o Objeto único, são desagradáveis, mesmo como lhe pareceu antes quanto aos seus caprichos e desejos efêmeros em relação à Vontade. Portanto, assim todos os objetos devem ser tomados pela mente, e aquecidos na sétupla fornalha do Amor, até que numa explosão de êxtase eles são por completo destruídos na criação da Perfeição de União, tal como as pessoas do Amante e do Bem-Amado se fundem no ouro espiritual do Amor, que não conhece pessoas, mas inclui tudo.
Porém, já que cada estrela é apenas uma estrela, e a união das duas é apenas uma êxtase parcial, o aspirante à nossa santa Ciência e Arte deve aumentar-se constantemente através deste método de assimilação de idéias, para que no fim, tendo se tornado capaz de abarcar o Universo em um só pensamento, ele possa se lançar sobre aquilo com a completa força de seu Ente e destruindo a ambos, tornar-se aquela unidade cujo nome é Nada. Buscai, pois todos vós, unir-vos constantemente em êxtase com toda e cada coisa que existe; e isto com a máxima paixão e ardor de União. Para este fim, tomai principalmente coisas que vos sejam naturalmente repulsivas. Pois aquilo que é agradável é facilmente assimilado e sem êxtase; é na transfiguração do que é indesejado e nojento no Bem-Amado que o Ente é sacudido nas raízes do Amor.
Assim, no amor humano também nós vemos que homens medíocres se unem a mulheres inaptas; mas a História nos ensina que os super gênios do mundo buscam sempre as mais vis e as mais horríveis criaturas para suas concubinas, ultrapassando até as leis limitantes do sexo ou da espécie em sua necessidade de transcender a norma. Não basta a tais naturezas excitar ardor ou paixão: a imaginação mesma deve ser inflamada por todas os meios. Para nós, então, emancipados de toda lei ignóbil, que faremos nós para satisfazer nossa Vontade de União? Nada menos que o Universo inteiro deve ser a nossa amante; nenhum bordel mais circunscrito que o Espaço Infinito pode ser o nosso âmbito nenhuma noite de estupro que não seja coesa com a própria Eternidade!
Considerai que, tal como o Amor tem força para produzir todo êxtase, assim a falta de Amor é a maior das fomes. Quem é frustrado em seu Amor sofre em verdade; mas aquele que não sente Amor ativamente em seu coração para com algum objeto está prostrado em dor de esfomeio. E este estado é misticamente chamado de “Secura”. Para isto, creio eu, não existe cura senão paciente persistência em uma Regra de Vida.
Mas esta Secura tem sua virtude: que, através dela, a Alma é purgada das coisas que impedem a Vontade; pois quando a secura é completa e perfeita, então é certo que nada satisfará a Alma senão a Consecução da Grande Obra. E isto em almas fortes, é um estímulo para a Vontade. É a fornalha de sede que queima toda impureza dentro de nós.
Mas cada ato de Vontade corresponde a uma particular Secura: e a medida que o Amor aumentar dentro de vós, assim aumentará o tormento da falta de Amor. Seja isto, além do mais, um consolo vosso na ordália! Também quanto mais intensa a praga de impotência, tanto mais rápida e subitamente ela poderá desaparecer.
Eis aqui o método de Amor na Meditação: Que o Aspirante primeiro pratique-a e depois se discipline na Arte de fixar a atenção em qualquer coisa à Vontade, sem permitir a mínima distração imaginável.
Que ele pratique a arte da Análise de idéias, e a arte de não permitir à mente a reação natural desta às idéias, tanto, as agradáveis quanto as desagradáveis; assim fixando-se a si mesmo em Simplicidade e Indiferença. Estas coisas sendo conseguidas em sua devida estação, sabei que todas as idéias terão se tornado iguais em vossa percepção, já que cada uma é simples, e cada uma é indiferente: qualquer uma delas permanecerá na mente à Vontade, sem se inquietar ou lutar, nem tendendo a passar qualquer outra. Mas cada idéia possuirá uma especial qualidade que é comum a todos: esta, que nenhuma delas é o Ente: desde que são percebidas pelo Ente como Algo Oposto.
