segunda-feira, 18 de março de 2013

Constelações da A∴A∴

[N.T.: traduzido do sérvio para o inglês, e do inglês para o português. O autor, Fr. Libero, comenta que a tradução não está perfeita, mas está compreensível. É possível perceber pelo estilo.

 

“Todo homem e toda mulher é uma estrela.”


Você deveria entender que a A∴A∴ (como em uma forma do sigilo de Babalon) é um centro de uma galáxia estelar, onde certas estrelas mais brilhantes receberam as influências desta sua força central e estão orbitando em atração gravitacional ao redor desta “estação” central da A∴A∴. Essas estrelas gigantes também atraíram estrelas “menores”, de modo que formaram constelações estelares, que “giram” todas em torno da A∴A∴ central. Portanto, cada constelação de estrelas tem sua própria estrutura e natureza de vôo – mais rápido, mais lento, mais perto ou mais distante do centro, se aproximando ou se afastando, mas ainda assim atraída gravitacionalmente à “estação central” da A∴A∴.
Algumas constelações não estão diretamente ligadas à A∴A∴, às vezes apenas “voam de passagem” sob sua influência, de modo que recebem determinada quantidade de sua energia, então continuam a sua viagem para longe.
Por exemplo, muitas pessoas (por assim dizer do “Facebook”) estão conectadas com “grupos da A∴A∴” e, como sabemos, todas elas são “estrelas” individuais, e estão atraídas pela A∴A∴, mas no momento estão em uma órbita muito ampla (como o Cinturião de Kuiper ou a Nuvem de Oort ao redor do sistema solar), e elas viajam seu Caminho individual em torno da A∴A∴ como seu ponto de interesse – mas ainda assim elas ainda não estão “conectadas” à Fonte, nem sob sua influência direta.
Então, a ideia de “linhagens” da A∴A∴ retrata uma única constelação da A∴A∴ com suas relações estelares específicas que estão conectadas pela interinfluência de energias, gravidade, espírito, grupo, vontade, ou mesmo “destino” – e esta “única” linhagem em certo ponto de sua existência recebeu qualquer certa quantia de influência da Fonte de Poder da A∴A∴.
Pode-se dizer que há sete constelações principais da A∴A∴ que irradiam as influências dela em um espaço circundatório e externo mais amplo.
A explicação dada acima, da atração da A∴A∴, define as relações, traz paz às diferenças individuais de constelações estelares e dá a aprovação de “partículas residuais” da A∴A∴ – certas Estrelas que com sua energia se separam da atração gravitacional de modo que prossigam em seu próprio Caminho, em qualquer direção cósmica, seja lá qual for. Até mesmo a assimilação da estrela menor na maior, a destruição ou a dissolução de uma estrela ou de um grupo de estrelas é compreensível neste contexto. A rotação de estrelas gêmeas também ganha um significado mais razoável em relação às interações estelares da A∴A∴ Central. A Estrela com outras Estrelas em sua “galáxia”. Esta descrição é mais preferível do que os “ramos” e “linhagens” simbólicos da ideia mundana e do antigo êon de transmissões “apostólicas”. Ao compreender a sua Natureza Estelar e o Poder das habilidades dessa Fonte mais transcedental do Centro Espiritual todos obtém a capacidade de sentir a luz das estrelas derramar-se sobre eles – qualquer pessoa ou qualquer grupo.
“Avançai, ó crianças, sob as estrelas, e tomai a vossa plenitude de amor.”
A Constelação de estrelas é uma “parte” do Céu onde um certo grupo de estrelas estão em conjunto, próximas umas das outras, criando uma forma “imaginária” que pode ter um significado mitológico, religioso ou espiritual, ou uma história “atrelada” como descrição da sua natureza única. Em termos comuns os astrônomos chamam isso de Asterismo – ou seja, o grupo de corpos celestes que formam uma determinada imagem sobre o Céu ou que estão atraídas umas às outras. Na astronomia a constelação é uma determinada parte do céu que inclui todos os corpos em sua região. As seções do céu tem para nós, seres humanos, uma conotação histórica específica, e todas as regiões são precisamente “separadas” e definidas com barreiras compreensíveis.
A Estrela de Prata, ou como muitos a “conhecem”, a A∴A∴ (“Astron Argon” / “Aster Argos”) é um Centurião de certa galáxia espiritual e estelar que é cercada por certo número de estrelas que são diretamente influenciadas por esta fonte central de poder da A∴A∴, de modo que as estrelas definiram seus Caminhos de maneira inconfundível ao redor da “estação” Central da A∴A∴, assim afetando outras, e por assim dizer “menores”, estrelas – formando constelações Estelares que se movem com o fluxo da A∴A∴.
Desta forma, todas as estrelas tem sua parte no movimento gravitacional mútuo da A∴A∴. Algumas estrelas (e constelações atreladas) tem o seu Caminho mais próximo, alguns apenas estão de passagem, se aproximam e partem, e não se prendem à A∴A∴. A Fonte da Estrela de Prata não “prende” as estrelas ou as amarras contrariamente à sua Natureza. Mas muitas estrelas ou grupos estelares sentem a ampla influência dessa “radiação” espiritual. Alguns de fato vêem esse Centro Espiritual, mas mesmo assim não interferem – observação não é essencialmente interação. A A∴A∴ resplandece sua luz, e essa Luz interpenetra todas as regiões do Espaço Infinito – mas assim também é com as outras Fontes Espirituais neste Universo Infinito.
Assim, voltamos à ideia de “linhagens de descendência” da A∴A∴ (alguns gostam de chamá-las assim) que definem que certa Estrela foi influenciada e conectada à Fonte central, interagindo na troca mútua de energia, gravidade, vontade espiritual – sendo assim “Escolhida” para uma transmissão Divina especial. Já que sabemos que a “palavra de Pecado é Restrição”, não podemos dizer que apenas uma estrela é “a escolhida”; e por sabermos que “Todo homem e toda mulher é uma estrela”,   nós Entendemos aquela Luz que brilha o Sol Central da A∴A∴  e dá sua Lei para Todos.
“Acima, o adornado azul-celeste é
O esplendor nu de Nuit;
Ela se curva em êxtase para beijar
Os ardores secretos de Hadit.
O globo alado, o azul estrelado,
São meus, Ó Ankh-af-na-khonsu!”

A International Astronomical Union definiu cerca de 88 constelações “modernas” com regiões precisas, de modo que qualquer ponto no céu pertence a uma única constelação. Como sabemos, a maioria das constelações conhecidas derivam seus nomes, histórias e “significado” – como uma representação precisa de sua Verdadeira Natureza – dos Mitos e Lendas da Mesopotâmia, Suméria, Arábia e Grécia Antiga.
Alguns de nós que são mais interessados na Astrologia, como uma Ciência de conhecer a natureza das estrelas (e sua influência neste pequeno planeta e seus ocupantes – estrelas encarnadas) estão bem cientes das Doze constelações principais, e das seções da esfera celeste que transmitem influências Exteriores e radiação estelar para “nós”, ... “aqui”.
Há também 22 bem conhecidas emanações-raiz do “alfabeto” espiritual que estão relacionadas à sua trajetória de energias quádruplas a 88 seções sobre o Céu. Através delas podemos aprender e conhecer a natureza das Estrelas e que vivemos em constante intercâmbio mútuo de Emanações de Luz.
“Agora vós sabereis que o sacerdote e apóstolo escolhido do espaço infinito é o príncipe-sacerdote a Besta; e na sua mulher chamada a Mulher Escarlate todo o poder é concedido. Eles deverão reunir minhas crianças em sua congregação: eles deverão trazer a glória das estrelas para os corações dos homens.”
Nossa Ordem, ou “linhagem”, ou como chamamos por meio de nosso Entendimento – “a constelação de estrelas da A∴A∴ local” tem a sua singularidade – devido à Natureza das estrelas que compõem esta constelação e devido às forças energéticas e gravitacionais que atuam entre nós. A interação com outras “constelações da A∴A∴” existe, de forma mais ou menos aprovada ou reconhecida, no entanto, deve ser claramente entendido que todas as constelações da A∴A∴ (ou “linhagens” atreladas) tem seu movimento ao redor da Estação Central da A∴A∴ que é a nossa principal fonte espiritual e o Eixo destas Cercanias Estelares.
Por este pequeno e inusitado escrito, que misturou os fatos científicos básicos e conhecimento oculto, vemos a Vida, a Liberdade e a Luz no Amor do Material e do Espiritual, individual e em massa, através do Elo mágico de todas as Estrelas n’Esta Companhia do Céu com seu Espaço Infinito e as Infinitas Estrelas deste – na Deusa NUIT.
Este é um chamado para que Você perceba e compreenda a Sua própria Verdadeira Natureza – que é feita de Energia e Consciência Estelares, flutuando em fluidos de relações com outras Estrelas, respeitando e tolerando as emanações específicas da Luz de Todas as fontes existentes. E da mesma forma que a Lei de Thelema é para Todos, assim também afirmamos que Tudo está sob influência do Sol Central e Principal de nossa Unidade Espiritual – a A∴A∴.
“Invocai-me sob minhas estrelas! Amor é a lei, amor sob vontade. Nem permitis que os tolos confundam o amor; pois existe amor e amor. Existe a pomba, e existe a serpente. Escolhei bem!  Ele, meu profeta, escolheu, conhecendo a lei da fortaleza, e o grande mistério da Casa de Deus.”

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Pergaminho Voador Nº XV Homem e Deus

Pergaminho Voador Nº XV
Homem e Deus

pelo G.H. Fra. N.O.M. (Dr. W. W. Westcott)

O círculo dos Membros do Grau de Adeptus da Ordem da R.R. et A.C. é uma fraternidade de estudantes das Ciências Herméticas e da Arte Hermética.

A corrente que nos une é a aceitação das doutrinas e da sabedoria contidas nos Rituais de nossa Ordem. A mesma afirmação vale para a Ordem da G.D., esse curso preliminar de instrução através do qual todos devem ter passado. A base comum da Fraternidade é a aceitação sincera da filosofia Hermética antiga, tal como expressa nas representações Ritualísticas, Pictóricas e Simbólicas que nos foram oferecidas em cada fase de nosso progresso.

Os ensinamentos da G.D. têm referência principalmente à Religião e à Filosofia; mas é claro que é óbvio que os nossos Rituais são apenas esboços e pontos de referência no mundo do pensamento.
Os espaços vagos cada membro preenche por si só, ou deixa em branco.

Um pouco de consideração nos garantirá que estes espaços vagos são preenchidos por membros individuais de maneiras muito diferentes. Toda sombra de heterodoxia é representada entre nós; e alguns de nós são quase ortodoxos, no entanto, todos nós sentimos um laço poderoso que nos une: este é a Sabedoria de nosso Ritual.

De onde vêm esses rituais, por quem vieram, e até mesmo quem são os nossos atuais Chefes do Templo, são todos assuntos de interesse secundário. O elemento pessoal do governo é apenas uma questão do regime de tempo, lugar e finanças, e não há nenhuma pretensão de autoridade de nada além do Ritual aceito. Vocês que estão aqui hoje para ouvir esta palestra (ou vocês que a lerão em seguida), vieram a esta Câmara só para buscar das minhas palavras outras sugestões de pensamento sobre os ensinamentos Ocultistas, você estão bem cientes de que eu só represento a mim mesmo no que eu digo, e que cada um de vocês é perfeitamente livre para reter o que parecer bom para vós e rejeitar o refugo. Na minha honra para com a Ordem na qual eu tenho uma parte, eu sempre fiz a mais clara distinção entre o Ritual Antigo e os nossos comentários modernos, e esta distinção deve-se sempre ter em mente, pois não deve ser considerado que as doutrinas de qualquer indivíduo mais velho ou governante são, necessariamente, completamente verdadeiras à fé Hermética. Todos os indivíduos se desviam, mesmo que alguns vão mais longe do que os outros. Então a presente Ordem não tem nem Papa e nem Papisa, e a nossa Bíblia em cada estágio é imperfeita; somos colegas, ainda implorando pela Luz; e cada aula dada aqui é apenas a expressão de opiniões pessoais de alguém que há muito mais tempo do que a maioria trilhou o caminho do progresso Hermético, e a proporção de doutrina ou fato que você aceita deve ser estimada por vocês, para si mesmos – é um dever que vocês devem a si mesmos trabalhar as suas próprias transmutações – alterar os poderes da vida sensual física nas faculdades espirituais refinadas do Adeptado, tanto em verdade quanto em nome. Como Adepto sênior entre vós, por agora, meus deveres são em mantê-los nas doutrinas de nossos Rituais, até onde seguem, – e deixá-los completamente livres onde elas não levam, mas estimular os seus esforços na busca do Ouro Filosófico por ocasionais breves ensaios meus, que embora bastante sem autoridade, sugerirão temas e linhas de pensamento que aqueles que vieram antes de vocês acharam fecundos de ideais elevados.

Hoje estou prestes a imitar os clérigos e dizer algo sobre dois textos, a partir da Bíblia hebraica; e então todos vocês são livres para pensar o que quiserem sobre o assunto.

Minha opinião é que uma parte é histórica, e uma parte da história é alegórica, e que enquanto ela foi concebida como um manual para a população, ainda há nela muitas referências a um credo esotérico realizado pelos sacerdotes da Nação.

Parece-me que os Nomes Divinos do Volume hebraico escondem especialmente e ainda assim revelam um vislumbre dos segredos do poder, da majestade e da governança Divinos. A Ciência Oculta em todas as épocas viu mistérios poderosos no nome Jeová. Os dois textos que estou prestes a me referir, igualmente, aludem ao grande nome Elohim.

O primeiro texto se encontra em Êxodo 32, Versículo 1, e foi usado, da forma que lembrarei, como um texto de meu G.H. Fra. D.D.C.F. em uma palestra que ele deu há dez anos para a Sociedade Hermética de minha querida amiga Anna Kingsford – é a palavra dos israelitas para Arão, quando Moisés subiu para buscar a Deus.

Faze-nos Elohim, que vão adiante de nós, ou, que nos faça Deuses para nos ajudar, para formar os nossos ideais. O outro texto está em Gênesis 1:26, Veamar Elohim Nosher Adam Be Azelinunu Re demuthun. E os Elohim disseram, façamos o homem em nossa imagem e após nossa semelhança. Perceba o contraste e a alternância de expressão. Os homens gritaram façamos deuses. Os Deuses disseram façamos homens. Estamos aqui em busca dos deuses, ou dos ideais divinos, e estamos fazendo homens; porque os homens fazem a si mesmos e fazem seus próprios deuses. O Poeta canta:
Os deuses etíopes têm olhos etíopes
Lábios grossos e cabelos encrespados;
Os deuses da Grécia eram como os gregos
Igualmente fortes, frios e Belos

Um filósofo moderno escreveu: “Os Deuses podem ter feito o homem, mas os homens fizeram os seus próprios Deuses, e fizeram uma grande confusão disso”. Tenhamos cuidado com que deuses fazemos para nós mesmos, e em que pedestais os colocamos.

O grande Jeová pode ter criado o homem no Jardim do Éden, não importa para mim; mas eu sei que eu me crio, e eu sei que vocês o tempo todo criam a si mesmos – a criança de fato é o pai do homem, tão certo como que o homem é o pai do filho – um poderoso mistério. Ora, Moisés subiu o monte santo para buscar a ajuda divina: este Sinai era a Montanha de Deus – a Montanha das Cavernas, a Montanha de Abiegnus, a Montanha mística da Iniciação – ou seja, da instrução divina. Mesmo assim buscamos inspiração na Montanha mística, passando pelo deserto de Horeb, esse período da vida que a princípio é um deserto para nós, enquanto deixamos de lado os prazeres mundanos, e procuramos passar através das Cavernas – nossa Cripta, para a união com os poderes espirituais acima de nós, que enviam um raio de luz para iluminar as nossas mentes e incendiar os nossos corações, o centro espiritual, com um entusiasmo pela vida superior do maior auto-sacrifício, do maior auto-controle – pelo qual significa que o homem sozinho pode chegar até o Divino e tornar-se um com o Todo – o grande Um-Tudo.

Nossa M.H. Sor. S.S.D.D. em um pergaminho anterior apontou essa passagem pelo deserto, e aquele volume de belos pensamentos, A Voz do Silêncio, faz alusão ao mesmo período do teste, que deve preceder o sucesso na realização da Vida Superior – Luz no Caminho também retrata bem o período de transição, quando pela energia do entusiasmo o pupilo inspirado deixa de lado a ambição mundana e as alegrias da vida, o orgulho do olho, a luxúria da carne, e aguenta firme buscando o ponto de apoio do primeiro degrau da escada mística, cuja ascensão pode preencher o coração com tais aspirações sublimes que o caminho não é mais íngreme e nem triste, e quando o Sol nascendo de Tiphareth, lançando um raio de esplendor sobre o Caminho, incentiva o labutador à consumação a ser desejada devotamente. Eu disse que nós criamos os nossos próprios deuses, e essa é uma grande verdade secreta. Moisés criou o seu Deus, e impressionou o seu ideal sobre as pessoas que ele liderou – Maomé formulou sua própria idéia de Deus, e de união pós-mortem com Deus, e de um Céu onde os homens são visitantes de um vasto Harém Celestial. Jesus ensinou a sua ideia de seu Pai, e suas sugestões tingiram o ideal de Deus de milhões; mas a mera adesão de milhões a qualquer doutrina é somente uma fraca evidência de sua verdade, pois como disse Carlyle, a maioria dos homens são tolos – o Homem não só formula uma Divindade, mas também projeta um contraste com a nossa noção de grandeza, conhecimento e poder Supernos. Assim também o Gênesis, pois ali encontramos Jeová frustrado pela Serpente; encontramos no livro de Jó que o Supremo foi conduzido à insensatez ou ingratidão ou pior, por Satanás, que veio diante dele entre os Filhos de Deus – e por força da aplicação a Jó de cada sofrimento terreno, procurou degradá-lo diante de seu Mestre. Encontramos os Evangelistas descrevendo um Satanás somente segundo a Jesus, que tinha poder para prometer, e, devemos supor, a conferir a Jesus, ou o Senhorio do Mundo ou uma supremacia divina sobre a matéria, – se ele apenas propusesse uma submissão nominal.

