Introdução da Presente Edição
Faze o que tu queres deverá ser o todo da Lei.
História de Thelema e biografias de Thelemitas são
os dois mais importantes métodos de se demonstrar o que dá certo e o que
pode gerar grandes problemas, inclusive na esfera pessoal. O Thelemita
deve ser sempre ele mesmo, sem copiar outros ou se agir confirme
opiniões alheias, ele deve se deixar manifestar pelos quatro raios da
Lei da Vontade e seguir o fluxo de sua vida sempre naturalmente. Mas
isso não quer dizer que ele não possa olhar para trás, na história, e
não repetir erros estúpidos e algumas vezes infantis. Não é preciso
criticar em demasia, é preciso entrar em contato com a história e tirar o
melhor dela, aplicando – quando conveniente – em sua vida e, se
possível, não aplicando o que já foi comprovado ser sem nexo.
Marcelo Ramos Motta: Um Enigma é um texto fundamental a todo
aspirante à Thelema e obrigatório a todo Thelemita, já que ele aborda
importantes e fundamentais questões sobre inúmeros pontos, não apenas do
protagonista, mas também da complexidade e seriedade da carreira
Místico/Mágica dentro da Era de Hórus. Marcelo Motta, dono de uma
personalidade antagônica, foi também o maior pilar Thelêmico Brasileiro e
mesmo cheio de erros, seus acertos demonstram sua capacidade incrível
de se entregar completamente à Obra, tendo assumido de forma grandiosa e
com muita força e raça, o fito de difundir a Lei de Thelema. Marcelo
Motta foi certamente um Grande Thelemita e sem sombra de dúvidas para
todos nós, ele deve ser considerado como um Santo (dentro da visão Gnóstica que pode ser encontrada na Missa Gnóstica).
A presente edição foi revisada e sua formatação foi alterada de forma
a melhorar sua leitura. Esta não se entende como versão final, com o
passar do tempo é possível que novas revisões sejam realizadas.
Um ponto importante é que o leitor não deve se focar na organização X
ou Y, erros, todos cometem, o mais importante é corrigi-los e seguir em
frente nesta Luz. A questão nunca deve ser qual é – por exemplo – a
O.T.O. verdadeira, mas sim, quais são os ramos que realmente trabalham
em prol do crescimento desse processo e da humanidade em geral.
Por fim, é importante dizer que há menções a alguns documentos que
ainda não estão disponíveis, estamos buscando por eles e tão logo que
possível eles serão adicionados a esta edição.
Uma ótima leitura!
Amor é a lei, amor sob vontade.
Hoor-paar-kraat
Introdução
Quem ouve falar de Marcelo Ramos Motta, um meticuloso e extremamente
exigente Instrutor da A∴A∴, e que indubitavelmente foi o iniciador de
Thelema no Brasil, não consegue imaginar o quanto a trajetória deste
homem influiu no pensamento thelêmico mundial. Como legítimo membro da
A∴A∴, Marcelo Ramos Motta, treinou vários estudantes no Brasil, entre os
quais se encontrava Frater T.[1], que permaneceu sob a Baqueta de Frater E.
durante treze anos consecutivos (1961/1974), seguindo posteriormente
seu próprio caminho, mas sempre procurando manter-se dentro da linha
desenvolvida por de seu Instrutor, honrando, assim, sua Linhagem
Sucessória. A partir de 1974, Marcelo Motta começou a mostrar uma
peculiar transformação em seu caráter.
Mesmo os seus mais íntimos colaboradores não escaparam das funestas
consequências desta mudança. Não demorou muito para surgirem atritos e
cismas no grupo formado.
Ao que parece, o grande erro de Marcelo Motta, foi tomar sobre si próprio todos os Cargos Oficiais da Ordem (Præmonstrator, Cancellarius, Imperator),
alijando continuamente candidatos capacitados para os mesmos. O acumulo
de responsabilidade e a natural pressão que um Iniciado recebe sobre
sua pessoa, eclodiu naquela mudança radical.
O processo da bizarra transformação crescia a cada dia e,
aproximadamente em 1980, o transformou num homem amargurado, irascível, e
altamente rude.
Muitos de seus discípulos retiraram-se de um ativo envolvimento com ele; outros se retiraram ao silêncio[2],
enquanto outros perduraram na vã esperança de uma mudança do quadro.
Tudo inútil. Viriam posteriormente seguir os passos dos anteriores.
Nesta época, a polêmica figura de Marcelo Motta, somente conseguia
angariar inadequados candidatos à iniciação na O.T.O.[3]. Indivíduos visivelmente inclinados a uma personalidade fanática: um reflexo daquela que agora o líder apresentava.
Tal fanatismo (ou paranoia) chegou a tal ponto que, na Inglaterra, um
desses discípulos tramou explodir a livraria de antigos e conhecidos
editores britânicos (Routledge & Kegan), simplesmente
porque Marcelo Motta estaria aborrecido com eles (Este estudante,
erradamente, quase destruiu outra livraria. Preso, veio a falecer na
prisão.).
Mas nem a O.T.O., nem a A∴A∴, e nem o Ocultismo em geral, podem ser
responsabilizados por estes exageros. Nem mesmo o próprio Marcelo Motta
pode ser apresentado como culpado. É da natureza humana o erro, o
desequilíbrio, etc.; principalmente nesta fase tumultuada da Evolução
Humana. A existência do erro, do engano, ou de se deixar levar pela
ilusão de um inflamado ego, somente ser evitada com extrema
autovigilância.
Não há iniciado que não corra o risco de ser envolvido desta maneira
por sua parte negativa, advinda do veículo grosseiro ainda não
equilibrado. Porém, como dito por alguns: São ossos do ofício. Em
nenhuma Ordem ou Sistema realmente eficiente, estará o Estudante
protegido de tal perigo intrínseco à própria natureza da Iniciação, a
Real Iniciação mexe com a estrutura física, mental e espiritual do
Candidato. Ela atua diretamente nos Chakras. Por isto, todo trabalho
mágico-místico contém em si um grande perigo, o perigo do desequilíbrio.[4] A linha que separa o Iniciado do Louco é bastante tênue.
Deve parecer paradoxal de como um legítimo membro da Grande Ordem,
possa cair numa situação deste tipo. Existem duas explicações razoáveis
do problema, mas não absolutas ou definitivas.
Basta que se estude os pontos cruciais da Carreira Iniciática,
particularmente a Passagem pelo Véu de Paroketh, e aquele do Juramento
do Abismo.
Qualquer homem ou mulher (mesmo um profano, que por qualquer motivo o
venha conhecer O Juramento do Abismo), tem o sagrado direito de tomar o
Juramento, a qualquer momento de sua vida, o qual é o mais sério de
toda carreira iniciática.
O Estudante julgando-se pronto para este Juramento pode tentar aquela
travessia, sem que na realidade esteja o bastante maduro para tal[5].
É uma ilusão que toma de assalto o ego. Isto acontece e continuará a
acontecer a todos que, em um momento de suas vidas iniciáticas, perdem a
autocrítica. O fenômeno pode ser ativado por alguma ilusória visão ou
evento místico-mágico que venha massagear o ego do Estudante, dando-lhe a
falsa impressão de ter atingido certo elevado grau dentro da
Hierarquia, isto é, ele supervaloriza a visão e o evento que podem ser
tão somente a projeção de um turbilhão astral provocado por suas
práticas intensas. Desta maneira assume inadvertidamente o Juramento[6].
Não podemos condena-lo por tal equívoco. Enquanto que por um lado a
assunção do Juramento revela um ato de coragem, por outro, e na maioria
das ocasiões, revela um ato de temeridade presunçosa. O problema se
torna por demais complexo para ser aqui explorado a contento. Mas, como
escrito em Liber Libræ: Não te apresses a condenar os
outros; como saber se tu no lugar deles resistirias às tentações? E
mesmo que tu fosse mais forte que eles, porque desprezar àqueles que são
mais fracos que tu? Este ensinamento deveria ser observado e
sempre mantido na mente do Estudante desejoso em seguir correta e
equilibradamente a Senda da Iniciação.[7]
O grande problema contido no Juramento do Abismo está explícito em Liber Samech …se
restar inabsorvido um só tomo que seja do falso ego, aquele tomo
mancharia a virgindade do Verdadeiro Ente, e profanaria o Juramento;
então aquele tomo seria inflamado de tal forma pela proximidade do Anjo
que venceria o resto da mente, tiranizando-a, e se tornaria um déspota
louco. Não podemos afirmar que um tal desastre ocorreu com Marcelo Motta. Mas também não podemos descartar a hipótese.
A Segunda explicação seria que Marcelo Motta, desde criança, fosse
portador de qualquer distúrbio mental. Talvez provocado pela dominadora
influência de sua mãe. Ele mesmo admite isto ao declarar em Chamando Os Filhos Do Sol: Eu
continuava masturbando-me periodicamente, e sentia que intuitivamente
que minha presença no trabalho de loja (da FRA) era, em tais condições,
indesejável. E mais: … eu era mágicamente dominado por minha
mãe …. que era donzela anos após a puberdade; que tinha receio das
mulheres; que me entregava à masturbação; e que, enfim, meu
desenvolvimento emocional, devido ao laço mágico com minha mãe (chamado
pelos psicólogos profanos de Complexo de Édipo), estava retardado vários
anos. Para Iniciados do Santuário da Gnose, isto se torna bastante claro. Para outros, deveriam consultar Magick Without Tears, no Capítulo Amor de Mãe.
Mas existe outra hipótese, a qual não discutirei aqui. Ela já foi, e por várias vezes, ventilada em outros trabalhos.
Marcelo Ramos Motta: Um Enigma
A Primeira parte deste trabalho é constituída de rápidos “flashs” da
vida de Marcelo Ramos Motta. Na Segunda parte respondemos a questões
elaboradas por vários interessados – pessoas que não o conheceram
pessoalmente, mas que, por um motivo ou outro, sentem- se atraídas pelo
trabalho de Marcelo Motta.
A Terceira parte consta de um relato de Euclydes Lacerda de Almeida,
do período (1962 a 1975) em que conviveu com Marcelo Motta, na qualidade
de seu discípulo e, de certa forma, amigo pessoal.
Na Quarta parte, também sob a visão de Euclydes Lacerda, teremos um
histórico dos acontecimentos compreendidos entre 1975 a 1987.
É um trabalho dirigido no sentido de estudar as “relações” entre
Marcelo Motta (e outros) e a oligarquia thelêmica, iniciada por volta de
1987, vistas através de um homem que participou de todos os eventos
ocorridos no Brasil.
Embora em choques doutrinários, as duas facções antagônicas parecem
defender os mesmos interesses, isto é, os interesses do Sistema
Thelêmico visto como um bloco, do qual as duas facções seriam
simplesmente derivações, numa expressão de grupos de poder regional.
Espera-se também possibilitar uma maior precisão nas constatações feitas
sobre este período, ainda muito gerais e insuficientes, ajudando a dar
um pequeno passo na elaboração constante e sempre renovável da realidade
histórica.
A época estudada é vista como um período durante o qual existia no
Brasil um movimento não muito bem definido e quase não conhecido pela
maioria dos ocultistas deste país. Um movimento em fase de gestação. Um
embrião que deveria crescer, criando as necessárias condições para que o
Sistema Thelêmico se apresentasse de uma maneira pura e não distorcida,
como infelizmente veio a acontecer para prejuízo de todos.
Interregno
Em 1976, Marcelo Motta publicou no Brasil o seu “Equinócio dos Deuses”,
Vol. I nº 1. Em “Nota Final” do referido livro (pag. 154), aparece uma
informação a respeito de Euclydes Lacerda de Almeida (Documento nos
arquivos da S.N.Æ.). Assim, iniciaram as atribulações dele até hoje. E
nenhuma voz levantou-se em sua defesa. Jamais, em tempo algum, Marcelo
Motta e seus seguidores lhe deram o sagrado direito de defesa contra as
acusações ali escritas.
Agora, passados 11 anos, é o momento da resposta.
Tornou-se crença geral que Euclydes foi expulso da O.T.O., isto é, do Ramo criado por Marcelo Motta.
Todavia, para surpresa de muitos na “Nota Final” inserida em “O Equinócio dos Deuses”
jamais esteve escrita a palavra expulso, mas sim suspenso. E mais à
frente é dito que “ante a suspensão, Euclydes, obcecado pelo ego pediu
demissão da Ordem” (que Ordem?). Nós desafiamos qualquer pessoa a
mostrar publicamente a prova deste pedido de demissão, seja da O.T.O.,
seja da A∴ A∴, ou seja mesmo da S.N.Æ. – simplesmente porque não houve
este pedido de demissão. E jamais existiu.
Mesmo não sendo um estudioso e profundo conhecedor da língua
Portuguesa, dá para saber que suspensão não é o mesmo que expulsão.
Suspensão significa uma punição disciplinar, constituindo-se em
afastamento temporário do infrator assim penalizado. Por esta razão o
próprio Marcelo afirma, em sua carta, acima citada, que Euclydes estaria
‘banido’ da O.T.O. por cinco anos.
Por expulsão compreende-se o afastamento compulsório e definitivo,
sem chance de retorno, causado por grave delito. Por outro lado,
demitir-se, traduz um ato livre e de espontânea vontade. Classificar-se
este ato como indício de obsessão egoica é, segundo pensamos, ir
superficial e demasiadamente longe numa análise psicológica e mesmo
mágica – sobretudo quando não houve tal pedido. De qualquer maneira,
pelo deduzido do texto, Euclydes jamais foi expulso da Ordem, mas sim
suspenso. É o que está escrito em “Nota Final”, página 154, de “O Equinócio dos Deuses”, Vol. I nº 1.
Nesta mesma “Nota Final”, várias questões permanecem “no ar”.
Primeira: Qual o motivo da suspensão? Muito vagamente é ali declarado
ter sido por “má conduta”, sem determinar que tipo de má conduta foi
esta. Segundo: É revelado crua e cinicamente que, após pedir demissão,
Euclydes, procurou ligar-se à Kenneth Grant (gravem bem esta afirmativa.
Será de grande importância para compreensão de toda trama armada pelo
Sr. Marcelo Motta), “cujo endereço lhe fora dado (a Euclydes,
naturalmente – Documento nos arquivos da S.N.Æ.) como parte de um
ordálio”. Isto foi escrito em 1976. Terceiro: A Notificação termina com
grave acusação à Kenneth Grant, e que Euclydes se utilizara “documentos
nem de sua propriedade e nem de sua autoria”. Isto, em bom Português
quer dizer simplesmente que Euclydes plagiou escritos de Marcelo Motta. A
determinação de quais documentos foram estes, como, e para que, foram
plagiados não é dito.