Quando esta percepção for completa e profunda em seu impacto, então será o momento do Aspirante dirigir sua Vontade e Amor sobre ela, de forma que a inteira consciência dele se focalize sobre esta única Idéia. E a princípio ela poderá ser inerte e morta, ou mal mantida. Isto poderá então passar à secura, ou à repulsa. Mas por fim, por pura persistência naquele Ato de Vontade de Amar, o Amor se erguerá, como uma ave, como uma flama, como música, e a Alma inteira alada alçará vôo numa trajetória de fogo e canto ao Derradeiro Céu de Possessão.
Agora, neste método há muitas estradas e caminhos, alguns simples e diretos, alguns escondidos e misteriosos mesmo como ocorre com amor humano, no qual nenhum homem foi feito do mesmo modo que os primeiros rabiscos de um Mapa; pois o Amor é infinito em diversidade, assim como são as Estrelas. Por este motivo, eu deixo que o Amor, por si próprio, domine no coração de cada um de vós: pois ele vos ensinará corretamente, se vós apenas o servíreis com diligência e devoção, mesmo ao abandono.
Nem devereis vos recear ou surpreender com as estranhas peças que ele pregará: pois ele é um garoto travesso e atrevido, sábio nos Artifícios de Afrodite, Nossa Senhora, sua doce Mãe, e todos os seus gracejos e crueldades são temperos de um astucioso confeito ao qual nenhuma arte pode se igualar.
Regozijai-vos, portanto, em Seu jogo, não diminuindo, de modo algum, vosso próprio ardor, mas brilhando com o tormento de Seus açoites e fazendo do próprio Riso um sacramento coadjuvante do Amor, assim como no Vinho de Rheims há fagulhas e trapaças tal como se fossem ministros do Alto Sacerdote de sua Intoxicação.
Também é justo que eu vos escreva da importância da Pureza no Amor. Agora, esta matéria não diz respeito ao objeto ou método da prática: o essencial é que nenhum elemento alienígeno se intrometa. E é da mais particular pertinência ao aspirante nesse primário e mundano aspecto de seu trabalho, no qual ele se estabelece a si mesmo no método, através de suas afeições naturais.
Pois saibas, que todas as coisas são máscaras ou símbolos da Verdade Única, e a natureza serve sempre para apontar a mais alta perfeição sob o véu da mais baixa perfeição. Portanto, então, toda Arte e Ofício do amor humano vos servirão como um hieróglifo: pois está escrito que Aquilo que está acima é como o que está embaixo, e que Aquilo que está embaixo é como o que está em cima.
Portanto, quanto a isto, também vos convém tomar bastante cuidado, para que de nenhum modo falheis neste assunto de Pureza. Pois, apesar de cada ato dever ser completo em seu próprio plano, e nenhuma influência de qualquer outro plano dever ser trazida a sua interferência ou confusão - pois tudo isso é impureza - ainda assim cada ato deve ser, em si mesmo, tão completo e perfeito que seja um espelho da perfeição de todo outro plano e, portanto, vir a partilhar da pura Luz do altíssimo. Também, posto que todas as ações devem ser atos de Vontade em Liberdade em todo os planos, todos estes são, na realidade, apenas um; e assim a mais baixa expressão de qualquer função dessa Vontade deve ser, ao mesmo tempo, uma expressão da mais alta Vontade, ou somente Verdadeira Vontade, o que já está implícito na aceitação da Lei. Que seja também entendido por vós que não é necessário ou certo suprimir a atividade natural de qualquer tipo, tal como certas pessoas falsas, eunucos do espírito; o mais corrompido ensinamento para a destruição de muitos. Pois em qualquer coisa habita sua própria perfeição, e negligenciar a total operação em função de qualquer parte traz a distorção e a degeneração do todo. Agi, portanto, de todas as maneiras, mas transformando o efeito de todas essas maneiras no Único Caminho da Vontade. E isto é possível, porque todos os caminhos são, em Verdade, Um Caminho; o Universo mesmo sendo Um e Um Só, e sua aparência como multiplicidade, como a ilusão cardinal de que o verdadeiro objeto do amor é dissipar.