Nós encontramos o sacerdote medieval europeu formulando o demônio humano com chifres e rabo grotescos e, finalmente, somos instruídos sobre a enumeração cabalística das Sephiroth Malignas e Avessas. Não são todas estas ideais humanos, e se fôssemos somente filosóficos no coração, não devemos confessar que essas noções são apenas tentativas fúteis de expressar o desconhecido e incognoscível? Nenhum homem pode ir além de seus próprios poderes, e se nós somente formularmos como divino o nosso próprio ideal altíssimo pouco dano pode ser feito, contanto que outorguemos poderes iguais de formulação aos nossos irmãos.

Mas no que diz respeito a Seres Malignos, evitemos, e tomemos cuidado ao especular ou projetar forças contrastantes aos nossos altos ideais; pois a mente tem uma força criativa que pouco conhecemos ou compreendemos, e em nossa ignorância, podemos criar em nossa própria auras personalidades malignas em espaços que poderiam ter permanecido vagos.

Nunca arrisque a criação de forças Malignas, vamos evitar e repelir com coragem, firmeza e decisão todas as prontidões do mal que nos atacam – mas evitemos a arrogância e a impertinência, pois até mesmo as assim chamadas forças malignas, os poderes contrastantes, têm funções a desempenhar, e até mesmo as forças do mal pode ajudar a avançar as do bem, como é tão lindamente aludido em nosso Ritual de Adeptus. É suficiente dizer que cada homem tem uma natureza dual, ou que todo homem tem forças duplas – Yetza ha Ra-Yetzer ha Job – atendendendo a ele; ou como o teósofo prefere colocar a questão, o homem tem um manas superior e um manas inferior, e o destino de qualquer indivíduo está dentro de limites sob seu próprio controle.

O resultado geral da vida presente pode ser positivo ou negativo, pois o Homem tem Livre Arbítrio, dentro de limites, e limites muito expansíveis também. Deus, ou os Poderes Divinos, de fato projetaram e constituíram o plano da constituição, origem e destino do Homem, e é somente de momento superficial se na filosofia consideramos o Homem como um Ternário, um Setenário ou como uma Década, mas é de vital importância lembrar que com o Livre Arbítrio vem a responsabilidade pessoal, e que todo pensamento e ato; que estamos diariamente e a cada hora realizando fazem a história futura de nós mesmos, e acumulando destino cuja realização não pode ser impedida por intervenção divina nem alterado por um piegas arrependimento sentimental, nem pelos sofrimentos sub-reptícios substituídos de outros. O tipo do homem pode realmente ser visto como emanando dos Elohim da Vida, do Alto Setenário dos Poderes, e a sua constituição pode ser em forma elementar atribuída ao Sol como o Doador do Fogo Vital, à Lua pela Moldagem Astral da Forma, à Terra pelo corpo Material: os Planetas e Estrelas podem influenciar a forma, o crescimento e as tendências do homem, mas o destino do Pensador dependerá dos Pensamentos. Isto é tudo verdadeiro para o homem como um tipo de Criação – o Homem como um Indivíduo a todo instante cria a si mesmo – Uma vida cria a outra. Pode haver um Céu final, um descanso final, uma re-absorção na Deidade, mas isto não é agora. A escada da progressão da terra para o céu deve ser escalada, antes do pé poder atingir o cume. Alguns egos podem subir rapidamente, alguns podem passar lentamente, o próprio esforço é a medida do sucesso.

Então criemos o Homem – criemos o Homem Divino a partir do Homem Humano. Criemos o homem Hermético ideal do homem material sensual. É nosso dever sagrado abrir o Véu de Paroketh e deixar o nosso intelecto humano atingir a percepção do Santo dos Santos que brilha dentro de nós a partir de cima. Porque agora vemos-nos através de um vidro escuro, mas quando o Véu aberto, veremos Deus face a face.

Assim como os Alquimistas do passado, quando passando do físico, desenharam a imagem da transmutação das Almas ou a tradução para a eternidade do tempo – assim como eles também perceberam este Crescimento e Desenvolvimento da Alma.

Eles escreveram em bela alegoria:

O Coração do homem é como o Sol, o órgão de recepção do Raio Divino da intuição espiritual descendo para o Homem. O Cérebro do Homem é como a Lua, – a fonte do intelecto humano. O Corpo do Homem é o veículo terreno.

Que o Sol impregne a Lua, ou que o Fogo Espiritual induza o intelecto humano – e que o resultado frutifique no seio de um Corpo purificado, e você desenvolverá o Filho do Sol, a Quintessência, a Pedra dos Sábios, a Verdadeira Sabedoria e a Felicidade Perfeita.

Traduzido por Frater S.R.

quarta-feira, 11 de abril de 2012

Marcelo Ramos Motta: Um Enigma por Euclydes Lacerda de Almeida

Introdução da Presente Edição


Faze o que tu queres deverá ser o todo da Lei.

História de Thelema e biografias de Thelemitas são os dois mais importantes métodos de se demonstrar o que dá certo e o que pode gerar grandes problemas, inclusive na esfera pessoal. O Thelemita deve ser sempre ele mesmo, sem copiar outros ou se agir confirme opiniões alheias, ele deve se deixar manifestar pelos quatro raios da Lei da Vontade e seguir o fluxo de sua vida sempre naturalmente. Mas isso não quer dizer que ele não possa olhar para trás, na história, e não repetir erros estúpidos e algumas vezes infantis. Não é preciso criticar em demasia, é preciso entrar em contato com a história e tirar o melhor dela, aplicando – quando conveniente – em sua vida e, se possível, não aplicando o que já foi comprovado ser sem nexo.
Marcelo Ramos Motta: Um Enigma é um texto fundamental a todo aspirante à Thelema e obrigatório a todo Thelemita, já que ele aborda importantes e fundamentais questões sobre inúmeros pontos, não apenas do protagonista, mas também da complexidade e seriedade da carreira Místico/Mágica dentro da Era de Hórus. Marcelo Motta, dono de uma personalidade antagônica, foi também o maior pilar Thelêmico Brasileiro e mesmo cheio de erros, seus acertos demonstram sua capacidade incrível de se entregar completamente à Obra, tendo assumido de forma grandiosa e com muita força e raça, o fito de difundir a Lei de Thelema. Marcelo Motta foi certamente um Grande Thelemita e sem sombra de dúvidas para todos nós, ele deve ser considerado como um Santo (dentro da visão Gnóstica que pode ser encontrada na Missa Gnóstica).
A presente edição foi revisada e sua formatação foi alterada de forma a melhorar sua leitura. Esta não se entende como versão final, com o passar do tempo é possível que novas revisões sejam realizadas.
Um ponto importante é que o leitor não deve se focar na organização X ou Y, erros, todos cometem, o mais importante é corrigi-los e seguir em frente nesta Luz. A questão nunca deve ser qual é – por exemplo – a O.T.O. verdadeira, mas sim, quais são os ramos que realmente trabalham em prol do crescimento desse processo e da humanidade em geral.
Por fim, é importante dizer que há menções a alguns documentos que ainda não estão disponíveis, estamos buscando por eles e tão logo que possível eles serão adicionados a esta edição.

Uma ótima leitura!

Amor é a lei, amor sob vontade.

Hoor-paar-kraat



Introdução

Quem ouve falar de Marcelo Ramos Motta, um meticuloso e extremamente exigente Instrutor da A∴A∴, e que indubitavelmente foi o iniciador de Thelema no Brasil, não consegue imaginar o quanto a trajetória deste homem influiu no pensamento thelêmico mundial. Como legítimo membro da A∴A∴, Marcelo Ramos Motta, treinou vários estudantes no Brasil, entre os quais se encontrava Frater T.[1], que permaneceu sob a Baqueta de Frater E. durante treze anos consecutivos (1961/1974), seguindo posteriormente seu próprio caminho, mas sempre procurando manter-se dentro da linha desenvolvida por de seu Instrutor, honrando, assim, sua Linhagem Sucessória. A partir de 1974, Marcelo Motta começou a mostrar uma peculiar transformação em seu caráter.
Mesmo os seus mais íntimos colaboradores não escaparam das funestas consequências desta mudança. Não demorou muito para surgirem atritos e cismas no grupo formado.
Ao que parece, o grande erro de Marcelo Motta, foi tomar sobre si próprio todos os Cargos Oficiais da Ordem (Præmonstrator, Cancellarius, Imperator), alijando continuamente candidatos capacitados para os mesmos. O acumulo de responsabilidade e a natural pressão que um Iniciado recebe sobre sua pessoa, eclodiu naquela mudança radical.
O processo da bizarra transformação crescia a cada dia e, aproximadamente em 1980, o transformou num homem amargurado, irascível, e altamente rude.
Muitos de seus discípulos retiraram-se de um ativo envolvimento com ele; outros se retiraram ao silêncio[2], enquanto outros perduraram na vã esperança de uma mudança do quadro. Tudo inútil. Viriam posteriormente seguir os passos dos anteriores. Nesta época, a polêmica figura de Marcelo Motta, somente conseguia angariar inadequados candidatos à iniciação na O.T.O.[3]. Indivíduos visivelmente inclinados a uma personalidade fanática: um reflexo daquela que agora o líder apresentava.
Tal fanatismo (ou paranoia) chegou a tal ponto que, na Inglaterra, um desses discípulos tramou explodir a livraria de antigos e conhecidos editores britânicos (Routledge & Kegan), simplesmente porque Marcelo Motta estaria aborrecido com eles (Este estudante, erradamente, quase destruiu outra livraria. Preso, veio a falecer na prisão.).
Mas nem a O.T.O., nem a A∴A∴, e nem o Ocultismo em geral, podem ser responsabilizados por estes exageros. Nem mesmo o próprio Marcelo Motta pode ser apresentado como culpado. É da natureza humana o erro, o desequilíbrio, etc.; principalmente nesta fase tumultuada da Evolução Humana. A existência do erro, do engano, ou de se deixar levar pela ilusão de um inflamado ego, somente ser evitada com extrema autovigilância.
Não há iniciado que não corra o risco de ser envolvido desta maneira por sua parte negativa, advinda do veículo grosseiro ainda não equilibrado. Porém, como dito por alguns: São ossos do ofício. Em nenhuma Ordem ou Sistema realmente eficiente, estará o Estudante protegido de tal perigo intrínseco à própria natureza da Iniciação, a Real Iniciação mexe com a estrutura física, mental e espiritual do Candidato. Ela atua diretamente nos Chakras. Por isto, todo trabalho mágico-místico contém em si um grande perigo, o perigo do desequilíbrio.[4] A linha que separa o Iniciado do Louco é bastante tênue.
Deve parecer paradoxal de como um legítimo membro da Grande Ordem, possa cair numa situação deste tipo. Existem duas explicações razoáveis do problema, mas não absolutas ou definitivas.
Basta que se estude os pontos cruciais da Carreira Iniciática, particularmente a Passagem pelo Véu de Paroketh, e aquele do Juramento do Abismo.
Qualquer homem ou mulher (mesmo um profano, que por qualquer motivo o venha conhecer O Juramento do Abismo), tem o sagrado direito de tomar o Juramento, a qualquer momento de sua vida, o qual é o mais sério de toda carreira iniciática.
O Estudante julgando-se pronto para este Juramento pode tentar aquela travessia, sem que na realidade esteja o bastante maduro para tal[5]. É uma ilusão que toma de assalto o ego. Isto acontece e continuará a acontecer a todos que, em um momento de suas vidas iniciáticas, perdem a autocrítica. O fenômeno pode ser ativado por alguma ilusória visão ou evento místico-mágico que venha massagear o ego do Estudante, dando-lhe a falsa impressão de ter atingido certo elevado grau dentro da Hierarquia, isto é, ele supervaloriza a visão e o evento que podem ser tão somente a projeção de um turbilhão astral provocado por suas práticas intensas. Desta maneira assume inadvertidamente o Juramento[6]. Não podemos condena-lo por tal equívoco. Enquanto que por um lado a assunção do Juramento revela um ato de coragem, por outro, e na maioria das ocasiões, revela um ato de temeridade presunçosa. O problema se torna por demais complexo para ser aqui explorado a contento. Mas, como escrito em Liber Libræ: Não te apresses a condenar os outros; como saber se tu no lugar deles resistirias às tentações? E mesmo que tu fosse mais forte que eles, porque desprezar àqueles que são mais fracos que tu? Este ensinamento deveria ser observado e sempre mantido na mente do Estudante desejoso em seguir correta e equilibradamente a Senda da Iniciação.[7]
O grande problema contido no Juramento do Abismo está explícito em Liber Samech …se restar inabsorvido um só tomo que seja do falso ego, aquele tomo mancharia a virgindade do Verdadeiro Ente, e profanaria o Juramento; então aquele tomo seria inflamado de tal forma pela proximidade do Anjo que venceria o resto da mente, tiranizando-a, e se tornaria um déspota louco. Não podemos afirmar que um tal desastre ocorreu com Marcelo Motta. Mas também não podemos descartar a hipótese.
A Segunda explicação seria que Marcelo Motta, desde criança, fosse portador de qualquer distúrbio mental. Talvez provocado pela dominadora influência de sua mãe. Ele mesmo admite isto ao declarar em Chamando Os Filhos Do Sol: Eu continuava masturbando-me periodicamente, e sentia que intuitivamente que minha presença no trabalho de loja (da FRA) era, em tais condições, indesejável. E mais: … eu era mágicamente dominado por minha mãe …. que era donzela anos após a puberdade; que tinha receio das mulheres; que me entregava à masturbação; e que, enfim, meu desenvolvimento emocional, devido ao laço mágico com minha mãe (chamado pelos psicólogos profanos de Complexo de Édipo), estava retardado vários anos. Para Iniciados do Santuário da Gnose, isto se torna bastante claro. Para outros, deveriam consultar Magick Without Tears, no Capítulo Amor de Mãe.
Mas existe outra hipótese, a qual não discutirei aqui. Ela já foi, e por várias vezes, ventilada em outros trabalhos.

 

Marcelo Ramos Motta: Um Enigma

A Primeira parte deste trabalho é constituída de rápidos “flashs” da vida de Marcelo Ramos Motta. Na Segunda parte respondemos a questões elaboradas por vários interessados – pessoas que não o conheceram pessoalmente, mas que, por um motivo ou outro, sentem- se atraídas pelo trabalho de Marcelo Motta.
A Terceira parte consta de um relato de Euclydes Lacerda de Almeida, do período (1962 a 1975) em que conviveu com Marcelo Motta, na qualidade de seu discípulo e, de certa forma, amigo pessoal.
Na Quarta parte, também sob a visão de Euclydes Lacerda, teremos um histórico dos acontecimentos compreendidos entre 1975 a 1987.
É um trabalho dirigido no sentido de estudar as “relações” entre Marcelo Motta (e outros) e a oligarquia thelêmica, iniciada por volta de 1987, vistas através de um homem que participou de todos os eventos ocorridos no Brasil.
Embora em choques doutrinários, as duas facções antagônicas parecem defender os mesmos interesses, isto é, os interesses do Sistema Thelêmico visto como um bloco, do qual as duas facções seriam simplesmente derivações, numa expressão de grupos de poder regional. Espera-se também possibilitar uma maior precisão nas constatações feitas sobre este período, ainda muito gerais e insuficientes, ajudando a dar um pequeno passo na elaboração constante e sempre renovável da realidade histórica.
A época estudada é vista como um período durante o qual existia no Brasil um movimento não muito bem definido e quase não conhecido pela maioria dos ocultistas deste país. Um movimento em fase de gestação. Um embrião que deveria crescer, criando as necessárias condições para que o Sistema Thelêmico se apresentasse de uma maneira pura e não distorcida, como infelizmente veio a acontecer para prejuízo de todos.