No devido tempo, tanto esta questão, quanto as anteriores serão
devidamente analisadas e esclarecidas, e todos poderão decidir da
falsidade ou não das afirmativas.
Observando-se detidamente a “Nota Final”, encontramos outras
inacuridades. A mais gritante sendo aquela, induzida no texto, da
existência de uma O.T.O. devidamente formada e funcionando no Brasil.
Marcelo Motta induz esta inverdade aos leitores. A verdade sendo outra:
Na época (1975), não existia uma O.T.O. funcionando no Brasil, nem mesmo
o suposto ramo criado posteriormente por Marcelo, e muito menos aquela
que surgiria muito depois sob o nome de S.O.T.O. – sigla pela qual a
“organização mar ana[8]”
tornou-se conhecida após os eventos desenvolvidos nos Estados Unidos da
América (Corte Californiana). Esta sigla, S.O.T.O., constituiu um
artifício usado na Corte da Califórnia para distinguir a O.T.O.
McMurtryana daquela de Marcelo Motta. Quanto a esta sigla fazemos em
seguida uma série de observações sob exclusivo caráter mágico.
Torna-se evidente a qualquer iniciado, mesmo nos graus mais humildes, que a “mudança” do nome
da Ordem, e consequentemente de sua sigla, altera profundamente o
sentido oculto do Nome Original. A sigla O.T.O. possui um significado
secreto para quem sabe ler nas entrelinhas, e não será qualquer
iniciado, mesmo aqueles de graus elevados, que poderá mudá-lo ao impulso
de seus interesses particulares. Torna-se evidente que qualquer
acréscimo ou supressão de uma simples letra altera significativamente o
valor numérico (cabalístico, por assim dizer) e o sentido mágico
correspondente. O mais conhecido exemplo desta chave cabalística,
encontramos no Antigo Testamento, quando “Deus” muda o nome de ABRM (Pai
de Elevação) para ABRHM (Pai de Multidão) e de SRI (Nobilidade) para
SRH (Princesa) – veja-se Gênesis 17. 5 -15. Foi um grande erro mágico de
Marcelo Motta ter aceitado a “mudança” do nome de sua Organização.
Assim, ele aceitou magicamente a pseudo autenticidade da O.T.O.
McMurtryana. Em outra parte deste livro daremos mais alguns
esclarecimentos quanto ao assunto.
Ante o exposto no capítulo anterior, poderíamos dar por encerrado a análise quanto a “Notificação” contida em “Equinócio dos Deuses”. A conclusão sendo que Euclydes jamais foi expulso da O.T.O., mas sim suspenso, que é bem diferente.
Entretanto, vimos que nem mesmo suspenso poderia ele ser, pois é
impossível alguém ser suspenso, ou expulso, ou mesmo demitir-se de uma
organização inexistente. Este simples e claro fato derruba a
“Notificação” em “Nota Final” do, assim chamado, Equinócio dos Deuses – Vol. I nº 1.
Porém, devemos ir mais adiante em busca de mais provas das inverdades contidas em nota final.
Urge uma resposta ampla e clara. Afinal foram longos anos, durante os
quais, uma mentira foi oferecida ao público, como se verdade fosse.
Foram longos anos de acusações e difamações as mais descabidas,
assacadas não somente contra Euclydes, mas também contra muitos outros,
entre vivos e mortos. Nós comemos a amarga fruta da árvore plantada por
Marcelo Motta. Chegou a hora dos que a regaram engolirem o bagaço
caroço. Que se cuide aquele que tiver garganta estreita… Isto é dirigido
a todos aqueles, que conhecedores da verdade, a mantiveram escondida.
Sejam eles, agora, membros de quaisquer Ramos da O.T.O., ou de outras
organizações surgidas no mundo, e se dizendo Thelêmicas.
Constitui um ato de Justiça, não de vingança, uma ampla e definitiva
resposta às acusações lançadas contra nós, reais iniciadores da O.T.O.
no Brasil. Urge uma satisfação a todos os Irmãos e Irmãs. É direito
deles, e nosso, que todos saibam exatamente o ocorrido, e o que ocorre
com a O.T.O. no Brasil. Necessitamos ir fundo e desenterrar os reais
motivos das “expulsões sacramentadas” aqui em nossa terra. Devemos (e
isto deveria ter sido feito há muito tempo) analisar o assunto com toda
seriedade e atenção que merece, nada permitindo passar em branco.
Retirar as mínimas dúvidas, as quais ainda possam permanecer nas mentes e
corações de todos os interessados em Thelema em geral e na O.T.O. em
particular – mesmo que em certos momentos desta análise tenhamos que
expor nossas fraquezas e erros.
Infelizmente para os Membros da S.O.T.O., e para membros de outras
tantas organizações, ditas Thelêmicas, existe uma vasta documentação
mostrando a realidade dos fatos, dos ardis, das inverdades e das
profanações que vêm sendo perpetuadas ao longo desses anos.
Perdidos em uma megalomania monstruosa, membros de várias O.T.Os. não
consideraram o fato de que nós, e outros mais, pudéssemos nos erguer do
charco ao qual fomos lançados e, nos limpando, surgirmos como a Phœnix
da lenda. Também servirá de aviso àqueles, que futuramente, tentarem
outro tipo de trama contra Reais Thelemitas. É necessário que todos
compreendam até onde vai a irresponsabilidade e o atrevimento daqueles,
que se dizendo Frati Superiores, O.H.Os., Califas, etc., tentam
ludibriar a todos quantos procuram uma Verdadeira Ordem Iniciática.
Considerem, agora, o dito em “Nota Final”: que ao “pedir demissão da Ordem” (de qual Ordem?), Euclydes “procurou ligação com Kenneth Grant, cujo endereço… etc., etc.”.
Euclydes não procurou ligar-se à Kenneth Grant (não era necessário:
ele já se ligara ao inglês através Marcelo Motta, quando este, em carta
datada de 10 de dezembro de 1971, diz textualmente: “O Rei Mundial (ou
Cabeça Externa) da O.T.O. chama-se Kenneth Grant e seu endereço é…” Em
1973, ao conferir a Patente de Grão Mestre dos Três Primeiros Graus da
Ordem no Brasil, Marcelo confirma o dito anterior e, neste mesmo ano (19
de maio) reafirma categoricamente o “status” do inglês: “Eu reconheci a
autoridade do Sr. Grant”.
A “estória” do ordálio é uma mentira deslavada. Uma forma de justificar a “suspensão” de Euclydes da Ordem.
Aqui surge uma questão importante: Qual o motivo desta obsessão de
Marcelo ver-se livre de Euclydes (e de outros, futuramente?). A resposta
tornar-se-á evidente no transcorrer das páginas seguintes.
Observe-se também que a carta de 1971 dirige-se a Euclydes Lacerda, não a Frater Zaratustra.
Euclydes era, na época, um simples interessado em Thelema e na O.T.O.. O
que vem a ser isto? É bastante simples: Você não pode impor um ordálio
sobre alguém que, sequer, assinou Juramento. Isto é, nenhum profano, que
não tenha feito o formal pedido de ingresso na Ordem (em qualquer
ordem), e que não tenha assinado o Juramento, pode ser posto em prova.
Esta era a posição de Euclydes em 1971. Ele, como qualquer outro
cidadão, estava tão somente trocando correspondência com Marcelo Motta.
E, como este último havia declarado, em 1964, não possuir Patente (ou
permissão) para trabalhar com a O.T.O., evidentemente enviou seu
correspondente à Kenneth Grant.
Agora, se por outro lado, Marcelo Motta, sabia que Kenneth Grant não era
o Cabeça Externa, e que havia sido expulso da Ordem em 1955, então,
Marcelo Motta cometeu uma grande blasfêmia contra a Ordem e manteve esta
blasfêmia durante todo tempo até 1975, coisa que preferimos não
acreditar. Mas caso isto seja afirmativo – que ele sabia da situação do
inglês perante a Ordem – demonstrou uma monstruosa falta de ética e
moral iniciática.
As inacuridades daquele homem não ficaram somente nisto. Verifiquem que a carta, datada de 1975, dirige-se ao Frater T., não ao Frater Z.. Isto é importante porque Frater T. nada tinha a ver com a O.T.O., ou com a S.N.Æ., Frater T. era um Irmão da A∴ A∴ e, como tal, completamente alheio ao Trabalho da outra Ordem.
Outra interessante falha de Marcelo Motta está em que ele, na página 153 da “Nota Final” (O Equinócio dos Deuses) declara que “é responsável pelo trabalho da O.T.O. no Brasil, com patente de Saturnus Xº”.
Mas que Patente? Não afirmara ele mesmo que tal Patente jamais lhe
chegou às mãos? Se ele a tinha em seu poder, então porque afirmou ao
contrário? Por que ele jamais a apresentou???
Nesta mesma página (Nota Final) ele confirma que nos Estados Unidos da América “Sr. Grady McMurtry é Chefe de Loja e recebeu o IXº O.T.O. diretamente de Baphomet XIº, tendo sido confirmado por Saturnus Xº. E que também Sra. Helen Smith…”.
Está mais do que claro que isto foi escrito em 1976, antes de Marcelo
Motta se indispor com estas pessoas. Tão logo aconteceu o rompimento
entre elas, imediatamente ele ordenou suprimir as páginas do livro onde
apareciam estas afirmativas que, no mínimo, dariam respaldo aos seus,
antes aliados, agora inimigos. E, por um desses “acasos” da vida, a
página 153 é a outra face da folha contendo a página 154, onde se
noticiava a “suspensão” de Euclydes. Conclusão: nas edições mais
recentes de “O Equinócio dos Deuses” a tão falada “expulsão”
desapareceu juntamente com as informações da expulsão de Kenneth Grant e
suspensão (1963) do Rei Suíço, Joseph Metzger.
Se leitores tiverem a oportunidade de adquirir “The Equinox” Vol. V nº 4 (editado por Marcelo Motta nos Estados Unidos da América em 1981) leiam o Editorial. Ali encontrarão novamente o nome de Euclydes Lacerda:
“Euclydes de Almeida: once a neophyte under Marcelo Motta. Charged
with registering the O.T.O. in Brasil, tried to register it under his
own name. Expelled from the O.T.O. got in touch with Kenneth Grant and
tried to set himself up as representing the same. A court order was
issued: did not try to appeal. Cut contact with the A∴ A∴”.
Jamais, em tempo algum, Marcelo Motta, foi tão infeliz em suas
declarações. Nada do ali escrito corresponde à verdade. É pena que um
livro (693 páginas) tão bem elaborado, tenha sido usado para tamanhas
inverdades.
- Jamais, em tempo algum, Euclydes tentou contato com Kenneth Grant.
Ele já estava em contato com o mesmo através o próprio Marcelo Motta.
- Euclydes jamais tentou registrar a O.T.O. em seu nome. Ele registrou
a S.N.Æ. da qual é o Supervisor Geral até os dias de hoje (Documento
nos arquivos da S.N.Æ.). Se ele quisesse registrar a O.T.O., isto teria
sido fácil. Marcelo é quem a registrou.
- Euclydes jamais tentou colocar-se como representante de Kenneth
Grant. Ele o representou, no Brasil, durante 15 anos (Documento nos
arquivos da S.N.Æ.).
- Jamais Euclydes pediu desligamento da A∴ A∴. Tanto isto é verdade
que recentemente, em contato com Mr. Starr, este confirmou que o nome de
Euclydes constava na Chancelaria da Ordem.Neste Editorial, finalmente,
aparece a palavra “expulsão” (expelled) da O.T.O.. Isto porque,
na época, Marcelo Motta havia registrado a Ordem no Brasil. Agora sim,
ele podia expulsar quem quisesse. Entretanto, assim o fazendo caiu em
outro paradoxo. Como expulsar Euclydes de S.O.T.O. se Euclydes jamais
pertencera a uma tal organização?
Marcelo Motta
Algumas Apreciações
Como legítimo membro da A∴A∴, Marcelo Motta treinou vários estudantes. Frater Aster
estava entre estes até o ano de 1975. Mas mesmo os iniciados naquela
Ordem não escaparam da ira injustificada de Marcelo, e não demorou muito
a serem também acusados de falhas em ordálios só existentes na mente do
Instrutor. Uma mente antes brilhante, agora atormentada. Seu maior erro
no que toca a A∴A∴ foi tentar acumular todos os Cargos Oficiais da
Ordem (Præmonstrator, Cancellarius, Imperator), aliando continuam ente candidatos capacitados para os mesmos.
O processo da bizarra transformação de Marcelo Motta crescia e,
aproximadamente em 1980, tornou-se um homem perigoso. Muitos de seus
estudantes retiraram-se de um ativo envolvimento com ele; outros se
retiraram ao silêncio, enquanto outros perduraram na vã esperança de uma
mudança do quadro. Tudo inútil: viriam depois seguir os passos dos
anteriores.
Nesta época a polêmica figura dele somente conseguia angariar
inadequados candidatos à iniciação tanto na O.T.O. quanto na A∴A∴.
Indivíduos visivelmente inclinados a uma personalidade fanática. Desvio
este chegando a tal ponto que, na Inglaterra, um deles tramou explodir a
livraria de antigos e conhecidos editores britânicos (Routledge & Kegan),
simplesmente porque Marcelo estava “aborrecido” com eles. (Este
estudante, erradamente, quase destruiu outra livraria. Preso, veio a
falecer pouco tempo depois).
Todo este caótico quadro representa uma deplorável parte da herança
que Marcelo Motta deixou para vários grupos (atualmente se digladiando)
formados a partir da auto proclamada “única e verdadeira O.T.O.”, e que
vem recrudescendo após a morte de seu idealizador, liderados por
incapazes que somente conheceram Marcelo Motta em seus piores dias.
Mas nem a O.T.O. nem a Grande Ordem, nem o Ocultismo em geral podem
ser responsabilizados por esses desvios. Nem mesmo Motta pode ser
apresentado como culpado. É da natureza humana o erro. Principalmente
nesta fase de sua evolução a existência do engano, ou de se deixar levar
pela ilusão de um inflamado ego, é difícil de ser evitada.
Não há iniciado que não corra tal risco. Em nenhuma ordem ou Sistema
ele estará protegido de tal perigo intrínseco à natureza da Iniciação.
Pode parecer paradoxal ao leitor como Marcelo Motta, um legítimo membro
da A∴A∴, tenha chegado a uma situação deste tipo.
Existem duas explicações plausíveis.
Basta que se estude os pontos cruciais da Carreira Iniciática, particularmente o Juramento do Abismo.
Qualquer homem ou mulher tem o direito sagrado de tomar este Juramento, o qual é o mais sério de toda carreira iniciática.