Na aquisição do Amor, há dois princípios, o da maestria e o da concessão. Mas a natureza destas é difícil de explicar, pois são sutis, e mais bem ensinadas pelo Próprio Amor no curso das Operações. Mas deve ser dito geralmente que a escolha de uma fórmula ou de outra é automática, sendo trabalho dessa mais íntima Vontade o que está vivo dentro de vós. Não busqueis, então, determinar conscientemente esta decisão, pois aqui o verdadeiro instinto não é passível de erro.
Mas agora eu termino sem mais delongas: pois em nossos Livros Santos estão escritos muitos detalhes das presentes práticas de Amor. E aqueles são os melhores e mais verdadeiros, os quais são sutilmente escritos em símbolo e imagem, especialmente em Tragédia e Comédia, pois a natureza inteira destas coisas é deste tipo, a própria Vida sendo o fruto da flor do Amor.
É, pois, da Vida que eu devo agora escrever a vós, visto que por todo ato de Vontade no Amor vós estais a criando, uma quinta essência mais misteriosa e regozijante do que julgais, pois isto que os homens chamam de vida é apenas uma sombra daquela verdadeira Vida, seu direito de nascença e a dádiva da Lei de Thelema.

 

III - Da Vida

SÍSTOLE E DIÁSTOLE: estas são as fases de todas as coisas componentes. Tal é também a vida do homem. Sua curva se ergue da latência do óvulo fertilizado, dizeis, a um zênite do qual declina até a nulidade da morte? Bem considerado, isto não é completamente verdade. A vida do homem é apenas um segmento de uma curva serpentina que alcança a infinidade, e seus zeros apenas marcam as mudanças de + para - e de - para + nos coeficientes de sua equação. É por este motivo entre muitos outros que sábios de antanho escolheram a Serpente para Hieróglifo da Vida.
Vida é, pois indestrutível, como tudo mais. Toda destruição e construção são mudanças da natureza do Amor, como eu vos descrevi no último capítulo. No entanto, mesmo como o sangue que passa pelas veias do meu pulso neste instante, não é o mesmo sangue que passará daqui a um momento, assim também nossa individualidade é, em parte, destruída com cada vida que passa; não, mais até, com cada pensamento.
Que é, então, que constitui um homem, se ele morre e renasce mudado em cada alento? Isto: a consciência de continuidade dada pela memória dele; a concepção de seu Ser como algo cuja existência, longe de estar ameaçada por estas mudanças, é na realidade assegurada por elas. Então, que o Aspirante à Sabedoria sagrada considere seu Ser não como um segmento da Serpente, mas como a Serpente inteira. Que ele expanda sua consciência para encarar nascimento e morte apenas como incidentes triviais, tais como a sístole e a diástole do coração mesmo; e tão necessários quanto estas para que a consciência funcione.
Para fixar a mente nesta apreensão da Vida, dois modos são preferidos, como preliminares às experiências maiores que serão discutidas em sua devida ordem, experiências que transcendem até mesmo aquelas de consecução de Liberdade e Amor, das quais já escrevi, e esta de Vida que eu agora registro neste meu livrinho que estou compondo para vós a fim de que possais chegar à Grande Consecução.
O primeiro modo é a aquisição da Memória Mágica, assim chamada, e a maneira de conseguí-la está descrita acurada e claramente em alguns de nossos Santos Livros. Mas para quase todos os homens, isso é uma prática de extrema dificuldade. Portanto, que o Aspirante siga o impulso de sua própria Vontade, a fim de decidir se escolherá esse modo ou não.
O segundo modo é fácil, agradável; não é tedioso, e no final das contas é tão certeiro quanto o outro. Mas assim como o errar naquele outro consiste em Desencorajamento, neste devei vos precatar de Veredas Falsas. Em verdade posso dizer, genericamente, de todas as Obras, que existem dois perigos: o obstáculo do Fracasso, e a armadilha do Sucesso.