 

Interregno

Em 1976, Marcelo Motta publicou no Brasil o seu “Equinócio dos Deuses”, Vol. I nº 1. Em “Nota Final” do referido livro (pag. 154), aparece uma informação a respeito de Euclydes Lacerda de Almeida (Documento nos arquivos da S.N.Æ.). Assim, iniciaram as atribulações dele até hoje. E nenhuma voz levantou-se em sua defesa. Jamais, em tempo algum, Marcelo Motta e seus seguidores lhe deram o sagrado direito de defesa contra as acusações ali escritas.
Agora, passados 11 anos, é o momento da resposta.
Tornou-se crença geral que Euclydes foi expulso da O.T.O., isto é, do Ramo criado por Marcelo Motta.
Todavia, para surpresa de muitos na “Nota Final” inserida em “O Equinócio dos Deuses” jamais esteve escrita a palavra expulso, mas sim suspenso. E mais à frente é dito que “ante a suspensão, Euclydes, obcecado pelo ego pediu demissão da Ordem” (que Ordem?). Nós desafiamos qualquer pessoa a mostrar publicamente a prova deste pedido de demissão, seja da O.T.O., seja da A∴ A∴, ou seja mesmo da S.N.Æ. – simplesmente porque não houve este pedido de demissão. E jamais existiu.
Mesmo não sendo um estudioso e profundo conhecedor da língua Portuguesa, dá para saber que suspensão não é o mesmo que expulsão. Suspensão significa uma punição disciplinar, constituindo-se em afastamento temporário do infrator assim penalizado. Por esta razão o próprio Marcelo afirma, em sua carta, acima citada, que Euclydes estaria ‘banido’ da O.T.O. por cinco anos.
Por expulsão compreende-se o afastamento compulsório e definitivo, sem chance de retorno, causado por grave delito. Por outro lado, demitir-se, traduz um ato livre e de espontânea vontade. Classificar-se este ato como indício de obsessão egoica é, segundo pensamos, ir superficial e demasiadamente longe numa análise psicológica e mesmo mágica – sobretudo quando não houve tal pedido. De qualquer maneira, pelo deduzido do texto, Euclydes jamais foi expulso da Ordem, mas sim suspenso. É o que está escrito em “Nota Final”, página 154, de “O Equinócio dos Deuses”, Vol. I nº 1.
Nesta mesma “Nota Final”, várias questões permanecem “no ar”. Primeira: Qual o motivo da suspensão? Muito vagamente é ali declarado ter sido por “má conduta”, sem determinar que tipo de má conduta foi esta. Segundo: É revelado crua e cinicamente que, após pedir demissão, Euclydes, procurou ligar-se à Kenneth Grant (gravem bem esta afirmativa. Será de grande importância para compreensão de toda trama armada pelo Sr. Marcelo Motta), “cujo endereço lhe fora dado (a Euclydes, naturalmente – Documento nos arquivos da S.N.Æ.) como parte de um ordálio”. Isto foi escrito em 1976. Terceiro: A Notificação termina com grave acusação à Kenneth Grant, e que Euclydes se utilizara “documentos nem de sua propriedade e nem de sua autoria”. Isto, em bom Português quer dizer simplesmente que Euclydes plagiou escritos de Marcelo Motta. A determinação de quais documentos foram estes, como, e para que, foram plagiados não é dito.
No devido tempo, tanto esta questão, quanto as anteriores serão devidamente analisadas e esclarecidas, e todos poderão decidir da falsidade ou não das afirmativas.
Observando-se detidamente a “Nota Final”, encontramos outras inacuridades. A mais gritante sendo aquela, induzida no texto, da existência de uma O.T.O. devidamente formada e funcionando no Brasil. Marcelo Motta induz esta inverdade aos leitores. A verdade sendo outra: Na época (1975), não existia uma O.T.O. funcionando no Brasil, nem mesmo o suposto ramo criado posteriormente por Marcelo, e muito menos aquela que surgiria muito depois sob o nome de S.O.T.O. – sigla pela qual a “organização mar ana[8]” tornou-se conhecida após os eventos desenvolvidos nos Estados Unidos da América (Corte Californiana). Esta sigla, S.O.T.O., constituiu um artifício usado na Corte da Califórnia para distinguir a O.T.O. McMurtryana daquela de Marcelo Motta. Quanto a esta sigla fazemos em seguida uma série de observações sob exclusivo caráter mágico.
Torna-se evidente a qualquer iniciado, mesmo nos graus mais humildes, que a “mudança” do nome da Ordem, e consequentemente de sua sigla, altera profundamente o sentido oculto do Nome Original. A sigla O.T.O. possui um significado secreto para quem sabe ler nas entrelinhas, e não será qualquer iniciado, mesmo aqueles de graus elevados, que poderá mudá-lo ao impulso de seus interesses particulares. Torna-se evidente que qualquer acréscimo ou supressão de uma simples letra altera significativamente o valor numérico (cabalístico, por assim dizer) e o sentido mágico correspondente. O mais conhecido exemplo desta chave cabalística, encontramos no Antigo Testamento, quando “Deus” muda o nome de ABRM (Pai de Elevação) para ABRHM (Pai de Multidão) e de SRI (Nobilidade) para SRH (Princesa) – veja-se Gênesis 17. 5 -15. Foi um grande erro mágico de Marcelo Motta ter aceitado a “mudança” do nome de sua Organização. Assim, ele aceitou magicamente a pseudo autenticidade da O.T.O. McMurtryana. Em outra parte deste livro daremos mais alguns esclarecimentos quanto ao assunto.
Ante o exposto no capítulo anterior, poderíamos dar por encerrado a análise quanto a “Notificação” contida em “Equinócio dos Deuses”. A conclusão sendo que Euclydes jamais foi expulso da O.T.O., mas sim suspenso, que é bem diferente. Entretanto, vimos que nem mesmo suspenso poderia ele ser, pois é impossível alguém ser suspenso, ou expulso, ou mesmo demitir-se de uma organização inexistente. Este simples e claro fato derruba a “Notificação” em “Nota Final” do, assim chamado, Equinócio dos Deuses – Vol. I nº 1.
Porém, devemos ir mais adiante em busca de mais provas das inverdades contidas em nota final. Urge uma resposta ampla e clara. Afinal foram longos anos, durante os quais, uma mentira foi oferecida ao público, como se verdade fosse. Foram longos anos de acusações e difamações as mais descabidas, assacadas não somente contra Euclydes, mas também contra muitos outros, entre vivos e mortos. Nós comemos a amarga fruta da árvore plantada por Marcelo Motta. Chegou a hora dos que a regaram engolirem o bagaço caroço. Que se cuide aquele que tiver garganta estreita… Isto é dirigido a todos aqueles, que conhecedores da verdade, a mantiveram escondida. Sejam eles, agora, membros de quaisquer Ramos da O.T.O., ou de outras organizações surgidas no mundo, e se dizendo Thelêmicas.
Constitui um ato de Justiça, não de vingança, uma ampla e definitiva resposta às acusações lançadas contra nós, reais iniciadores da O.T.O. no Brasil. Urge uma satisfação a todos os Irmãos e Irmãs. É direito deles, e nosso, que todos saibam exatamente o ocorrido, e o que ocorre com a O.T.O. no Brasil. Necessitamos ir fundo e desenterrar os reais motivos das “expulsões sacramentadas” aqui em nossa terra. Devemos (e isto deveria ter sido feito há muito tempo) analisar o assunto com toda seriedade e atenção que merece, nada permitindo passar em branco. Retirar as mínimas dúvidas, as quais ainda possam permanecer nas mentes e corações de todos os interessados em Thelema em geral e na O.T.O. em particular – mesmo que em certos momentos desta análise tenhamos que expor nossas fraquezas e erros.
Infelizmente para os Membros da S.O.T.O., e para membros de outras tantas organizações, ditas Thelêmicas, existe uma vasta documentação mostrando a realidade dos fatos, dos ardis, das inverdades e das profanações que vêm sendo perpetuadas ao longo desses anos.
Perdidos em uma megalomania monstruosa, membros de várias O.T.Os. não consideraram o fato de que nós, e outros mais, pudéssemos nos erguer do charco ao qual fomos lançados e, nos limpando, surgirmos como a Phœnix da lenda. Também servirá de aviso àqueles, que futuramente, tentarem outro tipo de trama contra Reais Thelemitas. É necessário que todos compreendam até onde vai a irresponsabilidade e o atrevimento daqueles, que se dizendo Frati Superiores, O.H.Os., Califas, etc., tentam ludibriar a todos quantos procuram uma Verdadeira Ordem Iniciática.
Considerem, agora, o dito em “Nota Final”: que ao “pedir demissão da Ordem” (de qual Ordem?), Euclydes “procurou ligação com Kenneth Grant, cujo endereço… etc., etc.”.
Euclydes não procurou ligar-se à Kenneth Grant (não era necessário: ele já se ligara ao inglês através Marcelo Motta, quando este, em carta datada de 10 de dezembro de 1971, diz textualmente: “O Rei Mundial (ou Cabeça Externa) da O.T.O. chama-se Kenneth Grant e seu endereço é…” Em 1973, ao conferir a Patente de Grão Mestre dos Três Primeiros Graus da Ordem no Brasil, Marcelo confirma o dito anterior e, neste mesmo ano (19 de maio) reafirma categoricamente o “status” do inglês: “Eu reconheci a autoridade do Sr. Grant”.
A “estória” do ordálio é uma mentira deslavada. Uma forma de justificar a “suspensão” de Euclydes da Ordem.
Aqui surge uma questão importante: Qual o motivo desta obsessão de Marcelo ver-se livre de Euclydes (e de outros, futuramente?). A resposta tornar-se-á evidente no transcorrer das páginas seguintes.
Observe-se também que a carta de 1971 dirige-se a Euclydes Lacerda, não a Frater Zaratustra. Euclydes era, na época, um simples interessado em Thelema e na O.T.O.. O que vem a ser isto? É bastante simples: Você não pode impor um ordálio sobre alguém que, sequer, assinou Juramento. Isto é, nenhum profano, que não tenha feito o formal pedido de ingresso na Ordem (em qualquer ordem), e que não tenha assinado o Juramento, pode ser posto em prova. Esta era a posição de Euclydes em 1971. Ele, como qualquer outro cidadão, estava tão somente trocando correspondência com Marcelo Motta. E, como este último havia declarado, em 1964, não possuir Patente (ou permissão) para trabalhar com a O.T.O., evidentemente enviou seu correspondente à Kenneth Grant.
Agora, se por outro lado, Marcelo Motta, sabia que Kenneth Grant não era o Cabeça Externa, e que havia sido expulso da Ordem em 1955, então, Marcelo Motta cometeu uma grande blasfêmia contra a Ordem e manteve esta blasfêmia durante todo tempo até 1975, coisa que preferimos não acreditar. Mas caso isto seja afirmativo – que ele sabia da situação do inglês perante a Ordem – demonstrou uma monstruosa falta de ética e moral iniciática.
As inacuridades daquele homem não ficaram somente nisto. Verifiquem que a carta, datada de 1975, dirige-se ao Frater T., não ao Frater Z.. Isto é importante porque Frater T. nada tinha a ver com a O.T.O., ou com a S.N.Æ., Frater T. era um Irmão da A∴ A∴ e, como tal, completamente alheio ao Trabalho da outra Ordem.
Outra interessante falha de Marcelo Motta está em que ele, na página 153 da “Nota Final” (O Equinócio dos Deuses) declara que “é responsável pelo trabalho da O.T.O. no Brasil, com patente de Saturnus Xº”. Mas que Patente? Não afirmara ele mesmo que tal Patente jamais lhe chegou às mãos? Se ele a tinha em seu poder, então porque afirmou ao contrário? Por que ele jamais a apresentou???
Nesta mesma página (Nota Final) ele confirma que nos Estados Unidos da América “Sr. Grady McMurtry é Chefe de Loja e recebeu o IXº O.T.O. diretamente de Baphomet XIº, tendo sido confirmado por Saturnus Xº. E que também Sra. Helen Smith…”.
Está mais do que claro que isto foi escrito em 1976, antes de Marcelo Motta se indispor com estas pessoas. Tão logo aconteceu o rompimento entre elas, imediatamente ele ordenou suprimir as páginas do livro onde apareciam estas afirmativas que, no mínimo, dariam respaldo aos seus, antes aliados, agora inimigos. E, por um desses “acasos” da vida, a página 153 é a outra face da folha contendo a página 154, onde se noticiava a “suspensão” de Euclydes. Conclusão: nas edições mais recentes de “O Equinócio dos Deuses” a tão falada “expulsão” desapareceu juntamente com as informações da expulsão de Kenneth Grant e suspensão (1963) do Rei Suíço, Joseph Metzger.
Se leitores tiverem a oportunidade de adquirir “The Equinox” Vol. V nº 4 (editado por Marcelo Motta nos Estados Unidos da América em 1981) leiam o Editorial. Ali encontrarão novamente o nome de Euclydes Lacerda:
Euclydes de Almeida: once a neophyte under Marcelo Motta. Charged with registering the O.T.O. in Brasil, tried to register it under his own name. Expelled from the O.T.O. got in touch with Kenneth Grant and tried to set himself up as representing the same. A court order was issued: did not try to appeal. Cut contact with the A∴ A∴”.
Jamais, em tempo algum, Marcelo Motta, foi tão infeliz em suas declarações. Nada do ali escrito corresponde à verdade. É pena que um livro (693 páginas) tão bem elaborado, tenha sido usado para tamanhas inverdades.
  1. Jamais, em tempo algum, Euclydes tentou contato com Kenneth Grant. Ele já estava em contato com o mesmo através o próprio Marcelo Motta.
  2. Euclydes jamais tentou registrar a O.T.O. em seu nome. Ele registrou a S.N.Æ. da qual é o Supervisor Geral até os dias de hoje (Documento nos arquivos da S.N.Æ.). Se ele quisesse registrar a O.T.O., isto teria sido fácil. Marcelo é quem a registrou.
  3. Euclydes jamais tentou colocar-se como representante de Kenneth Grant. Ele o representou, no Brasil, durante 15 anos (Documento nos arquivos da S.N.Æ.).
  4. Jamais Euclydes pediu desligamento da A∴ A∴. Tanto isto é verdade que recentemente, em contato com Mr. Starr, este confirmou que o nome de Euclydes constava na Chancelaria da Ordem.Neste Editorial, finalmente, aparece a palavra “expulsão” (expelled) da O.T.O.. Isto porque, na época, Marcelo Motta havia registrado a Ordem no Brasil. Agora sim, ele podia expulsar quem quisesse. Entretanto, assim o fazendo caiu em outro paradoxo. Como expulsar Euclydes de S.O.T.O. se Euclydes jamais pertencera a uma tal organização?

 

Marcelo Motta
Algumas Apreciações

Como legítimo membro da A∴A∴, Marcelo Motta treinou vários estudantes. Frater Aster estava entre estes até o ano de 1975. Mas mesmo os iniciados naquela Ordem não escaparam da ira injustificada de Marcelo, e não demorou muito a serem também acusados de falhas em ordálios só existentes na mente do Instrutor. Uma mente antes brilhante, agora atormentada. Seu maior erro no que toca a A∴A∴ foi tentar acumular todos os Cargos Oficiais da Ordem (Præmonstrator, Cancellarius, Imperator), aliando continuam ente candidatos capacitados para os mesmos.
O processo da bizarra transformação de Marcelo Motta crescia e, aproximadamente em 1980, tornou-se um homem perigoso. Muitos de seus estudantes retiraram-se de um ativo envolvimento com ele; outros se retiraram ao silêncio, enquanto outros perduraram na vã esperança de uma mudança do quadro. Tudo inútil: viriam depois seguir os passos dos anteriores.
Nesta época a polêmica figura dele somente conseguia angariar inadequados candidatos à iniciação tanto na O.T.O. quanto na A∴A∴. Indivíduos visivelmente inclinados a uma personalidade fanática. Desvio este chegando a tal ponto que, na Inglaterra, um deles tramou explodir a livraria de antigos e conhecidos editores britânicos (Routledge & Kegan), simplesmente porque Marcelo estava “aborrecido” com eles. (Este estudante, erradamente, quase destruiu outra livraria. Preso, veio a falecer pouco tempo depois).
Todo este caótico quadro representa uma deplorável parte da herança que Marcelo Motta deixou para vários grupos (atualmente se digladiando) formados a partir da auto proclamada “única e verdadeira O.T.O.”, e que vem recrudescendo após a morte de seu idealizador, liderados por incapazes que somente conheceram Marcelo Motta em seus piores dias.
Mas nem a O.T.O. nem a Grande Ordem, nem o Ocultismo em geral podem ser responsabilizados por esses desvios. Nem mesmo Motta pode ser apresentado como culpado. É da natureza humana o erro. Principalmente nesta fase de sua evolução a existência do engano, ou de se deixar levar pela ilusão de um inflamado ego, é difícil de ser evitada.
Não há iniciado que não corra tal risco. Em nenhuma ordem ou Sistema ele estará protegido de tal perigo intrínseco à natureza da Iniciação. Pode parecer paradoxal ao leitor como Marcelo Motta, um legítimo membro da A∴A∴, tenha chegado a uma situação deste tipo.
Existem duas explicações plausíveis.
Basta que se estude os pontos cruciais da Carreira Iniciática, particularmente o Juramento do Abismo.
Qualquer homem ou mulher tem o direito sagrado de tomar este Juramento, o qual é o mais sério de toda carreira iniciática.
O Estudante, julgando-se pronto, pode tentar aquela travessia sem que na realidade esteja no “ponto” devido. É uma ilusão que toma de assalto o ego. Isto acontece e continuará a acontecer a todos que, em um momento de suas vidas iniciáticas, perdem a noção de perspectiva. O fenômeno é ativado por alguma “visão” ou “evento” místico-mágico que dá ao estudante a falsa impressão de ter atingido certo grau elevado dentro da Hierarquia. Assim, ele assume inadvertidamente o Juramento. Não se pode condená-lo por tal equívoco. Enquanto que por um lado a assunção do Juramento do Abismo revela um ato de coragem, por outro, em muitas ocasiões, revela um ato de temeridade. O problema torna-se por demais complexo para ser aqui explorado a contento. Mas, como escrito em Liber Librœ:

Não te apresses a condenar os outros; como saber se tu no lugar deles resistirias às tentações? E mesmo que fosse tu mais forte que eles, porque desprezar àqueles que são mais fracos que ti?

Este ensinamento deve ser observado à risca por quem deseja seguir corretamente a Senda da Iniciação.
O grande problema contido no Juramento do Abismo está explícito em Liber Samech:

…se restar inabsorvido um só átomo que seja do falso ego, aquele átomo mancharia a virgindade do Verdadeiro Ente, e profanaria o Juramento; então aquele átomo seria inflamado de tal forma pela proximidade do Anjo que venceria o resto da mente, tiranizando-a, e se tornaria um déspota louco.

