domingo, 27 de fevereiro de 2011

O Sistema Mágico de Aleister Crowley

Aleister Crowley, mago e poeta inglês que viveu a transição do séc. XIX ao séc. XX, foi considerado pelo meio social de inspiração vitoriana em que residia como "o pior homem do mundo". Angariou este título devido a seus hábitos libertários e a sua apologia da livre expressão da vontade humana.

O sistema mágico de A. Crowley segue os passos de seu mentor. A sua filosofia prega o livre pensar, o livre agir com vias ao auto-conhecimento, possibilitando ao neófito a descoberta de sua Verdadeira Vontade, fito de sua existência, através de um evento que foi reconhecido por Crowley como o "Conhecimento e Conversação com o Sagrado Anjo Guardião".

Primou para que seu sistema não fosse confundido com a atmosfera de charlatanismo e ilusões milagrosas que povoavam o mundo da magia em geral. Para tal, convencionou chamar o seu sistema mágico de Magick, forma arcaica e inglesa da palavra magic.

Durante o texto o leitor poderá observar que respeitamos esta convenção, mencionando o referido termo várias vezes ao longo de nossa explanação.

A extensa obra escrita deixada por A. Crowley é uma tentativa do mago em expressar e explicar o conjunto de eventos mágico-místicos que permearam a sua própria história, buscando a perpetuação de um caminho que foi para ele a jóia mais preciosa de toda a face da terra.

O presente texto é uma pequena demonstração dos princípios mágico-místicos de seu sistema, na tentativa de levar ao conhecimento do público brasileiro um pouco da obra daquele que foi um dos mais fascinantes personagens de sua época. Bem-vindos, portanto, ao fascinante pensamento de Aleister Crowley!

Crowley define Magia como sendo "a Ciência e a Arte de causar Mudanças de acordo com a nossa Vontade".

Uma das expectativas de Crowley, expectativa esta implícita em seu sistema, era a de uma conciliação entre a magia e a ciência. Estava convicto de que os fenômenos observados na magia tinham como causa primeira determinadas energias passíveis de serem estudadas e compreendidas pelo método científico. Tal qual a energia elétrica que, apesar de invisível, pode ser observada pelas conseqüências de seu uso na produção de luz elétrica, movimentação de máquinas, etc.

A importância que Crowley dava ao método de investigação científica no campo das ciências herméticas era tal que, em sua grande obra "The Equinox", a frase que inicia cada um de seus 12 volumes é: " O Método da ciência- o objetivo da religião".

A sua definição de magia é a corroboração de seu pensamento ideológico, não só no ênfase que dá à importância da Vontade do magista, como também na associação da magia com a Ciência e a Arte.

Nos dicionários da nossa língua, o termo ciência é definido como o conjunto organizado de conhecimentos relativos a certa categoria de fatos ou fenômenos.

O principal fato ou fenômeno que a magia se propõe a estudar é o homem espiritual e as suas relações com o Universo que o cercam.

Nos mesmos dicionários, a Arte é definida como um conjunto de preceitos e regras que levam à perfeita execução de alguma coisa. Este conjunto de preceitos e regras nada mais é do que um método de trabalho, portanto, Arte e Método se eqüivalem.

A definição da magia como uma Arte deixa implícita a existência de um método que leva à perfeita execução desta ciência.

O método da magia é empírico, ou seja, baseado exclusivamente na experiência e na observação. Isto, por si só, já nos adverte da impossibilidade de estudar magia sem praticá-la, pois que os fenômenos são eminentemente práticos.

Magick é, portanto, o conhecimento organizado do homem e de suas relações com o Universo, através de determinado princípio prático que leva a mudanças conforme as nossas vontades.

Mas que princípio seria este?

Crowley afirma em seu postulado que "qualquer mudança requerida deve ser efetuada através da aplicação do tipo e grau de Força apropriados, da Maneira apropriada, através do Meio apropriado, para o Objeto apropriado".

Um princípio é uma lei de caráter geral que rege um conjunto de fenômenos verificados pela exatidão de suas conseqüências. O que Crowley afirma é que existe uma lei que rege os fenômenos mágicos e que esta lei possui 4 elementos essências, a saber, Força, Técnica, Meio e Objetivo, que devem ser empregados de maneira a se coordenarem com o objeto a ser alcançado, pois de outro modo não constituem uma unidade, um princípio. Sem o preenchimento destes requisitos qualquer empreendimento mágico tende a falhar. E é preciso deixarmos claro que em Magick qualquer ato intencional é um empreendimento mágico, seja ele dependente ou não de cerimônias reconhecidamente mágico-místicas.