Este segundo modo consiste em dissociar os entes que compõem vossa vida. Primeiramente, porque é mais fácil, vós devereis segregar aquela Forma que é chamada de Corpo de Luz (e também por muitos nomes), e resolver-vos a viajar nesta Forma, explorando sistematicamente esses planos que estão para com o plano Físico, como o vosso Corpo de Luz está para o vosso corpo material.
Agora, ocorrerás convosco nestas viagens que atingireis muitos Portais através dos quais não poderás passar. Isto é porque vosso Corpo de Luz não é suficientemente forte, ou suficientemente sutil, ou suficientemente puro; e vós devereis então aprender a dissociar os elementos daquele Corpo, por um processo similar ao primeiro: vossa consciência permanecendo no mais elevado, e deixando o mais baixo. Nesta prática vós perseverareis, usando vossa Vontade como um grande Arco para enviar a flecha de vossa consciência através de céus cada vez mais altos e mais santos. Mas a persistência neste Caminho é, por si mesma, de vital importância: pois acontecerá que presentemente o hábito vos persuadirá de que o corpo que nasce e morre durante um período de tempo tão curto quanto um ciclo de Netuno no Zodíaco não é essencial ao vosso Ente; que a Vida de que vos tornaste participante, se bem que ela sujeita à Lei de ação e reação, de vazante e enchente, sístole e diástole, está no entanto imune das aflições daquela vida que vos anteriormente assumistes ser vosso único laço com a Existência.
E aqui deveis determinar vosso Ente aos máximos esforços; pois tão floridas são as veredas deste Éden, e tão doces os frutos de seus pomares, que vós desejareis demorar-vos neles, e deleitar-vos em preguiça e gozo ali. Portanto eu vos escrevo com energia que não deveis fazer isto, para impedimento de vosso verdadeiro progresso; pois todos esses gozos dependem de dualidade, de forma que o verdadeiro nome deles é Dor de Ilusão, tal como é a vida normal do homem, que resolvestes transcender.
Seja como vossa Vontade determine; mas aprendei isto, que (como está escrito) só são felizes aqueles que desejaram o inalcançável. Será pois melhor, ao final das contas, que vossa Vontade seja buscar o vosso principal prazer somente no Amor, isto é, em Conquista, e na Morte, isto é, em Render-se, como eu já vos escrevi antes. Assim, então, vos deleitareis nesses gozos já mencionados; mas apenas como brinquedos, mantendo vossa hombridade (manhood) firme e afiada para entrar em êxtases mais profundos e mais santos, sem interrupção de vossa Vontade.
Além disso, eu quereria que soubésseis que nesta prática, se perseguida com ardor inesgotável, há esta especial graça: que vós chegareis, como que por acaso, a estados que transcendem a própria prática, sendo da natureza dessas Obras de Pura Luz das quais eu quereria vos escrever no capítulo que segue. Pois há certos Portais que nenhum ser que ainda esteja cônscio de dividualidade, isto é, de Ente e não-Ente como opostos, pode atravessar: e no ataque contra esses Portais, em fogoso assomo de ardor celestial, vossa flama queimará veementemente contra vosso Ente Grosseiro, e o devorará numa morte mística; de forma que na Passagem do Portal tudo se dissolva em Luz, amorfa, de Unidade.
Agora então, regressando desses estados de ser (e no regresso também há um Mistério de Alegria), vós sereis desarmados do Leite da Escuridão da Lua, e sereis feitos comungantes do Sacramento de Vinho que é o sangue do Sol. No entanto, no início pode haver choque e conflito, pois o velho pensamento persiste pela força de seu hábito: será vossa tarefa criar, por repetida ação, o verdadeiro correto hábito desta consciência da Vida que habita Luz. E isto é fácil, se vossa vontade for forte ; pois a verdadeira vida é tão mais vívida e quinta-essêncial que a falsa que (como eu avalio mal) uma hora daquela faz uma impressão sobre a mente igual a um ano da última. Uma única experiência, que em duração pode ser apenas uns poucos segundos de tempo terreno, é suficiente para destruir a crença na realidade de nossa vã vida na terra: mas este efeito gradualmente se dissipa se a consciência, através de choque ou medo, não adere a ele, e a Vontade não se esforça continuamente por repetição daquela felicidade, mais linda e terrível que a morte, que ganháramos por virtude de Amor.