Não se pode perder de vista a correta divulgação de Thelema, encobrindo o que se passou de fato no Brasil. Mesmo que a causa desta desvirtuação tenha tido sua origem em Marcelo Motta, ou em Frater A., ou em qualquer outro. Esconder a verdade dos fatos como realmente aconteceram seria injusto com aqueles que tanto deram de si mesmos nos primeiros anos, ou mesmo atualmente, em prol de um conhecimento mais amplo da natureza do homem, e do seu lugar no contexto universal.
Discordar dos outros Sistemas de Consecução Espiritual e das pessoas que os adotam é uma coisa bem diferente de injuria-las e condena-las por este motivo. Verdadeiros Thelemitas jamais tomariam uma tal posição… a não ser que estejam loucos ou iludidos pelo ego inflamado. Thelemitas lutam pela liberdade de cada um seguir o caminho que sua Vontade comandar. Mas percebam que esta Vontade se escreve com “V” maiúsculo. Lembrem-se do Lema Thelêmico. Mas nós também nos reservamos o direito de combater qualquer tipo de velhacaria, engano, malícia, etc., pois não são coisas que uma Verdadeira Vontade deseja.
Frater A. tem sido questionado, particularmente por estes tardios discípulos de Marcelo Motta transformado, quanto à autenticidade da S.N.Æ. como uma genuína representante do Soberano Santuário da Gnosis. Sem dúvida é um direito deles assim questionarem. Contudo, baseiam-se eles na ideia de ter sido Frater A. o responsável direto e único do fracasso de Motta em sua tentativa frustrada em concretizar sua ambição pessoal de tonar-se O.H.O. da Ordem.
Agora perguntamos: como poderia Frater A. prejudica-lo se Frater A. pertencia a um grau muitíssimo mais baixo daquele de Marcelo Motta?
Finalizando, é nosso dever alertar aos menos esclarecidos da existência de dois tipos de Abismo. E é muito fácil confundir-se um com o outro.
O que vocês pensam ser o Véu de Paroketh?
Existe uma “passagem” entre as quatro Sephiroth inferiores (Malkuth, Hod, Netzach e Yesod) chamada “Véu de Paroketh” (O Véu do Templo). Esse hiato “separa” estas quatro Sephiroth de Tiphareth (Beleza). Este Véu também representa um “Abismo”. Só que em escala ‘inferior’. Muitos iniciados confundiram este “Abismo” com o Abismo de Daath. Nossa Irmã Helen conta no número desses.

 

A Sociedade Novo Æon e a Loja Nuit

Após a separação de Marcelo Motta e Euclydes, este último resolveu, juntamente com sua mulher e os membros que permaneceram fiéis à seu lado, registrar a Sociedade Novo Æon. Em seguida dedicaram-se à elaboração de um trabalho de divulgação de Thelema. Mas, um trabalho bastante distanciado do sistema hiper ortodoxo do antigo instrutor.
No contexto deste novo sistema – e consequentemente a O.T.O. – não se estruturou em uma hierarquia opressiva e de poder do “macho”. Isso seria um retrocesso. E aqueles que, de uma forma ou de outra, procurando apresentar a ordem com uma estrutura de poder organizado e obcecado com o controle total e absoluto do corpo, mente e alma de seus membros (sejam masculinos ou femininos), estão conduzindo a Ordem, e a si mesmos, para o caminho oposto à Thelema. A O.T.O. nada tem a ver com este monstro exibido pelos líderes da Loja Nuit, e nem com a não menos thelêmica política adotada por outros Ramos espalhados pelo mundo. Porque se a O.T.O. enveredar por tal caminho estará francamente retornando ao mesmo processo que deu origem ao nazismo.
A O.T.O. é (ou deveria ser, em todos os seus Ramos) um Centro Iniciático, no qual a Liberdade de expressão considera-se sagrada, e sua principal função é despertar nos indivíduos a consciência de que eles são divinos. Thelema é afirmação da Vida, do Amor, da Terra Mãe e da Liberdade – não da Morte.
Assim, os esforços do grupo recém – formado dirigiu-se no sentido de apresentar uma Ordem dentro dos parâmetros de Liber OZ, mas com extremo cuidado de não cair nos exageros daqueles que mal compreendem os ditames ali descritos. Liber Oz é um livro que deve ser entendido e compreendido “iniciaticamente”, não profanamente como o tem sido até hoje.
Num curto período apareceram colaboradores entusiasmados pela alegria de trabalharem em prol de Thelema, isto é, em prol da Vontade, Liberdade e Amor – que são as Três Pilastras Sustentando a Vida.
Agora, estavam apoiados numa organização bem fundamentada e, sob o ponto de vista material, legalmente registrada no país. Uma organização genuinamente brasileira. O Lema deste grupo, somado àquele emanado diretamente de Thelema, era o aparente paradoxo do Conde Fênix: “A autoridade absoluta do Estado deve ser a função da liberdade absoluta de cada vontade individual”. Ouçam aqueles que tiverem ouvidos de ouvir…
Num passo seguinte contataram Kenneth Grant que, afinal, era o único membro da O.T.O. conhecido por eles além da Marcelo Motta .
Uma longa carta foi escrita ao inglês relatando, com mínimos detalhes, as últimas ocorrências no Brasil. Em 26 de junho de 1975 (Documento nos arquivos da S.N.Æ.) veio a resposta. A carta de Kenneth Grant, entre outras coisas, trazia comentários sobre as acusações de Marcelo Motta em “Equinócio dos Deuses” – uma cópia lhe fora enviada.
Depois de um período relativamente curto de constante troca de correspondência com a Inglaterra, acordaram em formalizar um elo entre a S.N.Æ. e o Supremo Santuário da Gnosis para a Inglaterra. Na concretização desta aliança, Kenneth Grant, enviou Patente de Membro Honorário do VIIº para Euclydes Lacerda de Almeida (Documento nos arquivos da S.N.Æ.) e publicou em “MEZLA” (Órgão Oficial de Divulgação da O.T.O. Inglesa) Vol. I Nº. 11 – 1977 – Notificação da união entre as duas organizações (Documento nos arquivos da S.N.Æ.).
O grupo inicial era constituído por dezoito indivíduos, entre os quais três maçons de grau elevado e dois membros do grupo anterior, que decidiram ficar com Euclydes.
Ajustados os pontos necessários, Kenneth Grant, colocou Euclydes diretamente sob a hierarquia iniciática de Soror Tanith (J. R. Ayers), líder da O.T.O. Inglesa nos Estados Unidos da América. É com muito carinho e respeito que Euclydes fala sobre esta Instrutora. Durante dez anos seguidos, Euclydes, se correspondeu com Soror Tanith, absorvendo todo ensino daquela Iniciada.
Em 1987 recebeu Notificação de que aquela Instrutora havia se afastado do Trabalho Externo da Ordem. Substituiu-a Soror Maiat. Sob a direção desta nova orientadora, e após suplantar um dificílimo e doloroso ordálio – sobre a qual não lhe agrada comentar, atingiu o IXº O.T.O. – muito embora, Marcelo Motta, já lhe houvera transmitido o Segredo central da Ordem via ensinos orais e “Emblemas e Maneira de Usar”, Liber que constitui um dos mais importantes manuscritos da O.T.O. relacionados com o IX Grau.
Ainda em 1987 recebeu de Kenneth Grant, com aprovação do Supremo Santuário, permissão para uso do Lamen da Ordem. Porém, jamais o usou em conexão com a S.N.Æ., para a qual foi elaborado um Lamen próprio (Documento nos arquivos da S.N.Æ.).
Anteriormente a esses eventos, recebera uma carta deveras intrigante e surpreendente vinda de Oséas de Almeida, um dos que ficaram ao lado de Marcelo Motta durante o cisma. Marcelo e Oséas haviam iniciado um núcleo da O.T.O. na Cidade de São Paulo. Oséas assumira a cargo de Mestre de Loja, supervisionado por Marcelo Motta.
Nesta primeira carta, Oséas pedia ajuda, pura e simplesmente. Sondava a possibilidade de aliar-se a Euclydes em evidente confronto à Marcelo Motta (Documento nos arquivos da S.N.Æ.).
Euclydes respondeu-lhe não estar interessado. Nada tinha a ver com o grupo de São Paulo. Não alimentava qualquer sentimento de desforra. Entretanto, a união dos dois grupos, isto é, a S.N.Æ. e a F.A.A.O.T.O. (nome dado à organização de São Paulo) era inviável por razões óbvias. Numa segunda carta, datada de 24 de julho de 1977, Oséas resume os desagradáveis atritos entre ele e o Supervisor Geral. O texto desta carta será mais eloquente do que mil palavras nossas (vide documentação).
Pacientemente, Euclydes explicou a Oséas, mais uma vez, da inviabilidade desta união: nada tinha a ver com o sistema desenvolvido por Marcelo Motta na divulgação de Thelema no Brasil – um sistema altamente questionável, inadequado, agressivo, com tendências claramente nazistas – impossível de se seguido por qualquer pessoa equilibrada. Lamentava muito, mas nada podia fazer para ajudar Oséas.
Mais tarde, Euclydes, soube do processo aberto por Marcelo contra Oséas. Neste processo sobressaía o problema de “direitos autorais” sobre o Nome O.T.O.. Depois deste incidente, Euclydes, nunca mais teve qualquer contato com Oséas, ou com qualquer outro membro da F.A.A.O.T.O. Recentemente (1997), por intermédio do Sr. Antônio Walter Sena Júnior (Toninho Buda), soube do falecimento de Oséas. Muito antes destas ocorrências (1976) Marcelo Motta reunira em Ribeirão Preto (SP), e à revelia de Oséas, um outro grupo. Com esses novos auxiliares e o afastando Oséas, finalmente fundou uma Loja em 1979, sob o nome de Loja Nuit, a qual, infelizmente, tornou-se bastante conhecida nos meios thelêmicos pelas atitudes intransigentes, agressivas e não educadas de seus componentes.

A Loja Nuit continua… A loja é composta por viciados, desocupados, e todo tipo de jovem que na liberdade (em termos) que lhes dão saem por aí, aprontando tudo… Só lamento que minha cidade, ainda abrigue esta escória. O processo de perda com McMurtry, e outros documentos, o hábil Supervisor levou consigo. Apagou todas as pistas. E aqui e ali, seus discípulos espionam e perseguem a todos que citarem um dos nomes de um de nós expulsos”.

Estas são as palavras do Sr. Marcos Lagamba (Frater Kephra), o homem que ajudou e financiou a fundação da Loja Nuit em Ribeirão Preto. (Documento nos arquivos da S.N.Æ., carta datada de 12 de abril de 1988, dirigida a Euclydes).

Referências identicamente péssimas obtivemos de várias outras pessoas interessadas em Thelema. Segundo estas, as cartas respostas à seus pedidos de maiores detalhes sobre a Loja ou sobre Thelema eram verdadeiros amontoados de asneiras, agressividade, etc.. Estas cartas jamais vinham assinadas. Sempre acusavam os solicitantes de “agentes” da CIA, FBI, Vaticano e, pasmem, de Euclydes Lacerda, como se este fosse capaz de manter uma agência de inteligência.
Toda esta situação causava bastante tristeza em Euclydes. Seu antigo Instrutor tornara-se um homem sem qualquer tipo de equilíbrio. Perigoso, no dizer de alguns. Ele tentava defender Marcelo, mas as evidências eram por demais claras. Ao que lhe parecia, Marcelo, caíra sob domínio de alguma entidade maligna, talvez, quem sabe, por Sammael (O Falso Acusador), a Qlipha de Hod, ou por Ogiel (Arbitrariedade) a Qlipha de Chokmah .
Todas as notícias que lhe chegavam a respeito de seu Instrutor eram do mesmo teor. Essa política incompreensível da Loja Nuit afugentava interessados em Thelema em geral e na O.T.O. em particular, ao invés de atraí-los.
Mais tarde verificou um fato interessante: sem quaisquer exceções todos aqueles, que ligados à Marcelo, ocuparam o cargo de Mestre de Loja, foram execrados e expulsos da “ordem” pelos mesmos motivos, a começar por Frater Kephra, fundador e financiador da Loja Nuit. Frater Saladin, da mesma forma, vindo a morrer de desgosto pouco tempo depois de sua expulsão. Frater Libra, também expulso sob as mais vis acusações. E assim por diante. O mesmo ocorrendo nos Estados Unidos da América e na Inglaterra, onde haviam outras Lojas ligadas à Marcelo.
Em 1988 (12 de abril), Euclydes, soube da morte de Marcelo Motta. A priori não acreditou na notícia. Solicitou informações ao Sr. Alceu. Este lhe enviou cópia xerox do aviso oficial da Sociedade Ordo Templi Orientis Internacional. Surpreendeu-lhe o detalhe de que o aviso vinha dos Estados Unidos da América. (Box 18318 Washington, D.C. 20036 USA) e era assinado por um tal de Daniel B. Stone (Documento nos arquivos da S.N.Æ.).
Intrigado, pediu ao Sr. Eduardo Lemos (um de seus correspondentes) que escrevesse ao tal “fiduciário”. Recebeu resposta em 05 de julho de 1988. Escreveu uma segunda carta. A resposta veio em 08 de agosto de 1988. E mais uma em 1991, quando solicitado informações a respeito da Loja Nuit no Brasil e a Fundação Parzival XIº na Austrália. Através esta terceira missiva tomou conhecimento que os grupos formados por Marcelo, tanto nos USA quanto no Brasil haviam se dividido. Como podemos ver, as lutas pelo poder continuavam em todos os Ramos da O.T.O..
Porém devemos agora retornar há alguns anos atrás. Mais precisamente 1978.
Neste ano, Euclydes, foi residir na Cidade de Linhares (Estado do Espírito Santo), para acompanhar a construção de um terminal marítimo na região. Ali permaneceu até 1985, retornando ao Rio de Janeiro. Esta fase comporta fatos muito importantes, porque durante ela afastou-se de qualquer atividade na S.N.Æ. Os componentes do grupo inicial tomaram cada qual seu próprio caminho, e a S.N.Æ. entrou em fase de dormência.
Foi nesta época que Euclydes atingiu o mais importante trance de suas práticas mágicas e místicas no currículo da A∴A∴, com exceção daquele ocorrido em 1973. O resultado deste transe foi o nascimento de dois livros: “Meu Verdadeiro Nome” e a “Deusa Negra” (Ed. Bhavani).
De retorno ao Rio de Janeiro, ainda trabalhou até 1985, quando se aposentou. Agora tinha todo seu tempo disponível para dedicar-se inteiramente ao trabalho de divulgação de Thelema. Só necessitava reerguer a S.N.Æ.. O que foi feito com auxílio do Sr. Carlos Raposo; o mais dedicado companheiro e irmão de todos os outros.
O tempo passou. Certo dia foi informado pelo Sr. Lassue que Marcelo Motta havia estado em sua livraria (Livraria Lassue), e que parecia, segundo aquele livreiro, estar mal de saúde.
Falando com o Sr. Geraldo dos Santos (Frater Lancelot) a respeito, este confirmou a notícia. Marcelo ao retornar ao Brasil após os incidentes nos Estados Unidos da América, adoecera.
Sinceramente preocupado com o estado de saúde de seu ex-instrutor, ele prontificou-se ir até Ribeirão Preto no intuito de ajudar Marcelo naquilo que fosse necessário. Geraldo alertou-o que poderia ser mal recebido pelo pessoal da Loja Nuit que, praticamente, odiavam a Euclydes.
“Isto não importa” – foi sua resposta. “O importante era rever seu antigo instrutor e ajudá-lo naquela crise.”.
Em Ribeirão Preto foram recebidos por Frater Libra, o qual informou ser impossível contatar Marcelo. Ele havia viajado, etc.. Percebendo mentiras e desculpas esfarrapadas nas palavras do homem, Euclydes, decidiu tomar uma atitude mágica para testar o nível iniciático do tal Frater Libra.
Ele havia levado consigo suas Patentes do VIIº e IXº da O.T.O. Inglesa. E numa característica voz de comando ordenou peremptoriamente àquele Frater que tirasse cópias xerox dos documentos e as entregasse a Marcelo. O homem que se dizia Mestre de Loja aceitou o comando sem pestanejar. Então, Euclydes, compreendeu que à sua frente não se encontrava iniciado algum, mas sim um escravo. Olhou significativamente para Frater Lancelot e recebendo de volta as Patentes originais dali se retirou, voltando no primeiro ônibus para o Rio. Nada tinha a fazer naquele antro de pestilência e escravidão.
Continuou seu trabalho, agora auxiliado por vários outros interessados. Procedeu algumas iniciações utilizando-se de rituais por ele elaborados. Dividiu responsabilidades com Frater B. e transmitiu-lhe o Segredo do IXº.
Existe grande curiosidade em torno deste “segredo”. Mas saibam todos que ele é tão simples como uma conta de somar. Custa a acreditar, quando o descobrimos, que seja assim. Na própria cerimônia da Missa Católica está ele contido. Nela está velado o Mistério que pouquíssimos conhecem. Mesmo pelos padres. Sequer as pessoas compreendem que o Mistério da Missa, do Real Segredo dos Antigos e Aceitos Maçons, dos Templários, e dos verdadeiros Rosa- Cruzes, é um e o mesmo. Este Mistério da Missa, dos Templários, e dos Reais Neo-Cristãos, jaz na Comunhão com Deus cujo Fogo simbólico a Missa descreve em seu drama. As declarações e explicações que a Igreja Romana oferece, no concernente a essência do Mistério da Missa são intencionalmente incorretas, pois as autoridades eclesiásticas no Vaticano sabem a real natureza dela e seu verdadeiro significado. Os padres de níveis mais baixos, dentro da hierarquia do Vaticano, são entretanto, por razões oficiais, deixados completamente no escuro com respeito à esta real natureza. Mas aqueles que tiverem olhos de ver, compreenderão o misterioso Segredo Central da O.T.O. que é, como já dito, o mesmo dos Maçons, dos Rosa-Cruzes e dos Templários.

