quarta-feira, 6 de abril de 2011

A Torre-de-Vigia Negra




Quem, em algum momento de sua vida, nunca experimentou a sensação estranha de absoluto espanto ao ser despertado pela aproximação repentina de uma luz brilhante através do limiar das cortinas do sono; esse sentimento intoxicante de maravilhamento, essa incapacidade irremediável de abrir os olhos cegos ante a chama ofuscante que varreu a noite em cantos e fissuras escuros do dormitório do sono?

Quem, novamente, não caminhou da luz do sol brilhante do meio-dia a alguma cripta sombria, e, tateando ao longo de suas paredes escuras, julgou tudo ali como sendo apenas o cadáver do dia envolto em uma mortalha de trevas sem estrelas?

No entanto, assim como os momentos se apuram com a visão se acostumando com o intruso deslumbrante; e como a rede ofuscante e cintilante de prata que ele jogou ao nosso redor se derrete como uma rede de neve ante o fogo desperto de nossos olhos, nós percebemos que a chama branca da perplexidade que há poucos momentos atrás nos envolveu como um manto de relâmpagos, é na verdade apenas uma luz fraca bruxuleante expirando irregularmente em um soquete de argila deformada. E da mesma forma na escuridão, conforme passamos às escuras ao longo dos arcos da abóbada, ou os recessos sem lâmpadas que, como sapos, se agacham aqui e ali na penumbra, primeiramente de modo turvo as molduras do teto e as cornijas das paredes se rastejam adiante; e então, conforme o crepúsculo se torna mais certo, eles torcem e se contorcem em arabescos de formas estranhas, em figuras fantásticas, e rostos contorcidos; que, à medida que avançamos, esvoaçam como morcegos nas profundezas de uma escuridão além mais profunda.

Fique! — e só por um momento corra de volta, e traga com você aquela luz fraca que nós deixamos balbuciando na prateleira da lareira do sono. Agora tudo desaparece uma vez mais, e do chão diante de nós sobressai-se no limbo da escuridão as rígidas paredes cinzentas de rocha, as arquitraves senis, as colunas encacheadas, e todo os capitólios esmigalhantes da Arte, onde os anos sentam desolados envoltos por uma mortalha, dormindo em sua poeira e mofo — uma memória assustadora de dias há muito esquecidos.

Ó terra dos sonhos de maravilha e mistério! como uma língua de ouro envolta em uma chama azul nós pairamos por um momento sobre o Bem da Vida; e então o vento-da-noite levanta, e sopra-nos às profundezas sem estrelas da sepultura. Somos como mosquitos que pairam nos raios do sol, e então a noite cai e nós nos vamos: e quem pode dizer para onde, e com que fim? À Cidade do Sono Eterno ou à Mansão da Música Regozijante?

Ó meus irmãos! venham comigo! sigam-me! Subamos a escada escura desta Torre do Silêncio, esta Torre-de-vigia da Noite; sobre cuja fronte negra nenhuma chama bruxuleante queima para orientar o viajante cansado através do lodo da vida e através das névoas da morte. Venham, sigam-me! Vamos tatear por estes passos senis, escorregadios com as lágrimas dos caídos, farpados com o sangue dos vencidos e o sal da agonia do fracasso. Vamos, venham! Não hesitem! Abandonem tudo! Vamos subir. No entanto, traga convosco duas coisas, a pedra e o aço — o fogo adormecido do Mistério, e a espada negra da Ciência; que possamos lançar uma faísca, e acender o farol de Esperança que paira acima de nós no braseiro do Desespero; de modo que uma grande luz possa brilhar através da escuridão, e guiar os passos fatigados do homem para aquele Templo que foi construído sem mãos, forjado sem ferro, ou ouro, ou prata, e no qual nenhum fogo queima; e cujos pilares são como colunas de luz, cuja cúpula é como uma coroa de esplendor posta entre as asas da Eternidade, e sobre cujo altar relampeja a eucaristia mística de Deus.

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