Há, além disso, muitos outros modos de conseguir a apreensão da verdadeira Vida, e os que seguem são de muito valor para quebrar o hábito de vosso erro material na contemplação da Identidade de Amor e Morte, e compreensão da dissolução do corpo físico como um Ato de Amor executado sobre o Corpo do Universo, como também está extensamente escrito em nossos Livros Sagrados. E com este vai, como se fosse irmã com seu irmão gêmeo, a prática do amor mortal, como um sacramento simbólico daquela grande Morte; tal como está escrito: “Mata a ti mesmo”, e também: “Morre diariamente”.
E o segundo deste modos secundários é a prática da percepção e análise mental das idéias, principalmente como eu já vos ensinei; mas com especial ênfase em coisas naturalmente repulsivas, em particular a própria morte, e seus fenômenos subordinados. Assim, o Buda recomendava a seus discípulos que meditassem sobre as Dez impurezas, isto é, sobre dez casos de morte por decomposição; de forma que o Aspirante, identificando-se com seu próprio corpo em todas estas formas imaginadas, perdesse o natural horror, repugnância, medo ou desgosto que ele poderia ter tido por essas coisas. Aprendei isto: que toda idéia, de qualquer tipo, se torna irreal, fantástica, e evidentemente, ilusão, se sujeita a investigação persistente, com concentração. E isto é particularmente fácil de conseguirmos no caso de todas as impressões corpóreas; porque todas as coisas materiais, e especialmente essas de que nos tornamos primeiramente cônscios, a saber, nossos próprios corpos, são as mais grosseiras e as mais inaturais de todas as falsidades. Pois existe em todos nós, latente, aquela Luz onde nenhum erro pode perdurar, e Ela já ensina ao nosso instinto a rejeitar antes de mais nada esses véus que mais estreitamente a envolvem. Assim, em meditação é (para muitos homens) mais lucrativo concentrar a Vontade de Amar sobre os sagrados centros de força nervosa: pois estes, como todas as coisas, são aptas imagens ou verdadeiros reflexos de seus semelhantes em esferas mais finas; de forma que, suas naturezas grosseiras sendo dissipadas pelo ácido dissolvedor da meditação, suas almas finas aparecem nuas, e exibem sua força e glória na consciência do Aspirante.
Sim, deixai que vossa Vontade de Amar queime lépida em direção a esta criação em vós mesmos da verdadeira Vida, que rola suas vagas através do mar imenso do Tempo! Não vivais vidas mesquinhas em temor das horas! A Lua e o Sol e as Estrelas, pelos quais medis o Tempo, são apenas servos daquela Vida que pulsa em vós; alegres ruflar de tambores enquanto marchais triunfantes pela Avenida das idades. Então quando cada nascimento e morte forem assim reconhecidos nesta perspectiva como apenas marcos sobre vossa Estrada sempre viva, quais dos tolos incidentes de vossas vidas mesquinhas? Não são eles apenas grãos de areia soprados pelo vento do deserto, ou pedregulhos que afastais de vós com vossos pés alados, ou clareiras verdejantes onde comprimis o musgo e a relva elástica em vossa dança lírica? Para aquele que vive na Vida, nada importa: seus são eternos movimentos, energia, deleite de Mudança infalível. Incansáveis, vós passais de aeon a aeon, de estrela a estrela, o Universo, vosso campo de recreio, sua infinita variedade de esporte sempre velha e sempre nova. Todas essas idéias que engendram dor e medo são percebidas em suas verdades, e assim se tornam à semente de alegria: pois a vós percebereis, além da necessidade de qualquer prova, que não podeis jamais morrer; que, se bem que mudeis, mudanças é de vossa própria natureza. O Grande Inimigo se tornou o Grande Aliado.