 

Primeira Parte
O Encontro com Thelema
Marcelo Ramos Motta

Em 26 de agosto de 1987, morria, na Cidade de Teresópolis, Estado do Rio de Janeiro, aos 53 anos de idade, Marcelo Ramos Motta, mais conhecido como Frater Parzival XIº. Seu falecimento[9] foi “festejado” por discípulos, ex-discípulos e inimigos… cada qual a sua maneira.
Quem foi Marcelo Ramos Motta? Por que este homem tornou-se tão polêmico nos círculos do mundo ocultista em geral e do mundo thelêmico em particular? Por que foi tão comentado, odiado, amado e, acima de tudo, temido?
Tentaremos responder todas estas questões dentro da mais imparcial visão possível. Mas fique prevenido o leitor de que nada é tão difícil como falar deste homem, e muito menos dizer de suas consecuções místicas, mágicas e de suas metas…
Marcelo Motta nasceu em 27 de junho de 1931, na Cidade do Rio de Janeiro.
Seu interesse pelo ocultismo começou cedo. Aos 11 anos de idade já estudara os livros de Eliphas Levi, Papus, Blavatsky, Edward Bulwer-Lynton, Patanjali, Paracelso e as obras de Arnold Krumm- Heller, por quem alimentava grande admiração. Por isso, sua atenção voltava-se, constantemente, para os misteriosos “Rosacruzes”, na pesquisa dos quais se dedicou profundamente.
Mais tarde, entrou em contato com os livros de Max Heindel, R.S. Clymer e, eventualmente, com a organização chamada AMORC, em relação a qual, diga-se de passagem, desenvolveu verdadeira aversão[10].
Acalentava a esperança de ser admitido numa escola iniciática, nos moldes daquela descrita por Arnold Krumm-Heller na novela “Rosa-Cruz”, e por Bulwer-Lynton, em “Zanoni”. Ao mesmo tempo desenvolvia marcante aversão ao cristianismo católico romano, que ele definia como “a própria personificação da negação da vontade de viver”, pois quando Marcelo Motta vislumbrou o real significado do cristianismo romano no mundo, o espírito do “anticristo” manifestou-se com surpreendente força no decorrer de toda sua vida e obra[11]. Sua “Carta a um Maçom” tornou-se clássica neste sentido e deveria ser estudada por todos iniciantes ao Sistema Thelêmico e, naturalmente, por maçons.
Naquela época, segundo suas palavras, percebera que os “conhecimentos” contidos nas obras esotéricas (as mais sérias) que estudara, escondiam algo muito mais profundo do que normalmente se acredita existir. E na procura deste conhecimento “oculto” por detrás do Ocultismo, transformou-se num foco de força de vontade quase sobre-humano. Dia a dia, durante sua juventude, Marcelo Motta, concentrara toda sua energia, inteligência e poder de meditação na procura deste conhecimento “Rosacruciano”. A procura o levou aos mais altos graus da Grande Ordem.
Ingressando no Colégio Militar do Rio de Janeiro[12], desenvolveu seu intelecto, adquiriu disciplina e um grande amor pelo Brasil. Por esta época revelava grande interesse pela Astrologia, Tarô e assuntos afins. Por isto sendo foco de muitas discussões entre seus colegas de colégio e professores. Suas discussões com o professor de Filosofia, M.H., foram comentadas por vários anos entre os alunos do C.M..
Uma miopia crescente impediu seu ingresso na Escola de Aeronáutica. Isto o fez desistir da carreira militar, mesmo nas outras armas, o que causou-lhe grande desgosto.[13] Aos treze anos de idade dedicou-se espontaneamente ao Serviço da Humanidade. Pelo decorrer de sua vida temos que considerar que o voto foi aceito pelos Senhores do Karma.
Completando 17 anos de idade, soube, por intermédio de sua mãe, da existência da FRA, uma Ordem de alto nível maçônico fundada por Arnold Krumm-Heller.
Iniciou-se na FRA em 19 de agosto de 1948.[14]
Após frequentar a FRA por algum tempo, e rapidamente galgar os três graus da Ordem, Marcelo, afastou-se dos trabalhos em Loja. Ao completar 20 anos de idade, seus atritos familiares cresciam assustadoramente[15]. Ele lutava contra a dominação de sua mãe, que se opunha à sua vontade violentamente. Atingindo um ponto cruciante, resolveu deixar o Brasil indo para a Europa e de lá para os Estados Unidos da América (1952) onde terminaria seus estudos da língua inglesa em uma faculdade norte americana.
Nesta viagem levava consigo, a pedido do Comendador da FRA Brasileira, a missão de intermediar entre este e Parzival Krumm-Heller (filho de Arnold Krumm-Heller), substituto legal do falecido Krumm-Heller na FRA.[16]
Na Europa (Portugal), ele, pela primeira vez toma conhecimento de Thelema, através o livro “The Great Beast”, uma parcial biografia de Aleister Crowley escrita por J. Symonds. Lembra-se, então, que no Primeiro Grau da FRA o “Faze o que tu queres há de ser tudo da Lei” fazia parte do Ritual de Iniciação. Isto muito o intriga, pois na FRA jamais ouvira falar de Crowley ou mesmo do Mestre Therion. Mas ao mesmo tempo, ao ler o livro, desperta dúvidas quanto as condições iniciáticas de Crowley que, à primeira vista, lhe parecera ser um satanista da pior espécie.
Encontrando-se com Parzival Krumm-Heller, seguindo sua missão de Embaixador da FRA Brasileira, indaga sobre o tal de Aleister Crowley. Parzival, mui gentilmente, lhe fornece os necessários e básicos conhecimentos a respeito do assunto, modificando inteiramente o pensamento priorístico e apressado de Marcelo Motta sobre Crowley. Foi nesta ocasião que Parzival lhe mostra uma carta da “Cabeça Externa da O.T.O.”, dirigida a Arnold Krumm- Heller, avisando-o que Clymer, a quem o Dr. Arnold Krumm-Heller esta a se ligando na época da carta, era instrumento de forças as mais sinistras. Naquele tempo, Marcelo Motta, sequer sabia o que significava O.T.O..
Para melhor entendimento do leitor quanto ao assunto, abrimos aqui um parêntesis, para rápida explicação:
(Segundo a versão do líder da FRA Brasileira, o Dr. Krumm- Heller, antes de morrer, tentara unir a FRA e a “Rosacrucian Fraternity in America[17], cujo líder era o então R. S. Clymer. Mas a primeira providência de Parzival Krumm-Heller, ao assumir a liderança da FRA, foi ordenar o desligamento de sua Ordem daquela de Clymer. E uma carta neste sentido fora enviada ao Líder da FRA Brasileira. Este, considerou a carta de Parzival Krumm-Heller demasiada autoritária e peremptória. Com isto ficou estabelecido o rompimento entre Parzival Krumm-Heller e o Comendador da FRA no Brasil.)
Agora que observamos os fatos “de longe”, vemos como “a mão do destino”, ou aquela dos “Mestres Secretos”, tecem as vias levando o Estudante ao encontro de suas reais aspirações. Não fosse a solicitação do líder da FRA Brasileira, Marcelo Motta jamais teria contatado o Sistema Thelêmico. Pelo menos na época.
Parsival Krumm-Heller, após ouvir a mensagem que Marcelo lhe trazia do líder da FRA no Brasil, deu seu ponto de vista sobre o assunto:
Segundo ele, Clymer (o “pivot” de todo problema) entrara em contato com Arnold Krumm-Heller quando este já estava doente, envelhecido e desgostoso, abatido pelas perseguições políticas, tanto dos nazistas quanto, posteriormente, dos aliados ao fim da Segunda Guerra Mundial. Foi nesta época que Clymer tentara então o Dr. Arnold Krumm-Heller com aquela isca eternamente apetitosa para profanos e iniciados de graus mais baixos: a ideia da unificação de todas as ordens iniciáticas sob uma só ordem poderosa[18]. Infelizmente, Arnold Krumm-Heller caíra no engodo. Por isto, o líder da FRA no Brasil recebera instruções para ligar-se a Clymer. Nesta época Parzival Krumm-Heller encontrava-se no Egito, conduzindo pesquisas pessoais sobre certas fórmulas mágicas.
Não muito mais tarde, o próprio Arnoldo Krumm-Heller admitiu que os propósitos de Clymer não eram os que ele pensara.[19] Foi Parzival Krumm-Heller quem formou o elo entre Marcelo Motta e Karl Germer (Frater Saturnus), o então O.H.O. da O.T.O., e sucessor de Crowley na A∴A∴.[20]
Nos Estados Unidos da América, contatou Karl Germer, tornando-se discípulo deste. Germer viria a falecer em 1962[21], mesmo ano em que conheci Marcelo Motta e tornei-me discípulo dele. Quando de seu contato com Thelema, foi-lhe dada a escolha de filiar-se à A∴A∴ ou à O.T.O. . Marcelo, sem hesitar, escolheu a A∴A∴.
Um de seus primeiros atos ao retornar ao Brasil em 1954 foi solicitar (pessoalmente) ao líder da FRA Brasileira que voltasse às boas com Parzival Krumm-Heller. Mas o “Comendador” não aceitou as ponderações do jovem iniciado, e as ordens vindas do Líder Mundial da FRA foram ignoradas. O resultado desta relutância está hoje estampado na situação de FRA no Brasil…
Decepcionado, Marcelo Motta, retorna aos Estados Unidos da América para terminar seus estudos e práticas iniciáticas sob instruções de Karl Germer.
Voltando definitivamente para o Brasil, Marcelo Motta, providencia a impressão de “Liber Aleph”, um dos mais importantes e profundos livros de Crowley. O esforço pessoal de Marcelo nesta realização reforçou seus elos com a Grande Ordem nos Planos Internos. Após isto, publica “Chamando os Filhos do Sol”, iniciando a Corrente Thelêmica no Brasil.[22]
Desde de 1962 a 1987 (ano em que passou para o próximo estágio), dedicou inteiramente sua vida à divulgação e ao estabelecimento de uma linhagem thelêmica no Brasil, vinda diretamente de Crowley e Germer. Eventualmente, tentou também estabelecer uma Loja da O.T.O. em terras brasileiras. Infelizmente, para todos nós, não teve sucesso neste último fito – muitos obstáculos se levantaram e Marcelo, muito embora tenha lutado contra todos eles, acabou falecendo sem consegui-lo de maneira definitiva. Através muitos de seus discípulos, viemos saber que ele previra sua própria morte, lamentando-se que necessitava de viver ainda mais uns três anos para realizar seu intuito.
Como legítimo membro da A∴A∴, Marcelo Motta (Frater E.) treinou vários estudantes, tanto no Brasil quanto nos EEUU. Um tal de Frater A. encontrava-se entre estes até o ano de 1975, sendo o que mais esteve próximo de Marcelo Motta.
Como dito anteriormente, não é fácil escrever-se sobre a vida de Marcelo Motta, principalmente no que se refere à sua carreira iniciática e ao período compreendido entre 1975 a 1987, ano em que morreu. Marcelo Motta tornava-se, assustadoramente, uma personalidade contraditória e difícil de conviver.
Porém, uma coisa é certa – e ninguém pode contestar – ele passou toda sua existência numa ardorosa luta em direção à Grande Obra; em busca da mais perfeita divulgação de Thelema e no estabelecimento de uma ordem, sociedade ou fraternidade (não importa o nome) baseada no mais puro senso thelêmico, muito embora seus inimigos, e outros que o criticam duramente neste afã, o façam por puro despeito ou por temor às suas inflamadas palavras atacando o erro em que estão atolados.
Entretanto, com o passar dos anos, verificamos, pelos recentes eventos envolvendo o Ocultismo em geral e Thelema em particular, o quanto ele estava certo em seus incisivos pronunciamentos.
Não estamos defendendo Marcelo Motta em seus momentos de desequilíbrio ou nos paranoicos arroubos de sua personalidade, talvez já minada pelo desgosto ou por alguma enfermidade em desenvolvimento, mas sim em seus ensinamentos, e seus exemplos pessoais. E também em suas reprovações e ataques a uma divulgação thelêmica cada vez mais se afastando daquela originalmente oferecida ao mundo pelo incontestável gênio de Aleister Crowley e pela firmeza de Karl Germer que, à seu tempo, recusava-se a “iniciar” novos membros na O.T.O., precisamente porque não via as qualidades necessárias para isto nos candidatos que se apresentavam. Como sempre, devemos lembrar, “quantidade não traduz qualidade” e nem é sinal de Evolução. Tomemos, outra vez a Igreja Romana e a Maçonaria Osiriana como exemplos.
Por toda esta luta, Marcelo Motta, se transformou, para muitos, num símbolo de integridade thelêmica, de coerência com os ditames de Liber AL vel Legis e Liber OZ.
Venerado por muitos, odiado por outros tantos e temido pela quase maioria, sua figura tornou-se uma lenda aqui no Brasil e em outras partes do mundo. Mas se prestarmos a devida atenção em sua vida, veremos uma prova de que é possível viver-se Thelema integralmente, defender a Tradição e a Autoridade do Sistema, e não se entregar covardemente aos sofismas e às maliciosas e sinistras e “vantajosas” ofertas da Loja Negra.
Marcelo Motta foi, sem dúvida, um dos maiores baluartes de Thelema em nosso tempo. Quaisquer que tenham sido seus erros, eles não ofuscam sua devoção à Obra. Mas justamente por ter ele sido um Real Iniciado não podemos, em sã consciência, querer saber os verdadeiros motivos se ocultando por detrás de seus atos. Especialmente em relação sua posição na A∴A∴, para o qual a compreensão oculta de uma Obra como a de Aleister Crowley exigiu uma consciência ampla e integral do contexto no qual esta Obra está inserida.
Evidentemente, devemos manter nosso senso de perspectiva, e evitar os exageros aos quais a personalidade humana está propensa. Mas mesmo assim, como poderíamos, nós simples iniciandos de graus mais baixos, avaliar todo quadro abarcando tão sérias questões.
Não devemos também permitir que nossas opiniões pessoais ou sentimentais (amizade, antipatias, amor ou ódio) interfiram em nossos julgamentos.
Os escritos de Marcelo Motta, ou mesmos suas observações, aos vários manuscritos thelêmicos, impressionam pelo rigor lógico e pela solidez que somente um profundo conhecedor do assunto poderia ter; muito embora algumas de suas interpretações possam ser discutíveis. Mas qual de nós atingiu grau iniciático tão próximo daquele de Marcelo Motta, que nos daria validade nesta discussão. Nós apenas vemos o lado externo das coisas e temos pouquíssima penetração no lado interno, e não observamos o quadro geral. Portanto, deveríamos parar de criticá-lo e utilizar nosso tempo para melhorar nossa visão interna. Isto, em linguagem ocultistas, quer dizer: “torne-se um Real Iniciado”.
Poderíamos dizer mais, mas não cremos que seja necessário. Aliás, se fosse necessário dizer mais, seria inútil.
Euclydes Lacerda de Almeida foi um dos três únicos a adquirir o livro “Chamando os Filhos do Sol”, retirado de circulação poucos dias após sua distribuição nas livrarias do Rio de Janeiro. O próprio Marcelo Motta nos informa o motivo pelo qual o livro foi retirado: “…é um livro que eu mesmo condenei…… como inadequado, e minhas avaliações de hombridade ali contidas são imperfeitas e tolas” (Vejam que somente um homem com raríssima autocrítica e grande senso de fidelidade aos princípios thelêmicos faria uma coisa destas). Assim era Marcelo Motta até 1972.
Nunca soubemos dos outros dois compradores do livro. Muitos anos mais tarde, um volume foi encontrado em um “sebo” do Rio de Janeiro, e adquirido por uma Irmã da O.T.O. Norte Americana. O outro volume jamais apareceu.
Pouco se sabe da infância de Marcelo Motta. Mas podemos dizer que, nascido em família de origens germânicas, teve uma rígida educação. E esta educação foi aprimorada no Colégio Militar do Rio de Janeiro. Foi exatamente estas características (porte aprumado de militar, aparência alemã, falando Inglês com sotaque alemão – sua primeira professora de Inglês era uma judia alemã, refugiada no Brasil) que fizeram com que a Sra. Germer (uma outra israelita que vira de perto os horrores da Alemanha nazista) desenvolve-se grande antipatia pelo jovem estudante de Germer. Esta antipatia viria interferir nas futuras decisões da Sra. Germer em relação a Marcelo Motta.
Quando Euclydes Lacerda de Almeida conheceu Marcelo Motta, este morava em um pequeno quarto de pensão existente na Tijuca, mas jamais emitia qualquer tipo de lamentação pelo fato. Posteriormente, quando conseguiu emprego, mudou-se para Copacabana, Rua Santa Clara. Foi neste pequeno apartamento que Euclydes veio a conhecer Claudia Cannuto, também conhecida como Soror K.A..
Claudia, anteriormente uma “Estudante” de Marcelo Motta, tornou-se uma Probacionista sob a tutela de Euclydes, por imposição do próprio Marcelo Motta. Mais ou menos na mesma época Euclydes Lacerda recebeu mais dois Probacionistas vindos de Marcelo Motta: Paulo Coelho e Raul Seixas.
Nesta época, Marcelo Motta, mostrava-se um homem gentil, retraído e que pouco falava de sua vida privada. Passava grandes dificuldades financeiras advindas da inconstância de se manter por muito tempo em qualquer emprego. Lutava contra definido tipo de perseguição causado por suas convicções thelêmicas.
Pela própria natureza retraída de Marcelo Motta pouco sabemos de sua vida privada. Mas, em certas ocasiões ele deixava escapar alguma coisa e, assim, nos inteiramos de alguns fatos, mas muito superficialmente havia uma grande barreira entre Marcelo Motta e seus parentes mais próximos (pai, mãe e irmã). Após retornar ao Brasil, Marcelo Motta, afastou-se de qualquer contato com sua família. Talvez esta barreira tenha sido erguida em consequência das ideias do rapaz. Durante todo tempo em que convivemos, ele pouquíssimas vezes tocava no assunto. Somente em “Chamando Os Filhos do Sol” ele toca em suas relações familiares. Nunca falou de sua juventude, suas aventuras amorosas, ou qualquer outro tipo de relacionamentos.
Havia em Marcelo um grande sentimento de responsabilidade concernente à sua carreira iniciática e a correta divulgação de Thelema, e disto não abria mão em hipótese alguma. Para ele seu desenvolvimento iniciático e a divulgação de Thelema estavam acima de qualquer coisa. Esta atitude intransigente, presumimos, foi aos poucos se tornando uma obsessão, seus problemas psicológicos tornaram-se mais agudos, transformando sua personalidade agressiva e intolerável.
Talvez esta personalidade intransigente tenha sido motivada por sua grande aproximação com Germer que, segundo as próprias palavras de Marcelo Motta, era um homem difícil de lidar em qualquer tipo de relacionamento. Marcelo Motta era inteiramente devotado à Thelema e a seu Mestre, exatamente nesta ordem.
Em seu definitivo retorno dos Estados Unidos da América, Marcelo Motta, iniciou a divulgação de Thelema no Brasil. Nesta época praticamente ninguém, nem mesmo a maioria dos ‘ocultistas’ conheciam o Sistema e, claro, muito menos a A∴A∴, a O.T.O., Aleister Crowley e, muito menos ainda, a Ordem de Thelema[23]. Sua primeira medida neste sentido foi a publicação de “Chamando os Filhos do Sol”. Mas, como já disto, este pequeno livro permaneceu por pouco tempo nas livrarias. O resultado foi que o Sistema Thelêmico ainda permaneceu, durante algum tempo, desconhecido. Ficou restringido a um círculo muito pequeno.
Foi somente as partir de 1964 que, praticamente, Thelema, cresceu publicamente. Entretanto, seu divulgador – exatamente em virtude de suas ideias libertárias – tornou-se uma pessoa vigiada, juntamente com aqueles com quem mantinha contato[24].
Marcelo Motta foi várias vezes abordado por agentes do Serviço Nacional de Informação. E Euclydes foi praticamente banido do Rio de Janeiro por “interesses” da companhia estatal em que trabalhava.