Desta forma, segundo o sistema thelêmico, o sucesso de qualquer ação humana depende da análise criteriosa destes princípios.

O primeiro requisito do postulado é a Força.

A Força de um homem está na sua capacidade de agir e produzir um efeito e aquilo que faz com que o homem haja e produza um efeito nada mais é do que a sua Vontade.

Concluímos, portanto, que a Força de um homem é a sua própria Vontade.

O que se diz de um homem que sobrevive a uma grave doença? Se diz que ele teve vontade de viver; o que eqüivale a dizer que ele utilizou toda a sua força para sobreviver a uma situação.

Mas o sistema de Magia Thelêmica afirma que não basta ter força, ela deve ser também do tipo e grau apropriados para o objeto a ser conquistado. Por exemplo, não é conveniente usar a força física para obter um conhecimento intelectual. Neste exemplo, a Força não está adequada ao Objeto e com toda a certeza eu falharei em meu intento.

Mas como obter a força do tipo e grau apropriados?

Crowley afirma que a Força apropriada, o primeiro requisito do postulado acima, é obtida através do entendimento tanto qualitativo, quanto quantitativo das nossas condições.

Pois bem, o entendimento de uma condição envolve necessariamente a análise e identificação criteriosa de todas as partes em questão. Assim, num ato de Magick, as partes envolvidas são aquilo que possuo e aquilo que desejo possuir. Esta análise permite que se identifique a validade da proposta que se pretende empreender. A condição é, portanto, uma convenção da qual depende a validade de um ato. Esta é a razão pela qual Crowley afirma que para a obtenção deste primeiro requisito é necessário o entendimento qualitativo e quantitativo das condições.

Aquilo que possuo é a minha vontade e aquilo que desejo pode ser qualquer objeto em questão.

A análise qualitativa implica na identificação da minha vontade em empreender a ação, desde que, qualidade é tudo aquilo que identifica o objeto; a análise quantitativa implica em quantidade, ou seja, na identificação da intensidade de minha vontade em alcançar aquele objeto.

Assim, na análise qualitativa eu avalio todos os parâmetros que possam identificar os meus propósitos: de onde se origina a minha vontade?, o que significa?, qual o seu objetivo?, que necessidade minha ela tenta preencher? etc.; enquanto que na quantitativa eu avalio tanto a intensidade de minha vontade, quanto a quantidade de esforço que devo despender para alcançar o objeto de meu desejo, procurando avaliar se disponho da força suficiente para alcançá-lo.

A identificação destes parâmetros me permite trazer ao plano consciente a realidade de meus propósitos, afastando-me da ação instintiva e casual. A análise criteriosa das condições me permite saber se esta minha vontade se identifica com o propósito de minha existência, aquilo que Crowley chamava de Verdadeira Vontade, ou se é apenas um desejo de minha alma animal. E aqui, Crowley nos dá mais uma dica advinda de sua própria experiência prática, "todo ato que está em concordância com as nossas Verdadeiras Vontades tende ao sucesso".

Da mesma forma que sofro uma avaliação pessoal também submeto a esta mesma avaliação o objeto que desejo adquirir. Isto me permite compreender se o objeto está adequado à minha Verdadeira Vontade, bem como, perceber os requisitos necessários à sua obtenção.

O segundo requisito do princípio que rege os fenômenos diz respeito à Maneira apropriada, ou, melhor dizendo, à habilidade prática para direcionar corretamente as forças apropriadas à consecução.

Esta habilidade prática depende da compreensão e assimilação de um conjunto de regras, ou seja, depende da assimilação e compreensão da Arte Mágicka em si.
Crowley nos dá uma série de teoremas necessários para o desenvolvimento de nossa habilidade prática.

O primeiro diz que "...todo ser humano é um indivíduo independente com seu papel e direção próprios". Portanto, o reconhecimento do papel individual do magista, bem como, de sua direção no Universo são essenciais ao desenvolvimento da habilidade prática, à escolha do método de trabalho.

O segundo diz que "...qualquer pessoa que seja forçada para fora de seu próprio curso, quer através do não entendimento de si própria ou por meio de oposição externa, entra em conflito com a ordem do Universo e assim, sofre".