O Estudante, julgando-se pronto, pode tentar aquela travessia sem que
na realidade esteja no “ponto” devido. É uma ilusão que toma de assalto
o ego. Isto acontece e continuará a acontecer a todos que, em um
momento de suas vidas iniciáticas, perdem a noção de perspectiva. O
fenômeno é ativado por alguma “visão” ou “evento” místico-mágico que dá
ao estudante a falsa impressão de ter atingido certo grau elevado dentro
da Hierarquia. Assim, ele assume inadvertidamente o Juramento. Não se
pode condená-lo por tal equívoco. Enquanto que por um lado a assunção do
Juramento do Abismo revela um ato de coragem, por outro, em muitas
ocasiões, revela um ato de temeridade. O problema torna-se por demais
complexo para ser aqui explorado a contento. Mas, como escrito em Liber Librœ:
“Não te apresses a condenar os outros; como saber se tu no lugar
deles resistirias às tentações? E mesmo que fosse tu mais forte que
eles, porque desprezar àqueles que são mais fracos que ti?”
Este ensinamento deve ser observado à risca por quem deseja seguir corretamente a Senda da Iniciação.
O grande problema contido no Juramento do Abismo está explícito em Liber Samech:
“…se restar inabsorvido um só átomo que seja do falso ego, aquele
átomo mancharia a virgindade do Verdadeiro Ente, e profanaria o
Juramento; então aquele átomo seria inflamado de tal forma pela
proximidade do Anjo que venceria o resto da mente, tiranizando-a, e se
tornaria um déspota louco.”
Não se pode perder de vista a correta divulgação de Thelema,
encobrindo o que se passou de fato no Brasil. Mesmo que a causa desta
desvirtuação tenha tido sua origem em Marcelo Motta, ou em Frater A.,
ou em qualquer outro. Esconder a verdade dos fatos como realmente
aconteceram seria injusto com aqueles que tanto deram de si mesmos nos
primeiros anos, ou mesmo atualmente, em prol de um conhecimento mais
amplo da natureza do homem, e do seu lugar no contexto universal.
Discordar dos outros Sistemas de Consecução Espiritual e das pessoas
que os adotam é uma coisa bem diferente de injuria-las e condena-las por
este motivo. Verdadeiros Thelemitas jamais tomariam uma tal posição… a
não ser que estejam loucos ou iludidos pelo ego inflamado. Thelemitas
lutam pela liberdade de cada um seguir o caminho que sua Vontade
comandar. Mas percebam que esta Vontade se escreve com “V” maiúsculo.
Lembrem-se do Lema Thelêmico. Mas nós também nos reservamos o direito de
combater qualquer tipo de velhacaria, engano, malícia, etc., pois não
são coisas que uma Verdadeira Vontade deseja.
Frater A. tem sido questionado, particularmente por estes
tardios discípulos de Marcelo Motta transformado, quanto à autenticidade
da S.N.Æ. como uma genuína representante do Soberano Santuário da
Gnosis. Sem dúvida é um direito deles assim questionarem. Contudo,
baseiam-se eles na ideia de ter sido Frater A. o responsável
direto e único do fracasso de Motta em sua tentativa frustrada em
concretizar sua ambição pessoal de tonar-se O.H.O. da Ordem.
Agora perguntamos: como poderia Frater A. prejudica-lo se Frater A. pertencia a um grau muitíssimo mais baixo daquele de Marcelo Motta?
Finalizando, é nosso dever alertar aos menos esclarecidos da
existência de dois tipos de Abismo. E é muito fácil confundir-se um com o
outro.
O que vocês pensam ser o Véu de Paroketh?
Existe uma “passagem” entre as quatro Sephiroth inferiores (Malkuth,
Hod, Netzach e Yesod) chamada “Véu de Paroketh” (O Véu do Templo). Esse
hiato “separa” estas quatro Sephiroth de Tiphareth (Beleza). Este Véu
também representa um “Abismo”. Só que em escala ‘inferior’. Muitos
iniciados confundiram este “Abismo” com o Abismo de Daath. Nossa Irmã Helen conta no número desses.
A Sociedade Novo Æon e a Loja Nuit
Após a separação de Marcelo Motta e Euclydes, este último resolveu,
juntamente com sua mulher e os membros que permaneceram fiéis à seu
lado, registrar a Sociedade Novo Æon. Em seguida
dedicaram-se à elaboração de um trabalho de divulgação de Thelema. Mas,
um trabalho bastante distanciado do sistema hiper ortodoxo do antigo
instrutor.
No contexto deste novo sistema – e consequentemente a O.T.O. – não se
estruturou em uma hierarquia opressiva e de poder do “macho”. Isso
seria um retrocesso. E aqueles que, de uma forma ou de outra, procurando
apresentar a ordem com uma estrutura de poder organizado e obcecado com
o controle total e absoluto do corpo, mente e alma de seus membros
(sejam masculinos ou femininos), estão conduzindo a Ordem, e a si
mesmos, para o caminho oposto à Thelema. A O.T.O. nada tem a ver com
este monstro exibido pelos líderes da Loja Nuit, e nem com a não menos
thelêmica política adotada por outros Ramos espalhados pelo mundo.
Porque se a O.T.O. enveredar por tal caminho estará francamente
retornando ao mesmo processo que deu origem ao nazismo.
A O.T.O. é (ou deveria ser, em todos os seus Ramos) um Centro
Iniciático, no qual a Liberdade de expressão considera-se sagrada, e sua
principal função é despertar nos indivíduos a consciência de que eles
são divinos. Thelema é afirmação da Vida, do Amor, da Terra Mãe e da
Liberdade – não da Morte.
Assim, os esforços do grupo recém – formado dirigiu-se no sentido de apresentar uma Ordem dentro dos parâmetros de Liber OZ, mas com extremo cuidado de não cair nos exageros daqueles que mal compreendem os ditames ali descritos. Liber Oz é um livro que deve ser entendido e compreendido “iniciaticamente”, não profanamente como o tem sido até hoje.
Num curto período apareceram colaboradores entusiasmados pela alegria
de trabalharem em prol de Thelema, isto é, em prol da Vontade,
Liberdade e Amor – que são as Três Pilastras Sustentando a Vida.
Agora, estavam apoiados numa organização bem fundamentada e, sob o
ponto de vista material, legalmente registrada no país. Uma organização
genuinamente brasileira. O Lema deste grupo, somado àquele emanado
diretamente de Thelema, era o aparente paradoxo do Conde Fênix: “A autoridade absoluta do Estado deve ser a função da liberdade absoluta de cada vontade individual”. Ouçam aqueles que tiverem ouvidos de ouvir…
Num passo seguinte contataram Kenneth Grant que, afinal, era o único membro da O.T.O. conhecido por eles além da Marcelo Motta .
Uma longa carta foi escrita ao inglês relatando, com mínimos
detalhes, as últimas ocorrências no Brasil. Em 26 de junho de 1975 (Documento nos arquivos da S.N.Æ.) veio a resposta. A carta de Kenneth Grant, entre outras coisas, trazia comentários sobre as acusações de Marcelo Motta em “Equinócio dos Deuses” – uma cópia lhe fora enviada.
Depois de um período relativamente curto de constante troca de
correspondência com a Inglaterra, acordaram em formalizar um elo entre a
S.N.Æ. e o Supremo Santuário da Gnosis para a Inglaterra. Na
concretização desta aliança, Kenneth Grant, enviou Patente de Membro
Honorário do VIIº para Euclydes Lacerda de Almeida (Documento nos arquivos da S.N.Æ.)
e publicou em “MEZLA” (Órgão Oficial de Divulgação da O.T.O. Inglesa)
Vol. I Nº. 11 – 1977 – Notificação da união entre as duas organizações (Documento nos arquivos da S.N.Æ.).
O grupo inicial era constituído por dezoito indivíduos, entre os
quais três maçons de grau elevado e dois membros do grupo anterior, que
decidiram ficar com Euclydes.
Ajustados os pontos necessários, Kenneth Grant, colocou Euclydes diretamente sob a hierarquia iniciática de Soror Tanith
(J. R. Ayers), líder da O.T.O. Inglesa nos Estados Unidos da América. É
com muito carinho e respeito que Euclydes fala sobre esta Instrutora.
Durante dez anos seguidos, Euclydes, se correspondeu com Soror Tanith, absorvendo todo ensino daquela Iniciada.
Em 1987 recebeu Notificação de que aquela Instrutora havia se afastado do Trabalho Externo da Ordem. Substituiu-a Soror Maiat.
Sob a direção desta nova orientadora, e após suplantar um dificílimo e
doloroso ordálio – sobre a qual não lhe agrada comentar, atingiu o IXº
O.T.O. – muito embora, Marcelo Motta, já lhe houvera transmitido o
Segredo central da Ordem via ensinos orais e “Emblemas e Maneira de Usar”, Liber que constitui um dos mais importantes manuscritos da O.T.O. relacionados com o IX Grau.
Ainda em 1987 recebeu de Kenneth Grant, com aprovação do Supremo
Santuário, permissão para uso do Lamen da Ordem. Porém, jamais o usou em
conexão com a S.N.Æ., para a qual foi elaborado um Lamen próprio (Documento nos arquivos da S.N.Æ.).
Anteriormente a esses eventos, recebera uma carta deveras intrigante e
surpreendente vinda de Oséas de Almeida, um dos que ficaram ao lado de
Marcelo Motta durante o cisma. Marcelo e Oséas haviam iniciado um núcleo
da O.T.O. na Cidade de São Paulo. Oséas assumira a cargo de Mestre de
Loja, supervisionado por Marcelo Motta.
Nesta primeira carta, Oséas pedia ajuda, pura e simplesmente. Sondava
a possibilidade de aliar-se a Euclydes em evidente confronto à Marcelo
Motta (Documento nos arquivos da S.N.Æ.).
Euclydes respondeu-lhe não estar interessado. Nada tinha a ver com o
grupo de São Paulo. Não alimentava qualquer sentimento de desforra.
Entretanto, a união dos dois grupos, isto é, a S.N.Æ. e a F.A.A.O.T.O.
(nome dado à organização de São Paulo) era inviável por razões óbvias.
Numa segunda carta, datada de 24 de julho de 1977, Oséas resume os
desagradáveis atritos entre ele e o Supervisor Geral. O texto desta
carta será mais eloquente do que mil palavras nossas (vide
documentação).
Pacientemente, Euclydes explicou a Oséas, mais uma vez, da
inviabilidade desta união: nada tinha a ver com o sistema desenvolvido
por Marcelo Motta na divulgação de Thelema no Brasil – um sistema
altamente questionável, inadequado, agressivo, com tendências claramente
nazistas – impossível de se seguido por qualquer pessoa equilibrada.
Lamentava muito, mas nada podia fazer para ajudar Oséas.
Mais tarde, Euclydes, soube do processo aberto por Marcelo contra
Oséas. Neste processo sobressaía o problema de “direitos autorais” sobre
o Nome O.T.O.. Depois deste incidente, Euclydes, nunca mais teve
qualquer contato com Oséas, ou com qualquer outro membro da F.A.A.O.T.O.
Recentemente (1997), por intermédio do Sr. Antônio Walter Sena Júnior
(Toninho Buda), soube do falecimento de Oséas. Muito antes destas
ocorrências (1976) Marcelo Motta reunira em Ribeirão Preto (SP), e à
revelia de Oséas, um outro grupo. Com esses novos auxiliares e o
afastando Oséas, finalmente fundou uma Loja em 1979, sob o nome de Loja
Nuit, a qual, infelizmente, tornou-se bastante conhecida nos meios
thelêmicos pelas atitudes intransigentes, agressivas e não educadas de
seus componentes.
“A Loja Nuit continua… A loja é composta por viciados,
desocupados, e todo tipo de jovem que na liberdade (em termos) que lhes
dão saem por aí, aprontando tudo… Só lamento que minha cidade, ainda
abrigue esta escória. O processo de perda com McMurtry, e outros
documentos, o hábil Supervisor levou consigo. Apagou todas as pistas. E
aqui e ali, seus discípulos espionam e perseguem a todos que citarem um
dos nomes de um de nós expulsos”.
Estas são as palavras do Sr. Marcos Lagamba (Frater Kephra), o homem que ajudou e financiou a fundação da Loja Nuit em Ribeirão Preto. (Documento nos arquivos da S.N.Æ., carta datada de 12 de abril de 1988, dirigida a Euclydes).
Referências identicamente péssimas obtivemos de várias outras pessoas
interessadas em Thelema. Segundo estas, as cartas respostas à seus
pedidos de maiores detalhes sobre a Loja ou sobre Thelema eram
verdadeiros amontoados de asneiras, agressividade, etc.. Estas cartas
jamais vinham assinadas. Sempre acusavam os solicitantes de “agentes” da
CIA, FBI, Vaticano e, pasmem, de Euclydes Lacerda, como se este fosse
capaz de manter uma agência de inteligência.
Toda esta situação causava bastante tristeza em Euclydes. Seu antigo
Instrutor tornara-se um homem sem qualquer tipo de equilíbrio. Perigoso,
no dizer de alguns. Ele tentava defender Marcelo, mas as evidências
eram por demais claras. Ao que lhe parecia, Marcelo, caíra sob domínio
de alguma entidade maligna, talvez, quem sabe, por Sammael (O Falso
Acusador), a Qlipha de Hod, ou por Ogiel (Arbitrariedade) a Qlipha de
Chokmah .
Todas as notícias que lhe chegavam a respeito de seu Instrutor eram do mesmo teor. Essa política incompreensível da Loja Nuit afugentava interessados em Thelema em geral e na O.T.O. em particular, ao invés de atraí-los.
Mais tarde verificou um fato interessante: sem quaisquer exceções
todos aqueles, que ligados à Marcelo, ocuparam o cargo de Mestre de
Loja, foram execrados e expulsos da “ordem” pelos mesmos motivos, a
começar por Frater Kephra, fundador e financiador da Loja Nuit. Frater Saladin, da mesma forma, vindo a morrer de desgosto pouco tempo depois de sua expulsão. Frater Libra,
também expulso sob as mais vis acusações. E assim por diante. O mesmo
ocorrendo nos Estados Unidos da América e na Inglaterra, onde haviam
outras Lojas ligadas à Marcelo.
Em 1988 (12 de abril), Euclydes, soube da morte de Marcelo Motta. A
priori não acreditou na notícia. Solicitou informações ao Sr. Alceu.
Este lhe enviou cópia xerox do aviso oficial da Sociedade Ordo Templi Orientis Internacional.
Surpreendeu-lhe o detalhe de que o aviso vinha dos Estados Unidos da
América. (Box 18318 Washington, D.C. 20036 USA) e era assinado por um
tal de Daniel B. Stone (Documento nos arquivos da S.N.Æ.).