 

Segunda Parte
Perguntas e Respostas

1. Onde nasceu Marcelo Motta, onde morou em sua infância e adolescência?
R.: Marcelo Motta, como já dito acima nasceu na Cidade do Rio de janeiro. Morou, durante vários anos no bairro da Tijuca. Sobre sua infância e adolescência pouco nos é dado a saber, a não ser aquilo comentado pelo próprio Marcelo Motta, que por sinal era muito reticente sobre o assunto.

2. Fala-se muito da mãe de Marcelo Motta; porém o que se sabe de seu pai?
R.: Marcelo pouco falava de sua família. Sabemos que seu pai era um homem bastante consciente de suas responsabilidades, enérgico e um kardecista sério. Sua mãe, como já dito, era uma católica romana convicta, mas uma maga natural. Marcelo Motta tinha uma irmã. Mas ele pouco falava dela. Não sabemos se tinha irmão ou irmãos. Se os tinha, jamais falou dele, ou deles.

3. Quais os tipos de frustações de Marcelo Motta?
R.: Talvez, sua maior frustação tenha sido não poder se tornar um oficial da Força Aérea Brasileira. Foi impedido de seguir esta carreira por uma miopia diagnosticada em sua juventude. Mas esta frustação está ligada diretamente à sua vida profana.

4. Marcelo deixava transparecer algum complexo?
R.: Como dito acima ele era possuído por um grande “Complexo de Édipo”, que talvez tenha sido o ninho para desenvolvimento de outros. Frater Xiva (A. Xavier) definiu o problema de Marcelo Motta como ele sendo um epiléptico cíclico acumulativo depressivo. Eu não sei bem o que vem a ser isto, mas parece-me que A. Xavier queria dizer que Marcelo Motta ia acumulando seus complexos e revoltas por certo tempo até que, em dado momento, por qualquer causa mínima, o vulcão estourava. Seu complexo de perseguição pode estar aí incluso, mas este, julgamos, desenvolveu-se quando Marcelo Motta foi perseguido nos Estados Unidos da América, nos tempos de faculdade. Hoje sabemos que a política americana era bastante hostil à estrangeiros (principalmente sul americanos). Na época em que Marcelo Motta estudava e trabalhava naquele país, esta hostilidade tornara-se obsessiva, e o FBI se encarregava de dar vazão a esta hostilidade. O senhor Hoover, então chefe o FBI, um homossexual enrustido, dava vazão aos seus instintos perseguindo judeus, marxistas, sul americanos e negros, que considerava como estorvos ao “modo de vida norte americano”. Pessoas mais informadas sabem muito bem da veracidade destas declarações. Atualmente vários filmes relatam de como estas pessoas eram perseguidas no país da “democracia e liberdade”. No específico caso de Marcelo, houve uma “batida” em seu apartamento e ali “encontraram” vestígios de maconha. Não é preciso dizer que o rapaz nem mesmo teve um advogado para sua defesa. Foi preso e, posteriormente, mandado embora do país. Se pessoas pensam que isto não pode causar distúrbios na mente de um jovem, é por que são totalmente ignorantes de como funciona a mente humana ante tais atos de violência “magica”. O mesmo tipo de perseguição (e de maneira bastante pior) sofreu Karl Germer, tanto em seu país, sob o jugo nazista, quanto na América. Edgar Hoover era um doente que atingia o orgasmo quando conseguia destruir a vida de “marxistas”. Qualquer pessoa inteligente pode se inteirar do assunto verificando os fatos acontecidos no negro período pelo qual passou a América, chamado de “Caça as Bruxas”, logo após a Segunda Guerra Mundial.

5. Tinha ele algum ressentimento de não ter sido iniciado na maçonaria?
R.: Até onde eu sei, isto é uma lenda. Marcelo Motta jamais desejou ser um maçom osiriano. “Carta a Um Maçom” constituiu numa alerta aos maçons da época, não uma tentativa de influenciar maçons a convida-lo para ingresso na ordem. Afinal, que vantagem teria Marcelo Motta em ser maçom? Ainda mais um maçom osiriano? Pensem nisto.

6. Era Marcelo Motta um bom aluno? Qual a matéria que mais lhe interessava?
R.: Não há como responder a questão de maneira absoluta. Tudo indicava ter sido um ótimo aluno: falava e escrevia muito bem o Português, Inglês e Alemão. Possuía ótima formação científica e matemática. Falava com bastante desenvoltura sobre filosofia e literatura, e história, principalmente História Religiosa.

7. Qual o sonho de sucesso do rapaz?
R.: Conseguir divulgar Thelema corretamente e organizar a O.T.O. no Brasil.

8. Quando conheceu Claudia Canutto?
R.: Se não me engano, Marcelo Motta conheceu Claudia por volta de 1973. Na época ela trabalhava como recepcionista da VARIG (Uma companhia brasileira de transporte aéreo) no Aeroporto Internacional do Galeão. Claudia era uma bela mulher, e chamava a atenção por seus grandes olhos. Euclydes a conheceu no apartamento, situado em Copacabana, em que Marcelo Motta morava na época.

9. Marcelo Motta teve contato pessoal com Germer? Esse contato foi puramente de Mestre para Discípulo, ou chegou a ter maior afetividade como amigo?
R.: Pelas cartas enviadas por Germer a Marcelo, e deste para Germer, podemos observar que o contato entre os dois foi muito além do limite de discípulo para mestre. Marcelo Motta considerava Germer como seu verdadeiro pai. Mas como Germer era uma personalidade bastante forte e disciplinadora, houveram vários atritos entre os dois. Mas no geral eles eram bastante unidos. Aliás, todo real discípulo virá, mais cedo ou mais tarde, considerar seu mestre como seu verdadeiro pai. Pois é o Mestre que dá nascimento ao novo homem.

10. Como estudante da A∴A∴ e da O.T.O. como era Marcelo Motta? Disciplinado, ousado, teimoso, relaxado? Qual era sua característica?
R.: Marcelo Motta era extremamente disciplinado, principalmente no que tange à Thelema. Não se pode esquecer ter sido ele um aluno do Colégio Militar. Marcelo Motta jamais iniciou qualquer refeição sem dizer alto e claramente os Ditames da Lei. Aliás, coisa que muito “Thelemita” jamais fez em tempo algum. Penso até que muitos têm vergonha de fazê-lo. Bem, cada “Thelemita” com suas convicções. Até mesmo quando Marcelo Motta tomava um simples cafezinho ele anunciava Vontade. Certa vez, estávamos no Cinema Carioca. Ao sairmos do cinema o sol já estava quase se escondendo por detrás das montanhas da Tijuca. Ele se afastou, e ficando próximo a uma das colunas do prédio, executou a Saudação correspondente.


11. Marcelo era casado? Se afirmativo, teve filhos?
R.: Marcelo Motta era casado nos Estados Unidos da América. Deste casamento nasceram, ao que parece, dois filhos. Separou-se da mulher por motivos que não nos interessa muito. A respeito do assunto, está escrito em “Chamando os Filhos do Sol”: “Meus ordálios eram cada vez mais profundos; os Mestres tomaram meu Juramento de Renunciação ao pé da letra. Perdi o amor de minha esposa; perdi meus filhos que idolatrava; perdi todas as minhas posses materiais, minha reputação, e quase que a liberdade de meu corpo.”.

12. Marcelo Motta manteve contato com Parsival Krumm-Heller até o final de sua vida?
R.: Não. Após ter sido posto em contato com Germer, Marcelo Motta, nunca mais teve contato com Parsival.

13. Quando foi que Marcelo Motta formou uma Abadia de Thelema?
R.: Ele jamais formou uma Abadia de Thelema. Ele foi Iniciado na Ordem de Thelema através seu Mestre, Frater Saturnus. E este, certa vez o levou a uma Abadia que na época (segundo Marcelo) existia (não sei se ainda existe) nos Estados Unidos da América.

 

Terceira Parte
Muitos me acusam de ser um sonhador

Eu respondo ser um realista no sentido de que penso haver um Universo à espera de ser investigado e compreendido; um Universo no qual, queiramos ou não, estamos inseridos por toda Eternidade.
Frater D. S.
Muito antes de conhecer Marcelo Ramos Motta eu queria me tornar um Adepto. Mas este sonho estava muito calcado nos romances ocultistas que havia lido, tais como “Adonai”, “Zanoni”, “Uma Aventura numa Mansão Rosa-Cruz”, e outros mais. Portanto, um sonho por demais calcado no romance e na fantasia. E por isto muito me decepcionei com a minha Iniciação Maçônica e, posteriormente, no convívio em Loja com meus irmãos maçons, na maioria totalmente alienados quanto à verdadeira função da Maçonaria no mundo, não somente em referência ao homem em sociedade, como também à Terra como um todo.
É muito importante atualmente que as pessoas se deem conta do perigo que a humanidade corre, se os homens continuarem a se aprofundar no buraco em que se meteram. E os maçons pouco se dão conta disto, pois eles mesmos se regozijam de estarem também neste buraco. Em suma, a Maçonaria perdeu-se e afastou-se de suas reais finalidades. Infelizmente, com raríssimas exceções, o mesmo acontece com outras tantas Ordens e Fraternidades existentes atualmente. Pois em nome do convívio, da boa-vontade, etc., estamos nos contemporizando com Correntes e “ideais” criados exatamente para nos destruir como entidades livres e autoconscientes.
O estudo e as práticas das doutrinas maçônicas fornecem a estrutura básica – se bem compreendidas, é claro – para que nós possamos começar a nos desvencilhar das mortais cadeias erguidas à nossa volta. Neste sentido, livros e sérios tratados científicos deveriam ser publicados pelas Ordens Maçônicas, que desta forma ajudaria o homem na compreensão da verdadeira situação humana.
A mais urgente medida seria abrir os olhos dos incautos para a existência daquilo que denominamos “A Grande Feitiçaria”, isto é, um conjunto de falsos preceitos, de falsa História, de falsos ideais tomados, pela maioria, como religião e política.
Foi exatamente para este mister que as Ordens Maçônicas foram idealizadas e criados pelos Grandes Mestres.
Não há dúvida que o interesse humano deveria ser dirigido à problemas muito mais sérios do que aqueles explorados pela mídia, cuja única finalidade é de vigiar, cercear e condicionar nossos pensamentos; ou melhor dito: de impedir pensarmos. Vejam por exemplo a situação da juventude no mundo…
Desta maneira aqueles que realmente promovem o avanço da humanidade são os mais os mais perseguidos, cerceados em sua liberdade, insultados e excomungados pelos donos do poder.
Por isso, não vejo em Marcelo Ramos Motta somente um intelectual, um homem inteligente, uma das mais expressivas figura de Thelema, um dos valores mais afirmativos de nosso Movimento, mas vejo também, com a mesma admiração, o valor iniciático inatacável, que dignificou até a hora de sua morte o Sistema Thelêmico e que hoje é considerado pelos reais Thelemitas como o maior iniciado jamais nascido no Brasil.

 

Quarta Parte
Início da O.T.O. no Brasil

Como surgiu a O.T.O. no Brasil? Nós não colocaríamos assim a questão. Não foi a O.T.O. que surgiu no Brasil, mas sim o Sistema Thelêmico. Não devemos tomar as partes pelo todo. O surgimento da O.T.O. tornou-se uma consequência inevitável. Em todo caso, em 1962 “apareceram” as primeiras notícias sobre a Ordem. Elas vieram com a publicação de “Chamando os Filhos do Sol” (Marcelo Ramos Motta – 1962 – Gráfica Lux Ltda. – Rio de Janeiro.).
Segundo palavras do próprio autor, a publicação deste livro teve por objetivo fornecer ao público notícias do Sistema Thelêmico, como divulgado por Therion. Evidentemente, no texto, haviam referências à A∴A∴, O.T.O. e à Ordem de Thelema, esta última até hoje pouco conhecida.
Euclydes Lacerda de Almeida foi um dos poucos compradores do livro, interessando-se imensamente pela O.T.O. “Chamando os Filhos do Sol” permaneceu pouco tempo nas livrarias. Ao notar um erro no texto do mesmo (este erro encontrava-se no Esquema da Árvore da Vida apresentado no livro), Marcelo Motta, retirou-o de circulação. Segundo também suas próprias palavras, pouquíssimas pessoas o adquiriram. Certa vez, Marcelo Motta, afirmou categoricamente que estes compradores foram em número de cinco. Euclydes fora um desses. Nunca soubemos dos outros. Anos mais tarde um volume foi encontrado em um “sebo” do Rio de Janeiro e adquirido por uma Irmã da Ordem. Os três volumes restantes jamais apareceram. Hoje o livro é raríssimo.
Euclydes comprou o livro casualmente ao passar por uma livraria do bairro onde morava (Tijuca). Neste tempo debatia-se entre os preconceitos crististas, muito fortes nos assim chamados, anos dourados, e os mais salutares impulsos da natureza em um homem em plena saúde física e mental. Compreendemos, agora, que todos os eventos da vida do jovem o impulsionaram em direção à Thelema: a compra de “Chamando os Filhos do Sol” não fora tão “casual” quanto julgara. E eventos futuros confirmariam este julgamento.
Inicialmente, como sempre acontece com qualquer um que entra em um contato inicial com a Filosofia Thelêmica, sentiu-se duplamente atraído e repelido pelo conteúdo do livro. Dentro destes dois antagônicos sentimentos, escreveu para o endereço aposto na contra capa do livro. Assim, iniciou a maior aventura de sua vida e o indelével contato com Marcelo Ramos Motta. Frater Parzival XIº O.T.O..
Tendo lido vários livros “esotéricos” surpreendeu-o a maneira pela qual o assunto era colocado pelo autor M. (pseudônimo usado por Marcelo Motta).
Pouco antes destes acontecimentos Euclydes iniciara-se na maçonaria (G.O.B.) por convite de um amigo. Na época sequer sabia ser a Maçonaria uma Ordem calcada no Æon de Osíris. Aliás, sequer sabia o significado de Æon, fosse de Osíris ou de Hórus. Sua iniciação foi decepcionante. Todo ritual realizado inteiramente no plano material. Nada sentira de especial, mesmo nas iniciações seguintes. No Terceiro Grau, foi grandemente repelido pela sinistra e lúgubre Câmara do Meio. Somente muito mais tarde, quando em contato com as Forças do Æon de Hórus, compreendeu o motivo desta reação. Evidentemente esperava algo parecido com o descrito nos vários livros que houvera lido, principalmente em Adonai, de Jorge Adoun, que tanto excitar sua imaginação. Sua ansiedade cresceu. Havia um grande choque entre o apregoado pelos “espiritualistas” e “ocultistas” dominados pelo, assim chamado, “Pecado Original”, e o seu salutar impulso sexual de um jovem de 23 anos.
Suas questões ainda permaneciam martelando sua cabeça. Suas resposta não vieram com sua “iniciação” maçônica. Intuitivamente foi levado a meditar sobre o problema. Algo faltava nos “ocultistas” (com exceção de Jorge Adoun) e nos maçons: ou nada sabiam ou escondiam muito. Ao, eventualmente, ler um dos livros de Samael Aum Weor (O Casamento Perfeito), percebeu haver oculto muito mais a respeito de sexo do que imaginava. Mas também não aceitava as ideias do Movimento Gnóstico Internacional, inteiramente baseado no “Caminho da Via Seca”. Era muito “morno”, piegas e cheirava a velas numa igreja abafada. Atingindo o grau de Mestre Maçom e, deste, elevado sucessivamente ao Quarto, Nono, Décimo Sétimo e Décimo Oitavo, compreendeu intimamente que na Maçonaria não estava seu caminho. Porém, seus juramentos o impediram de falar, inquirir ou afastar-se da Ordem. Havia se condicionado desde muito jovem, ao ingressar no Colégio Militar, a respeitar hierarquia estabelecida. A maçonaria sempre fora uma Ordem baseada em Hierarquia, diria mesmo ser uma Ordem paramilitar.
Ao ler “Chamando os Filhos do Sol” sentiu, imediatamente que tudo que até então aprendera sobre o ocultismo não passava de conversa fiada, engano, deturpações, etc..
Após sua primeira carta a Marcelo Motta, os dois começaram a se corresponder frequentemente. Naquele mesmo ano (1963) recebeu a visita de Motta.
Depois deste primeiro encontro, Marcelo Motta, começou a frequentar assiduamente a casa de Euclydes. Percebia-se que aquele homem passava por grandes necessidades financeiras. Embora possuidor de grande cultura não conseguia emprego, e os que conseguia duravam pouco tempo. Havia sempre uma “desculpa” dos empregadores para não mantê-lo no trabalho. Isto confirma plenamente as palavras de Marcelo em seus escritos, principalmente no ensaio “Serviços de Inteligência não são Inteligentes” ou “A O.T.O. desde a morte de Crowley”, partes I e II, publicados em “Magick Without Tears Unexpurgated Commented”.
Certo dia, Marcelo, perguntou ao jovem discípulo a qual Ordem desejava se filiar: à O.T.O. ou à A∴A∴. Euclydes imediatamente escolheu a O.T.O. (A Ordem de Thelema estava então fora de cogitação, por motivos conhecidos a Iniciados da Gnosis). Então, Marcelo, entregou-lhe o Lamen da Ordem desenhado em cores. Euclydes ficou espantado. Já vira aquele lamen em algum lugar. Somente não se lembrava de onde. Marcelo riu-se da reação do jovem, mas nada falou. Dias depois, Euclydes, lembrou-se: era o mesmo Lamen ado pela AMORC no livreto denominado (erradamente) 777 (A Catedral da Alma). Admirou-se do fato, e Marcelo confidenciou-lhe que a AMORC fora fundada por um ex-membro da O.T.O.. Em seguida mostrou-lhe outro Lamen, muito conhecido dos antigos membros da AMORC, em que a origem, ou a ligação entre as duas ordens, torna-se evidente (documentos nos arquivos da S.N.Æ.). Afirmamos que era conhecido, pelos antigos membros porque recentemente os dirigentes da AMORC “acharam por bem” retirar o Lamen de circulação. Como os leitores podem constatar, o Lamen era muito conclusivo sobre as fortes ligações da AMORC com a O.T.O. e, evidentemente, com Aleister Crowley, fato que os líderes da AMORC fazem qualquer coisa para esconder.
Em “Documentos Rosa-Cruzes” (pag. 38 – Primeira Edição, em Português – 1980) está a fotocópia da Patente do VIIº O.T.O. concedida à H. Spencer Lewis por Theodor Reuss. O documento também contém uma declaração de amizade entre as duas ordens, demonstrando claramente que os líderes da O.T.O. reconheciam a AMORC, o que contradiz frontalmente as declarações de Marcelo Motta em “Chamando os Filhos do Sol” a respeito da Ordem de H. S. Lewis.
Com o passar do tempo, Marcelo Motta e Euclydes tornaram-se íntimos, e o primeiro começou a transmitir ao jovem amigo o Conhecimento Thelêmico, oralmente e através volumosa quantidade manuscritos. Nestes incluía-se “Carta a um Maçom” (manuscrito original).
Em inícios de 1964, Marcelo Motta, entregou-lhe a tradução, para o Português, do Livro da Lei com Comentários de Matre Therion, informando-lhe da necessidade de publica-lo no Brasil e, para isto, pedia ajuda do discípulo. Este manuscrito, contendo várias correções feitas pelo próprio Marcelo faz parte do acervo particular da Sociedade Novo Æon. Anos mais tarde, o livro foi publicado em Inglês nos EEUU pelo próprio Marcelo Motta, usando a Editora Samuel Weiser Inc. (New York – Primeira Edição – 22 de setembro de 1975). Até hoje não conseguimos compreender a resolução de Marcelo Motta em editar importante livro em outro país e em outra língua, cujas consequências foram bastante funestas para os brasileiros interessados em Thelema.
Em 1962, Marcelo Motta, conseguira, com muito sacrifício (gastou todas suas economias), imprimir “Liber Aleph” (Printed by Composition Gráfica LUX Ltda. – Rio de Janeiro. Este livro também foi publicado em Inglês), dando um exemplar a Euclydes. O exemplar também faz parte da coleção privada da Sociedade Novo Æon.