Se o método empreendido está criando obstáculos e trazendo sofrimentos ao magista é sinal de que ele está sendo jogado para fora de seu próprio curso, está em conflito com a ordem universal. É hora de repensar o método adotado.

Crowley afirma também que "um homem cujo desejo consciente está em choque com a Verdadeira Vontade está desperdiçando suas forças, não podendo influenciar seu ambiente eficientemente". Se não existe harmonia entre aquele meu desejo consciente e aquele outro inconsciente é impossível ao magista direcionar de maneira correta as forças necessárias para a sua consecução.

Uma vez instalado um conflito interno as nossas forças se dispersam, somos incapazes de focá-las num único ponto, além do que, podemos passar a sofrer a ação de outras forças ou vontades. O conflito interno nos torna vulneráveis.

Em Magick é essencial conhecer e assumir sua verdadeira natureza, pois é só quando a assumimos por inteiro que podemos realmente exercer nosso papel no universo, estabelecer nossa própria rota e, trabalhando em harmonia, evitar os obstáculos do caminho.

Existem ainda aquelas regras necessárias à habilidade prática que dizem respeito aquilo que nos rodeia, o próprio Universo. O método de trabalho depende da observação das condições que a natureza nos oferece.

No pensamento de Crowley a natureza é um fenômeno contínuo, apesar de nossa ignorância a respeito de como as coisas são conectadas.
Sendo o homem um elemento da própria natureza, isto significa que ele e a natureza são uma continuidade; não existe divisão. Somos um prolongamento do Universo e vice-versa.

Desta forma, podemos produzir modificações no ambiente à nossa volta através de modificações na nossa própria consciência; posso propagar as forças necessárias à consecução de um objetivo através da solução de continuidade que me une ao Universo.
Aqui vale lembrar do 30º caminho da Árvore da Vida que conecta o mundo mental com o plano astral, influenciando a partir daí a própria matéria.

Segundo Crowley, a ciência nos capacita a tirar vantagem da continuidade da natureza, pela aplicação empírica de certos princípios, cuja interação envolve diferentes ordens de idéias, conectadas entre si de uma maneira além de nossa atual compreensão.

A continuidade implica em que as diversas partes ou componentes do Todo se influenciem reciprocamente, ou seja, que haja uma interação entre todas as partes que constituem o Todo. Por exemplo: Um lápis é uma solução de continuidade. Suponhamos que a cabeça do lápis seja o ponto A e a outra extremidade o ponto B. Toda a vez que aplico uma força sobre A, influencio diretamente B, deslocando-o de sua posição. Se a força que apliquei em A é direcionada para baixo eu estarei alterando a posição de B para cima, caso contrário para baixo. Um outro exemplo seria o da pedra no lago: Toda a vez que jogo uma pedra em determinado ponto do lago, que é contínuo, o ato se repercute por toda a água do referido lago através da vibração de ondas, cujo tamanho será proporcional ao tamanho da pedra que utilizei.

Sendo homem e a natureza um fenômeno contínuo isto significa que qualquer força aplicada pelo homem ou sobre ele, modifica, proporcionalmente, uma parte do Universo.
Magick possibilita que tiremos vantagem desta continuidade pela aplicação empírica, ou seja, através da aplicação prática e experimental de determinados princípios (Força, Técnica, Meio, Objeto)que produzem fenômenos observáveis pela exatidão de suas conseqüências. É a lei de Causa e Efeito, conhece-se a causa pelo efeito que ela produz.

A interação destes efeitos com suas causas envolve diferentes ordens de idéias, todas conectadas entre si, que na nossa atual condição escapam de nossa compreensão. O que ocorre nesta interação de idéias é que a nossa consciência se amplia; o que eqüivale a dizer que Magick nos possibilita a tirar vantagem da continuidade do universo através da ampliação de nossas consciências.

Procuremos uma ilustração matemática que nos dê uma melhor compreensão desta interação dos efeitos com suas causas: Crowley cita que "a ciência nos capacita pela aplicação empírica de certos princípios...". O sentido matemático da palavra Aplicação se refere a uma operação que consiste em fazer corresponder a cada elemento a de um conjunto E, um elemento b de um conjunto F.

Em tal operação, b é a imagem de a, que é antecedente de b. Onde b é a conseqüência e a o fenômeno. Se b (a conseqüência) é a imagem de a (fenômeno), então eu posso conhecer a pela observação de b.