Intrigado, pediu ao Sr. Eduardo Lemos (um de seus correspondentes)
que escrevesse ao tal “fiduciário”. Recebeu resposta em 05 de julho de
1988. Escreveu uma segunda carta. A resposta veio em 08 de agosto de
1988. E mais uma em 1991, quando solicitado informações a respeito da Loja Nuit no Brasil e a Fundação Parzival XIº
na Austrália. Através esta terceira missiva tomou conhecimento que os
grupos formados por Marcelo, tanto nos USA quanto no Brasil haviam se
dividido. Como podemos ver, as lutas pelo poder continuavam em todos os
Ramos da O.T.O..
Porém devemos agora retornar há alguns anos atrás. Mais precisamente 1978.
Neste ano, Euclydes, foi residir na Cidade de Linhares (Estado do
Espírito Santo), para acompanhar a construção de um terminal marítimo na
região. Ali permaneceu até 1985, retornando ao Rio de Janeiro. Esta
fase comporta fatos muito importantes, porque durante ela afastou-se de
qualquer atividade na S.N.Æ. Os componentes do grupo inicial tomaram
cada qual seu próprio caminho, e a S.N.Æ. entrou em fase de dormência.
Foi nesta época que Euclydes atingiu o mais importante trance de suas
práticas mágicas e místicas no currículo da A∴A∴, com exceção daquele
ocorrido em 1973. O resultado deste transe foi o nascimento de dois
livros: “Meu Verdadeiro Nome” e a “Deusa Negra” (Ed. Bhavani).
De retorno ao Rio de Janeiro, ainda trabalhou até 1985, quando se
aposentou. Agora tinha todo seu tempo disponível para dedicar-se
inteiramente ao trabalho de divulgação de Thelema. Só necessitava
reerguer a S.N.Æ.. O que foi feito com auxílio do Sr. Carlos Raposo; o
mais dedicado companheiro e irmão de todos os outros.
O tempo passou. Certo dia foi informado pelo Sr. Lassue que Marcelo Motta havia estado em sua livraria (Livraria Lassue), e que parecia, segundo aquele livreiro, estar mal de saúde.
Falando com o Sr. Geraldo dos Santos (Frater Lancelot) a
respeito, este confirmou a notícia. Marcelo ao retornar ao Brasil após
os incidentes nos Estados Unidos da América, adoecera.
Sinceramente preocupado com o estado de saúde de seu ex-instrutor,
ele prontificou-se ir até Ribeirão Preto no intuito de ajudar Marcelo
naquilo que fosse necessário. Geraldo alertou-o que poderia ser mal
recebido pelo pessoal da Loja Nuit que, praticamente, odiavam a Euclydes.
“Isto não importa” – foi sua resposta. “O importante era rever seu antigo instrutor e ajudá-lo naquela crise.”.
Em Ribeirão Preto foram recebidos por Frater Libra, o qual
informou ser impossível contatar Marcelo. Ele havia viajado, etc..
Percebendo mentiras e desculpas esfarrapadas nas palavras do homem,
Euclydes, decidiu tomar uma atitude mágica para testar o nível
iniciático do tal Frater Libra.
Ele havia levado consigo suas Patentes do VIIº e IXº da O.T.O.
Inglesa. E numa característica voz de comando ordenou peremptoriamente
àquele Frater que tirasse cópias xerox dos documentos e as
entregasse a Marcelo. O homem que se dizia Mestre de Loja aceitou o
comando sem pestanejar. Então, Euclydes, compreendeu que à sua frente
não se encontrava iniciado algum, mas sim um escravo. Olhou
significativamente para Frater Lancelot e recebendo de volta as
Patentes originais dali se retirou, voltando no primeiro ônibus para o
Rio. Nada tinha a fazer naquele antro de pestilência e escravidão.
Continuou seu trabalho, agora auxiliado por vários outros
interessados. Procedeu algumas iniciações utilizando-se de rituais por
ele elaborados. Dividiu responsabilidades com Frater B. e transmitiu-lhe o Segredo do IXº.
Existe grande curiosidade em torno deste “segredo”. Mas saibam todos
que ele é tão simples como uma conta de somar. Custa a acreditar, quando
o descobrimos, que seja assim. Na própria cerimônia da Missa Católica
está ele contido. Nela está velado o Mistério que pouquíssimos conhecem.
Mesmo pelos padres. Sequer as pessoas compreendem que o Mistério da
Missa, do Real Segredo dos Antigos e Aceitos Maçons, dos Templários, e
dos verdadeiros Rosa- Cruzes, é um e o mesmo. Este Mistério da Missa,
dos Templários, e dos Reais Neo-Cristãos, jaz na Comunhão com Deus cujo
Fogo simbólico a Missa descreve em seu drama. As declarações e
explicações que a Igreja Romana oferece, no concernente a essência do
Mistério da Missa são intencionalmente incorretas, pois as autoridades
eclesiásticas no Vaticano sabem a real natureza dela e seu verdadeiro
significado. Os padres de níveis mais baixos, dentro da hierarquia do
Vaticano, são entretanto, por razões oficiais, deixados completamente no
escuro com respeito à esta real natureza. Mas aqueles que tiverem olhos
de ver, compreenderão o misterioso Segredo Central da O.T.O. que é,
como já dito, o mesmo dos Maçons, dos Rosa-Cruzes e dos Templários.
Primeira Parte
O Encontro com Thelema
Marcelo Ramos Motta
Em 26 de agosto de 1987, morria, na Cidade de Teresópolis, Estado do
Rio de Janeiro, aos 53 anos de idade, Marcelo Ramos Motta, mais
conhecido como Frater Parzival XIº. Seu falecimento[9] foi “festejado” por discípulos, ex-discípulos e inimigos… cada qual a sua maneira.
Quem foi Marcelo Ramos Motta? Por que este homem tornou-se tão
polêmico nos círculos do mundo ocultista em geral e do mundo thelêmico
em particular? Por que foi tão comentado, odiado, amado e, acima de
tudo, temido?
Tentaremos responder todas estas questões dentro da mais imparcial
visão possível. Mas fique prevenido o leitor de que nada é tão difícil
como falar deste homem, e muito menos dizer de suas consecuções
místicas, mágicas e de suas metas…
Marcelo Motta nasceu em 27 de junho de 1931, na Cidade do Rio de Janeiro.
Seu interesse pelo ocultismo começou cedo. Aos 11 anos de idade já
estudara os livros de Eliphas Levi, Papus, Blavatsky, Edward
Bulwer-Lynton, Patanjali, Paracelso e as obras de Arnold Krumm- Heller,
por quem alimentava grande admiração. Por isso, sua atenção voltava-se,
constantemente, para os misteriosos “Rosacruzes”, na pesquisa dos quais
se dedicou profundamente.
Mais tarde, entrou em contato com os livros de Max Heindel, R.S.
Clymer e, eventualmente, com a organização chamada AMORC, em relação a
qual, diga-se de passagem, desenvolveu verdadeira aversão[10].
Acalentava a esperança de ser admitido numa escola iniciática, nos moldes daquela descrita por Arnold Krumm-Heller na novela “Rosa-Cruz”, e por Bulwer-Lynton, em “Zanoni”.
Ao mesmo tempo desenvolvia marcante aversão ao cristianismo católico
romano, que ele definia como “a própria personificação da negação da
vontade de viver”, pois quando Marcelo Motta vislumbrou o real
significado do cristianismo romano no mundo, o espírito do “anticristo”
manifestou-se com surpreendente força no decorrer de toda sua vida e
obra[11]. Sua “Carta a um Maçom” tornou-se clássica neste sentido e deveria ser estudada por todos iniciantes ao Sistema Thelêmico e, naturalmente, por maçons.
Naquela época, segundo suas palavras, percebera que os
“conhecimentos” contidos nas obras esotéricas (as mais sérias) que
estudara, escondiam algo muito mais profundo do que normalmente se
acredita existir. E na procura deste conhecimento “oculto” por detrás do
Ocultismo, transformou-se num foco de força de vontade quase
sobre-humano. Dia a dia, durante sua juventude, Marcelo Motta,
concentrara toda sua energia, inteligência e poder de meditação na
procura deste conhecimento “Rosacruciano”. A procura o levou aos mais
altos graus da Grande Ordem.
Ingressando no Colégio Militar do Rio de Janeiro[12],
desenvolveu seu intelecto, adquiriu disciplina e um grande amor pelo
Brasil. Por esta época revelava grande interesse pela Astrologia, Tarô e
assuntos afins. Por isto sendo foco de muitas discussões entre seus
colegas de colégio e professores. Suas discussões com o professor de
Filosofia, M.H., foram comentadas por vários anos entre os alunos do
C.M..
Uma miopia crescente impediu seu ingresso na Escola de Aeronáutica.
Isto o fez desistir da carreira militar, mesmo nas outras armas, o que
causou-lhe grande desgosto.[13]
Aos treze anos de idade dedicou-se espontaneamente ao Serviço da
Humanidade. Pelo decorrer de sua vida temos que considerar que o voto
foi aceito pelos Senhores do Karma.
Completando 17 anos de idade, soube, por intermédio de sua mãe, da
existência da FRA, uma Ordem de alto nível maçônico fundada por Arnold
Krumm-Heller.
Iniciou-se na FRA em 19 de agosto de 1948.[14]
Após frequentar a FRA por algum tempo, e rapidamente galgar os três
graus da Ordem, Marcelo, afastou-se dos trabalhos em Loja. Ao completar
20 anos de idade, seus atritos familiares cresciam assustadoramente[15].
Ele lutava contra a dominação de sua mãe, que se opunha à sua vontade
violentamente. Atingindo um ponto cruciante, resolveu deixar o Brasil
indo para a Europa e de lá para os Estados Unidos da América (1952) onde
terminaria seus estudos da língua inglesa em uma faculdade norte
americana.
Nesta viagem levava consigo, a pedido do Comendador da FRA Brasileira, a missão de intermediar entre este e Parzival Krumm-Heller (filho de Arnold Krumm-Heller), substituto legal do falecido Krumm-Heller na FRA.[16]
Na Europa (Portugal), ele, pela primeira vez toma conhecimento de Thelema, através o livro “The Great Beast”,
uma parcial biografia de Aleister Crowley escrita por J. Symonds.
Lembra-se, então, que no Primeiro Grau da FRA o “Faze o que tu queres há
de ser tudo da Lei” fazia parte do Ritual de Iniciação. Isto muito o
intriga, pois na FRA jamais ouvira falar de Crowley ou mesmo do Mestre Therion.
Mas ao mesmo tempo, ao ler o livro, desperta dúvidas quanto as
condições iniciáticas de Crowley que, à primeira vista, lhe parecera ser
um satanista da pior espécie.
Encontrando-se com Parzival Krumm-Heller, seguindo sua missão de
Embaixador da FRA Brasileira, indaga sobre o tal de Aleister Crowley.
Parzival, mui gentilmente, lhe fornece os necessários e básicos
conhecimentos a respeito do assunto, modificando inteiramente o
pensamento priorístico e apressado de Marcelo Motta sobre Crowley. Foi
nesta ocasião que Parzival lhe mostra uma carta da “Cabeça Externa da
O.T.O.”, dirigida a Arnold Krumm- Heller, avisando-o que Clymer, a quem o
Dr. Arnold Krumm-Heller esta a se ligando na época da carta, era
instrumento de forças as mais sinistras. Naquele tempo, Marcelo Motta,
sequer sabia o que significava O.T.O..
Para melhor entendimento do leitor quanto ao assunto, abrimos aqui um parêntesis, para rápida explicação:
(Segundo a versão do líder da FRA Brasileira, o Dr. Krumm- Heller, antes de morrer, tentara unir a FRA e a “Rosacrucian Fraternity in America”[17],
cujo líder era o então R. S. Clymer. Mas a primeira providência de
Parzival Krumm-Heller, ao assumir a liderança da FRA, foi ordenar o
desligamento de sua Ordem daquela de Clymer. E uma carta neste sentido
fora enviada ao Líder da FRA Brasileira. Este, considerou a carta de
Parzival Krumm-Heller demasiada autoritária e peremptória. Com isto
ficou estabelecido o rompimento entre Parzival Krumm-Heller e o
Comendador da FRA no Brasil.)
Agora que observamos os fatos “de longe”, vemos como “a mão do
destino”, ou aquela dos “Mestres Secretos”, tecem as vias levando o
Estudante ao encontro de suas reais aspirações. Não fosse a solicitação
do líder da FRA Brasileira, Marcelo Motta jamais teria contatado o
Sistema Thelêmico. Pelo menos na época.
Parsival Krumm-Heller, após ouvir a mensagem que Marcelo lhe trazia
do líder da FRA no Brasil, deu seu ponto de vista sobre o assunto:
Segundo ele, Clymer (o “pivot” de todo problema) entrara em contato
com Arnold Krumm-Heller quando este já estava doente, envelhecido e
desgostoso, abatido pelas perseguições políticas, tanto dos nazistas
quanto, posteriormente, dos aliados ao fim da Segunda Guerra Mundial.
Foi nesta época que Clymer tentara então o Dr. Arnold Krumm-Heller com
aquela isca eternamente apetitosa para profanos e iniciados de graus
mais baixos: a ideia da unificação de todas as ordens iniciáticas sob
uma só ordem poderosa[18].
Infelizmente, Arnold Krumm-Heller caíra no engodo. Por isto, o líder da
FRA no Brasil recebera instruções para ligar-se a Clymer. Nesta época
Parzival Krumm-Heller encontrava-se no Egito, conduzindo pesquisas
pessoais sobre certas fórmulas mágicas.
Não muito mais tarde, o próprio Arnoldo Krumm-Heller admitiu que os propósitos de Clymer não eram os que ele pensara.[19] Foi Parzival Krumm-Heller quem formou o elo entre Marcelo Motta e Karl Germer (Frater Saturnus), o então O.H.O. da O.T.O., e sucessor de Crowley na A∴A∴.[20]
Nos Estados Unidos da América, contatou Karl Germer, tornando-se discípulo deste. Germer viria a falecer em 1962[21],
mesmo ano em que conheci Marcelo Motta e tornei-me discípulo dele.
Quando de seu contato com Thelema, foi-lhe dada a escolha de filiar-se à
A∴A∴ ou à O.T.O. . Marcelo, sem hesitar, escolheu a A∴A∴.