Enraizados nesta perfeição, vosso Ente tendo se tornado na própria Árvore da Vida, vós tendes um fulcro para vossa alavanca: agora estais prontos para compreender que este pulso de Unidade é, ele mesmo, Dualidade, e portanto, no mais elevado e mais sagrado senso, ainda Dor e Ilusão; e tendo compreendido isto, aspirai uma vez ainda, mesmo à quarta das Dádivas da Lei, o Fim do Caminho, sim a Luz.

 

IV - A Luz

EU VOS ROGO, sede paciente comigo naquilo que eu escreverei quanto à Luz; pois aqui há uma dificuldade, sempre maior, no uso de palavras. Além disto, eu mesmo sou constantemente arrebatado e sobrepujado pela sublimidade deste assunto, de forma que um linguajar simples pode se transformar em lirismo quando eu quereria prosseguir calmamente com explicações sóbrias. Minha melhor chance é que vós possais compreender, por virtude da simpatia de vossa intuição; como dois amantes podem conversar em linguagem tão ininteligível a outros que chega a parecer tola, indecente e tediosa; ou como naquela outra intoxicação, dada por Éter, os comungantes se comunicam uns com os outros com infinito humor, ou sabedoria, conforme o impulso lhes venha, com uma só palavra ou gesto, estando iniciados em percepção pela sutileza da droga. Assim também eu, que estou inflamado com amor dessa Luz, e embriagado com o vinho etéreo desta Luz, posso comunicar-me não tanto com vossa razão e inteligência, mas com aquele princípio oculto em vós que está pronto para comungar comigo. Assim mesmo podem um homem e uma mulher enlouquecer de amor um pelo outro, sem que qualquer palavra seja dita entre eles; por causa da indução de suas almas. E vossa compreensão dependerá de vossa madureza para a percepção de minha Verdade. Além disso, se ocorrer que aquela Luz em vós esteja pronta para aparecer, então a luz interpretará para vós estas minhas escuras palavras na linguagem da Luz, mesmo como uma corda musical inanimada, estando devidamente afinada, ressoará em seu tom peculiar, se este for emitido por outra corda. Lede, portanto, não apenas com vosso olho e cérebro, mas com o ritmo daquela Vida à qual vós alcançastes pela vossa Vontade de Amar, despertada a passos de dança por estas palavras, que são os movimentos da vara de condão da minha Vontade de vos Amar, e assim inflamar vossa Vida em Luz.
[Portanto eu me interrompi na escritura deste livrinho, e durante dois dias e duas noites meditei sem dormir, esforçando-me veementemente em meu espírito, para que não vos falhasse, quer por pressa ou por descuido.]
No exercício de Vontade e Amor estão implicados movimento e mudança; mas em Vida alcançamos uma Unidade que se move e muda apenas em pulso ou face, e é harmoniosa como a música. Entretanto, ao alcançardes essa Vida vós tereis percebido que a Quinta-essência dela é pura Luz, um êxtase informe, e sem marco ou limite. Nesta Luz, nada existe, pois Ela é homogênea; e portanto os homens a têm chamado de Silêncio, de Escuridão, e de Nada. Mas neste, como em qualquer outro esforço por descrevê-la, está a raiz de toda falsidade e percepção errônea; desde que todas as palavras implicam em dualidade de algum tipo. Portanto, se bem que eu a chame de Luz, ela não é Luz, nem ausência de Luz. Muitos, também têm tentado descrevê-la por contradição, desde que através da transcedente anulação de toda linguagem ela pode ser alcançada por certas naturezas. Também através de imagens e símbolos tem os homens se esforçado por expressá-la; mas sempre em vão. No entanto, esses que estavam prontos para perceber a natureza desta Luz têm compreendido por empatia; e assim será convosco se lerdes este livrinho com amor. Porém, seja sabido por vós que a melhor instrução quanto a este assunto, e a palavra mais apta ao Aeon de Horus, está escrito no Livro da Lei. No entanto, também o Livro Ararita é digno na Obra de Luz, tal como Trigrammaton na de Vontade, Cordis Cincti Serpente no Caminho de Amor, e Liberi no de Vida. Todos esses Livros, também tratam de todas estas Quatro Graças; pois ao fim vós vereis que toda e cada uma delas é inseparável de todas as outras.