Deste modo, em Magick, podemos observar e conhecer o fenômeno mágico, a causa, através de sua conseqüência, o efeito por ela produzido que é passível de ser observado por nossos sentidos. Do mesmo modo que podemos conhecer as características individuais de uma pessoa pela observação de seus atos.

Crowley acredita que a intercessão entre o homem e o Universo é de tal forma que, qualquer idéia de limitação cria imediatamente obstáculos reais que impedem o livre prosseguir do indivíduo pensante. Se limitar, portanto, é obstruir o fluxo contínuo entre nós e a natureza. É impedir que um novo horizonte surja a cada manhã.

Crowley afirma que o homem pode, a qualquer momento, aprender a perceber e a utilizar vibrações de todos os tipos, concebíveis e inconcebíveis. Ele prossegue, dizendo que a questão da Magick é a questão de descobrir e empregar forças até agora desconhecidas na natureza. Sabemos que elas existem, continua ele, e não podemos duvidar de instrumentos mentais ou físicos capazes de nos colocar em contato com elas. A dúvida é, por si mesma, um obstáculo quase intransponível.

O homem, segundo a filosofia thelêmica, tem em sua composição diversas ordens de existência, ou seja, diversas categorias de energia que vão do mais sutil ao veículo mais grosseiro que é o próprio corpo físico. Estas diversas ordens de energia interagem entre si, de modo a que, qualquer alteração que venha a ocorrer nos veículos mais sutis altera significativamente os mais grosseiros. Cada nível de energia do homem tem a correspondência de um mesmo nível de energia na natureza. A conscientização e posterior compreensão a respeito destas energias nos capacita a lidar com elas com finalidades mágicas, produzindo, inclusive, mudanças a nível físico. Seria esta a chave da Medicina Universal?

Tudo o que o homem percebe é, de uma certa forma, parte dele mesmo, ou seja, é a essência de uma mesma energia que se manifesta em formas diferentes. Sendo assim, o homem pode e deve utilizar todas as energias no Universo para concretizar a sua Verdadeira Vontade. Porém, só podemos fazer uso daquilo que sabemos existir, daquilo que somos conscientes. Quanto mais a minha consciência se amplia, mais ele percebe e mais fatores podem ser utilizados para a realização desta Verdadeira Vontade.

Analisando o terceiro requisito do postulado, Crowley nos diz que "Toda a força no Universo é capaz de ser transformada em qualquer outro tipo de força, através do uso dos Meios Adequados."

Já vimos que o Universo é um fenômeno contínuo, uma única essência assumindo diversas formas. É, portanto, uma substância maleável. Sendo maleável, qualquer tipo de força que nele se encontre é passível de ser transformada em qualquer outra que nos seja necessária. O Universo é um suprimento inesgotável de qualquer tipo particular de força de que venhamos a precisar, informa Crowley.

Mas transformar algo que está fora de nosso universo individual é sem dúvida uma tarefa muito mais difícil do que alterar aquilo que se encontra dentro dos limites de minha própria existência. Portanto, a lei do menor esforço, inteligentemente, nos faz perceber que se tudo o que há em mim está lá fora, o que devo fazer é procurar alterar minha própria força para que ela se transforme em algo que, estando externo a mim, percebo ser necessário ao êxito do trabalho a que me proponho.

Neste exato momento entra em ação a famosa Lei de Newton: "Matéria atrai matéria na razão direta das massas e na razão inversa do quadrado da distância". Em outras palavras, se me igualo a determinada força eu a atraio e me torno um receptáculo para ela, o que, conseqüentemente, diminui a distância entre nós, provocando ainda um maior fluxo de atração.

Vejamos um exemplo para facilitar o nosso entendimento: Suponhamos que eu seja uma pessoa doce, sensual, voltada para o amor, ou seja, uma típica nativa de Vênus e, de repente, me veja às voltas com a necessidade de utilizar uma energia Marcial, guerreira, que não possuo por não ser de minha característica individual. Minha conduta será, portanto, a de transformar minha energia para atrair aquela de que preciso. Posso fazer isto por vários métodos: fórmulas ritualísticas, leituras de romances de guerra, lembranças de fatos que me deixaram com raiva, mudança de minha postura diante de obstáculos do dia-a-dia, etc. Enfim, começo a criar uma atmosfera que me permita modificar a energia que faz parte de minha constituição natural. Isto me permitirá a identificação com o tipo de força que preciso, abrindo as portas de seu arsenal no Universo, fazendo com que ela flua para mim. Obtenho então a força do tipo necessário para a consecução de meu trabalho.