Um de seus primeiros atos ao retornar ao Brasil em 1954 foi solicitar
(pessoalmente) ao líder da FRA Brasileira que voltasse às boas com
Parzival Krumm-Heller. Mas o “Comendador” não aceitou as ponderações do
jovem iniciado, e as ordens vindas do Líder Mundial da FRA foram
ignoradas. O resultado desta relutância está hoje estampado na situação
de FRA no Brasil…
Decepcionado, Marcelo Motta, retorna aos Estados Unidos da América
para terminar seus estudos e práticas iniciáticas sob instruções de Karl
Germer.
Voltando definitivamente para o Brasil, Marcelo Motta, providencia a impressão de “Liber Aleph”,
um dos mais importantes e profundos livros de Crowley. O esforço
pessoal de Marcelo nesta realização reforçou seus elos com a Grande
Ordem nos Planos Internos. Após isto, publica “Chamando os Filhos do Sol”, iniciando a Corrente Thelêmica no Brasil.[22]
Desde de 1962 a 1987 (ano em que passou para o próximo estágio),
dedicou inteiramente sua vida à divulgação e ao estabelecimento de uma
linhagem thelêmica no Brasil, vinda diretamente de Crowley e Germer.
Eventualmente, tentou também estabelecer uma Loja da O.T.O. em terras
brasileiras. Infelizmente, para todos nós, não teve sucesso neste último
fito – muitos obstáculos se levantaram e Marcelo, muito embora tenha
lutado contra todos eles, acabou falecendo sem consegui-lo de maneira
definitiva. Através muitos de seus discípulos, viemos saber que ele
previra sua própria morte, lamentando-se que necessitava de viver ainda
mais uns três anos para realizar seu intuito.
Como legítimo membro da A∴A∴, Marcelo Motta (Frater E.) treinou vários estudantes, tanto no Brasil quanto nos EEUU. Um tal de Frater A. encontrava-se entre estes até o ano de 1975, sendo o que mais esteve próximo de Marcelo Motta.
Como dito anteriormente, não é fácil escrever-se sobre a vida de
Marcelo Motta, principalmente no que se refere à sua carreira iniciática
e ao período compreendido entre 1975 a 1987, ano em que morreu. Marcelo
Motta tornava-se, assustadoramente, uma personalidade contraditória e
difícil de conviver.
Porém, uma coisa é certa – e ninguém pode contestar – ele passou toda
sua existência numa ardorosa luta em direção à Grande Obra; em busca da
mais perfeita divulgação de Thelema e no estabelecimento de uma ordem,
sociedade ou fraternidade (não importa o nome) baseada no mais puro
senso thelêmico, muito embora seus inimigos, e outros que o criticam
duramente neste afã, o façam por puro despeito ou por temor às suas
inflamadas palavras atacando o erro em que estão atolados.
Entretanto, com o passar dos anos, verificamos, pelos recentes
eventos envolvendo o Ocultismo em geral e Thelema em particular, o
quanto ele estava certo em seus incisivos pronunciamentos.
Não estamos defendendo Marcelo Motta em seus momentos de
desequilíbrio ou nos paranoicos arroubos de sua personalidade, talvez já
minada pelo desgosto ou por alguma enfermidade em desenvolvimento, mas
sim em seus ensinamentos, e seus exemplos pessoais. E também em suas
reprovações e ataques a uma divulgação thelêmica cada vez mais se
afastando daquela originalmente oferecida ao mundo pelo incontestável
gênio de Aleister Crowley e pela firmeza de Karl Germer que, à seu
tempo, recusava-se a “iniciar” novos membros na O.T.O., precisamente
porque não via as qualidades necessárias para isto nos candidatos que se
apresentavam. Como sempre, devemos lembrar, “quantidade não traduz
qualidade” e nem é sinal de Evolução. Tomemos, outra vez a Igreja Romana
e a Maçonaria Osiriana como exemplos.
Por toda esta luta, Marcelo Motta, se transformou, para muitos, num
símbolo de integridade thelêmica, de coerência com os ditames de Liber AL vel Legis e Liber OZ.
Venerado por muitos, odiado por outros tantos e temido pela quase
maioria, sua figura tornou-se uma lenda aqui no Brasil e em outras
partes do mundo. Mas se prestarmos a devida atenção em sua vida, veremos
uma prova de que é possível viver-se Thelema integralmente, defender a
Tradição e a Autoridade do Sistema, e não se entregar covardemente aos
sofismas e às maliciosas e sinistras e “vantajosas” ofertas da Loja
Negra.
Marcelo Motta foi, sem dúvida, um dos maiores baluartes de Thelema em
nosso tempo. Quaisquer que tenham sido seus erros, eles não ofuscam sua
devoção à Obra. Mas justamente por ter ele sido um Real Iniciado não
podemos, em sã consciência, querer saber os verdadeiros motivos se
ocultando por detrás de seus atos. Especialmente em relação sua posição
na A∴A∴, para o qual a compreensão oculta de uma Obra como a de Aleister
Crowley exigiu uma consciência ampla e integral do contexto no qual
esta Obra está inserida.
Evidentemente, devemos manter nosso senso de perspectiva, e evitar os
exageros aos quais a personalidade humana está propensa. Mas mesmo
assim, como poderíamos, nós simples iniciandos de graus mais baixos,
avaliar todo quadro abarcando tão sérias questões.
Não devemos também permitir que nossas opiniões pessoais ou
sentimentais (amizade, antipatias, amor ou ódio) interfiram em nossos
julgamentos.
Os escritos de Marcelo Motta, ou mesmos suas observações, aos vários
manuscritos thelêmicos, impressionam pelo rigor lógico e pela solidez
que somente um profundo conhecedor do assunto poderia ter; muito embora
algumas de suas interpretações possam ser discutíveis. Mas qual de nós
atingiu grau iniciático tão próximo daquele de Marcelo Motta, que nos
daria validade nesta discussão. Nós apenas vemos o lado externo das
coisas e temos pouquíssima penetração no lado interno, e não observamos o
quadro geral. Portanto, deveríamos parar de criticá-lo e utilizar nosso
tempo para melhorar nossa visão interna. Isto, em linguagem ocultistas,
quer dizer: “torne-se um Real Iniciado”.
Poderíamos dizer mais, mas não cremos que seja necessário. Aliás, se fosse necessário dizer mais, seria inútil.
Euclydes Lacerda de Almeida foi um dos três únicos a adquirir o livro “Chamando os Filhos do Sol”,
retirado de circulação poucos dias após sua distribuição nas livrarias
do Rio de Janeiro. O próprio Marcelo Motta nos informa o motivo pelo
qual o livro foi retirado: “…é um livro que eu mesmo condenei…… como inadequado, e minhas avaliações de hombridade ali contidas são imperfeitas e tolas”
(Vejam que somente um homem com raríssima autocrítica e grande senso de
fidelidade aos princípios thelêmicos faria uma coisa destas). Assim era
Marcelo Motta até 1972.
Nunca soubemos dos outros dois compradores do livro. Muitos anos mais
tarde, um volume foi encontrado em um “sebo” do Rio de Janeiro, e
adquirido por uma Irmã da O.T.O. Norte Americana. O outro volume jamais
apareceu.
Pouco se sabe da infância de Marcelo Motta. Mas podemos dizer que,
nascido em família de origens germânicas, teve uma rígida educação. E
esta educação foi aprimorada no Colégio Militar do Rio de Janeiro. Foi
exatamente estas características (porte aprumado de militar, aparência
alemã, falando Inglês com sotaque alemão – sua primeira professora de
Inglês era uma judia alemã, refugiada no Brasil) que fizeram com que a
Sra. Germer (uma outra israelita que vira de perto os horrores da
Alemanha nazista) desenvolve-se grande antipatia pelo jovem estudante de
Germer. Esta antipatia viria interferir nas futuras decisões da Sra.
Germer em relação a Marcelo Motta.
Quando Euclydes Lacerda de Almeida conheceu Marcelo Motta, este
morava em um pequeno quarto de pensão existente na Tijuca, mas jamais
emitia qualquer tipo de lamentação pelo fato. Posteriormente, quando
conseguiu emprego, mudou-se para Copacabana, Rua Santa Clara. Foi neste
pequeno apartamento que Euclydes veio a conhecer Claudia Cannuto, também
conhecida como Soror K.A..
Claudia, anteriormente uma “Estudante” de Marcelo Motta, tornou-se
uma Probacionista sob a tutela de Euclydes, por imposição do próprio
Marcelo Motta. Mais ou menos na mesma época Euclydes Lacerda recebeu
mais dois Probacionistas vindos de Marcelo Motta: Paulo Coelho e Raul
Seixas.
Nesta época, Marcelo Motta, mostrava-se um homem gentil, retraído e
que pouco falava de sua vida privada. Passava grandes dificuldades
financeiras advindas da inconstância de se manter por muito tempo em
qualquer emprego. Lutava contra definido tipo de perseguição causado por
suas convicções thelêmicas.
Pela própria natureza retraída de Marcelo Motta pouco sabemos de sua
vida privada. Mas, em certas ocasiões ele deixava escapar alguma coisa
e, assim, nos inteiramos de alguns fatos, mas muito superficialmente
havia uma grande barreira entre Marcelo Motta e seus parentes mais
próximos (pai, mãe e irmã). Após retornar ao Brasil, Marcelo Motta,
afastou-se de qualquer contato com sua família. Talvez esta barreira
tenha sido erguida em consequência das ideias do rapaz. Durante todo
tempo em que convivemos, ele pouquíssimas vezes tocava no assunto.
Somente em “Chamando Os Filhos do Sol” ele toca em suas
relações familiares. Nunca falou de sua juventude, suas aventuras
amorosas, ou qualquer outro tipo de relacionamentos.
Havia em Marcelo um grande sentimento de responsabilidade concernente
à sua carreira iniciática e a correta divulgação de Thelema, e disto
não abria mão em hipótese alguma. Para ele seu desenvolvimento
iniciático e a divulgação de Thelema estavam acima de qualquer coisa.
Esta atitude intransigente, presumimos, foi aos poucos se tornando uma
obsessão, seus problemas psicológicos tornaram-se mais agudos,
transformando sua personalidade agressiva e intolerável.
Talvez esta personalidade intransigente tenha sido motivada por sua
grande aproximação com Germer que, segundo as próprias palavras de
Marcelo Motta, era um homem difícil de lidar em qualquer tipo de
relacionamento. Marcelo Motta era inteiramente devotado à Thelema e a
seu Mestre, exatamente nesta ordem.
Em seu definitivo retorno dos Estados Unidos da América, Marcelo
Motta, iniciou a divulgação de Thelema no Brasil. Nesta época
praticamente ninguém, nem mesmo a maioria dos ‘ocultistas’ conheciam o
Sistema e, claro, muito menos a A∴A∴, a O.T.O., Aleister Crowley e,
muito menos ainda, a Ordem de Thelema[23]. Sua primeira medida neste sentido foi a publicação de “Chamando os Filhos do Sol”.
Mas, como já disto, este pequeno livro permaneceu por pouco tempo nas
livrarias. O resultado foi que o Sistema Thelêmico ainda permaneceu,
durante algum tempo, desconhecido. Ficou restringido a um círculo muito
pequeno.
Foi somente as partir de 1964 que, praticamente, Thelema, cresceu
publicamente. Entretanto, seu divulgador – exatamente em virtude de suas
ideias libertárias – tornou-se uma pessoa vigiada, juntamente com
aqueles com quem mantinha contato[24].
Marcelo Motta foi várias vezes abordado por agentes do Serviço
Nacional de Informação. E Euclydes foi praticamente banido do Rio de
Janeiro por “interesses” da companhia estatal em que trabalhava.
Segunda Parte
Perguntas e Respostas
1. Onde nasceu Marcelo Motta, onde morou em sua infância e adolescência?
R.: Marcelo Motta, como já dito acima nasceu na
Cidade do Rio de janeiro. Morou, durante vários anos no bairro da
Tijuca. Sobre sua infância e adolescência pouco nos é dado a saber, a
não ser aquilo comentado pelo próprio Marcelo Motta, que por sinal era
muito reticente sobre o assunto.
2. Fala-se muito da mãe de Marcelo Motta; porém o que se sabe de seu pai?
R.: Marcelo pouco falava de sua família. Sabemos que
seu pai era um homem bastante consciente de suas responsabilidades,
enérgico e um kardecista sério. Sua mãe, como já dito, era uma católica
romana convicta, mas uma maga natural. Marcelo Motta tinha uma irmã. Mas
ele pouco falava dela. Não sabemos se tinha irmão ou irmãos. Se os
tinha, jamais falou dele, ou deles.
3. Quais os tipos de frustações de Marcelo Motta?
R.: Talvez, sua maior frustação tenha sido não poder
se tornar um oficial da Força Aérea Brasileira. Foi impedido de seguir
esta carreira por uma miopia diagnosticada em sua juventude. Mas esta
frustação está ligada diretamente à sua vida profana.
4. Marcelo deixava transparecer algum complexo?
R.: Como dito acima ele era possuído por um grande
“Complexo de Édipo”, que talvez tenha sido o ninho para desenvolvimento
de outros. Frater Xiva (A. Xavier) definiu o problema de
Marcelo Motta como ele sendo um epiléptico cíclico acumulativo
depressivo. Eu não sei bem o que vem a ser isto, mas parece-me que A.
Xavier queria dizer que Marcelo Motta ia acumulando seus complexos e
revoltas por certo tempo até que, em dado momento, por qualquer causa
mínima, o vulcão estourava. Seu complexo de perseguição pode estar aí
incluso, mas este, julgamos, desenvolveu-se quando Marcelo Motta foi
perseguido nos Estados Unidos da América, nos tempos de faculdade. Hoje
sabemos que a política americana era bastante hostil à estrangeiros
(principalmente sul americanos). Na época em que Marcelo Motta estudava e
trabalhava naquele país, esta hostilidade tornara-se obsessiva, e o FBI
se encarregava de dar vazão a esta hostilidade. O senhor Hoover, então
chefe o FBI, um homossexual enrustido, dava vazão aos seus instintos
perseguindo judeus, marxistas, sul americanos e negros, que considerava
como estorvos ao “modo de vida norte americano”. Pessoas mais informadas
sabem muito bem da veracidade destas declarações. Atualmente vários
filmes relatam de como estas pessoas eram perseguidas no país da
“democracia e liberdade”. No específico caso de Marcelo, houve uma
“batida” em seu apartamento e ali “encontraram” vestígios de maconha.
Não é preciso dizer que o rapaz nem mesmo teve um advogado para sua
defesa. Foi preso e, posteriormente, mandado embora do país. Se pessoas
pensam que isto não pode causar distúrbios na mente de um jovem, é por
que são totalmente ignorantes de como funciona a mente humana ante tais
atos de violência “magica”. O mesmo tipo de perseguição (e de maneira
bastante pior) sofreu Karl Germer, tanto em seu país, sob o jugo
nazista, quanto na América. Edgar Hoover era um doente que atingia o
orgasmo quando conseguia destruir a vida de “marxistas”. Qualquer pessoa
inteligente pode se inteirar do assunto verificando os fatos
acontecidos no negro período pelo qual passou a América, chamado de
“Caça as Bruxas”, logo após a Segunda Guerra Mundial.