Eu desejo vos escrever do número 93, o número de Thelema. Pois não apenas é o número de sua interpretação Agape, mas também o de uma palavra que vos será desconhecida a não ser que sejais Neófitos de nossa Santa Ordem de A.A., a qual palavra representa em si o soerguimento da Voz de Silêncio, e o retorno dela ali no Fim. Agora, este número 93 é três vezes 31, que é em hebreu LA, isto é NÃO, e assim nega extensão nas três dimensões do espaço. Também, eu quereria que meditásseis mui estritamente sobre o nome NU, que é 56, o qual é dito que dividamos, adicionemos, multipliquemos e compreendamos. Por divisão vem 0.12, como se fosse escrito Nuit! Hadit! Ra-Hoor-Khuit! antes do aparecimento da Díada. Por adição temos 11, o número da Verdadeira Magia; e por multiplicação temos Trezentos, o Número do Santo Espírito ou fogo, a letra Shin, onde todas as coisas são completamente consumidas. Com estas considerações, e uma completa compreensão dos mistérios dos Números 666 e 418, estareis poderosamente armados neste Caminho de vôo distante. Mas vós deveríeis também considerar todos os números em suas escalas. Pois não há meio de resolução melhor do que este da matemática pura, desde que já mesmo aí idéias grosseiras são refinadas, e tudo é arranjado e aprontado para a Alquimia da Grande Obra.
Eu já vos escrevi de como, na Vontade de Amar, a Luz se ergue como a parte secreta da Vida. E no primeiro, os pequenos Amores, a Vida alcançada é ainda pessoal; mais tarde, ela se torna impessoal e universal. Então chega a Vontade, posso dizer, ao seu pólo magnético, de onde as linhas de forças apontam a mesmo tempo em todas as direções e nenhuma; e o Amor, também, é não mais um trabalho, mas um estado. Estas qualidades se tornam parte da Vida Universal, que flui sem fim ou fito e tem Vontade e o Amor como suas partes inerentes. Estas coisas, por tanto, em sua perfeição perdem seus nomes, e suas naturezas. No entanto elas são a Substância da Vida, o Pai e a Mãe desta; e sem a operação e impacto delas a Vida mesma gradualmente cessaria suas pulsações. Mas desde que a infinita energia do Universo inteiro está ali, que pode acontecer, senão que ela retorne sua própria Intenção Primordial, dissolvendo-se pouco a pouco naquela Luz que é a mais sutil Natureza?
Pois este Universo é em Verdade Zero, sendo uma equação da qual Zero é a soma. Donde isto é a prova, que se não fosse assim, o Universo estaria em desequilíbrio, e algo deveria provir do Nada, o que é absurdo. Esta Luz ou Nada é então a Resultante, ou Totalidade, Universal em Perfeição; e todos os outros estados, positivos ou negativos, são imperfeitos, desde que omitem os seus opostos.
No entanto, eu quereria que considerásseis que esta igualdade ou identidade de equação entre todas as coisas e Nenhuma é mui absoluta; de maneira que não permanecereis mais em um lado da equação do que ocorreu no outro. E vós compreendeis este Mistério maior muito facilmente, à luz dessas outras experiências que tereis tido, nas quais movimento e descanso, mudança e estabilidade, e muitos outros sutis pares de opostos, foram redimidos à identidade pela força de vossa santa meditação.
A máxima graça da Lei, portanto, decorre da mais perfeita prática das Três Graças Menores. E deveis trabalhar nesta Obra tão por completo que vos tornareis capazes de passar de um lado da equação ao outro à Vontade; mais de compreender o todo simultâneo e para sempre. Nisto, então, aquela parte de vossa alma que está restrita ao contínuo espaço + tempo viajará ali de acordo com sua natureza em sua órbita, revelando a Lei àqueles que ali vão encadeados; pois esta será a vossa particular função.