 

Amadurecimento

Tudo ia bem quando em 1964, o Brasil, visivelmente inclinando-se politicamente para um regime ditatorial de esquerda, acabou caindo num golpe militar de direita. Saímos da brasa e caímos na fogueira. Durante 30 anos, o regime dominou o país. Era difícil e perigoso ser Thelemita neste contexto político-social. Muitos sofreram perseguições e tortura. Eles estes encontravam-se Paulo Coelho, Raul Seixas e outros tantos. Sendo que o Sr. Paulo Coelho deixou-se dominar pela egrégora católica romana sustentando o regime de força. Euclydes, em virtude do movimento militar perdeu contato com Marcelo Motta, e por motivos políticos foi transferido, pela indústria em que trabalhava, para uma pequena cidade do interior do Estado do Rio de Janeiro.
Nesta cidade, longe das estressantes condições de vida das cidades grandes, começou a manter práticas mágicas e místicas diárias. Certo dia, em meio a uma dessas práticas, alcançou sua Primeira Real Iniciação. Mas esta é outra história.
Preocupado com o destino de seu Instrutor, tentou localizá-lo. Tudo em vão. Apelou ao “astral”. Nada. Quase desistindo e mesmo julgando-o preso ou, na pior das hipóteses, morto, recebeu a inesperada visita de um tal Oscar Victor Lessa. Este se apresentou como interessado em Thelema, afirmando que estivera com Marcelo Motta; e que este lhe indicara Euclydes como seu direto representante e que cuidaria de seu ingresso na Ordem. Bastante confuso com as informações recebidas deste indivíduo, Euclydes, não sabia o que fazer. Primeiro: não fora ainda formalmente iniciado na O.T.O.: segundo: nem sabia por onde começar; terceiro: a O.T.O. ainda não estava regulamentada no Brasil: quarto: havia perdido total contato com seu Instrutor. Explicou cuidadosamente todos estes fatos a Oscar Lessa. O inesperado visitante imediatamente prontificou-se a levar Marcelo Motta até P.S., isto muito alegrou Euclydes. Sabia agora que seu Instrutor estava vivo, e que o encontraria novamente.
No fim de semana seguinte, Marcelo e Lessa chegaram à sua casa.
Após dois dias de conversas, ficou estabelecido o seguinte entre os três:
Primeiro: Oscar e Euclydes trabalhariam no sentido de reunir um mínimo de onze pessoas interessadas na formação de uma Loja da O.T.O..
Segundo: Este grupo inicial deveria adquirir um local para funcionamento da Loja. Este espaço (casa, sala, etc.) não poderia ser alugado. Deveria ser próprio, e comprado em nome da organização.
Terceiro: Todos os elementos iniciais teriam, de direito, o Terceiro Grau da O.T.O..
Quarto: deveriam estruturar e registrar os Estatutos de uma Sociedade, cujo nome seria votado em Assembleia formada pelos fundadores.
Quinto: Esta Sociedade administraria a Loja Mãe, e outras que viessem a ser fundadas futuramente em território nacional;
Sexto: Iniciar, de imediato, a divulgação da Corrente Thelêmica e, obviamente da O.T.O., dentro dos preceitos admitidos por Thelema; isto é, obedecendo rigidamente Liber AL vel Legis e Liber OZ.
Ficariam sob responsabilidade de Marcelo Motta os seguintes itens:
Primeiro: Composição de novos rituais para o Iº, IIº e IIIº da O.T.O., já que os Rituais reformulados por Crowley não tinham mais valor iniciático por terem sido publicados.
Segundo: Estabeleceria currículos específicos para cada grau.
Terceiro: Emitiria, juntamente com Euclydes, um Manifesto à Sociedade Brasileira;
Quarto: Ocuparia o cargo de “Supervisor Geral”. Euclydes seria o Presidente da Sociedade, com direito a escolher seus auxiliares.
Havia ainda um ponto importante a ser discutido. Mas antes necessitamos fazer uma pausa para explicar um fato curioso.
Por oura coincidência, ou por qualquer outro fator, Euclydes, apenas começara a guardar as cartas de Marcelo a partir de 1964. E a mais antiga delas, com a qual iniciou sua coleção, data de 8 de julho de 1964. E é uma resposta a seu formal pedido de ingresso na O.T.O..
O mais importante no documento é que trata da situação de Marcelo Motta em relação à Ordem.
Ali consta o seguinte:

Lamentamos Ter de lhe informar que, com a morte em outubro do ano retrasado de Frater Saturnus, Cabeça Externa da O.T.O., o Rei Suíço da Ordem achou-se no direito de se arrogar os títulos pertencentes ao Superior falecido, e o que é pior, fez isto publicamente, distribuindo matéria neste teor em várias línguas. Consequentemente a Ordem retirou-se ao silêncio e está em estado dormente. Continuará assim até que aquele membro recobre as faculdades morais, ou até que a dissolução de seu corpo físico termine com os efeitos da sua tolice”.

E mais à frente:

Quanto a mim, não tenho patentes autorizando-me a fazer trabalho da O.T.O., e anunciei a ordem em “Chamando os Filhos do Sol” (livro que já foi retirado de circulação, sua utilidade estando ultrapassada) somente para servir a meu Superior, Saturnus X.
Em 1962, de acordo com a esposa de meu falecido Superior uma patente foi-me enviada pelo correio autorizando-me a trabalhar em os três primeiros graus da O.T.O.. Esta patente jamais chegou às minhas mãos. Nem sei quem a Subtraiu”. (Documento nos arquivos da S.N.Æ.)

Somente anos mais tarde, relendo as cartas de Marcelo, Euclydes, percebeu a verdade. Agora estava claro. Sem patente para poder iniciar o trabalho da O.T.O. no Brasil e usar o Nome da Ordem, Marcelo teria que fundar uma organização sob outro nome, a qual serviria de fachada.
Mas existem algumas inverdades na carta de Marcelo, as quais devemos nos referir:

Primeiro: a Ordem, pelo menos alguns Ramos dela, como o do Sr. Kenneth Grant (Inglaterra) e o do Sr. Metzger (Suíça) não se encontravam em estado dormente;

Segundo: já havia se iniciado a luta pelo cargo de “O.H.O.”, provocada pelo testamento de Karl Germer;

Terceiro: Sascha Germer já houvera declinado em favor (inicialmente) de Metzger (mais tarde de Mellinger) como sendo ele o O.H.O..

Entretanto, ao que parecia, em 10 de dezembro de 1971, o, problema fora resolvido, e Marcelo escreveu a Euclydes informando-o o nome e endereço do Cabeça Externa da Ordem:

O atual Rei Mundial (ou Cabeça Externa) da O.T.O. chama-se Kenneth Grant e seu endereço é ****** London *** England. Foi reconhecido por mim como tal” (Documento nos arquivos da S.N.Æ.)

A última parte da informação (“Foi reconhecido por mim como tal”) deixou Euclydes confuso e intrigado. Qual o poder de Marcelo Motta em reconhecer ou não um Rei Mundial da Ordem? Mas, ainda estando no início de sua carreira na O.T.O., muito mal informado quanto à estrutura hierárquica da Ordem, e nada sabendo da confusão estabelecida, esqueceu-se do assunto. Para ele, a informação indicava que Marcelo estava agora em contato com o O.H.O. e devidamente patenteado para trabalhar no Brasil. Isto é que interessava no momento. Porém, isto também não era verdade. Marcelo jamais tivera sólida ligação com Kenneth Grant. Havia uma grande desconfiança entre os dois. E isto seria confirmado anos depois e de maneira muito decepcionante para Euclydes.
Muito embora, a princípio, tivesse parecido fácil reunir os nove restantes interessados na fundação de uma Sociedade Thelêmica, assim não o foi. Por sugestão de Marcelo elaborou-se um cartão de apresentação da O.T.O., contendo o endereço dos três homens em um dos versos, e Liber OZ no outro. O referido cartão seria entregue, sem quaisquer tipos de discriminação às pessoas nas ruas. Assim foi feito; mas o retorno foi desprezível. Parecia que ninguém se interessava. Somente pingavam cartas de curiosos e, a uns deles, revoltados com a última frase do Liber.
Apelou-se então para um anuncio da Ordem nas páginas de uma revista “esotérica” muito popular na época. O efeito foi relativamente bom. De qualquer maneira conseguiram contato com várias pessoas. No fim, estas ficaram reduzidas a apenas nove realmente interessadas. O restante era composto de curiosos.
Finalmente, em 1974, conseguiram reunir quatorze pessoas realmente interessadas. Já era um começo. Houve uma reunião geral realizada na casa de Euclydes. Escolheram um nome para a Sociedade, deliberaram cargos para cada membro, e iniciaram a compor os Estatutos da Sociedade. Havia entre eles um advogado, ficando portanto encarregado dos assuntos legais a serem resolvidos.
Em 09 de novembro daquele mesmo ano, Marcelo Motta, escreve a Euclydes tecendo comentários sobre a organização da O.T.O., como deveria funcionar, sua estrutura, e sobre o nome a ser adotado pela Sociedade. Após isto foi elaborada uma lista de nomes, e decidiu-se que a Sociedade chamar-se-ia Sociedade Novo Æon (Documento nos arquivos da S.N.Æ.).

A este tempo, o grupo crescera, destacando-se as seguintes pessoas que realmente trabalharam no sentido de formar uma Loja.
  • Saturnino de Almeida;
  • Arnaldo Xavier;
  • Oscar Lessa;
  • Claudia Canutto;
  • Raul Seixas;
  • Paulo Coelho;
  • Maurício dos Santos;
  • Therezinha Faria;
  • Pedro de Oliveira;
  • Antônio A. Delfino.
Paulo Coelho e Raul Seixas ficaram mais restritos ao trabalho de divulgação da Ordem no Rio de Janeiro. Nesta época, ambos solicitaram ingresso na A∴A∴.
Entretanto, não julguem os leitores haver, naquele tempo, uma organização já registrada, estruturada e funcionando devidamente. Não! Aliás, a O.T.O. jamais conseguiu ser firmar totalmente no Brasil, inclusive nos tempos atuais. O que existe são pequenos grupos, espalhados aqui e ali, e tomando ares de uma Ordem realmente estruturada. Havia, é verdade, um grupo envolvido fisicamente (mas não espiritualmente). Mas não passava disto. No futuro, a famosa Loja Nuit, por sua vez, esbarraria com os me os obstáculos que afetaram a Sociedade Novo Æon. Mas a Loja Nuit foi à única, até agora, que realmente tem um registro oficial registrando a Sigla O.T.O. e o Lamen da Ordem. Infelizmente, para todos nós, aquela Loja terminou por ser constituída de um amontoado de incapazes, arruaceiros, mal-educados, etc., se dizendo Thelemitas – confundindo Faze o que tu queres com Faze o que quiseres. O triste destino da Loja e da maioria de seus “Mestres” atesta o dito.
A O.T.O. no Brasil nunca saiu disto. Nem mesmo nos anos seguintes o real fito da Ordem foi atingido, como constataremos mais adiante. Por três ocasiões seguidas isto foi tentado, mas nunca concretizado.
Qual a causa disto?
É o que tentaremos elucidar nestas páginas. Leitores poderão aquilatar a existência de “forças” contrárias ao Sistema Thelêmico, seja no Brasil, seja no mundo. E estas “forças” sempre são auxiliadas por aqueles que se deixam deslumbrar pelo poder temporal.

 