5. Tinha ele algum ressentimento de não ter sido iniciado na maçonaria?
R.: Até onde eu sei, isto é uma lenda. Marcelo Motta jamais desejou ser um maçom osiriano. “Carta a Um Maçom”
constituiu numa alerta aos maçons da época, não uma tentativa de
influenciar maçons a convida-lo para ingresso na ordem. Afinal, que
vantagem teria Marcelo Motta em ser maçom? Ainda mais um maçom osiriano?
Pensem nisto.
6. Era Marcelo Motta um bom aluno? Qual a matéria que mais lhe interessava?
R.: Não há como responder a questão de maneira
absoluta. Tudo indicava ter sido um ótimo aluno: falava e escrevia muito
bem o Português, Inglês e Alemão. Possuía ótima formação científica e
matemática. Falava com bastante desenvoltura sobre filosofia e
literatura, e história, principalmente História Religiosa.
7. Qual o sonho de sucesso do rapaz?
R.: Conseguir divulgar Thelema corretamente e organizar a O.T.O. no Brasil.
8. Quando conheceu Claudia Canutto?
R.: Se não me engano, Marcelo Motta conheceu Claudia
por volta de 1973. Na época ela trabalhava como recepcionista da VARIG
(Uma companhia brasileira de transporte aéreo) no Aeroporto
Internacional do Galeão. Claudia era uma bela mulher, e chamava a
atenção por seus grandes olhos. Euclydes a conheceu no apartamento,
situado em Copacabana, em que Marcelo Motta morava na época.
9. Marcelo Motta teve contato pessoal com Germer? Esse
contato foi puramente de Mestre para Discípulo, ou chegou a ter maior
afetividade como amigo?
R.: Pelas cartas enviadas por Germer a Marcelo, e
deste para Germer, podemos observar que o contato entre os dois foi
muito além do limite de discípulo para mestre. Marcelo Motta considerava
Germer como seu verdadeiro pai. Mas como Germer era uma personalidade
bastante forte e disciplinadora, houveram vários atritos entre os dois.
Mas no geral eles eram bastante unidos. Aliás, todo real discípulo virá,
mais cedo ou mais tarde, considerar seu mestre como seu verdadeiro pai.
Pois é o Mestre que dá nascimento ao novo homem.
10. Como estudante da A∴A∴ e da O.T.O. como era Marcelo Motta? Disciplinado, ousado, teimoso, relaxado? Qual era sua característica?
R.: Marcelo Motta era extremamente disciplinado,
principalmente no que tange à Thelema. Não se pode esquecer ter sido ele
um aluno do Colégio Militar. Marcelo Motta jamais iniciou qualquer
refeição sem dizer alto e claramente os Ditames da Lei. Aliás, coisa que
muito “Thelemita” jamais fez em tempo algum. Penso até que muitos têm
vergonha de fazê-lo. Bem, cada “Thelemita” com suas convicções. Até
mesmo quando Marcelo Motta tomava um simples cafezinho ele anunciava
Vontade. Certa vez, estávamos no Cinema Carioca. Ao sairmos do cinema o
sol já estava quase se escondendo por detrás das montanhas da Tijuca.
Ele se afastou, e ficando próximo a uma das colunas do prédio, executou a
Saudação correspondente.
11. Marcelo era casado? Se afirmativo, teve filhos?
R.: Marcelo Motta era casado nos Estados Unidos da
América. Deste casamento nasceram, ao que parece, dois filhos.
Separou-se da mulher por motivos que não nos interessa muito. A respeito
do assunto, está escrito em “Chamando os Filhos do Sol”: “Meus
ordálios eram cada vez mais profundos; os Mestres tomaram meu Juramento
de Renunciação ao pé da letra. Perdi o amor de minha esposa; perdi meus
filhos que idolatrava; perdi todas as minhas posses materiais, minha
reputação, e quase que a liberdade de meu corpo.”.
12. Marcelo Motta manteve contato com Parsival Krumm-Heller até o final de sua vida?
R.: Não. Após ter sido posto em contato com Germer, Marcelo Motta, nunca mais teve contato com Parsival.
13. Quando foi que Marcelo Motta formou uma Abadia de Thelema?
R.: Ele jamais formou uma Abadia de Thelema. Ele foi Iniciado na Ordem de Thelema através seu Mestre, Frater Saturnus.
E este, certa vez o levou a uma Abadia que na época (segundo Marcelo)
existia (não sei se ainda existe) nos Estados Unidos da América.
Terceira Parte
Muitos me acusam de ser um sonhador
Eu respondo ser um realista no sentido de que penso haver um Universo
à espera de ser investigado e compreendido; um Universo no qual,
queiramos ou não, estamos inseridos por toda Eternidade.
Frater D. S.
Muito antes de conhecer Marcelo Ramos Motta eu queria me tornar um
Adepto. Mas este sonho estava muito calcado nos romances ocultistas que
havia lido, tais como “Adonai”, “Zanoni”, “Uma Aventura numa Mansão Rosa-Cruz”,
e outros mais. Portanto, um sonho por demais calcado no romance e na
fantasia. E por isto muito me decepcionei com a minha Iniciação Maçônica
e, posteriormente, no convívio em Loja com meus irmãos maçons, na
maioria totalmente alienados quanto à verdadeira função da Maçonaria no
mundo, não somente em referência ao homem em sociedade, como também à
Terra como um todo.
É muito importante atualmente que as pessoas se deem conta do perigo
que a humanidade corre, se os homens continuarem a se aprofundar no
buraco em que se meteram. E os maçons pouco se dão conta disto, pois
eles mesmos se regozijam de estarem também neste buraco. Em suma, a
Maçonaria perdeu-se e afastou-se de suas reais finalidades.
Infelizmente, com raríssimas exceções, o mesmo acontece com outras
tantas Ordens e Fraternidades existentes atualmente. Pois em nome do
convívio, da boa-vontade, etc., estamos nos contemporizando com
Correntes e “ideais” criados exatamente para nos destruir como entidades
livres e autoconscientes.
O estudo e as práticas das doutrinas maçônicas fornecem a estrutura
básica – se bem compreendidas, é claro – para que nós possamos começar a
nos desvencilhar das mortais cadeias erguidas à nossa volta. Neste
sentido, livros e sérios tratados científicos deveriam ser publicados
pelas Ordens Maçônicas, que desta forma ajudaria o homem na compreensão
da verdadeira situação humana.
A mais urgente medida seria abrir os olhos dos incautos para a
existência daquilo que denominamos “A Grande Feitiçaria”, isto é, um
conjunto de falsos preceitos, de falsa História, de falsos ideais
tomados, pela maioria, como religião e política.
Foi exatamente para este mister que as Ordens Maçônicas foram idealizadas e criados pelos Grandes Mestres.
Não há dúvida que o interesse humano deveria ser dirigido à problemas
muito mais sérios do que aqueles explorados pela mídia, cuja única
finalidade é de vigiar, cercear e condicionar nossos pensamentos; ou
melhor dito: de impedir pensarmos. Vejam por exemplo a situação da
juventude no mundo…
Desta maneira aqueles que realmente promovem o avanço da humanidade
são os mais os mais perseguidos, cerceados em sua liberdade, insultados e
excomungados pelos donos do poder.
Por isso, não vejo em Marcelo Ramos Motta somente um intelectual, um
homem inteligente, uma das mais expressivas figura de Thelema, um dos
valores mais afirmativos de nosso Movimento, mas vejo também, com a
mesma admiração, o valor iniciático inatacável, que dignificou até a
hora de sua morte o Sistema Thelêmico e que hoje é considerado pelos
reais Thelemitas como o maior iniciado jamais nascido no Brasil.
Quarta Parte
Início da O.T.O. no Brasil
Como surgiu a O.T.O. no Brasil? Nós não colocaríamos assim a questão.
Não foi a O.T.O. que surgiu no Brasil, mas sim o Sistema Thelêmico. Não
devemos tomar as partes pelo todo. O surgimento da O.T.O. tornou-se uma
consequência inevitável. Em todo caso, em 1962 “apareceram” as
primeiras notícias sobre a Ordem. Elas vieram com a publicação de “Chamando os Filhos do Sol” (Marcelo Ramos Motta – 1962 – Gráfica Lux Ltda. – Rio de Janeiro.).
Segundo palavras do próprio autor, a publicação deste livro teve por objetivo fornecer ao público notícias do Sistema Thelêmico, como divulgado por Therion. Evidentemente, no texto, haviam referências à A∴A∴, O.T.O. e à Ordem de Thelema, esta última até hoje pouco conhecida.
Euclydes Lacerda de Almeida foi um dos poucos compradores do livro, interessando-se imensamente pela O.T.O. “Chamando os Filhos do Sol”
permaneceu pouco tempo nas livrarias. Ao notar um erro no texto do
mesmo (este erro encontrava-se no Esquema da Árvore da Vida apresentado
no livro), Marcelo Motta, retirou-o de circulação. Segundo também suas
próprias palavras, pouquíssimas pessoas o adquiriram. Certa vez, Marcelo
Motta, afirmou categoricamente que estes compradores foram em número de
cinco. Euclydes fora um desses. Nunca soubemos dos outros. Anos mais
tarde um volume foi encontrado em um “sebo” do Rio de Janeiro e
adquirido por uma Irmã da Ordem. Os três volumes restantes jamais
apareceram. Hoje o livro é raríssimo.
Euclydes comprou o livro casualmente ao passar por uma livraria do
bairro onde morava (Tijuca). Neste tempo debatia-se entre os
preconceitos crististas, muito fortes nos assim chamados, anos dourados,
e os mais salutares impulsos da natureza em um homem em plena saúde
física e mental. Compreendemos, agora, que todos os eventos da vida do
jovem o impulsionaram em direção à Thelema: a compra de “Chamando os Filhos do Sol” não fora tão “casual” quanto julgara. E eventos futuros confirmariam este julgamento.
Inicialmente, como sempre acontece com qualquer um que entra em um
contato inicial com a Filosofia Thelêmica, sentiu-se duplamente atraído e
repelido pelo conteúdo do livro. Dentro destes dois antagônicos
sentimentos, escreveu para o endereço aposto na contra capa do livro.
Assim, iniciou a maior aventura de sua vida e o indelével contato com
Marcelo Ramos Motta. Frater Parzival XIº O.T.O..
Tendo lido vários livros “esotéricos” surpreendeu-o a maneira pela
qual o assunto era colocado pelo autor M. (pseudônimo usado por Marcelo
Motta).
Pouco antes destes acontecimentos Euclydes iniciara-se na maçonaria
(G.O.B.) por convite de um amigo. Na época sequer sabia ser a Maçonaria
uma Ordem calcada no Æon de Osíris. Aliás, sequer sabia o significado de
Æon, fosse de Osíris ou de Hórus. Sua iniciação foi decepcionante. Todo
ritual realizado inteiramente no plano material. Nada sentira de
especial, mesmo nas iniciações seguintes. No Terceiro Grau, foi
grandemente repelido pela sinistra e lúgubre Câmara do Meio. Somente
muito mais tarde, quando em contato com as Forças do Æon de Hórus,
compreendeu o motivo desta reação. Evidentemente esperava algo parecido
com o descrito nos vários livros que houvera lido, principalmente em Adonai,
de Jorge Adoun, que tanto excitar sua imaginação. Sua ansiedade
cresceu. Havia um grande choque entre o apregoado pelos
“espiritualistas” e “ocultistas” dominados pelo, assim chamado, “Pecado
Original”, e o seu salutar impulso sexual de um jovem de 23 anos.
Suas questões ainda permaneciam martelando sua cabeça. Suas resposta
não vieram com sua “iniciação” maçônica. Intuitivamente foi levado a
meditar sobre o problema. Algo faltava nos “ocultistas” (com exceção de
Jorge Adoun) e nos maçons: ou nada sabiam ou escondiam muito. Ao,
eventualmente, ler um dos livros de Samael Aum Weor (O Casamento Perfeito),
percebeu haver oculto muito mais a respeito de sexo do que imaginava.
Mas também não aceitava as ideias do Movimento Gnóstico Internacional,
inteiramente baseado no “Caminho da Via Seca”. Era muito “morno”, piegas
e cheirava a velas numa igreja abafada. Atingindo o grau de Mestre
Maçom e, deste, elevado sucessivamente ao Quarto, Nono, Décimo Sétimo e
Décimo Oitavo, compreendeu intimamente que na Maçonaria não estava seu
caminho. Porém, seus juramentos o impediram de falar, inquirir ou
afastar-se da Ordem. Havia se condicionado desde muito jovem, ao
ingressar no Colégio Militar, a respeitar hierarquia estabelecida. A
maçonaria sempre fora uma Ordem baseada em Hierarquia, diria mesmo ser
uma Ordem paramilitar.
Ao ler “Chamando os Filhos do Sol” sentiu,
imediatamente que tudo que até então aprendera sobre o ocultismo não
passava de conversa fiada, engano, deturpações, etc..
Após sua primeira carta a Marcelo Motta, os dois começaram a se
corresponder frequentemente. Naquele mesmo ano (1963) recebeu a visita
de Motta.
Depois deste primeiro encontro, Marcelo Motta, começou a frequentar
assiduamente a casa de Euclydes. Percebia-se que aquele homem passava
por grandes necessidades financeiras. Embora possuidor de grande cultura
não conseguia emprego, e os que conseguia duravam pouco tempo. Havia
sempre uma “desculpa” dos empregadores para não mantê-lo no trabalho.
Isto confirma plenamente as palavras de Marcelo em seus escritos,
principalmente no ensaio “Serviços de Inteligência não são Inteligentes” ou “A O.T.O. desde a morte de Crowley”, partes I e II, publicados em “Magick Without Tears Unexpurgated Commented”.
Certo dia, Marcelo, perguntou ao jovem discípulo a qual Ordem
desejava se filiar: à O.T.O. ou à A∴A∴. Euclydes imediatamente escolheu a
O.T.O. (A Ordem de Thelema estava então fora de cogitação, por motivos
conhecidos a Iniciados da Gnosis). Então, Marcelo, entregou-lhe o Lamen
da Ordem desenhado em cores. Euclydes ficou espantado. Já vira aquele
lamen em algum lugar. Somente não se lembrava de onde. Marcelo riu-se da
reação do jovem, mas nada falou. Dias depois, Euclydes, lembrou-se: era
o mesmo Lamen ado pela AMORC no livreto denominado (erradamente) 777 (A Catedral da Alma).