Agora, eis aqui o Mistério da Origem do Mal. Primeiramente, por Mal nós significamos aquilo que está em oposição a nossas próprias vontades; é portanto um termo relativo, e não absoluto. Pois toda coisa que é o pior dos males para alguém é o máximo bem de alguma outra pessoa; tal como a dureza da madeira, que cansa o lenhador, é a segurança daquele que se aventura sobre o mar num barco construído daquela madeira. E esta é uma verdade fácil de assimilarmos sendo superficial, e inteligível mesmo para mentes comuns.
Todo mal é pois relativo, ou aparentemente, ou ilusório; mas, voltando à filosofia, eu repetirei que sua raiz está sempre em dualidade. Portanto, a solução de qualquer aparente situação maligna consiste em buscar a Unidade, o que fareis como eu já vos mostrei. Mas agora eu farei menção daquilo que está escrito quanto a isto no Livro da Lei.
O primeiro sendo a Vontade, o Mal aparece como nesta definição; “tudo aquilo que impede a execução da Vontade”. Portanto está escrito: “A palavra de Pecado é Restrição”. Deve também ser notado que no Livro dos Trinta Aethyrs o Mal aparece como Choronzon, cujo número é 333, que em grego significa Impotência e Ociosidade; e a natureza de Chorozon é Dispersão e Incoerência.
A seguir no Caminho do Amor o Mal aparece como “tudo aquilo que impede a União de qualquer duas coisas”. Assim diz o Livro da Lei, sob a imagem da Voz de Nuit: “tomai vossa fartura e vontade de amor como quiserdes, quando, onde, e com quem quiserdes! Mas sempre para me”. Pois todo ato de Amor deve ser “sob Vontade”, isto é, de acordo com a coisas parciais e transitórias, mas é prosseguir firmemente até o fim. Assim também no Livro dos Trinta Aethyrs, os Irmãos Negros são aqueles que se fecham, não querendo destruir a si mesmos através do Amor.
Terceiro, no Caminho da Vida o mal aparece sob uma forma mais sutil como “tudo aquilo que não é impessoal e universal”. Aqui o Livro da Lei pela voz de Hadit nos informa: “Na esfera Eu sou em toda a parte o centro.” Novamente: “Eu sou Vida e o doador de Vida... vinde a me é uma palavra tola; pois sou Eu que vou”. “Pois Eu sou perfeito, não sendo”. Pois esta Vida está em todo lugar e instante simultaneamente; de forma que Nela estas limitações de tempo e espaço não mais existem. E vós tereis verificado isto para vós mesmos: que em todo ato de Amor o tempo e o espaço desaparecem com a criação da Vida através do ato; como também ocorre com a própria personalidade. Pela terceira vez, então, num senso ainda mais sutil, “A palavra de Pecado é Restrição”.
Finalmente, no Caminho da Luz, este mesmo versículo é a chave da concepção Mal. Pois aqui Restrição consiste no fracasso em solucionar a Grande Equação, e depois, em preferir uma expressão ou fase do Universo a qualquer outra. Contra isto nós somos prevenidos no Livro da Lei pela Palavra de Nuit, dizendo: “nenhuma... e dois. Pois Eu estou dividida por amor ao amor, pela chance de união”, e portanto, “Se isto não for correto, se confundirdes as marcas do espaço, dizendo: Elas são uma, ou dizendo; Elas são muitas... então esperais os terríveis julgamentos...”
Agora então, pelo favor de Thoth, eu cheguei ao fim deste meu livro: e armai-vos portanto com as Quatro Armas: a Baqueta para a Liberdade, a Taça para Amor, a Espada para Vida, o Disco para Luz: e com estas executai toda maravilha pela Arte de Alta Magia, na Lei do Novo Aeon, cuja Palavra é Thelema.

Amor é a lei, amor sob vontade.

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