Este tipo de transformação tem íntima relação com o processo de alteração dos níveis de consciência e modificações do estado de ser a que Crowley faz referência. No entanto, para sabermos aquilo que precisamos transformar em nós, bem como, o meio pelo qual a transformação deve ocorrer é necessário conhecer aquilo de que dispomos; ou seja, é necessário um conhecimento profundo da nossa própria natureza.

A magia thelêmica é muito mais do que uma série de fórmulas e feitiços; é antes de tudo um profundo processo de auto-conhecimento onde nada deve ser desprezado, onde se compreende que cada parte de nosso ser é um dispositivo necessário ao progresso.

O hipócrita rejeita fenômenos de sua própria natureza, tentando adaptá-los a condutas e ideais impostos por sociedade, religiões, etc. Rejeitando sua própria natureza inicia um conflito interno que, gerando confusão, o impede de obter uma imagem real de si mesmo e, conseqüentemente, do Universo que o rodeia.

Crowley afirma que "Todo indivíduo é essencialmente suficiente para si mesmo. Mas ele é insatisfatório para si mesmo até que estabeleça a sua relação direta com o Universo".

O indivíduo é suficiente para si mesmo porque contém em si todas a as energias do Universo, embora em estado de latência. O que faz com que estas energias possam sair do inconsciente para um estado consciente, passível de ser utilizado, é a relação direta que o homem estabelece com o Universo.

Usemos o estudo da Lógica para nos auxiliar nesta compreensão. O termo Relação, em Lógica, é definido como uma condição que liga dois ou mais objetos lógicos. Estas condições são a igualdade, diferença e equivalência.

Se sou incapaz de identificar entre mim e o Universo as condições acima, ou seja, se não consigo identificar o que está diferente, aquilo que é igual ou equivalente, estou impossibilitado de estabelecer aquilo que é conhecido na Lógica como Cálculo de Relações. Este Cálculo de Relações tem como função estabelecer as leis que regem as operações que permitem construir novas relações a partir de relações dadas. Ou seja, este Cálculo de Relações, no campo da magia, permite que eu estabeleça o método que irá fazer com que eu altere uma relação existente que não me é favorável, construindo uma nova relação, agora sim, a meu favor. Por esta razão Crowley ensina que o homem só se torna auto-suficiente quando estabelece sua relação com o Universo que o cerca; uma vez isto feito o indivíduo se capacita a produzir alterações que possam suprir suas próprias necessidades.

Aquele incapaz de estabelecer esta relação se assemelha ao homem que, ignorando as características de seu organismo físico, é incapaz de relacionar a queimação gástrica, no horário das refeições, com o estado de fome. Impotente diante de sua própria ignorância é incapaz de deduzir que a solução de seu problema está em apenas ingerir alimento. Inábil para estabelecer esta relação sofre em agonia até ver seu corpo físico sucumbir à inanição.

Do mesmo modo, o espírito que não adquire a sabedoria para estabelecer suas relações com aquilo que o cerca morre em tormenta, amaldiçoando o mundo que o viu nascer.

Compreendo a mim mesmo, conheço as minhas condições e, a partir daí, sou capaz de estabelecer regras que me levem à perfeita execução de qualquer coisa.

Praticar a magia thelêmica é agir com consciência e, desde que todo ato intencional é um ato de Magick, esta consciência deve estar presente em cada segundo de nossas existências. Ser telemita, portanto, é assumir a responsabilidade pela elaboração de sua própria órbita.

Magick nos traz a oportunidade de estabelecer relações saudáveis com o Universo e, a partir destas relações, suprir as necessidades individuais. No momento em que eu supro as minhas necessidades deixo de projetar estas mesmas necessidades no outro; projetar uma necessidade que é minha nas costas do outro além de injusto pode ser extremamente frustrante desde que o outro também deve satisfazer suas próprias necessidades.

A partir do momento em que estou capacitado a me suprir, crio relações sociais mais saudáveis, mais harmoniosas, surge uma sociedade mais justa, surge a sociedade que povoava os sonhos de Crowley, aquela que ele ousou chamar de Sociedade Thelêmica.

Desperta criança coroada!

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