Admirou-se do fato, e Marcelo confidenciou-lhe que a AMORC fora fundada
por um ex-membro da O.T.O.. Em seguida mostrou-lhe outro Lamen, muito
conhecido dos antigos membros da AMORC, em que a origem, ou a ligação
entre as duas ordens, torna-se evidente (documentos nos arquivos da S.N.Æ.).
Afirmamos que era conhecido, pelos antigos membros porque recentemente
os dirigentes da AMORC “acharam por bem” retirar o Lamen de circulação.
Como os leitores podem constatar, o Lamen era muito conclusivo sobre as
fortes ligações da AMORC com a O.T.O. e, evidentemente, com Aleister
Crowley, fato que os líderes da AMORC fazem qualquer coisa para
esconder.
Em “Documentos Rosa-Cruzes” (pag. 38 – Primeira Edição, em Português – 1980) está a fotocópia da Patente do VIIº O.T.O. concedida à H. Spencer Lewis por Theodor Reuss.
O documento também contém uma declaração de amizade entre as duas
ordens, demonstrando claramente que os líderes da O.T.O. reconheciam a
AMORC, o que contradiz frontalmente as declarações de Marcelo Motta em “Chamando os Filhos do Sol” a respeito da Ordem de H. S. Lewis.
Com o passar do tempo, Marcelo Motta e Euclydes tornaram-se íntimos, e
o primeiro começou a transmitir ao jovem amigo o Conhecimento
Thelêmico, oralmente e através volumosa quantidade manuscritos. Nestes
incluía-se “Carta a um Maçom” (manuscrito original).
Em inícios de 1964, Marcelo Motta, entregou-lhe a tradução, para o Português, do Livro da Lei com Comentários de Matre Therion,
informando-lhe da necessidade de publica-lo no Brasil e, para isto,
pedia ajuda do discípulo. Este manuscrito, contendo várias correções
feitas pelo próprio Marcelo faz parte do acervo particular da Sociedade Novo Æon.
Anos mais tarde, o livro foi publicado em Inglês nos EEUU pelo próprio
Marcelo Motta, usando a Editora Samuel Weiser Inc. (New York – Primeira
Edição – 22 de setembro de 1975). Até hoje não conseguimos compreender a
resolução de Marcelo Motta em editar importante livro em outro país e
em outra língua, cujas consequências foram bastante funestas para os
brasileiros interessados em Thelema.
Em 1962, Marcelo Motta, conseguira, com muito sacrifício (gastou todas suas economias), imprimir “Liber Aleph”
(Printed by Composition Gráfica LUX Ltda. – Rio de Janeiro. Este livro
também foi publicado em Inglês), dando um exemplar a Euclydes. O
exemplar também faz parte da coleção privada da Sociedade Novo Æon.
Amadurecimento
Tudo ia bem quando em 1964, o Brasil, visivelmente inclinando-se
politicamente para um regime ditatorial de esquerda, acabou caindo num
golpe militar de direita. Saímos da brasa e caímos na fogueira. Durante
30 anos, o regime dominou o país. Era difícil e perigoso ser Thelemita
neste contexto político-social. Muitos sofreram perseguições e tortura.
Eles estes encontravam-se Paulo Coelho, Raul Seixas e outros tantos.
Sendo que o Sr. Paulo Coelho deixou-se dominar pela egrégora católica
romana sustentando o regime de força. Euclydes, em virtude do movimento
militar perdeu contato com Marcelo Motta, e por motivos políticos foi
transferido, pela indústria em que trabalhava, para uma pequena cidade
do interior do Estado do Rio de Janeiro.
Nesta cidade, longe das estressantes condições de vida das cidades
grandes, começou a manter práticas mágicas e místicas diárias. Certo
dia, em meio a uma dessas práticas, alcançou sua Primeira Real
Iniciação. Mas esta é outra história.
Preocupado com o destino de seu Instrutor, tentou localizá-lo. Tudo
em vão. Apelou ao “astral”. Nada. Quase desistindo e mesmo julgando-o
preso ou, na pior das hipóteses, morto, recebeu a inesperada visita de
um tal Oscar Victor Lessa. Este se apresentou como interessado em
Thelema, afirmando que estivera com Marcelo Motta; e que este lhe
indicara Euclydes como seu direto representante e que cuidaria de seu
ingresso na Ordem. Bastante confuso com as informações recebidas deste
indivíduo, Euclydes, não sabia o que fazer. Primeiro: não fora ainda
formalmente iniciado na O.T.O.: segundo: nem sabia por onde começar;
terceiro: a O.T.O. ainda não estava regulamentada no Brasil: quarto:
havia perdido total contato com seu Instrutor. Explicou cuidadosamente
todos estes fatos a Oscar Lessa. O inesperado visitante imediatamente
prontificou-se a levar Marcelo Motta até P.S., isto muito alegrou
Euclydes. Sabia agora que seu Instrutor estava vivo, e que o encontraria
novamente.
No fim de semana seguinte, Marcelo e Lessa chegaram à sua casa.
Após dois dias de conversas, ficou estabelecido o seguinte entre os três:
Primeiro: Oscar e Euclydes trabalhariam no sentido de reunir um mínimo de onze pessoas interessadas na formação de uma Loja da O.T.O..
Segundo: Este grupo inicial deveria adquirir um local para
funcionamento da Loja. Este espaço (casa, sala, etc.) não poderia ser
alugado. Deveria ser próprio, e comprado em nome da organização.
Terceiro: Todos os elementos iniciais teriam, de direito, o Terceiro Grau da O.T.O..
Quarto: deveriam estruturar e registrar os Estatutos de uma Sociedade, cujo nome seria votado em Assembleia formada pelos fundadores.
Quinto: Esta Sociedade administraria a Loja Mãe, e outras que viessem a ser fundadas futuramente em território nacional;
Sexto: Iniciar, de imediato, a divulgação da Corrente
Thelêmica e, obviamente da O.T.O., dentro dos preceitos admitidos por
Thelema; isto é, obedecendo rigidamente Liber AL vel Legis e Liber OZ.
Ficariam sob responsabilidade de Marcelo Motta os seguintes itens:
Primeiro: Composição de novos rituais para o Iº, IIº e IIIº
da O.T.O., já que os Rituais reformulados por Crowley não tinham mais
valor iniciático por terem sido publicados.
Segundo: Estabeleceria currículos específicos para cada grau.
Terceiro: Emitiria, juntamente com Euclydes, um Manifesto à Sociedade Brasileira;
Quarto: Ocuparia o cargo de “Supervisor Geral”. Euclydes seria o Presidente da Sociedade, com direito a escolher seus auxiliares.
Havia ainda um ponto importante a ser discutido. Mas antes necessitamos fazer uma pausa para explicar um fato curioso.
Por oura coincidência, ou por qualquer outro fator, Euclydes, apenas
começara a guardar as cartas de Marcelo a partir de 1964. E a mais
antiga delas, com a qual iniciou sua coleção, data de 8 de julho de
1964. E é uma resposta a seu formal pedido de ingresso na O.T.O..
O mais importante no documento é que trata da situação de Marcelo Motta em relação à Ordem.
Ali consta o seguinte:
“Lamentamos Ter de lhe informar que, com a morte em outubro do
ano retrasado de Frater Saturnus, Cabeça Externa da O.T.O., o Rei Suíço
da Ordem achou-se no direito de se arrogar os títulos pertencentes ao
Superior falecido, e o que é pior, fez isto publicamente, distribuindo
matéria neste teor em várias línguas. Consequentemente a Ordem
retirou-se ao silêncio e está em estado dormente. Continuará assim até
que aquele membro recobre as faculdades morais, ou até que a dissolução
de seu corpo físico termine com os efeitos da sua tolice”.
E mais à frente:
“Quanto a mim, não tenho patentes autorizando-me a fazer trabalho
da O.T.O., e anunciei a ordem em “Chamando os Filhos do Sol” (livro que
já foi retirado de circulação, sua utilidade estando ultrapassada)
somente para servir a meu Superior, Saturnus X.
Em 1962, de acordo com a esposa de meu falecido Superior uma
patente foi-me enviada pelo correio autorizando-me a trabalhar em os
três primeiros graus da O.T.O.. Esta patente jamais chegou às minhas
mãos. Nem sei quem a Subtraiu”. (Documento nos arquivos da S.N.Æ.)
Somente anos mais tarde, relendo as cartas de Marcelo, Euclydes,
percebeu a verdade. Agora estava claro. Sem patente para poder iniciar o
trabalho da O.T.O. no Brasil e usar o Nome da Ordem, Marcelo teria que
fundar uma organização sob outro nome, a qual serviria de fachada.
Mas existem algumas inverdades na carta de Marcelo, as quais devemos nos referir:
Primeiro: a Ordem, pelo menos alguns Ramos dela, como o do
Sr. Kenneth Grant (Inglaterra) e o do Sr. Metzger (Suíça) não se
encontravam em estado dormente;
Segundo: já havia se iniciado a luta pelo cargo de “O.H.O.”, provocada pelo testamento de Karl Germer;
Terceiro: Sascha Germer já houvera declinado em favor (inicialmente) de Metzger (mais tarde de Mellinger) como sendo ele o O.H.O..
Entretanto, ao que parecia, em 10 de dezembro de 1971, o, problema
fora resolvido, e Marcelo escreveu a Euclydes informando-o o nome e
endereço do Cabeça Externa da Ordem:
“O atual Rei Mundial (ou Cabeça Externa) da O.T.O. chama-se
Kenneth Grant e seu endereço é ****** London *** England. Foi
reconhecido por mim como tal” (Documento nos arquivos da S.N.Æ.)
A última parte da informação (“Foi reconhecido por mim como tal”)
deixou Euclydes confuso e intrigado. Qual o poder de Marcelo Motta em
reconhecer ou não um Rei Mundial da Ordem? Mas, ainda estando no início
de sua carreira na O.T.O., muito mal informado quanto à estrutura
hierárquica da Ordem, e nada sabendo da confusão estabelecida,
esqueceu-se do assunto. Para ele, a informação indicava que Marcelo
estava agora em contato com o O.H.O. e devidamente patenteado para
trabalhar no Brasil. Isto é que interessava no momento. Porém, isto
também não era verdade. Marcelo jamais tivera sólida ligação com Kenneth
Grant. Havia uma grande desconfiança entre os dois. E isto seria
confirmado anos depois e de maneira muito decepcionante para Euclydes.
Muito embora, a princípio, tivesse parecido fácil reunir os nove
restantes interessados na fundação de uma Sociedade Thelêmica, assim não
o foi. Por sugestão de Marcelo elaborou-se um cartão de apresentação da
O.T.O., contendo o endereço dos três homens em um dos versos, e Liber OZ
no outro. O referido cartão seria entregue, sem quaisquer tipos de
discriminação às pessoas nas ruas. Assim foi feito; mas o retorno foi
desprezível. Parecia que ninguém se interessava. Somente pingavam cartas
de curiosos e, a uns deles, revoltados com a última frase do Liber.
Apelou-se então para um anuncio da Ordem nas páginas de uma revista
“esotérica” muito popular na época. O efeito foi relativamente bom. De
qualquer maneira conseguiram contato com várias pessoas. No fim, estas
ficaram reduzidas a apenas nove realmente interessadas. O restante era
composto de curiosos.
Finalmente, em 1974, conseguiram reunir quatorze pessoas realmente
interessadas. Já era um começo. Houve uma reunião geral realizada na
casa de Euclydes. Escolheram um nome para a Sociedade, deliberaram
cargos para cada membro, e iniciaram a compor os Estatutos da Sociedade.
Havia entre eles um advogado, ficando portanto encarregado dos assuntos
legais a serem resolvidos.
Em 09 de novembro daquele mesmo ano, Marcelo Motta, escreve a
Euclydes tecendo comentários sobre a organização da O.T.O., como deveria
funcionar, sua estrutura, e sobre o nome a ser adotado pela Sociedade.
Após isto foi elaborada uma lista de nomes, e decidiu-se que a Sociedade
chamar-se-ia Sociedade Novo Æon (Documento nos arquivos da S.N.Æ.).
A este tempo, o grupo crescera, destacando-se as seguintes pessoas que realmente trabalharam no sentido de formar uma Loja.
- Saturnino de Almeida;
- Arnaldo Xavier;
- Oscar Lessa;
- Claudia Canutto;
- Raul Seixas;
- Paulo Coelho;
- Maurício dos Santos;
- Therezinha Faria;
- Pedro de Oliveira;
- Antônio A. Delfino.
Paulo Coelho e Raul Seixas ficaram mais restritos ao trabalho de
divulgação da Ordem no Rio de Janeiro. Nesta época, ambos solicitaram
ingresso na A∴A∴.
Entretanto, não julguem os leitores haver, naquele tempo, uma
organização já registrada, estruturada e funcionando devidamente. Não!
Aliás, a O.T.O. jamais conseguiu ser firmar totalmente no Brasil,
inclusive nos tempos atuais. O que existe são pequenos grupos,
espalhados aqui e ali, e tomando ares de uma Ordem realmente
estruturada. Havia, é verdade, um grupo envolvido fisicamente (mas não
espiritualmente). Mas não passava disto. No futuro, a famosa Loja Nuit, por sua vez, esbarraria com os me os obstáculos que afetaram a Sociedade Novo Æon. Mas a Loja Nuit
foi à única, até agora, que realmente tem um registro oficial
registrando a Sigla O.T.O. e o Lamen da Ordem. Infelizmente, para todos
nós, aquela Loja terminou por ser constituída de um amontoado de
incapazes, arruaceiros, mal-educados, etc., se dizendo Thelemitas –
confundindo Faze o que tu queres com Faze o que quiseres. O triste
destino da Loja e da maioria de seus “Mestres” atesta o dito.
A O.T.O. no Brasil nunca saiu disto. Nem mesmo nos anos seguintes o
real fito da Ordem foi atingido, como constataremos mais adiante. Por
três ocasiões seguidas isto foi tentado, mas nunca concretizado.
Qual a causa disto?
É o que tentaremos elucidar nestas páginas. Leitores poderão
aquilatar a existência de “forças” contrárias ao Sistema Thelêmico, seja
no Brasil, seja no mundo. E estas “forças” sempre são auxiliadas por
aqueles que se deixam deslumbrar pelo poder temporal.
Início do Fim
Enquanto alguns levavam o trabalho a sério, outros ficavam na
festiva, ou confundindo a Liberdade Thelêmica com licenciosidade e
anarquia.