Início do Fim

Enquanto alguns levavam o trabalho a sério, outros ficavam na festiva, ou confundindo a Liberdade Thelêmica com licenciosidade e anarquia.
Liberdade tem que ser conquistada e não recebida de mão beijada. Esta é uma regra que aconselhamos que todos aqueles que desejam ser Thelemitas sigam rigorosamente. É necessário Trabalho externo e interno, principalmente interno, para conquista da Liberdade – da verdadeira Liberdade. Disciplina é a base do trabalho. Hierarquia é a base do trabalho. “Faze o que tu queres” não é o mesmo que “Faze o que quiseres”. Existe uma diferença fundamental entre as duas frases. Uma aponta para o “Alto” a outra para baixíssimo. Nesta diferença também se encontra a “Chave” do Grande Ordálio a ser cumprido por qualquer um que queira ultrapassar os Umbrais da Real Iniciação. Não será somente porque você participou de um ritual executado no Plano Físico (tal como na Maçonaria) que você atingirá A Iniciação. Infelizmente poucos compreendem isto.
O trabalho que agora colocamos nas mãos dos leitores é o fruto de muitos anos de disciplina auto imposta, lutas e práticas incessantes. Não é o trabalho de simples curiosidade ou desejo de aventuras insólitas ou emoções descontroladas e, muito menos, o desejo de se tornar superior à seus semelhantes. É o Trabalho de 30 anos dedicados à Thelema: de Fidelidade e Irmandade nascidas no Serviço à toda Humanidade; não a determinados e escolhidos indivíduos. E neste trabalho não pode haver considerações pessoas de amizade, parentesco, etc..
Olhando para trás, as recordações trazem um sentimento de alegria. Nós, individualmente, conseguimos aquilo que Nossa Vontade determinou. Não alimentamos qualquer rancor pela incompreensão de vários “Thelemitas” da época e de agora, os quais não souberam, ou não quiseram, abraçar a verdadeira Filosofia Thelêmica. Ficaram somente na “Sala dos Passos Perdidos”. E este foi um dos inúmeros fatores os quais reputamos como causa mestra do desastre da O.T.O. no Brasil.
De qualquer forma, crescemos. Na figura de Arnaldo Xavier (Frater Xiva), a organização nascente, mas já trazendo em si o germe mortal, teve o apoio financeiro e moral necessário. Em 1973 a Sociedade Novo Æon possuía um espaço excelente para reuniões. Neste mesmo ano Euclydes Lacerda comprou, com recursos próprios, uma área de 740 metros quadrados (Documento nos arquivos da S.N.Æ.), onde futuramente erguer-se-ia o Magno Templo da O.T.O. no Brasil. Agora somente faltava o término e registro dos Estatutos Externos.
Neste meio tempo, surgiram alguns problemas. O mais sério deles causado por Oscar Lessa. Este indivíduo, aproveitando-se da boa fé nele depositada pelo grupo, começou a larapiar documentos da Ordem. Não satisfeito com isto, falsificou a assinatura de Frater Z. e iniciou a “dar Patentes” a indivíduos em várias cidades do Brasil por preços módicos. A tramoia foi descoberta por Frater Xiva que, por “coincidência”, encontrou uma dessas falsificações com um correspondente residente em Belo Horizonte. Frater Z., diante dos fatos, expulsou Lessa e tentou localizar todas estas Patentes para anula-las e explicar aos seus possuidores o ocorrido. Muito tempo foi perdido nesta limpeza.
Finalmente, em 1973, Frater Parzival XIº, patenteou Euclydes Lacerda de Almeida para Trabalho nos Três Primeiros Graus da Ordem (Documento nos arquivos da S.N.Æ.). A Patente era fruto de onze longos anos de trabalho e dedicação à Corrente Thelêmica. Esta foi a primeira patente a ser emitida no Brasil. Neste mesmo ano, Euclydes, recebia nomeação (gravada a viva voz por Frater E.) ao Grau de Neófito da A∴A∴, e a árdua tarefa de receber e treinar Probacionistas na Grande Ordem. Em seguida recebeu a nomeação de Grão Mestre da O.T.O. para o Brasil (Documento nos arquivos da S.N.Æ.). Imediatamente foram colocadas sob sua responsabilidade hierárquica três Estudantes da Grande Ordem: Claudia Cannuto, Raul Seixas e Paulo Coelho.
Da primeira discípula ele guarda algumas cartas (Documento nos arquivos da S.N.Æ.); do terceiro, além de cartas, o Juramento original e uma grande decepção (Documento nos arquivos da S.N.Æ.). Do segundo, Raul Seixas, a certeza de que foi um Thelemita não muito disciplinado, mas um Thelemita. Raul Seixas conseguiu, mediante sua arte, fazer por Thelema muito mais que vários de nossos “irmãos” o conseguiram em toda vida deles. Não podemos considerar os “atritos” havidos entre ele e Marcelo Motta o que já começara, na época, a demonstrar tendências esquizofrênicas e intratável personalidade.
A bem da verdade, devemos acrescentar que a nomeação ao grau de Neófito muito espantou Euclydes. Ele jamais tivera a pretensão de ingressar na A∴A∴. Aconteceu que, no clímax de suas práticas ocultas daquele ano, experimentara um trance característico da consecução iniciática do grau, dando-lhe direito àquele nível. Para seu espanto, percebeu tornar-se o mais alto grau da O.T.O. e da Grande Ordem no Brasil depois de Marcelo Motta e Claudia Cannuto. Este fato foi reconhecido, anos depois, pelos próprios dirigentes da O.T.O. McMurtryana e do Sr. Starr (ex-discípulo de Frater E.) que se diz Præmonstrator da Grande Ordem nos EEUU. (Documento nos arquivos da S.N.Æ.), fidagais inimigos de Marcelo Motta e, atualmente, de Euclydes Lacerda.
Incentivado por seu próprio Instrutor na O.T.O., Euclydes, escreveu uma longa e detalhada carta a Kenneth Grant, o então O.H.O. reconhecido por Marcelo Motta, relatando-lhe os acontecimentos no Brasil, e apresentando-se como o Membro Sênior da O.T.O. e da Grande Ordem no Brasil.
A resposta do inglês o deixou confuso e decepcionado. O O.H.O. não reconhecera seu grau na O.T.O., e nem qualquer autoridade emanada de Marcelo Motta. A carta dizia o seguinte:

Dear Mr. Almeida:
Do what thou wilt shall be the whole of the Law Thank you for your letter and enclosure of April 28. You have approched me at a rather advanced stage Of your transations with the O.T.O. It is only after the satisfactory Fulfilment of the three primary conditions described in the Enclosure Statement that candidates are rendered eligible for Membership, and such claim as you may have to membership Can only then be considered and ratified by Us. If you wish, therefore, to regularize your approched to these matters you will let me know as soon as possible the date on which you commence your Magical Record.
Love is the law, love under will
Yours fraternally,
Kenneth Grant
O.H.O. of O.T.O.
” – (Documento nos arquivos da S.N.Æ.)

Confuso, Euclydes, enviou uma cópia desta carta a seu Instrutor, e colocou em dúvida a autenticidade do cargo do inglês (prestem atenção neste ato mágico de Euclydes. Embora tenha sido “inconsciente” ele carrega grandes significados). Marcelo Motta, em carta datada de 19 de maio de 1973, responde às dúvidas de seu discípulo com uma severa admoestação:

Quaisquer dúvidas ou reservas que eu tenha quanto às solicitações de Mr. Grant não serão nunca para seus ouvidos… Eu reconheci a autoridade de Sr. Grant” (Documento nos arquivos da S.N.Æ.)

A resposta de Marcelo não respondiam as dúvidas de seu pupilo. Pelo contrário. Euclydes não havia feito qualquer menção às solicitações contidas na carta. Magoado, manteve-se em silêncio. Mas as dúvidas aumentaram. Agora também com respeito à seu Instrutor. O que estava acontecendo afinal?
Obedecendo instruções de seu Instrutor, enviou outra carta ao inglês.

Em 04 de agosto de 1973, veio a resposta.

With reference to your letter of July 16, I can say only that there has been some misunderstanding. I did not aske you for a summary of your Magical Record. A Candidate can considered for mambership of the Order only after the successful filfilment of the requiriments specified in the Preminary Statement, a copy of wich I enclosed with my letter of May 9. It is entirely up to you whether or not you fulful these conditions of membership, but cannot be weived and nobody can become officially recognized by the Order until they have been satisfactorily fulfilled” (Documento nos arquivos da S.N.Æ.)

Euclydes não entendia mais nada. Decepcionado, e já com muitas dúvidas, tanto a respeito de Kenneth Grant quanto a Marcelo Motta, e já escaldado pela anterior admoestação, resolveu ficar calado e esperar pelos acontecimentos futuros.
Como dito: O inusitado é produto do inusitado. O que parecia ser simples a princípio tornou-se o pomo de discórdia entre Marcelo Motta e Euclydes, e consequente dissidência e dissolução do grupo. Este foi o caso do registro dos Estatutos da Sociedade Novo Æon.
O ano é 1975. Com falta de dinheiro em caixa não havia como registrar os Estatutos. O registro na íntegra custaria muito acima de nossas economias. A única saída, segundo advogado do grupo, seria optar pelo registro (provisório) de um resumo dos estatutos, que continha 16 páginas datilografadas. Marcelo foi informado sobre a sugestão. Infelizmente esta informação foi dada via telefone e, portanto, não temos como comprova-la.
Tomado de injustificada fúria, o Supervisor Geral da S.N.Æ. (ainda não registrada), desligou o telefone abruptamente. Em 7 de julho de 1975 enviou uma carta totalmente descabida a Euclydes nos seguintes termos:

Já lhe mandei acender um fogacho sob o rabo dos seus correspondentes… Entrementes, quero saber se um resumo dos estatutos foi mandado para o Diário Oficial sem passar previamente pelas minhas mãos. Se assim foi, pode ficar descansado: sua patente está cassada e nosso contato terminado…” (Documento nos arquivos da S.N.Æ.)

Em 09 de julho de 1975 (isto é, dois dias após a carta acima, e sem dar tempo para qualquer tipo de diálogo entre ele e Euclydes, emite uma “carta circular” aos “Diretores da S.N.Æ.” (uma Sociedade ainda não oficialmente registrada e, portanto, inexistente) com as seguintes inverdades, e que não explicava o real motivo de sua decisão:

Um dos ordálios centrais do trabalho iniciático é Obediência Hierárquica, e o Neófito tem que passar por este ordálio e triunfar nele para chegar a Zelator. Frater Z. ainda não foi bem sucedido neste ordálio, o que não é nenhum crime; mas ele tem interpretado mal sua posição e sua autoridade e isto, se bem que não é crime, pode prejudicar gravemente o Meu Trabalho, visto que o nomeei meu representante” (os grifos são nossos). (Documento nos arquivos da S.N.Æ.)

Euclydes caiu das nuvens. O que afinal tinha feito de errado? O que tinha a ver o ordálio de uma Ordem Iniciática, tal como a A∴A∴, com os Estatutos de uma sociedade profana? Mesmo que ele tivesse fracassado no ordálio, não haveria motivo para isto? E não haveria uma nova chance? Como poderiam estas suas falhas (se é que as haviam) as quais, segundo as próprias palavras do Supervisor Geral, não eram crimes, prejudicar o “trabalho” dele? Que trabalho? Por que não falava mais claro? As justificativas da carta revoltou os demais membros.
Euclydes, profundamente entristecido envia uma carta a Marcelo Motta contestando veementemente todos os termos da “circular”. Explica, ou tenta explicar, que a publicação de um resumo dos estatutos fora ventilada apenas como sugestão do advogado e, assim sendo, nenhum resumo fora elaborado ainda, e muito menos mandado a ser publicado em Diário Oficial. Respondendo estas ponderações, Marcelo, remete-lhe uma outra carta datada de 15 de julho de 1975, onde destaca-se o seguinte trecho:

Sua expulsão da Sociedade Novo Æon é agora oficial. Porém, a A∴A∴ não expulsa Aspirantes. A ordem se limita a cortar contato com eles caso desobedeçam as diretivas que recebem em nome da Ordem” (Documento nos arquivos da S.N.Æ.).

Não seria necessário dizer-se que a carta foi à gota d’água.
Imediatamente, o grupo se desmantelou. Alguns permaneceram ao lado de Marcelo; outros se rebelaram contra ele.
Euclydes, devido ao choque, permaneceu sem saber o que fazer… e adoeceu.
Mas, façamos uma rápida análise do conteúdo das cartas de Marcelo Motta. Esta análise torna-se necessária para leitores sem os devidos conhecimentos referentes a certas particularidades iniciáticas.
Primeiro: Marcelo Motta refere-se a um ordálio (prova iniciática) pertencente a A∴A∴ que nada tem a ver com a O.T.O. e, muito menos, com a Sociedade Novo Æon. Segundo: Dirige-se à Frater Z. e não a Frater T., que era, na época, Neófito da Grande Ordem. Como o ordálio refere-se à A∴A∴ nem de longe Frater Z. poderia ser acusado de não vencer tal ordálio, se é que ele existia.
Na Segunda carta: Primeiro: Esta dirigida a Frater T. Segundo: Como acima dito Frater T. era membro da A∴A∴ e, logicamente, jamais poderia ser expulso da Sociedade Novo Æon, simplesmente por que não pertencia àquela Sociedade. Terceiro: é dito que Frater T. fracassara no Ordálio do Zelador. Como poderia ser isto? Somente um Zelador pode ser submetido o ordálio do grau. Não o Neófito. Isto nos leva à conclusão de que Euclydes, ou melhor, Frater T., já houvera atingido o Grau de Zelador, e não do Neófito, como afirmado por Marcelo. Quarto: Mais à frente Marcelo diz que Euclydes está banido da O.T.O. por cinco anos. Mas que O.T.O.? A de Kenneth Grant? De Metzger? Qual?
Lembrem-se os leitores que nem a S.N.Æ. tinha sido registrada, quanto mais a O.T.O. Além disso, como poderia ele se banido da Ordem sem o conhecimento de Kenneth Grant, a quem Marcelo considerava o O.H.O. e, portanto, o único com poder para expulsar, nomear, banir, suspender, etc.?
O conteúdo dessas duas cartas e de outras manifestações, escritas ou não, de Marcelo Motta, as quais agora publicamos, demonstram claramente o início da instabilidade mental começando a se manifestar nele.
Após estes acontecimentos, Marcelo Motta, e Euclydes nunca mais se encontraram.
 
 
Notas
  1. Algumas referências a este Estudante encontram-se em Carta a um Maçom e Thelemic Magick (1987).
  2. Entre estes destacamos Frater T..
  3. A organização de Marcelo Motta é agora conhecida como S.O.T.O. A S.O.T.O., após a morte de Marcelo Motta fragmentou-se em várias outras: Fundação Parzival XIº, H.O.O.R. e Sociedade Ordo Templi Orientis Internacional.
  4. A única maneira de evitar tal perigo, é o Estudante manter o senso de perspectiva, de bom senso, e seguir criteriosamente o currículo de seu grau e do Sistema ao qual se ligou. Isto pode ser traduzido da seguinte maneira: se você ligou-se ao Sistema Thelêmico, não execute práticas de qualquer outro sistema; mesmo que estas lhe pareçam mais eficientes ou atrativas. Não misture alhos com bugalhos. Jamais se julgue perfeito. Haverá algum ponto onde você necessita se fortalecer. Jamais se julgue estabelecido em determinado grau, a não ser que você tenha absoluta certeza disto, através uma série de auto testes.
  5. Que o diga o Sr. Paulo Coelho.
  6. Não é necessário qualquer ritual específico para isto; e nem se retirar para o deserto, basta pronunciar o Juramento com a devida intenção.
  7. Aqui existe um flagrante choque com o Livro da Lei.
  8. O termo “mar ana” não faz sentido, mas não foi possível identificar o termo correto que Euclydes empregou. – Nota do Revisor.
  9. Marcelo Motta morreu aos 53 anos de idade, e sua morte ocorreu em circunstâncias um tanto quanto “misteriosas”. Seu atestado de óbito registra, como causa mortis, enfarto e “doença”. Mas que doença? Ali, nada é dito a respeito. Seu enterro foi providenciado por uma mulher (que julgamos ter sido Claudia Canutto), mas cujo nome não consta nos arquivos policiais. Ninguém mais compareceu ao sepultamento. Contrariando o desejo do falecido, o corpo não foi cremado.
  10. Iniciados saberão, evidentemente, as causas desta aversão.
  11. Marcelo Motta repudiava o cristo católico romano, mas não O Cristo Cósmico.
  12. Não nos lembramos do período. Quando nos mesmos nos tornamos alunos daquele Colégio (1950), Marcelo já terminara o Curso Científico.
  13. Em seu tempo de Colégio Militar, Marcelo Motta, fora orador oficial no Colégio e muito popular entre seus colegas. Todos o admiravam por sua franqueza mesmo ante seus superiores hierárquicos.
  14. Durante anos, nosso biografado tentara entrar em contato com algum membro da famosa “Rosacruz”. E por mais paradoxal ou irônico que possa parecer, veio de sua mãe (uma devotada católica romana) o “elo” entre ele e a ordem que aspirava pertencer. Diz ele em “Chamando os Filhos do Sol”, pag. 80: “Aos dezessete anos de idade, através de minha mãe (ironia para o profano – sabedoria para o iniciado), descobri que existia uma Ordem Rosacruz ligada ao Dr. Krumm-Heller.”.
  15. Sua “família” não aceitava seus pensamentos “heréticos”.
  16. Detalhes desta missão, e como foi realizada, podem ser estudados em “Chamando os Filhos do Sol”.
  17. A Rosicrucian Fraternity in America, originalmente uma ordem de alto grau maçônico, foi fundada, assim é dito, por Paschal Beverly Randolph. Randolph (1815-1875) era filho de um rico americano e uma mulher negra. E por isto teve uma infância terrivelmente atribulada. Na idade madura, resolveu viajar pelo mundo. Em Paris, conheceu Eliphas Levi que influenciou notoriamente os pensamentos de Randolph. Em 1840, Randolph ingressou na Hermética Fraternidade de Luxor; um grupo luterano-rosacruciano que se opunha fortemente à Teosofia e ao Espiritismo. Muito cedo se tornou um dos dirigentes da Ordem, e em 1868 fundou a Fraternidade de Eulis, baseada fortemente no estudo e prática da Magia Sexual, que colocou sob fortes véus simbólicos. Mesmo seus associados pouca penetração tinham do assunto, e é muito significativo o fato de R.Swinburne Clymer, que tornou-se chefe da organização, retirar qualquer forma de magia sexual da ordem, alegando que qualquer forma deste tipo de magia tendia à magia negra. Não será necessário acrescentar que a ordem, a partir daí, decaiu vertiginosamente de sua posição.
  18. No texto original havia “e em – fazeja”, que não fazia sentido. Nesta edição optamos por omitir o texto e adicionar a presente nota de rodapé. – Nota do revisor.
  19. O assunto é do maior interesse dos membros da FRA. O que nos interessa é que neste, e em vários outros encontros com Parzival Krumm-Heller, Marcelo Motta, teve conhecimento da existência da O.T.O., da A?A?, e do Sistema Thelêmico e, claro, de Crowley. Somente agora, ele podia identificar o retrato que existia na FRA e que tanto lhe chamara à atenção, e que vira a reprodução no livro “The Great Beast”. Aquele era o Mestre Therion, líder de todas as Ordens Thelêmicas.
  20. Algum tempo depois destes acontecimentos, Parsival deixou a Alemanha com esposa e filho, desaparecendo completamente, como fazem alguns iniciados. Somente ouvimos notícias dele recentemente.
  21. Germer morreu em virtude de um câncer nos testículos. Segundo relato da Sra. Germer, o sofrimento de seu marido foi horrível.
  22. Nesta época, Marcelo Motta, chegou às portas da completa miséria. Gastara até o último centavo na impressão de “Liber Aleph” e “Chamando os Flhos do Sol”. Numa certa ocasião, Marcelo Motta, pela primeira vez lamentou-se de sua situação. Segundo suas próprias palavras, herdara uma pequena fortuna após a morte de sua mãe, mas grande parte desta herança lhe fora roubada por seus parentes.
  23. Ainda hoje a Ordem de Thelema permanece inteiramente desconhecida para muitos “Thelemitas, mesmo para aqueles “iniciados” nas outras Ordens”. A causa disto é a superficialidade de seus “conhecimentos” quanto ao Sistema a que pertencem. Com uma margem muito pequena de erro, posso afirmar só haver um Iniciado naquela Ordem no Brasil, com exceção, é claro, de Marcelo Motta.
  24. Devo lembrar aos leitores que em 1964 o Brasil caiu numa ditadura militar, que sob o pretexto de combater o Comunismo, combateu e perseguiu a tudo que comungava com liberdade política. E neste tipo de “inquisição política” Thelema não foi vista com bons olhos, muito embora o Sistema fosse totalmente contrário ao Comunismo.