quarta-feira, 6 de abril de 2011

O Avarento

“DEUS”. Que tesouraria de riquezas está enterrada nessa palavra! que mina de pedras preciosas! — Ptah, Pai dos Princípios, ele que criou o Sol e a Lua; Nu, senhora azul e estrelada do Céu, senhora e mãe dos deuses; Ea, Senhor das Profundezas; Istar — “Ó Tu que estás posto no céu como um colar adornado com selenitas”; Brahma o dourado, Vishnu o sombrio e Shiva o carmesim, banhados em mares de sangue. Por toda parte Te encontramos, ó Tu único e terrível Eidolon, que como Aormuzd de uma vez só governou as planícies do Eufrates chamuscadas pelo sol, e como Odin as ondas geladas e os ventos agudos, em volta dos halls congelados do Norte.

Em toda parte! — em toda parte! E apesar disso Tu agora és Deus novamente, inominável para o eleito — ó Tu grande Pleroma inescrutável construído na Inexistência de nossa imaginação! — e para os pequeninos, as crianças que brincam com as unidades da existência, apenas uma boneca de um cúbito de altura com uma miríade de nomes, uma coisinha para se brincar — ou senão: um ancião, o Pai barbado, com cabelo tão branco quanto a lã, e os olhos como chamas de fogo; cuja voz é como o som de muitas águas, em cuja mão direita tremem as sete estrelas do Céu, e de cuja boca irradia uma espada flamejante de fogo. Ali Tu te sentarás contando as esferas do Espaço, e as almas dos homens: e nós trememos diante de Ti, adorando, glorificando, suplicando, implorando; para que por ventura Tu não nos atires novamente na fornalha da destruição, e não nos ponha entre o ouro e a prata de Teu tesouro.

É verdade, Tu tens sido o grande Avarento dos mundos, e os pratos da Balança de Tua tesouraria pesaram a quantia do Céu e do Inferno. Tu acumulastes em torno de Ti o saque dos anos, e a pilhagem do Tempo e do Espaço. Tudo é Teu, e nós não possuímos nem sequer o fôlego de nossas narinas, pois ele só é dado a nós sobre a usura de nossas vidas.

Ainda da contabilidade do Céu Tu nos dotaste com um espírito de grandeza, uma imaginação da vastidão do Ser. Tu nos deixastes fora de si, e contamos com Ti as hostes estreladas da noite, e desembaraçamos as tranças emaranhadas dos cometas nos domínios do Espaço. Caminhamos Contigo em Manre, e falamos Contigo no Éden, e ouvimos Tua voz de fora do meio do redemoinho. E às vezes Tu fostes um Pai para nós, uma alegria, forte como um grande gole de vinho antigo, e nós demos boas vindas a Ti!

Mas os Teus servos — aqueles egoístas, agiotas sacerdotais — Vede! como eles destruíram os corações dos homens, e concentraram o tesouro das Almas nas mãos de poucos, e aumentaram os cofres da Igreja. Como nos torturaram e arrancaram de nós os próprios emblemas da alegria, extinguindo nossos olhos com os ferros quentes da extorsão, até que cada quilo de carne humana estivesse como uma esponja sedenta embebida em um poço de sangue: e a vida se tornasse um inferno, e homens e mulheres cantassem, vestidos no san-benito pintado com chamas e demônios, para a aposta; para procurar no fogo o Deus de seus antepassados ​​— aquele juiz severo que com a espada na mão uma vez era acostumado a ler os nomes dos vivos do Livro da Vida, e exaltar os humildes sobre o trono dourado dos tiranos.

Mesmo nesses tempos de crucifixo, de crânio e de vela; nesses tempos de auto-da-fe e de in pace; nesses tempos quando a língua tagarelava loucura e o cérebro cambaleava em delírio, e os ossos eram partidos em pedaços e a carne era esmagada até a polpa, ainda havia na escuridão um encanto da verdade, como um pôr-do-sol grande e escarlate visto através das lembrança dos anos. A vida era um manto de horror, mas ainda era a vida! Vida! a vida na terrível e abominável majestade das trevas, até que a morte cortasse o sombrio fio vermelho com uma espada curva de fogo cruel. E o Amor, um êxtase selvagem, louco, de asa quebrada, esvoaçando diante das órbitas sem olhos do Mal, assim como as almas dos homens eram compradas e vendidas e trocadas, até que o Céu se tornasse uma ninharia dos ricos, e o Inferno um calabouço do devedor para o pobre. No entanto, entre esses ossos apodrecendo na masmorra, e os palácios imperiais da luxúria papal, pairava o espírito da vida, como uma chama dourada envolvida por uma nuvem de fumaça sobre o altar negro da decadência.

Ouve: “Você é um convertido...? Você está salvo? ... Você ama Jesus?” ... “Irmão, Deus pode salvá-lo. ... Jesus é amigo do pecador. ... Descanse sua cabeça em Jesus ... querido, querido Jesus!” Maldito seja até o trovão estremecer as estrelas! maldito seja até que essa blasfêmia seja amaldiçoada da face do céu! maldito seja até que o nome sibilante de Jesus, que se contorce como uma cobra em uma armadilha, seja expulso do reino da fé! Uma vez “Eloi, Eloi, Lamma Sabachthani” ecoava pela escuridão a partir da Cruz da Agonia; agora Jerry McAuley, esse homem de Deus, malvestido de farrapos baratos de Aflição, gesticulando em uma Capela de estanho, berra “Você ama Jesus?” e fala daquele filho místico Dele que expôs o sol e a lua, e todas as hostes do Céu, como se ele fosse primo de primeiro grau da Sra. Booth ou da própria tia Sally.

Uma vez o homem na terra mágica do mistério buscava o elixir e o bálsamo da vida; agora ele procura o “leite espiritual para os bebês americanos, colhido dos seios de ambos os Testamentos”. Uma vez o homem, em seu frenesi, embriagado com o vinho de Iacchus, clamaria para a lua a partir da cúpula destruída de algum templo de Zagraeus, “Evoe ho! Io Evoe!” Mas agora, ao invés disso, “Embora eu estivesse completamente repleto de bebida, eu sabia que a obra de Deus principiada em mim não seria desperdiçada!”

Assim o nome de Deus é arrotado em cerveja e blasfêmia bestial. Quem não preferiria ser um São Bessarion que passou quarenta dias e quarenta noites em um espinheiro, ou um São Francisco pegando piolhos de sua pele de carneiro e louvando a Deus pela honra e glória de vestir tais pérolas celestes em seu traje, do que se tornar um cavalheiro evangélico presunçoso e bêbado, caminhando até a Igreja para o querido Jesus em uma manhã de sábado, com o Livro de Oração, a Bíblia e o guarda-chuva, e uma moedinha de três centavos em sua luva?

Nenhum comentário:

Postar um comentário