Liberdade tem que ser conquistada e não recebida de mão beijada. Esta
é uma regra que aconselhamos que todos aqueles que desejam ser
Thelemitas sigam rigorosamente. É necessário Trabalho externo e interno,
principalmente interno, para conquista da Liberdade – da verdadeira
Liberdade. Disciplina é a base do trabalho. Hierarquia é a base do
trabalho. “Faze o que tu queres” não é o mesmo que “Faze o que
quiseres”. Existe uma diferença fundamental entre as duas frases. Uma
aponta para o “Alto” a outra para baixíssimo. Nesta diferença também se
encontra a “Chave” do Grande Ordálio a ser cumprido por qualquer um que
queira ultrapassar os Umbrais da Real Iniciação. Não será somente porque
você participou de um ritual executado no Plano Físico (tal como na
Maçonaria) que você atingirá A Iniciação. Infelizmente poucos
compreendem isto.
O trabalho que agora colocamos nas mãos dos leitores é o fruto de
muitos anos de disciplina auto imposta, lutas e práticas incessantes.
Não é o trabalho de simples curiosidade ou desejo de aventuras insólitas
ou emoções descontroladas e, muito menos, o desejo de se tornar
superior à seus semelhantes. É o Trabalho de 30 anos dedicados à
Thelema: de Fidelidade e Irmandade nascidas no Serviço à toda
Humanidade; não a determinados e escolhidos indivíduos. E neste trabalho
não pode haver considerações pessoas de amizade, parentesco, etc..
Olhando para trás, as recordações trazem um sentimento de alegria.
Nós, individualmente, conseguimos aquilo que Nossa Vontade determinou.
Não alimentamos qualquer rancor pela incompreensão de vários
“Thelemitas” da época e de agora, os quais não souberam, ou não
quiseram, abraçar a verdadeira Filosofia Thelêmica. Ficaram somente na
“Sala dos Passos Perdidos”. E este foi um dos inúmeros fatores os quais
reputamos como causa mestra do desastre da O.T.O. no Brasil.
De qualquer forma, crescemos. Na figura de Arnaldo Xavier (Frater Xiva), a organização nascente, mas já trazendo em si o germe mortal, teve o apoio financeiro e moral necessário. Em 1973 a Sociedade Novo Æon
possuía um espaço excelente para reuniões. Neste mesmo ano Euclydes
Lacerda comprou, com recursos próprios, uma área de 740 metros quadrados
(Documento nos arquivos da S.N.Æ.), onde futuramente
erguer-se-ia o Magno Templo da O.T.O. no Brasil. Agora somente faltava o
término e registro dos Estatutos Externos.
Neste meio tempo, surgiram alguns problemas. O mais sério deles
causado por Oscar Lessa. Este indivíduo, aproveitando-se da boa fé nele
depositada pelo grupo, começou a larapiar documentos da Ordem. Não
satisfeito com isto, falsificou a assinatura de Frater Z. e iniciou a “dar Patentes” a indivíduos em várias cidades do Brasil por preços módicos. A tramoia foi descoberta por Frater Xiva que, por “coincidência”, encontrou uma dessas falsificações com um correspondente residente em Belo Horizonte. Frater Z.,
diante dos fatos, expulsou Lessa e tentou localizar todas estas
Patentes para anula-las e explicar aos seus possuidores o ocorrido.
Muito tempo foi perdido nesta limpeza.
Finalmente, em 1973, Frater Parzival XIº, patenteou Euclydes Lacerda de Almeida para Trabalho nos Três Primeiros Graus da Ordem (Documento nos arquivos da S.N.Æ.).
A Patente era fruto de onze longos anos de trabalho e dedicação à
Corrente Thelêmica. Esta foi a primeira patente a ser emitida no Brasil.
Neste mesmo ano, Euclydes, recebia nomeação (gravada a viva voz por Frater E.)
ao Grau de Neófito da A∴A∴, e a árdua tarefa de receber e treinar
Probacionistas na Grande Ordem. Em seguida recebeu a nomeação de Grão
Mestre da O.T.O. para o Brasil (Documento nos arquivos da S.N.Æ.).
Imediatamente foram colocadas sob sua responsabilidade hierárquica três
Estudantes da Grande Ordem: Claudia Cannuto, Raul Seixas e Paulo
Coelho.
Da primeira discípula ele guarda algumas cartas (Documento nos arquivos da S.N.Æ.); do terceiro, além de cartas, o Juramento original e uma grande decepção (Documento nos arquivos da S.N.Æ.).
Do segundo, Raul Seixas, a certeza de que foi um Thelemita não muito
disciplinado, mas um Thelemita. Raul Seixas conseguiu, mediante sua
arte, fazer por Thelema muito mais que vários de nossos “irmãos” o
conseguiram em toda vida deles. Não podemos considerar os “atritos”
havidos entre ele e Marcelo Motta o que já começara, na época, a
demonstrar tendências esquizofrênicas e intratável personalidade.
A bem da verdade, devemos acrescentar que a nomeação ao grau de
Neófito muito espantou Euclydes. Ele jamais tivera a pretensão de
ingressar na A∴A∴. Aconteceu que, no clímax de suas práticas ocultas
daquele ano, experimentara um trance característico da consecução
iniciática do grau, dando-lhe direito àquele nível.
Para seu espanto, percebeu tornar-se o mais alto grau da O.T.O. e da
Grande Ordem no Brasil depois de Marcelo Motta e Claudia Cannuto. Este
fato foi reconhecido, anos depois, pelos próprios dirigentes da O.T.O.
McMurtryana e do Sr. Starr (ex-discípulo de Frater E.) que se diz Præmonstrator da Grande Ordem nos EEUU. (Documento nos arquivos da S.N.Æ.), fidagais inimigos de Marcelo Motta e, atualmente, de Euclydes Lacerda.
Incentivado por seu próprio Instrutor na O.T.O., Euclydes, escreveu
uma longa e detalhada carta a Kenneth Grant, o então O.H.O. reconhecido
por Marcelo Motta, relatando-lhe os acontecimentos no Brasil, e
apresentando-se como o Membro Sênior da O.T.O. e da Grande Ordem no
Brasil.
A resposta do inglês o deixou confuso e decepcionado. O O.H.O. não
reconhecera seu grau na O.T.O., e nem qualquer autoridade emanada de
Marcelo Motta. A carta dizia o seguinte:
“Dear Mr. Almeida:
Do what thou wilt shall be the whole of the Law Thank you for
your letter and enclosure of April 28. You have approched me at a rather
advanced stage Of your transations with the O.T.O. It is only after the
satisfactory Fulfilment of the three primary conditions described in
the Enclosure Statement that candidates are rendered eligible for
Membership, and such claim as you may have to membership Can only then
be considered and ratified by Us. If you wish, therefore, to regularize
your approched to these matters you will let me know as soon as possible
the date on which you commence your Magical Record.
Love is the law, love under will
Yours fraternally,
Kenneth Grant
O.H.O. of O.T.O.” – (Documento nos arquivos da S.N.Æ.)
Confuso, Euclydes, enviou uma cópia desta carta a seu Instrutor, e
colocou em dúvida a autenticidade do cargo do inglês (prestem atenção
neste ato mágico de Euclydes. Embora tenha sido “inconsciente” ele
carrega grandes significados). Marcelo Motta, em carta datada de 19 de
maio de 1973, responde às dúvidas de seu discípulo com uma severa
admoestação:
“Quaisquer dúvidas ou reservas que eu tenha quanto às
solicitações de Mr. Grant não serão nunca para seus ouvidos… Eu
reconheci a autoridade de Sr. Grant” (Documento nos arquivos da S.N.Æ.)
A resposta de Marcelo não respondiam as dúvidas de seu pupilo. Pelo
contrário. Euclydes não havia feito qualquer menção às solicitações
contidas na carta. Magoado, manteve-se em silêncio. Mas as dúvidas
aumentaram. Agora também com respeito à seu Instrutor. O que estava
acontecendo afinal?
Obedecendo instruções de seu Instrutor, enviou outra carta ao inglês.
Em 04 de agosto de 1973, veio a resposta.
“With reference to your letter of July 16, I can say only that
there has been some misunderstanding. I did not aske you for a summary
of your Magical Record. A Candidate can considered for mambership of the
Order only after the successful filfilment of the requiriments
specified in the Preminary Statement, a copy of wich I enclosed with my
letter of May 9. It is entirely up to you whether or not you fulful
these conditions of membership, but cannot be weived and nobody can
become officially recognized by the Order until they have been
satisfactorily fulfilled” (Documento nos arquivos da S.N.Æ.)
Euclydes não entendia mais nada. Decepcionado, e já com muitas
dúvidas, tanto a respeito de Kenneth Grant quanto a Marcelo Motta, e já
escaldado pela anterior admoestação, resolveu ficar calado e esperar
pelos acontecimentos futuros.
Como dito: O inusitado é produto do inusitado. O que parecia ser
simples a princípio tornou-se o pomo de discórdia entre Marcelo Motta e
Euclydes, e consequente dissidência e dissolução do grupo. Este foi o
caso do registro dos Estatutos da Sociedade Novo Æon.
O ano é 1975. Com falta de dinheiro em caixa não havia como registrar
os Estatutos. O registro na íntegra custaria muito acima de nossas
economias. A única saída, segundo advogado do grupo, seria optar pelo
registro (provisório) de um resumo dos estatutos, que continha 16
páginas datilografadas. Marcelo foi informado sobre a sugestão.
Infelizmente esta informação foi dada via telefone e, portanto, não
temos como comprova-la.
Tomado de injustificada fúria, o Supervisor Geral da S.N.Æ. (ainda
não registrada), desligou o telefone abruptamente. Em 7 de julho de 1975
enviou uma carta totalmente descabida a Euclydes nos seguintes termos:
“Já lhe mandei acender um fogacho sob o rabo dos seus
correspondentes… Entrementes, quero saber se um resumo dos estatutos foi
mandado para o Diário Oficial sem passar previamente pelas minhas mãos.
Se assim foi, pode ficar descansado: sua patente está cassada e nosso
contato terminado…” (Documento nos arquivos da S.N.Æ.)
Em 09 de julho de 1975 (isto é, dois dias após a carta acima, e sem
dar tempo para qualquer tipo de diálogo entre ele e Euclydes, emite uma
“carta circular” aos “Diretores da S.N.Æ.” (uma Sociedade ainda não
oficialmente registrada e, portanto, inexistente) com as seguintes
inverdades, e que não explicava o real motivo de sua decisão:
“Um dos ordálios centrais do trabalho iniciático é Obediência Hierárquica,
e o Neófito tem que passar por este ordálio e triunfar nele para chegar
a Zelator. Frater Z. ainda não foi bem sucedido neste ordálio, o que
não é nenhum crime; mas ele tem interpretado mal sua posição e sua
autoridade e isto, se bem que não é crime, pode prejudicar gravemente o
Meu Trabalho, visto que o nomeei meu representante” (os grifos são nossos). (Documento nos arquivos da S.N.Æ.)
Euclydes caiu das nuvens. O que afinal tinha feito de errado? O que
tinha a ver o ordálio de uma Ordem Iniciática, tal como a A∴A∴, com os
Estatutos de uma sociedade profana? Mesmo que ele tivesse fracassado no
ordálio, não haveria motivo para isto? E não haveria uma nova chance?
Como poderiam estas suas falhas (se é que as haviam) as quais, segundo
as próprias palavras do Supervisor Geral, não eram crimes, prejudicar o
“trabalho” dele? Que trabalho? Por que não falava mais claro? As
justificativas da carta revoltou os demais membros.
Euclydes, profundamente entristecido envia uma carta a Marcelo Motta
contestando veementemente todos os termos da “circular”. Explica, ou
tenta explicar, que a publicação de um resumo dos estatutos fora
ventilada apenas como sugestão do advogado e, assim sendo, nenhum resumo
fora elaborado ainda, e muito menos mandado a ser publicado em Diário
Oficial. Respondendo estas ponderações, Marcelo, remete-lhe uma outra
carta datada de 15 de julho de 1975, onde destaca-se o seguinte trecho:
“Sua expulsão da Sociedade Novo Æon é agora oficial. Porém, a A∴A∴ não expulsa Aspirantes. A ordem se limita a cortar contato com eles caso desobedeçam as diretivas que recebem em nome da Ordem” (Documento nos arquivos da S.N.Æ.).
Não seria necessário dizer-se que a carta foi à gota d’água.
Imediatamente, o grupo se desmantelou. Alguns permaneceram ao lado de Marcelo; outros se rebelaram contra ele.
Euclydes, devido ao choque, permaneceu sem saber o que fazer… e adoeceu.
Mas, façamos uma rápida análise do conteúdo das cartas de Marcelo
Motta. Esta análise torna-se necessária para leitores sem os devidos
conhecimentos referentes a certas particularidades iniciáticas.
Primeiro: Marcelo Motta refere-se a um ordálio (prova iniciática)
pertencente a A∴A∴ que nada tem a ver com a O.T.O. e, muito menos, com a
Sociedade Novo Æon. Segundo: Dirige-se à Frater Z. e não a Frater T., que era, na época, Neófito da Grande Ordem. Como o ordálio refere-se à A∴A∴ nem de longe Frater Z. poderia ser acusado de não vencer tal ordálio, se é que ele existia.
Na Segunda carta: Primeiro: Esta dirigida a Frater T. Segundo: Como acima dito Frater T. era membro da A∴A∴ e, logicamente, jamais poderia ser expulso da Sociedade Novo Æon, simplesmente por que não pertencia àquela Sociedade. Terceiro: é dito que Frater T.
fracassara no Ordálio do Zelador. Como poderia ser isto? Somente um
Zelador pode ser submetido o ordálio do grau. Não o Neófito. Isto nos
leva à conclusão de que Euclydes, ou melhor, Frater T., já
houvera atingido o Grau de Zelador, e não do Neófito, como afirmado por
Marcelo. Quarto: Mais à frente Marcelo diz que Euclydes está banido da
O.T.O. por cinco anos. Mas que O.T.O.? A de Kenneth Grant? De Metzger?
Qual?
Lembrem-se os leitores que nem a S.N.Æ. tinha sido registrada, quanto
mais a O.T.O. Além disso, como poderia ele se banido da Ordem sem o
conhecimento de Kenneth Grant, a quem Marcelo considerava o O.H.O. e,
portanto, o único com poder para expulsar, nomear, banir, suspender,
etc.?
O conteúdo dessas duas cartas e de outras manifestações, escritas ou
não, de Marcelo Motta, as quais agora publicamos, demonstram claramente o
início da instabilidade mental começando a se manifestar nele.
Após estes acontecimentos, Marcelo Motta, e Euclydes nunca mais se encontraram.